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2.1.26

A Duas Voltas

 



Os autores dos cinco episódios, Paulo Pena e Ivan Nunes, não me deixavam dúvidas quanto à qualidade no que era anunciado. E esta confirmou-se.

São cinco episódios, na RTP Notícias, sempre às 22h, de 1 a 5 de Janeiro. Passa hoje o segundo (e o pimeiro já está na RTP Play).

7.2.24

Açores e o cordão sanitário intermitente

 


«Apesar da evidente vitória da coligação de direita, mudou menos nos Açores do que parece. Com exceção do Bloco e do PAN, todos os partidos que elegeram deputados aumentaram a sua votação. Não parece ter havido grandes transferências. Em percentagem, a maioria PSD-CDS-PPM teve mais meio ponto percentual, o mesmo número de deputados e mais cinco mil votos. O PS teve menos três pontos percentuais, menos dois deputados e mais 800 votos. E o Chega quase duplicou a sua percentagem, mais do que duplicou a sua representação parlamentar e teve mais cinco mil votos. Ou seja, Chega e PSD-CDS-PPM parecem ter ido buscar votos à abstenção, que diminuiu. Só a análise mais fina pode tirar conclusões das motivações dos novos eleitores.

PSD-CDS-PPM ficaram oficialmente em primeiro (somadas as votações dos três, nas últimas, já tinham ficado). Isto permite-lhes apresentarem-se como preferidos para governar, ao contrário do que aconteceu em 2020, em que só se aliando depois ficaram à frente dos socialistas. Quanto às necessidades de alianças, a dependência em relação ao Chega até aumentou, porque este, sozinho, consegue garantir uma maioria, coisa que não acontecia em 2020, em que a IL também era necessária. E mudou outra coisa: o mesmo líder que se uniu ao Chega para impedir que o partido mais votado governasse finge esperar que esse partido viabilize o seu governo, agora que teve mais votos, para não ter de recorrer ao mesmo Chega a que voluntariamente recorreu, para governar sem vencer, em 2020.

Deixo para outro texto as razões porque me oponho, aqui e nos Açores, a um bloco central informal que entregue a oposição ao Chega e os votos do PS à governação do PSD, e vice-versa. E não trato disso aqui porque o descaramento do que se está a dizer sobre os Açores (que o desequilíbrio da presença mediática da direita faz que passe como normal) não merece um debate tão apurado. É a pessoa que rompeu o cordão sanitário com a extrema-direita para chegar ao poder que está a pedir que a oposição se anule para ele passar a dispensar a extrema-direita, quando já não precisa dela. Se o PSD dos Açores quisesse romper essa dependência não teria como candidato o homem que a criou, depois de perder as eleições.

Defendi a geringonça e defendo que governe quem constrói maiorias. Mas defender isto tem o preço da coerência. Não serve quando se fica em segundo e deixa de servir quando se fica em primeiro, achando que quem lidera o bloco oposto tem o dever de se abster de ser oposição. Não é à vontade do freguês. Eu acho que o PSD não tem qualquer dever de viabilizar um governo do PS, mesmo que Pedro Nuno Santos fique em primeiro. Nisso, Bolieiro estava de acordo comigo, mas só enquanto lhe deu jeito.

Imagine-se que, em 2019, depois de ter ficado em segundo nas eleições anteriores e mesmo assim ter governado com em entendimento à esquerda, António Costa exigia que o PSD viabilizasse o seu novo governo porque agora estava em primeiro. Imagine-se que o PS não tinha conseguido maioria absoluta em 2022 e, depois de BE e PCP o terem feito cair, vinha dizer que, tendo existido uma coligação negativa entre BE, PCP e a direita, o PSD tinha o dever de viabilizar um governo seu e não, como aconteceu, o BE e PCP. O PSD diria, com toda a razão, que Costa tinha escolhido os seus aliados quando ficou em segundo e não tinha qualquer autoridade para fazer exigências. É o que se está a passar nos Açores. Que autoridade tem para pedir apoio do PS para impedir a influência da extrema-direita a mesma pessoa que se aliou ao Chega para impedir que o PS governasse? Não será descaramento a mais?

José Manuel Bolieiro não se pode aliar ao Chega quando fica em segundo, para conquistar o poder, e exigir ao PS que o livre do Chega quando fica em primeiro, porque sabe que agora será chamado a governar. Se queria que o PS viabilizasse o seu governo agora teria de ter viabilizado um governo do PS em 2020. Foi Bolieiro que decidiu que o PS era oposição quando ficou em primeiro. Oposição tem de ser, por maioria de razão, quando fica em segundo.

O que o PSD tem de fazer é apresentar o seu governo e deixar que o Chega decidir, sem qualquer negociação ou acordo, se quer mostrar ao país que a sua função é impedir que a direita governe, mesmo quando o PSD fica em primeiro. O teste à fanfarronice do Chega é o teste à coragem e determinação do PSD. Mas, quando até já percebeu que o Chega vai viabilizar o governo de Bolieiro, tenta-se aproveitar a oportunidade, reduzindo a pressão sobre o Chega da e transferindo-a para o PS, por cálculo político na campanha nacional. O PSD limita-se a usar o Chega para entalar o PS. É a instrumentalização do Chega que várias vezes critiquei em Costa e Santos Silva.

Se alguma transposição se pode fazer do que se passa nos Açores para o país, é esta: se o PS ficar em primeiro o PSD não viabiliza o seu governo e alia-se ao Chega, se o PSD fica em primeiro o PS está obrigado a viabilizar um governo do PSD para o salvar do Chega com quem, por acaso, esteve aliado durante três anos, nunca se comprometendo a não repetir se voltasse a ficar em segundo. Quando perde, o PSD usa o Chega para impedir que o PS governe, quando ganha, usa-o para impedir que o PS faça oposição. Quem transformou o Chega num partido relevante para o poder foi Bolieiro. Não tem qualquer problema com as ideias do Chega. Só prefere governar anulando a oposição, levantando uma espécie de cordão sanitário intermitente.»

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3.2.24

Um país em forma de assim não

 


Hoje é dia de reflexão e não se pode falar de qualquer tipo de eleições em todo o território nacional, porque amanhã se vota para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores – diz a lei e a CNE recorda que deve ser cumprida. Há quem não esteja a obedecer e faz bem.

Será que quem de direito nunca reparou que isto é uma patetice? E, já agora, que acabe com esta farsa do Dia de Reflexão em todas as circunstâncias?
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27.9.22

O voto, essa arma silenciosa

 


«Nós, os eleitores, os que escolhemos votar, quando riscamos com a caneta um quadrado no boletim de voto, fazemo-lo por várias razões. Por ideologia, por afinidade, por instinto, porque queremos estar do lado quem ganha. Mas também votámos com a carteira, com medo e, às vezes por vingança, irritação, fastio ou revolta.

Não há uma única e simples explicação para o porquê de cada voto, em cada momento, sobretudo naquilo a que se convencionou chamar o "eleitorado flutuante" que é, no fundo, quem decide cada eleição.

Na suprema liberdade e solidão da cabine de voto, cada um de nós, e das nossas circunstâncias, faz uma escolha. Individual. No fim do dia, quando se fazem as contas, a maioria ganha. E nem sempre ganha aquele em quem votámos. A democracia é "o pior de todos os sistemas, à exceção de todos os outros". A cada pessoa corresponde um voto, a soberania é do povo e o povo "tem sempre" razão nas escolhas que faz. Mas, mais do que isso, importa perceber o porquê de determinadas opções.

Mais uma vez, a "explicação" não é simples, linear e única. Da Polónia, da Hungria, da Suécia e, agora, de Itália, chegam sinais semelhantes. Um padrão. Estará a maioria do povo destes países, toda enganada, iludida ou errada? Ou, pelo contrário, o voto individual e livre dentro da cabine é uma chamada de atenção, um grito de revolta, uma vontade de vingança, um gesto de indiferença ou um desejo de esperança?

Talvez seja tudo isso, em doses diferentes.

O fim da mediação clássica, a ligação direta entre eleitores e eleitos, o individualismo no lugar da preocupação com o coletivo, o poder facilitista e acrítico das redes sociais, a impreparação dos políticos, o desfasamento entre a realidade do dia a dia e os discursos eloquentes, as promessas que não se cumprem, a perda do poder de compra, os salários estagnados, a sensação de impunidade, a perda de confiança nos governantes e a ideia de que "eles são todos iguais" são a ignição para populismos, radicalismos e extremismos.

"Se não construirmos a democracia todos os dias, estamos a destruir a democracia todos os dias". A frase, de Marcelo Rebelo de Sousa, sexta-feira, no discurso dos 200 Anos da Constituição de 1822, é um aviso sério, mas sereno, ao que pode estar para vir. Uma classe política que não dá respostas aos anseios da população, que governa a pensar em eleições e não em gerações, que se limita a "gerir" o país em vez de o reformar, fazer crescer e avançar, leva, inevitavelmente ao desânimo, a descrença e ao encolher de ombros.

E, depois, temos a União Europeia. Nas duas faces da mesma moeda, há o lado "bom", de sentimento de proteção, de cooperação, de solidariedade e de financiamento. E, do outro lado, o distanciamento dos cidadãos, a burocracia, os interesses dos grandes países em detrimento dos pequenos, a simplificação de normas e leis que, muitas vezes, não levam em conta a especificidade de cada país e, claro, a primazia da economia sobre a política. A União começou por ser económica e é nessas águas que melhor se move. "É a economia, estúpido." Mas se a economia não for social, se não tiver impacto real na vida dos cidadãos, se os salários não crescerem, se as condições de vida não melhorarem, se os cuidados de saúde forem lentos, se a educação estiver desajustada, a justiça lenta e a segurança social pobre... no momento do voto, na tal cabine de solidão e liberdade, os cidadãos vão escutar quem lhes deu esperança. Ou quem lhes disse para se revoltarem.»

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29.1.22

As primeiras noites eleitorais em democracia

 


De em vez quando retomo um texto que escrevi há uns anos sobre o que foram as primeiras noites eleitorais, sobretudo a primeira.

Nem a panóplia tecnológica com que tudo hoje acontece consegue fazer-me esquecer os bastidores do que então se passava. Por motivos profissionais, estive envolvida no apuramento e na divulgação dos resultados das votações e é certamente difícil para as novas gerações imaginarem a dificuldade, o pioneirismo e o stress com que tudo acontecia.

Depois da contagem dos votos, os resultados eram introduzidos manualmente duas vezes: primeiro, descentralizadamente (nas capitais de distrito), em aparelhos de telex, que os faziam chegar a Lisboa. Eram depois reintroduzidos numas outras máquinas que os transmitiam para o computador central do Ministério da Justiça. Tudo isto demorava horas, como é óbvio!

Nem entro na descrição da complexidade que era programar antecipadamente, de raiz, sem software «pré-fabricado», todas as validações e cálculos necessários para o apuramento. Na noite das eleições, todos os dados eram processados no centro de informática do Ministério da Justiça, de onde os resultados iam sendo transmitidos, exclusivamente, para a RTP e para a Gulbenkian, onde se concentravam VIP’s e jornalistas. Aí eram visionados em sinistros terminais a verde e verde (ainda nem existiam PC’s…) e depois, pelo menos nos primeiros anos, passava-se de novo ao tratamento manual ou à pura oralidade.

Nem sei quantas directas terei feito nestes três locais, mas era na RTP que se viviam as maiores emoções. Parecerá hoje impossível, mas a emissão da noite eleitoral de 25 de Abril de 1975, coordenada por Carlos Cruz, teve início às 19 horas e terminou… às 24 do dia seguinte – durou trinta horas.

Não sei exactamente em que ano, Joaquim Letria dirigiu as operações, a partir do Estúdio 2 no Lumiar. Tinha atrás dele, preso a uma cortina, um gráfico de cartão, onde ia deslocando manualmente um ponteiro, à medida que os resultados «iam caindo». O drama que vivi, durante toda essa noite, foi ser obrigada a passar dezenas de vezes por trás da dita cortina, sem tropeçar num colossal emaranhado de cabos espalhados pelo chão, nem tocar na cortina, o que nem sempre era possível. Quando isso acontecia, o gráfico abanava e… os espectadores viam em casa!

Poderia contar dezenas de histórias, mas resumo só mais uma. Por ocasião de umas eleições autárquicas, talvez as primeiras, no dia seguinte à tarde ainda faltavam os votos de uma freguesia do Norte. Localmente, ninguém conseguia encontrar o presidente da respectiva mesa, mas o inesperado veio a acontecer: ele acabou por chegar, em pessoa, ao Ministério da Justiça em Lisboa. Trazia a urna ainda fechada e tinha deixado à porta… o cavalo!

(Na foto: Carlos Cruz, RTP, 25 de Abril de 1975)
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6.10.19

As primeiras noites eleitorais da democracia



Já publiquei este texto há uns anos, mas apetece-me recordar hoje o que foram as primeiras noites eleitorais, sobretudo a primeira, quando ainda não se elencavam «pais» da democracia e eram muitos os considerados «fundadores» da mesma.

Nem a panóplia tecnológica com que tudo hoje acontece consegue fazer-me esquecer os bastidores do que então se passava. Por motivos profissionais, estive envolvida no apuramento e na divulgação dos resultados das votações e é certamente difícil para as novas gerações imaginarem a dificuldade, o pioneirismo e o stress com que tudo acontecia.

Depois da contagem dos votos, os resultados eram introduzidos manualmente duas vezes: primeiro, descentralizadamente (nas capitais de distrito), em aparelhos de telex, que os faziam chegar a Lisboa. Eram depois reintroduzidos numas outras máquinas que os transmitiam para o computador central do Ministério da Justiça. Tudo isto demorava horas, como é óbvio!

Nem entro na descrição da complexidade que era programar antecipadamente, de raiz, sem software «pré-fabricado», todas as validações e cálculos necessários para o apuramento. Na noite das eleições, todos os dados eram processados no centro de informática do Ministério da Justiça, de onde os resultados iam sendo transmitidos, exclusivamente, para a RTP e para a Gulbenkian, onde se concentravam VIP’s e jornalistas. Aí eram visionados em sinistros terminais a verde e verde (ainda nem existiam PC’s…) e depois, pelo menos nos primeiros anos, passava-se de novo ao tratamento manual ou à pura oralidade.

Nem sei quantas directas terei feito nestes três locais, mas era na RTP que se viviam as maiores emoções. Parecerá hoje impossível, mas a emissão da noite eleitoral de 25 de Abril de 1975, coordenada por Carlos Cruz, teve início às 19 horas e terminou… às 24 do dia seguinte – durou trinta horas.

Não sei exactamente em que ano, Joaquim Letria dirigiu as operações, a partir do Estúdio 2 no Lumiar. Tinha atrás dele, preso a uma cortina, um gráfico de cartão, onde ia deslocando manualmente um ponteiro, à medida que os resultados «iam caindo». O drama que vivi, durante toda essa noite, foi ser obrigada a passar dezenas de vezes por trás da dita cortina, sem tropeçar num colossal emaranhado de cabos espalhados pelo chão, nem tocar na cortina, o que nem sempre era possível. Quando isso acontecia, o gráfico abanava e… os espectadores viam em casa!

Poderia contar dezenas de histórias, mas resumo só mais uma. Por ocasião de umas eleições autárquicas, talvez as primeiras, no dia seguinte à tarde ainda faltavam os votos de uma freguesia do Norte. Localmente, ninguém conseguia encontrar o presidente da respectiva mesa, mas o inesperado veio a acontecer: ele acabou por chegar, em pessoa, ao Ministério da Justiça em Lisboa. Trazia a urna ainda fechada e tinha deixado à porta… o cavalo!

(Na foto: Carlos Cruz, RTP, 25 de Abril de 1975)
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11.1.14

Abstencionismo e resignação



Matéria para reflexão:

«Tudo indica que a diminuição da participação eleitoral nas democracias capitalistas não se pode explicar com a satisfação, mas sim com a resignação: os perdedores da viragem neoliberal, sobretudo, já mão veem o que possam esperar de uma mudança de partido no governo. A política TINA da «globalização» – There Is No Alternative – há muito que bateu no fundo da sociedade: as eleições deixaram de fazer diferença, sobretudo aos olhos daqueles que necessitariam de diferenças políticas. Quanto menos esperança estes depositam em eleições, tanto menos perturbações resultantes de intervenção política têm de recear aqueles que se podem dar ao luxo de depositar a sua esperança nos mercados. A resignação política das camadas desfavorecidas protege o capitalismo contra a democracia e estabiliza a viragem neoliberal que lhe dá origem.» (Realce meu.)

Wolfgang Streeck, Tempo comprado. A crise adiada do capitalismo democrático, Actual, 2013, p.97.
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1.9.13

Cenários para mais tarde conferir



Sucedem-se os discursos de rentrée mais ou menos enfadonhos, sem alma nem novidade, a campanha para as autárquicas está quase à porta, mas são as próximas legislativas que verdadeiramente importam e multiplicam-se as apostas em possíveis alianças pré ou pós eleitorais.

No DN de hoje, Bagão Félix puxa a brasa à sua dama e defende um cenário PS + CDS, com argumentos um pouco retorcidos mas tão válidos como outros quaisquer: sendo mais nítida a diferença ideológica entre os dois partidos «a dialética da coligação pode ser mais positiva». Porque não? Seria um bloco central como um outro qualquer. Sempre, sempre, dentro do arco da governação.


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28.8.13

Maiorias absolutas? Não muito obrigada



No Público de hoje, um texto (sem link) de Luís Reis Torgal a propósito no corte das pensões, que o governo prepara. Mas o que me realço é a introdução – que assino por baixo da primeira à última palavra.

«Recordo-me de uma conversa que tive uns dias antes das eleições que deram a maioria absoluta ao PS com um alto funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian, onde fui conselheiro do Serviço de Ciência. Afirmei, perante a sua admiração, que era contra maiorias absolutas, fossem de que partido fossem. Uma maioria absoluta tende sempre para a afirmação de um Estado autoritário, senão totalitário. De resto, em alguns casos, foi através de eleições — é verdade que precedidas e acompanhadas de revoluções, com a demagogia e a violência que se seguiram às crises políticas, económicas e financeiras — que surgiram os fascismos nos anos 20 e 30. Não diremos que estamos à beira de um neofascismo europeu — a história, felizmente, nunca se repete, pois se não é uma linha recta, também não é um círculo, sendo a sua imagem de progresso, provavelmente, algo como uma espiral —, mas enfrentamos uma evidente fase de autoritarismo, correspondente a mais um malabarismo do capitalismo que sempre procura sobreviver e reafirmar-se. Nenhuma crítica magoa a consciência de quem governa (se é que existe crítica, que supõe a ideia de transgressão, e se é que existe consciência).»

(Com dedicatória à ideia fixa do PS e do seu insigne secretário-geral.)
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11.5.13

Momento cruel numa tarde de Sábado



Não é só na cantiga que o povo mais ordena, mesmo quando ela é gritada em tempos de raiva e de resistência. No sistema em que vivemos (e, por enquanto, não parece vir outro a caminho), ordena também quando vota, mal ou bem, e resta-lhe assumir a responsabilidade do que faz.

Pensei nisto ao ler hoje dois parágrafos no Jornal de Negócios:
«Em democracia o povo não tem desculpa. O governo é determinado pela vontade popular. Quem escolhe mal tem de assumir as suas responsabilidades e aguentar até à próxima oportunidade. E isto vale tanto para o poder executivo, quanto para as autarquias ou a Presidência da República. A maioria que votou Cavaco não pode agora queixar-se de que ele é tendencioso e até perverso. Sempre o foi. Esse ao menos nunca enganou ninguém.
Existe assim uma espécie de infantilismo popular que leva as pessoas a sistematicamente elegerem aqueles de que logo a seguir se queixam. Fazem a asneira e depois põem-se a chorar. Falta maturidade democrática, ponderação, convicções. O povo não é ludibriado por ninguém a não ser por si próprio, escolhendo de forma irrefletida, ao sabor do momento.»
E se a legitimidade democrática não se torna indiscutível só por ter sido atribuída em eleições, é também verdade que o voto funciona como veto para que a dita legitimidade não seja atribuída a outrem sem intervenções especiais. Podemos e talvez devamos pedi-las e uma delas concretiza-se no velho grito: «eleições já».

Mas não tenhamos grandes ilusões porque já se sabe que ninguém muda de povo. E mudar o povo é uma tarefa muito mais complicada do que fazer exame do 4º ano. 
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8.5.13

Cuidado com os «grisalhos»!



O Pedro Magalhães elaborou um interessante gráfico sobre o peso dos pensionistas nos eleitorados dos partidos com representação parlamentar, nas quatro últimas Eleições Legislativas.

Saltam à vista – e ele sublinha – dois factos: 
  • É «natural que o peso dos pensionistas venha aumentando no eleitorado de todos os partidos, seja por razões demográficas seja por diminuição da participação dos mais jovens»;
  • O Bloco não é mesmo o partido dos pensionistas, bem ao contrário do que se passa com o seu parceiro na esquerda da esquerda, a CDU.


Sabendo-se, como PM explicita num outro post, que «os 3 milhões de pensionistas correspondem a cerca de um terço da totalidade do eleitorado», com tendência óbvia para crescer, e que «a percentagem de abstenção entre os pensionistas é sempre inferior à média», é bom que os partidos se cuidem e tratem bem os tais «grisalhos» de que toda a gente agora fala, ou terão cada vez maiores surpresas...

E por falar em grisalhos, chega amanhã às banca o primeiro número de um novo quinzenário – Jornal Sénior – não só mas especialmente orientado para os maiores de 60 e dirigido por Mário Zambujal que explicou hoje a iniciativa na TSF.

É caso para se dizer que não há fome que não dê fartura!

P.S: - Ler também, de Pedro Magalhães: O partido dos pensionistas, sobre o comportamento do eleitorado do CDS e a estranheza dos seus resultados em 2011. 
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20.9.12

Sondagem, troikistas e anti-troikistas



Segundo uma sondagem da Universidade Católica para o DN, JN, Antena 1 e RTP, ontem divulgada, as percentagens de votos a obter pelos diferentes partidos com assento na AR , se se realizassem agora eleições legislativas, seriam as indicadas na figura. 

Algumas comparações:

Partidos pró-troika (PSD + PS + CDS)
  • Legislativas 2011 – 79% 
  • Sondagem actual –  62% 
Partidos anti-troika (CDU + BE)
  • Legislativas 2011 – 18% 
  • Sondagem actual –  24% 


LEITURA OPTIMISTA (Se PS romper com troika antes das próximas eleições):

Partidos pró-troika (PSD + CDS) 
  • Legislativas 2011 – 51% 
  • Sondagem actual  – 31% 
Partidos anti-troika (PS + CDU + BE)
  • Legislativas 2011 – 46% 
  • Sondagem actual  – 55% 


Duas interrogações:

Deste possível conjunto anti-troika, o PS é o partido que menos sobe, tendo em conta os resultados das legislativas e a sondagem: de 28 para 31%. Subiria mais se já tivesse largado o MoU? 

A subida de 4 para 11% de votos Brancos e Nulos é muito preocupante. Desceria se o PS já tivesse largado o MoU? 
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5.6.12

Sondagem: a passo de caracol, mas…



Há várias leituras possíveis para os resultados, agora conhecidos, de uma sondagem efectuada pela Universidade Católica sobre intenções de voto em eleições legislativas.

Também tenho direito à minha:

>>> A Troika dispõe de 75% dos deputados na AR (mas perdeu 7% desde Setembro de 2011)
>>> A oposição à Troika dispõe apenas de 18% (mas ganhou 5%) 

Avanço no bom sentido, portanto. Embora muito, muito, a passo de caracol…

(Fonte)
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13.10.09

No rescaldo de Domingo
















Não era minha intenção escrever agora sobre a derrota do Bloco de Esquerda nas eleições autárquicas, mas não param os comentários e os mails em que me pedem (estou a ser meiga…) que o faça «já», vá lá saber-se porquê. Assim seja.

Mesmo excluindo o caso especial de Lisboa, fiquei admirada com a baixíssima percentagem de votos no Bloco? Gostaria que este tivesse um vereador na CML? Certamente que sim e não fui a única. Já muitos, bem mais qualificados do que eu, apontaram causas, deram conselhos, adivinharam futuros. Não vou por aí.

É-me totalmente indiferente que, dentro de quatro anos, o Bloco tenha vereadores em mais trinta Câmaras ou presidentes de Assembleias Municipais em Alguidares de Baixo e no Pulo do Lobo. Também pouco me interessa saber se Luís Fazenda deve tentar ser um pouco menos leninista ou Louçã mais sorridente.

Aquilo que espero, não agora mas desde há alguns anos, é que uma força de esquerda, menos marcada do que outras por passados absolutamente louváveis mas inevitavelmente pesados, possa servir de mola para que algo de novo nasça - como resultado de fracturas várias, certamente, mas com um vigor suficientemente significativo para romper com este anátema de vivermos num país que vota à esquerda e é governado (quase sempre) à direita.

O sucesso do Bloco nas europeias e nas legislativas fez-me crer que tudo isto poderia acontecer mais depressa do que expectável? Com certeza. Mas não é a derrota nas autárquicas, grande e indesmentível, que é neste momento o mais grave, mas sim o seu aproveitamento em mais do que prováveis guerrilhas, umas internas outras atiçadas do exterior, que poderão ajudar a matar quase à nascença esforços positivos e louváveis, e que poderão acabar por comprometer o que parecia possível.

Se isso vier a acontecer, será mais uma oportunidade perdida e é lamentável. Mas outras virão. Retomo um dos meus lemas preferidos: nada leva a crer que o mundo acabe nos tempos que aí vêm.


P.S. – Exprimi-me mal no penúltimo parágrafo e recebi reacções por mail. Não pretendo de modo algum dizer que o Bloco não deva discutir internamente o que se passou em toda esta fase eleitoral – claro que sim e só se os seus dirigentes fossem inconscientes é que não o fariam. Espero apenas que essas discussões não paralisem tudo o resto.

11.10.09

Será que para a próxima terei de votar em Freixo de espada à Cinta?
















Há milhares de eleitores (ninguém sabe quantos…), portadores de cartão de cidadão, que vão hoje votar numa freguesia que não é a sua, por erro da responsabilidade da Direcção geral da Administração Interna.

Três observações:

1 – Este facto tem implicações directas nos resultados das autárquicas, já que se vota também para a Junta de Freguesia.

2 – Aparentemente, o erro deve-se ao facto de a atribuição do local de voto ter sido feita tendo em conta o código postal, e não o nome da freguesia, e à crua realidade de haver muitas freguesias que partilham o mesmo código postal. Quem programou a nova aplicação desconhecia certamente este facto mas, também, que existe uma possibilidade chamada «pesquisa alfabética» que devia ter sido obrigatoriamente utilizada, no mínimo, na fase de testes de validação e consolidação dos dados (se é que alguém ainda sabe o que isto significa) – há quarenta anos ela era muito complexa, mas foi engenhosamente aplicada desde a emissão dos primeiros Bilhetes de Identidade em computador.

3 – Certamente que o erro foi detectado, pelo menos, nas últimas eleições europeias, altura em que foram utilizados os novos cadernos eleitorais. Em mais de quatro meses, não foi possível corrigir a falha e emitir novas listagens? É uma vergonha.

(Fonte)

10.10.09

Outras maratonas eleitorais












Vem aí mais uma noite eleitoral, mas nem a panóplia tecnológica com que tudo se passa hoje me faz esquecer os bastidores das eleições na década de 70. Por motivos profissionais, estive envolvida no apuramento dos resultados das votações, e respectiva divulgação, e é certamente difícil para as novas gerações imaginarem, sequer, a dificuldade, o pioneirismo e o stress com que tudo se passava.

Para começar, depois da contagem dos votos, os resultados eram introduzidos manualmente duas vezes: primeiro, descentralizadamente (julgo que nas capitais de distrito), em aparelhos de telex que os enviavam para Lisboa; depois, numas outras máquinas que os transmitiam para o computador central do Ministério da Justiça – tudo isto demorava horas, sobretudo quando se tratava de eleições autárquicas onde o número de dados era muito mais elevado.

Nem entro na descrição da complexidade que era programar antecipadamente, de raiz, sem software «pré-fabricado», todas as validações e cálculos necessários para o apuramento, e passo para a noite eleitoral propriamente dita. Tudo se processava no centro de informática do Ministério da Justiça, de onde os resultados eram transmitidos, unicamente, para a RTP e para a Gulbenkian (onde se concentravam VIP’s e jornalistas). Aí eram visionados em sinistros terminais a verde e verde (recorde-se que ainda não tínhamos PC’s…) – depois, pelo menos nos primeiros anos, passava-se de novo ao manual ou à pura oralidade.

Nem sei quantas directas terei feito nestes três locais, mas era na RTP que se viviam as maiores emoções. Parecerá hoje impossível, mas a emissão da noite eleitoral de 25 de Abril de 1975, coordenada por Carlos Cruz, teve início às 19 horas e terminou… às 24 do dia seguinte – durou trinta horas. Não sei exactamente em que ano, Joaquim Letria dirigiu as operações, a partir do Estúdio 2 no Lumiar. Tinha atrás dele, preso a uma cortina, um gráfico de cartão, onde ia deslocando manualmente um ponteiro. O «drama» que vivi, durante toda a noite, foi passar dezenas de vezes por trás da dita cortina sem tropeçar num colossal emaranhado de cabos espalhados pelo chão nem tocar na cortina, o que nem sempre era possível – quando isso acontecia, o gráfico abanava e os espectadores viam em casa…

Poderia contar dezenas de histórias, mas resumo só mais uma. Por ocasião de umas eleições autárquicas, talvez as primeiras, no dia seguinte à tarde ainda faltavam os votos de uma freguesia do Norte. Localmente, ninguém conseguia encontrar o presidente da respectiva mesa, mas o inesperado aconteceu: ele acabou por chegar, em pessoa, ao Ministério da Justiça em Lisboa. Trazia a urna ainda fechada e tinha deixado à porta… o cavalo!

Factos como este são hoje puramente anedóticos, mas podem ser úteis para nos apercebermos de que o início desta etapa da nossa história democrática ainda está «à vista» e que trinta e cinco são, afinal, muito poucos anos.

Santana Lopes e os guerreiros de Xian














Passei parte da campanha eleitoral para as legislativas de 2005 em passeio pela China.

Quase no fim da viagem, cheguei a Xian à noite, já bem tarde. Com a ameaça de poucas horas disponíveis para o sono, não liguei a televisão nem vi que a RTP Internacional figurava na ementa dos canais disponíveis.

À hora marcada para o despertar, a televisão estava programada para acender automaticamente e, por uma sofisticada gentileza tecnológica, sintonizada num canal do país de cada hóspede. Foi assim que acordei com Santana Lopes aos gritos, numa Grande Entrevista de Judite de Sousa, plasmado num enorme ecrã mesmo em frente da minha cama. Garanto que foi uma das experiências mais insólitas das minhas digressões de viajante e passaram-se alguns segundos até perceber que estava mesmo acordada, e não em pleno pesadelo, a milhares e milhares de quilómetros!

Daí a uma ou duas horas, enquanto me passeava entre estátuas de cavalos e de milhares de guerreiros, PSL não me saía da cabeça: imaginava-o a cavalo, de espada em riste, pronto a atacar a desgraçada Judite.

Alguns dias mais tarde cheguei a casa, nem sei quantas horas depois de sair de Pequim, e liguei a televisão a tempo de ver, em directo, cenas da campanha eleitoral em curso. Numa delas, perseguia-me o protagonista do meu despertador chinês. Foi então que percebi que tudo estava ligado.

9.10.09

Que sossego!


Maiorias absolutas, não muito obrigada











Já estão na rua todas as sondagens relativas às votações para a CML nas eleições do próximo Domingo. Todas apontam para a vitória do PS e parece assim afastada a ameaça de termos de novo Santana Lopes à frente da autarquia – o que é uma excelente notícia não só para Lisboa como para a nossa sanidade mental.

Estará apenas em dúvida, aparentemente, se António Costa terá, ou não, a maioria absoluta. Por mim desejo que não tenha, o que estará longe de surpreender quem frequente habitualmente este blogue. No caso vertente, para uma gestão «à esquerda», tão democrática e tão transparente quanto possível, e menos dependente das políticas do governo central, considero não só benéfico como indispensável que a acção dos vereadores do PS seja «complementada» pela presença de Luís Fazenda e de Ruben de Carvalho - nem quero imaginar o que poderia ser uma vereação apenas bicromática.

Assim sendo, e como já terá ficado claro, o meu voto não irá para António Costa mas sim para o Bloco. Adianto a resposta a um argumento inevitável que sempre, mas sempre, faz renascer o fantasma do voto útil: se todos os eleitores «de esquerda» pensassem como eu, Pedro Santana Lopes seria eleito. Pois, mas não pensam…