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7.7.19

Como eles se divertem



«A 15 de maio, seis políticos desconhecidos de quase todos os europeus confrontaram-se num debate. Nico Cué, do Partido da Esquerda Europeia, Ska Keller, do Partido Verde Europeu, Jan Zahradil, da Aliança dos Conservadores e Reformistas da Europa, Margrethe Vestager, da Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa, Manfred Weber, do Partido Popular Europeu, e Frans Timmermans, do Partido Socialista Europeu. Todos eles eram candidatos a presidente da Comissão Europeia e aquele debate servia para decidirmos o nosso voto. Três dados importantes: nem os seus partidos são realmente partidos, nem eles eram realmente candidatos, nem o nosso voto tinha alguma coisa a ver com o assunto. Esta é a beleza da democracia europeia: nada é o que realmente diz ser porque, bem vistas as coisas, nem a democracia europeia é realmente democrática nem é realmente europeia. O fascínio deste jogo que entusiasma algumas elites políticas e mediáticas é fazer as coisas sem nunca realmente o serem. Por saber que se disser que não o são perde a sua legitimidade e por saber que se o forem perde a sua exequibilidade.

Quem venceu o debate? Não sei, porque, descrente me confesso, não o vi. Mas sei quem ganhou a eleição: Ursula von der Leyen, que nem sequer lá foi. Porque o debate nem chegou a ser uma charada para enganar papalvos. Tudo isto é, como eram as democracias parlamentares do século XIX, dirigido a um pequeno grupo de aristocratas e burocratas que faz da política o seu divertimento ou função. Ursula von der Leyen foi escolhida pela mesma razão porque foram escolhidos Juncker e Barroso: faltarem-lhe todas as qualidades para ser líder. Só assim os que a escolheram podem continuar a dirigir este teatro de sombras. Nele, todos brincam à democracia e, no fim, quando acaba a encenação, o Presidente francês e a chanceler alemã decidem. Esses, justiça lhes seja feita, não fingem nada. São os únicos verdadeiros democratas nesta história: respondem à vontade dos seus eleitores. Não lhes chamamos nacionalistas porque eles precisam da União como extensão do poder nacional. São mais ambiciosos do que Orbán e Salvini, que apenas lhes condicionam os passos. Neste caso, até condicionaram bastante.

António Costa, que durante a campanha andou a brincar às alianças políticas, fingindo que as famílias ideológicas se sobrepunham ao jogo entre potências, quase ocupou um cargo europeu que recusou e quase conseguiu eleger um socialista para liderar a Comissão. E deixou um aviso: a Alemanha e a França não devem subavaliar a importância dos deputados. Repare-se que não falou dos eleitores que elegeram aqueles deputados. Para esses, Von der Leyen é tão legítima como Timmermans, Vestager ou Weber. São apenas nomes. Ninguém fora de Bruxelas se revoltará com a troca. No fim, temos duas consolações. A primeira é ver Christine Lagarde passar do FMI para o BCE. Sabemos que mostrou, depois de esmagar países em crise com doses cavalares de austeridade e juros de assalto, sincero arrependimento. O arrependimento é importante em qualquer religião e o europeísmo não foge à regra. E Lagarde não é Weidmann, o candidato alemão que estava na calha. A segunda é perceber que os Estados periféricos ainda têm algum poder. Espanha, por exemplo, conseguiu impedir que três eurodeputados catalães tomassem posse. Ao contrário de tantos que são acusados de crimes graves. Como não amar a “democracia europeia”?»

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1.6.19

Que Europa é esta?



«Dir-nos-ão que saímos agora mesmo de um ciclo eleitoral. Saímos? Tenho sérias dúvidas. Entrámos no processo eleitoral em tumulto. O Mediterrâneo feito cemitério, a cobardia de enfrentar os problemas reais das vidas reais, o fantasma já pouco disfarçável do discurso do ódio, a divisão feita de mote para campanha. Feitas as contas, aqui continuamos e com sérias dúvidas se daqui saímos. A pergunta essencial continua por responder: que Europa é esta?

As forças políticas ditas tradicionais continuam hoje como ontem à procura do seu destino. Ainda não é possível fazer balanços, mas, mais do que com respostas aos problemas que nos trouxeram aqui, avança-se velozmente com cálculos para as maiorias possíveis. Socialistas e Partido Popular Europeu parecem querer juntar-se a Liberais para isso mesmo. Maioria em número, pouco importa a política que a comporta. Haverá verdadeira disponibilidade para gerar novas políticas? Ou, afinal, trata-se apenas de um cerco à extrema-direita mantendo o conteúdo político essencial intocável? É da vida das pessoas que se vai tratar ou é uma operação de marketing político que está em curso? Aprendeu-se alguma coisa com o Brexit? Haverá mesmo Brexit? Há espaço para a redução de incerteza ou já se desaprendeu de fazer política fora dela?

Em menos de uma semana depois de um ato eleitoral é difícil poder ter grandes análises, mas há alguns sinais e, para já, não são muito animadores. O primeiro "caso" traduziu a pior das evidências. Puigdemont e Comin, deputados eleitos na Catalunha, foram impedidos de entrar no Parlamento para "evitar problemas políticos" com Espanha. 1,025 milhões de pessoas elegeram-nos, mas a presidência em exercício decidiu que deveriam ser preventivamente proibidos de entrar. Independentemente de qualquer opinião legítima que se possa ter a respeito do partido que representam, uma posição desta natureza não é apenas uma violação dos seus direitos políticos, é também uma violação dos direitos políticos dos cidadãos e das cidadãs que os elegeram. Parece, pois, continuar a vigorar a lógica que nos trouxe aqui, seja qual for o marketing a que se recorra. Dividir, pois claro. Aparentemente, ainda não houve espaço para pensar fora da lógica da divisão.

Sempre acreditei que há espaço para a união dentro da União. Mas creio, sinceramente, que uma União só poderá basear-se no respeito, na dignidade e nos direitos. Em política e não em marketing. São vidas distintas que serão representadas dentro de quatro paredes. São direitos que têm sido negados e merecem o reconhecimento devido. É a dignidade de todos nós e do próprio projeto comum que está em causa. É um futuro que está por construir e cujas bases têm ainda de construir-se. Passaram poucos dias. Precisaremos de mais alguns para perceber se há espaço para a união dentro da União. O recomeço não foi auspicioso.»

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29.5.19

UE: o estado da questão


«Com esta constituição do no novo Parlamento Europeu, os liberais passarão a ter um papel de charneira sem o qual os socialistas não conseguem negociar lugares com os populares. Se acreditou na ideia de que se tentava construir uma “frente progressista” entre socialistas e liberais para combater a extrema-direita é um ingénuo incorrigível. O que está sempre em causa na Europa é a distribuição de lugares. Sem uma maioria absoluta entre o populares e socialistas (tinham 412 eurodeputados, agora têm 326), os socialistas terão de negociar com o centro-direita para dividirem com eles a parte do bolo que costumam ter só para si. E a divisão terá de ser bastante simpática para os liberais, que só têm menos 37 deputados do que eles. É só mesmo de jogos de cadeiras que estamos a falar. A “frente progressista” que vai Tsipras a Macron resume-se à cooptação do Syriza para os socialistas e a um acordo com os liberais na distribuição de lugares. E enquanto se entretêm com o jogo das cadeiras a extrema-direita continua a crescer, a esquerda a definhar e a Europa a afundar-se.» 

Daniel Oliveira
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A notável estabilidade eleitoral em Portugal



«O aspeto mais impressionante do resultado da votação de domingo é a estabilidade do comportamento eleitoral dos portugueses. Um número mais ou menos igual de eleitores votou mais ou menos nos mesmos partidos, mantendo os grandes equilíbrios políticos mais ou menos na mesma. Isto não significa que a política portuguesa esteja estagnada, nem que o resultado eleições europeias de 2019 seja irrelevante para o que aí vem. Mas não deixa de ser notável a estabilidade eleitoral em Portugal, ainda mais numa Europa em convulsão política.

É um facto que ninguém pode ficar tranquilo com o estado da democracia quando mais de sete milhões de eleitores registados não se deram ao trabalho de ir votar. A situação parece mais alarmante quando se verifica que a taxa de abstenção subiu de 66% para 69%, em contraciclo com a generalidade da UE. No entanto, a situação é menos grave do que parece. O número de pessoas que votou no domingo de facto aumentou, ainda que ligeiramente, face às eleições de 2014. A subida da taxa de abstenção não se explica pela redução da participação, mas antes pelo aumento do número de eleitores registados. Os apelos à mobilização dos eleitores em grande parte da UE contra os riscos dos extremismos parecem ter resultado, o que é bom. Em Portugal esse risco não existia e ainda assim o número de votantes aumentou um pouco, o que não é mau.

Se a participação eleitoral mais ou menos estabilizou, o chamado "voto anti-sistema" diminuiu em Portugal. A percentagem de eleitores que optou por um dos cinco maiores partidos cresceu desde as últimas eleições europeias de 76.5% para 78.2%. Se àqueles juntarmos o PAN, conclui-se que os partidos com assento parlamentar, no seu conjunto, passaram de 78.2% para 83.3%. Nenhum destes partidos põe em causa a Constituição da República Portuguesa, o sistema eleitoral ou o regime político. Ao reforçar a votação nos "partidos do sistema" (alguns mais antigos do que outros), os portugueses que se dão ao trabalho de participar nas eleições estão a dizer que se sentem confortáveis com a democracia que têm, apesar da diversidade de interesses e de valores. Os que não votam parecem estar pouco interessados em pôr em causa o regime em vigor.

Analisando com um pouco mais de detalhe, a estabilidade mantêm-se ao nível dos grandes grupos políticos. À direita, PSD e CDS somados aumentaram em 22 mil o número de votos que haviam obtido na coligação de 2014. À esquerda, BE e CDU considerados em conjunto reduziram em apenas 13 mil a votação de há cinco anos. Quanto ao PS, cresceu perto de 73 mil votos. Dos três casos referidos, este é o que mais se destaca. No entanto, representa um aumento de apenas 1.9 pontos percentuais face a 2014 e de apenas 1.1 pontos percentuais face às legislativas de 2015. Nada que se compare às grandes oscilações do passado (por exemplo, a perda de 18 pontos percentuais entre 2004 e 2009).

O PAN foi apresentado como o grande vencedor das eleições. O crescimento relativo do número de votos é impressionante, de facto: um aumento de 200% face 2014. Colocou o resultado deste partido não muito distante do obtido pelo CDS ou pela CDU, permitindo-lhe eleger um deputado ao Parlamento Europeu. Dito isto, vale a pena ter presente que os 5.1% de votos alcançados pelo PAN ficam bastante abaixo dos 7.2% obtidos há cinco anos por outro partido ecologista (pelo menos no nome), o Movimento Partido da Terra (MPT), que então conseguiu eleger dois eurodeputados. Em termos absolutos, os 112 mil votos obtidos a mais pelo PAN são menos de metade dos 235 mil que nas últimas eleições tinham ido para o MPT.

Tudo o que escrevi acima baseia-se em números. Na política, no entanto, as coisas são mais complicadas. As expectativas contam.

Se é verdade que PSD e CDS juntos tiveram mais votos do que em 2014, também é um facto que nunca tinham tido resultados tão baixos em nenhuma das eleições europeias em que se apresentaram separados. Se é verdade que o número de votos nos partidos à esquerda do PS no seu conjunto se mantiveram mais ou menos idênticos, a redução de 188 mil votos na CDU e o facto de ter ficado 26% abaixo dos piores resultados alguma vez obtidos em eleições europeias (em 2004), não podem ser vistos como uma questão menor. Se é verdade que a votação no PAN não é estrondosa à luz da experiência de outros partidos mais pequenos, o facto de isto acontecer na sequência de uma legislatura bem-sucedida na Assembleia da República, de os temas ambientalistas estarem na ordem do dia e de os votos no PAN estarem muito concentrados nos maiores círculos eleitorais, abre perspectivas para um maior protagonismo deste partido na política portuguesa.

A democracia portuguesa está sólida, mas não está estagnada. Às vezes é preciso que tudo fique mais ou menos na mesma para que alguma coisa mude.»

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28.5.19

O erro



«A extrema-direita ganha terreno numa União Europeia desgovernada, e não sobra tempo para ensaios. A leitura que fizermos agora ditará se conseguiremos criar uma estratégia, e a partir dela as alianças, que enviem a extrema-direita para o buraco da história a que pertence.

É por isso útil recordar essa história. O período de paz que a Europa conheceu não se deve ao facto de os países terem ficado acorrentados a uma espécie de slogan chamado União Europeia. O que manteve a paz foi o contrato social que saiu da experiência devastadora da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial. Esse contrato tinha cláusulas concretas: construção de um Estado social universal; proteção dos direitos laborais, com um enorme papel conquistado pelos sindicatos; controlo da Banca e dos movimentos internacionais especulativos, com o acordo de Bretton Woods; investimento público, com o New Deal. O contrato social que acabou com a extrema-direita no século passado foi uma aliança progressista entre os democratas que compreenderam que o ódio se alimenta da pobreza, da insegurança e da humilhação. E por isso a paz só pode ser garantida com estabilidade, direitos e dignidade.

Ao longo dos anos 80 e 90, este contrato europeu progressista foi sendo enfraquecido. As privatizações, a desregulamentação financeira e a erosão de direitos conquistados foram corroendo as suas bases, à medida que uma parte dos seus fundadores - a social democracia - se aliou aos neoliberais. Os anos 2000 bateram recordes bolsistas e de lucros financeiros, mas deixaram um sabor amargo a quem viu a vida a ficar mais precária, e a distância dos de cima a aumentar.

A crise de 2007 foi a consequência deste processo. Mas a verdadeira machadada no contrato social do pós-guerra foi dada pela austeridade e pelo programa liberal que a acompanhou. A pobreza, as desigualdades e a humilhação que causou são hoje, como foram no pós-Primeira Guerra, rastilhos para a extrema-direita.

Responder à extrema-direita implica refazer e construir um contrato social com um plano de investimento público contra as alterações climáticas, com um Estado social forte, com direitos do trabalho e proteção dos direitos humanos. O PS engana-se quando rejeita a experiência portuguesa dos acordos à Esquerda e escolhe para aliados europeus os partidos da mesma Direita liberal que, com a austeridade, destruiu o contrato que nos protegeu contra os fascismos no passado. A mesma Direita que defendeu e impôs sanções humilhantes. A mesma Direita que transformou o Mediterrâneo numa vala comum. Essa aliança bizarra não tem nada de progressista. Essa aliança é um erro do tamanho da nossa História.»

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27.5.19

Uma hipótese que não me sai da cabeça desde ontem



(Expresso, 27.05.2019)
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Europeias: muita informação útil




«A direita está sob resgate. O PS não descola. O Bloco ganhou (mas não ameaça o PS). O PAN ganhou mais força do que parece. A lei que deu voto aos emigrantes foi um fracasso. O sistema político resistiu. Há muito para ler os resultados das europeias nas entrelinhas. Mas é preciso olhar o histórico (e perspectivar o que vem pela frente)
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E o Manel Clemente?



Terá gostado dos resultados eleitorais? Já disse alguma coisa?
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Uma vitória que não parece “poucochinho” num cenário que pouco muda



Excerto de um texto de Daniel Oliveira, publicado ontem à noite.

«Em resumo: para o ambiente político de que precisa, o PS conseguiu o resultado que desejava, ficando bastante destacado do PSD. A verdade é que o PS tinha quatro pontos percentuais acima do PSD e do CDS juntos que, em 2014, lhe deu uma vitória “poucochinha”. Agora tem cinco. Ninguém fará esta conta e isso é que interessa.. O Bloco de Esquerda é, com o PAN, o que mais tem a festejar nesta noite, recuperando a vantagem à esquerda. Uma vitória pessoal de Marisa Matias, que veremos se o BE consegue transportar às legislativas. A CDU fica numa situação muito difícil e a dificuldade dos comunistas mata à nascença o sonho infantil de fazer uma geringonça a dois. Não vai acontecer. O CDS talvez aprenda que a radicalização do discurso, tentada por Nuno Melo, não resulta. E o PAN, que terá um papel nas próximas legislativas, prova que não foram os temas europeus que moveram o voto de protesto. Bem exprimido, a esquerda à esquerda do PS teve 17% em 2014 e tem 16% em 2019. O PS teve 31,5% e tem 33,5%. A direita teve 28% e tem 28,5%. E um partido vindo de fora, e que serve bem a função do protesto, teve 7,% e agora tem 4,5%. Não mudou muito em cinco anos.

Depois há o impacto real que os resultados nacionais têm em Portugal, sobretudo sabendo que há eleições legislativas em outubro. Devemos ter em conta aquilo que já sabemos de europeias anteriores. Que os partidos extraparlamentares costumam ter a vida muito mais facilitada em legislativas, que não têm um circulo único e onde a pressão do voto útil é inexistente. Que o PCP, com um eleitorado mais fiel, costuma ser beneficiado em eleições onde a abstenção é maior. E que os partidos da oposição tendem a ter melhores resultados nas europeias, não sendo isso um padrão seguro. Vistos os resultados, percebemos o que andou a fazer António Costa. Não andou a falar da oposição à extrema-direita, andou a negociar com os liberais a forma destes e os socialistas poderem competir por lugares com os populares. É só sobre isso que se fala na Europa.

Nenhum destes resultados terá grande peso nos equilíbrios do Parlamento Europeu. Farei uma análise dos resultados no resto da Europa para o texto de terça-feira. Apenas uma ideia simples: que apesar do alívio absurdo a extrema-direita ganhou mais espaço, que os verdes foram os grandes vitoriosos da noite, que os conservadores caíram muito e os sociais-democratas se despenharam aparatosamente, não sendo provável que aprendam que alianças à direita os fazem perder votos para todos os lados. É provável que com os votos do partido unipessoal de Emanuel Macron chegassem para que os socialistas europeus ficassem à frente do PPE. Mas o aliado de Costa foi para os liberais. E é com eles que os socialistas falarão para conseguir lugares na luta contra os populares. As lições desta eterna cedência e incapacidade de construir um discurso próprio ficam para daqui a cinco anos, quando desaparecerem mais um pouco.»
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24.5.19

Voto (4)


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Mais uma sondagem




Aximage (24.05.2019)

Número de Deputados: PS (8/9) / PSD (6/7) / BE (3) / CDU (2) / CDS (1/2)

(Daqui)
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As tias de Cristas – da vergonha alheia




«Precisamos da ajuda de todos. Peço a todos e a cada um de vos que no domingo não vá apenas votar. Telefone à família, aos amigos, vizinho do lado, ofereça-se para levar as pessoas a votar, aquela tia mais idosa.»
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Eurodeputados? Não conhecem



Optimistas, mesmo sem saberem para o que vão votar. Confere.

(Expresso, 24.05.2019)
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Pedro Marques e a lição portuguesa



«Pedro Marques tem má imprensa. Dizer que alguém tem má imprensa não é criticar o visado, é criticar a comunicação social. Porque não é suposto que alguém tenha má imprensa. Mas esta dinâmica, já se sabe, é imparável. Quando se instala uma caricatura sobre um candidato ela repete-se e alimenta-se a si mesma, com jornalistas e comentadores a seguirem-na, mais por preguiça do que por convicção. Pedro Marques é o cromo desta campanha e já não vai conseguir sair daí.

Claro que António Costa ajudou a construir o cenário para Pedro Marques ser um cromo. Ao propor-se fazer destas eleições um referendo ao seu governo e escolher um ministro que não teve grandes oportunidades para brilhar criou um ambiente propício ao seu apoucamento. Foi Costa que transformou Pedro Marques numa figura secundária. A comunicação limitou-se a tratá-lo com esse estatuto. Talvez tenha sido mais um momento de excesso de confiança do primeiro-ministro.

A ideia do referendo ao Governo resulta de uma opção tática óbvia e de um discurso estratégico enganador. Se a “geringonça” é popular, Costa quer ficar com os louros já nas europeias. Para quê falar de Europa se estar no Governo dá votos? Isto é a tática. A estratégia vive de uma fantasia: a ideia de que este governo provou que é possível compatibilizar as metas europeias com políticas de esquerda. O que quer dizer que descobriu a pólvora e agora a quer exportar para a Europa.

É conveniente mas ignora a extraordinária situação externa, que não confrontou o país com as suas fragilidades e o Governo com todas as suas contradições. É em crise, como se viu em 2011, que o teste se faz. Claro que há diferença entre o que este governo fez e o que fez o anterior e isso teve efeitos na economia. Se o negasse não teria apoiado a “geringonça”. Por escolha própria e por imposição dos seus parceiros, tomaram-se medidas que redistribuíram melhor os ganhos da recuperação e, com isso, a aceleraram. Isto prova que a austeridade é uma escolha errada, infelizmente não prova que é possível manter políticas contra-cíclicas e sociais quanto se está em crise, compatibilizando-as com as metas europeias. Porque elas foram tomadas quando não estávamos em crise.

Qualquer pessoa honesta reconhece que seria impossível ter os brutais superávits primários que Centeno conseguiu com a política de distribuição de rendimentos que tivemos nestes quatro anos num momento de crise económica minimamente comparável ao que se viveu em 2011. E que a única forma de manter os mínimos sociais e travar essa crise sem destruir a economia seria não cumprir as metas de forma tão escrupulosa, renegociar dívida e fazer quase tudo o que a Europa não quis que fizéssemos na altura.

O bom ambiente económico europeu escondeu tudo: a insustentabilidade da dívida, a impraticabilidade destas metas em tempo de crise sem provocar brutais impactos sociais e a incompatibilidade de casar políticas económicas e sociais de esquerda (para os momentos de crise e de crescimento) com as atuais regras do euro. Ainda bem que o escondeu. Ninguém quer sofrimento para provar o seu ponto. Mas é grave que sejam os próprios políticos a ignorar o que ficou escondido. E o pior é que esta tese começa a fazer escola em alguma esquerda europeia, que toma Portugal como a prova de que há futuro dentro destas baias.

Esta narrativa dos socialistas acabará por lhes trazer problemas políticos futuros. Semelhantes aos que viveram em 2011. Lembram-se quando o anterior governo do PS apresentava PEC atrás de PEC, garantindo que medidas internas de austeridade e liberalizadoras teriam efeitos no rating e nos juros e nada acontecia? Como a história veio a provar, nada podia travar a onda que vinha de fora. Mas, com a conversa que foram fazendo, criaram o caldo político que convenceu os portugueses que o problema era solucionável por dentro. Quando as coisas descambaram a direita usou essa mesma mensagem para responsabilizar o PS pela bancarrota. Ao voltar a desprezar o ambiente externo para valorizar o seu papel e ao vender a ilusão da compatibilidade das imposições europeias com um programa de esquerda os socialistas estão a cometer o mesmo erro, que terá, quando a próxima crise vier, as mesmas consequências. Adiam o debate sobre os constrangimentos europeus e preparam a sua responsabilização pelos efeitos do que venha a acontecer na Europa. Querem os louros do sucesso agora, terão também os espinhos do insucesso depois.

A evidência das contradições desta estratégia no discurso duplo do PS, que referi na última sexta-feira: enquanto mantêm uma geringonça de esquerda cá dentro procura construir uma geringonça no centro-direito lá fora. E este desencontro é especialmente evidente em Mário Centeno, que, como presidente do Eurogrupo e ministro das Finanças de um governo de esquerda, conseguiu encarnar todas as contradições do discurso socialista. O conflito entre a retórica e a realidade. Não sou eu que digo que Centeno é, com diferenças de grau, um continuador da lógica de Vítor Gaspar. É ele. Foi ele que disse, numa reportagem do “Financial Times”, que a mudança de trajetória não tinha sido grande. Isto é o balanço que ele próprio faz do seu mandato de ministro das Finanças. Como presidente do Eurogrupo, e apesar das ESPERANÇAS DE RUI TAVARES, também não houve grande mudança. Há pouco mais de um ano, o Centeno em que tantos depositavam as suas esperanças responsabilizou os gregos por não se terem apropriado (estou a citar) do processo de ajustamento mais cedo, atribuindo à austeridade os bons resultados que acha que tiveram.

Costa faz uma avaliação do passado correta, reconhecendo que a moeda que foi quase exclusivamente criada por governos socialistas foi um “bónus” dado aos alemães. Que esta moeda é estruturalmente punitiva para os países periféricos da Europa. Mas não tira daí qualquer conclusão e imagina que, em quatro anos de governação num clima económico favorável, resolveu essa contradição insanável que explica porque Portugal está, há duas décadas, a afundar-se num pântano.

Perante a contradição do seu discurso, é natural que Costa tenha resolvido transformar estas europeias num referendo ao Governo. Porque o governo da “geringonça” é popular (por causa dos três partidos que a compõem) e porque ela alimenta ilusões em relação à Europa. Também é normal que tenha escolhido um ministro pouco conhecido, que não puxa para si o foco e garante que a mensagem não sai daqui. Mas o PS continua em negação. A lição que julga dar à Europa irá a Europa dar-lhe a ele. Mário Centeno já a sabe de cor.»

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