Mostrar mensagens com a etiqueta moçambique. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta moçambique. Mostrar todas as mensagens

24.7.25

24 de Julho, Moçambique e caranguejos

 


Morei durante toda a minha infância na Av. 24 de Julho – na antiga Lourenço Marques, entenda-se. Enquanto aprendia todos as estações e apeadeiros da Linha do Norte na «Metrópole», ouvia falar do frio no Natal e fazia redacções sobre as latadas no Minho.

O nome da rua devia celebrar o dia em que Patrice Mac-Mahon, 3º presidente da França, declarou, em 1875, que a Ilha da Inhaca (e a dos Elefantes) era território moçambicano, numa acção de arbitragem entre o governo britânico e o de Lisboa. Mas não sei se não vivi nove anos a comemorar a entrega de Lisboa ao Duque da Terceira, em 24 de Julho de 1833, pelo Duque de Cadaval, antigo primeiro-ministro do rei D. Miguel.

Vingança consumada: foi em Inhaca que comi os melhores caranguejos do mundo, quando voltei a Moçambique há mais de 20 anos.

25.6.25

Moçambique – Há 50 anos, a independência!

 


Nasci numa rua com acácias vermelhas que nunca esqueci.

Sem qualquer consciência do que significava ser filha de colonos, achando perfeitamente normal que o mainato Fabião estivesse sempre por perto, 24 horas por dia. Excepto durante algumas, poucas, nas tardes de Domingo, em que desaparecia vestido de branco, através do canavial que separava os quintais das moradias nem sei exactamente de quê.

Sem estranhar que só houvesse meninos brancos na escola, a decorar nomes de estações e apeadeiros da linha do Norte de um Portugal desconhecido, também os afluentes do Dão, e com a árvore de Natal posta numa varanda mas enfeitada com flocos de neve. Com a Polana como praia civilizada e o Palmar ainda totalmente deserto.

Fui «retornada» bem antes do tempo de outros, odiei Lisboa – cinzenta, tacanha e suja – mas por cá fiquei, nem sei se para o bem ou se para o mal.

Hoje, a terra que vi quando cheguei a este mundo comemora 50 anos de independência. Carrega um passado e um presente duros. Espero que venha a ter pela frente um futuro bem melhor.


.
.

15.1.25

Venezuela e Moçambique: a inconciliável duplicidade portuguesa

 


«Não conheço os verdadeiros resultados eleitorais na Venezuela e em Moçambique. Desconfio, com fortes fundamentos e muita companhia, que foram muito diferentes dos anunciados. Nos dois casos, não foram garantidas as condições indispensáveis para o exercício da democracia. Não tenho, não tem a ninguém, razões para confiar na independência das respetivas comissões nacionais de eleições. Em resumo, houve fraude.

Portugal tem, por razões diferentes, interesses nos dois países. Num caso, uma forte comunidade lusodescendente. No outro, uma relação histórica, cultural e económica, que se traduz na pertença comum à CPLP.

Apesar de não serem partidos únicos, o poder do PSUV e da FRELIMO já não resulta da vontade popular. Esse apoio, que outrora terá existido, foi perdido graças à forma como se governaram a si mesmos, longe dos interesses do povo venezuelano e moçambicano. Nos dois casos, a reação do Estado aos protestos populares foi de enorme violência.

O facto de não depositar grande confiança nas lideranças das respetivas oposições, que não me parecem estar grandemente preocupadas com os problemas das respetivas nações e nunca reconheceram resultados eleições, mesmo quando as que perderam, não muda o valor da democracia: só pode governar quem o povo quer que governe.

No caso da Venezuela, o governo português não reconheceu os resultados eleitorais. É verdade que, não tendo reconhecido a vitória de Nicolas Maduro, também não reconheceu, ao contrário do Parlamento Europeu, Edmundo González como novo presidente. Seria sempre, na minha opinião, uma decisão difícil, porque implica assumir resultados eleitorais de que não se tem prova material. É diferente assumir que houve fraude e saber o resultado concreto da verdadeira votação. Mas a AD fez um jogo duplo: ao mesmo tempo que o governo não reconhecia González, Sebastião Bugalho fez campanha, no Parlamento Europeu, por esse reconhecimento.

Paulo Rangel resolveu esta contradição, dizendo que a sua ausência "na dita tomada de posse" de Maduro "tem um significado claro". Assim sendo, é impossível não concluir que a presença na tomada de posse de Daniel Chapo tem um significado claro. O oposto do significado que tem a sua ausência na posse de Maduro: o reconhecimento dos resultados eleitorais, contrariando, ainda por cima, a recomendação aprovada pela Assembleia da República, por proposta da IL.

A ausência do Presidente e de uma saudação à eleição de Chapo, contrariada pela presença na tomada de posse, é a tentativa da quadratura do círculo, como foi o não reconhecimento de Edmundo González ao mesmo tempo que o PSD se batia por esse reconhecimento no Parlamento Europeu.

Havia duas formas de lidar com os dois casos: a de princípio, não reconhecendo presidentes que se sabe terem vencido com recurso a fraude eleitoral; a pragmática, mantendo as formalidades diplomáticas, tendo em conta a importância das relações com os dois países e os seus presidentes de facto. Afinal de contas, temos relações com chefes de Estado que, sendo ditadores, nem simulações eleitorais fazem. As duas posições contraditórias impedem o discurso de princípio, no primeiro caso, e pragmático, no segundo.

Na realidade, nunca se trataram de princípios. Na Venezuela, submetemo-nos aos interesses dos EUA e outras potências europeias. Em Moçambique, submetemo-nos aos interesses de quem governa o país. Usando, curiosamente, um argumento da forte comunidade portuguesa no país, que seria extensível à Venezuela. É sempre uma posição submissa. Nisto, justiça seja feita ao governo, não há grande novidade. Não temos política externa, temos submissões externas. Só não a mascarem com defesa de valores, por favor.

Nota final: não sei se quem diz a verdade é Paulo Rangel, quando garante que manteve contactos discretos para ajudar a resolver a situação em Moçambique, ou Venâncio Mondlane (em quem não tenho grande confiança), que o desmente, dizendo que nada fez e apenas procura estar na ribalta. Sei que quem faz contactos discretos não os divulga em entrevistas, a não ser que queira estar na ribalta. Certo, é que, com este bate-boca, dificilmente Portugal poderá ter um papel na mediação do conflito. Acontece a quem gosta de aprender.»


24.7.24

A primeira «pátria» – Moçambique

 


Sinto que tenho três «pátrias» (ou talvez por isso nenhuma, o que vai dar ao mesmo).

Quanto à do Império, deixo para Marcelo & Friends os respectivos festejos aquém e além-mar. Já assinalei o 21 de Julho, Festa Nacional da Bélgica. Faltava referir esta – a de Moçambique –, onde uma cesariana de alto risco me pôs na cidade das acácias vermelhas.

Lá fiz exames da 3ª e da 4ª classe, depois de aprender todos as estações e apeadeiros da Linha do Norte na «Metrópole», de fazer redacções sobre as latadas no Minho e de pôr algodão a imitar neve na árvore de Natal, embora esta estivesse montada ao ar livre.

Com pouco mais de nove anos, vim para Lisboa que detestei. E detestei porque se gravaram em mim imagens de uma cidade tristíssima, com pessoas vestidas de preto ou cinzento, a viverem em camadas dentro de prédios em ruas estreitas, ainda ao som de pregões e de gritos de vendedeiras que espalhavam canastras de peixe pelo chão. Faltavam-me as acácias vermelhas, a Polana, o calor, os cheiros e sobretudo os grandes espaços.

Só bem mais tarde percebi o que eram colonos e colonialismo. E, mais tarde ainda, senti o que foi o inevitável drama dos retornados.

24.7.23

Moçambique e 24 de Julho

 


Nasci numa rua com acácias vermelhas que nunca esqueci, na antiga Lourenço Marques, hoje Maputo.

Morei durante toda a minha infância na Av. 24 de Julho, enquanto aprendia todos as estações e apeadeiros da Linha do Norte na «Metrópole», ouvia falar do frio no Natal e fazia redacções sobre as latadas no Douro.

O nome da rua devia celebrar o dia em que Patrice Mac-Mahon presidente da França, declarou, em 1875, que a Ilha da Inhaca (e a dos Elefantes) era território moçambicano, e portanto português, numa acção de arbitragem entre o governo britânico e o de Lisboa. Mas suspeito que vivi anos a comemorar a entrega de Lisboa ao Duque da Terceira, em 24 de Julho de 1833, pelo Duque de Cadaval, antigo primeiro-ministro do rei D. Miguel.

Vingança consumada: foi em Inhaca que comi os melhores caranguejos do mundo, quando voltei a Moçambique há vinte e poucos anos.
.

12.6.23

Marchas Populares em Moçambique?

 


Tenho um pequeníssimo espólio de recordações da minha infância passada em Moçambique, mas a minha mãe nunca se desfez destas «Marchas Populares» – com letras e partituras – que, segundo sempre a ouvi repetir, tiveram um sucesso inesquecível na bela cidade das acácias vermelhas.

Em 1945, quando o mundo punha termo à Segunda Guerra, os portugueses de Lourenço Marques (os brancos, evidentemente) desfilavam pelas ruas em representação dos «seus» sete bairros (Alto Maé, Baixa, Carreira do Tiro, Malhangalene, Maxaquene, S. José de Lhanguene e Polana).

Mas, no cortejo, havia também «uma marcha sobre um motivo indígena». Trocado por miúdos, uma marcha de «pretos» e para «pretos», na língua nativa (shironga).



A Marca da Polana:



Ainda não se usava a expressão «luso-tropicalismo», mas já estava quase a chegar. E, com mais ou menos pincelada, veio para ficar.
.

 

5.9.22

É fácil pedir perdão



 

«No fundo, não é difícil pedir perdão. Sobretudo para alguém que é cristão, ou vem duma cultura cristã. É só reconhecer o mal cometido porque a vítima, essa, não tem outra opção senão aceitar o pedido de desculpas. Entre adultos, e sobretudo, entre estadistas que precisam da ficção de partilharem os mesmos valores, ficaria muito mal um pedir desculpas e outro rejeitá-las. O mundo diplomático que confere sentido ao que se diz – e ao que se não diz – encarrega-se sempre de produzir doses suficientes de compreensão que legitimam o pedido e aceitação de perdão.

Esteve muito bem o primeiro-ministro português ao pedir perdão pelo massacre de Wiriamu ao Presidente de Moçambique. Revelou-se bom cristão, ou bom cultor dos valores ocidentais. O único, contudo, que é estranho neste pedido é o tempo que levou para ser formulado. Tudo isto tendo em conta, claro, que não é difícil pedir perdão.

de O massacre foi há 50 anos. Passaram 47 anos desde que Moçambique ficou independente de Portugal. Vários Presidentes e primeiros-ministros portugueses visitaram Moçambique durante esse período de tempo. Todos os Presidentes que Moçambique já teve passaram por Portugal. É estranho que em nenhuma destas ocasiões tenha passado pela cabeça de nenhum estadista ou chefe de Governo português fazer algo tão simples quanto isso.

Mas o primeiro-ministro português falou bem na ocasião. Ele disse que Wiriamu é um “acto indesculpável que desonra a nossa História”. Aliás, há algo que parece profundo nessa afirmação, ainda que não esteja bem claro para mim se “nossa” se refere a Portugal, ou a Portugal e Moçambique.

Se a referência for a Portugal, ele pode ter muita razão. Portugal não é só colonialismo. É também a proclamação constante de valores com profundo teor humanista, alguns dos quais motivaram o próprio colonialismo. Não há nenhuma ironia nesta constatação. Nem sempre a maldade é fruto de más intenções. Ela pode ser motivada por boas intenções. Há algo de nobre e altruísta na intenção de trazer alguém à civilização e ao progresso, mesmo que essa pessoa não tenha manifestado interesse por isso.

Mas se “nossa” se refere à História de Portugal, então não é a Moçambique que António Costa deveria pedir perdão. Os moçambicanos não têm nada a ver com o seu conflito com a própria História. No lugar de desculpas, ele deve simplesmente reflectir sobre o que falhou na cultura sobre a qual essa História assenta para que ela impelisse os seus membros a fazerem coisas que mais tarde iriam constituir razão de vergonha.

Como moçambicano, dar-me-ia por satisfeito ouvindo um estadista português a dizer, 50 anos depois, que nunca ninguém se tinha pronunciado porque o País ainda estava a reflectir sobre o que teria levado a cultura desonrada dessa forma a fazer esse tipo de coisas. Só isso.

Agora, se “nossa História” se refere a Portugal e Moçambique, isto é, ao que fez dos dois países companheiros num destino mais ou menos comum, bom, as coisas ficam mais complicadas ainda. Essa “nossa História” é que é o problema. Na medida em que ela assentou justamente na dominação dum pelo outro – e, tudo, claro, na base de boas intenções –, ceifar a vida a 400 pessoas é, teoricamente, mas também na prática, apenas documento da natureza dessa “História”.

Assim sendo, um acto ignóbil como este não desonra História nenhuma. Confirma-a. Aliás, um acto como esse não existe isolado da História que o tornou possível. A própria História é que seria indesculpável, julgo. Quero dizer, soaria estranho que um senhor de gente escravizada lá nas Américas pedisse perdão por ter mutilado uma dessas pessoas porque isso desonra a escravidão...

Sei que estou a procurar agulha em palheiro. A verdade é que o primeiro-ministro português fez aquilo que, aparentemente, ninguém mais, ao seu nível, fez. E isto sabendo todos nós que não custa nada pedir desculpas. Então, não procuro, a bem dizer, nenhuma agulha no palheiro. Procuro a varinha mágica que enobrece os europeus em tudo o que fazem.

Ainda que a decência me obrigue a reconhecer a nobreza do gesto português, sinto uma raiva interior quando constato que simples palavras que não custam nada para pronunciar têm o condão de colocar o europeu que as profere num patamar ético elevado.

É como se a “nossa História”, portanto, o percurso português e moçambicano, fosse uma narrativa que reserva ao sofrimento africano o papel perverso de oferecer ao europeu a oportunidade de confirmar a sua superioridade moral. Uma vez, a escritora norte-americana negra, Toni Morrison, indagou-se como se sentem os europeus quando olham para tudo o que os seus fizeram em nome da sua própria cultura. Orgulhosos? Com vergonha? Na altura, quando ela colocou essa pergunta, fiquei também a pensar, sem resposta. Hoje, ao ler sobre o pedido de desculpas de António Costa, sinto-me como se tivesse encontrado a resposta. Não custa nada pedir desculpas porque tudo o que é decente, por muito tempo que leve a acontecer, faz parte da cultura europeia.

Sem nenhum pingo de ironia, ocorre-me apenas dizer que o pedido de perdão do primeiro-ministro português é um acto profundamente europeu. Vai ser humano no dia em que a sua inteligibilidade moral não assentar num quadro ético que dê a aceitação desse pedido por adquirido. Por enquanto, nem consigo imaginar os contornos desse quadro.»

.

4.9.22

Costa quebrou o “pacto de silêncio” do Estado sobre os crimes da guerra colonial

 


«Foram precisos quase 50 anos de democracia para que o Estado português viesse reconhecer, perante Moçambique, o “acto indesculpável que desonra a História” de Portugal, que foi o massacre de Wiriamu, um dos acontecimentos mais vergonhosos da guerra colonial.

A declaração do primeiro-ministro na sua visita a Moçambique é, por isso, histórica. “Neste ano de 2022, quase decorridos 50 anos sobre esse terrível dia 16 de Dezembro de 1972, não posso deixar aqui de evocar e de me curvar perante a memória das vítimas do massacre de Wiriamu, acto indesculpável que desonra a nossa História.”

Em Portugal abundam os traumatizados pelo fim do “Portugal do Minho a Timor” e há exemplos patéticos para ilustrar esse sofrimento, como a polémica dos arbustos da Praça do Império, que deve ter sido das coisas mais risíveis que animou nos últimos anos a sociedade portuguesa e a Câmara de Lisboa.

Lembremo-nos que a frase neo-salazarista “já fomos grandes e podemos voltar a ser” continua a ser repetida a torto e a direito e com boas intenções, sem qualquer noção de que se está implicitamente a exaltar o passado colonial. Há uns tempos, numa entrevista de vida, o chefe do Estado-Maior da Armada, o almirante Gouveia e Melo – que lidera as sondagens de potenciais candidatos a Presidente da República – disse que “viu o Império a desfazer-se” e teve uma espécie de chamamento para entrar na Marinha: “Tens que contribuir para que Portugal seja grande outra vez. Não somos grandes territorialmente, mas no mar somos gigantescos.”

Misteriosamente – ou se calhar não – o saudosismo colonial conseguiu atingir pessoas que nasceram depois da queda do Império e aquelas que eram muito crianças durante a descolonização. Mas lá está: uma geração vai sempre beber parte das suas convicções à geração anterior e se a geração que era adulta no 25 de Abril foi profundamente marcada pela ideologia salazarista, a marca não se extingue de um momento para o outro e a influência chega aos portugueses já nascidos em democracia.

Por tudo isto, é um feito notável que pela primeira vez um chefe do Governo, de visita a uma antiga colónia, tenha feito um decente mea culpa e quebrado o estado de denegação em que uma grande parte da sociedade portuguesa vive sobre os crimes da guerra colonial – ainda que a historiografia sobre o assunto já seja, nos tempos que hoje vivemos, imensa.

Não é a primeira vez que o Estado português assume um crime do passado colonial. O Presidente da República fê-lo em Fevereiro de 2018, quando “assumiu a responsabilidade” pelo massacre de Batepá, em São Tomé, quando cerca de 400 habitantes foram mortos a mando do governador colonial. Colocou uma coroa de flores no monumento ao Heróis da Liberdade e disse que “Portugal assume a sua história naquilo que tem de bom e que tem de mau, e assume nomeadamente, neste instante e neste memorial, aquilo que foi o sacrifício da vida e o desrespeito da dignidade de pessoas e comunidades”.

Hoje, parece-me quase do outro mundo aquela visita de Estado do Presidente da República a Moçambique, no ano de 2008, em que Cavaco Silva ficou quase em estado de choque quando lhe perguntei se tencionava pedir desculpa pelo massacre de Wiriamu. Cavaco estava ao lado do então Presidente moçambicano Armando Guebuza, esbugalhou os olhos, recusou pedir desculpa e desatou a contar os momentos felizes que passou em Moçambique quando, enquanto jovem alferes, esteve mobilizado para a guerra colonial: “Eu que estive aqui nesse tempo, apesar de já haver alguma instabilidade, nem isso me levou a ficar preso em Maputo [onde ficou colocado em funções administrativas]. Agarrei num carro e desbravei África.”

Nesse dia, em Maputo, tive vergonha do meu país. Ao assumir que Wiriamu foi “um acto indesculpável que desonra a nossa história”, António Costa dá um passo fundamental para quebrar a “omertà” que o Estado construiu em torno da guerra colonial.»

.

24.7.22

24 de Julho, Moçambique e caranguejos



 

Morei durante toda a minha infância na Av. 24 de Julho – na antiga Lourenço Marques, entenda-se. Enquanto aprendia todos as estações e apeadeiros da Linha do Norte na «Metrópole», ouvia falar do frio no Natal e fazia redacções sobre as latadas no Douro.

O nome da rua devia celebrar o dia em que Patrice Mac-Mahon presidente da França, declarou, em 1875, que a Ilha da Inhaca (e a dos Elefantes) era território moçambicano e, portanto, português, numa acção de arbitragem entre o governo britânico e o de Lisboa. Mas suspeito que vivi nove anos a comemorar a entrega de Lisboa ao Duque da Terceira, em 24 de Julho de 1833, pelo Duque de Cadaval, antigo primeiro-ministro do rei D. Miguel.

Vingança consumada: foi em Inhaca que comi os melhores caranguejos do mundo, quando voltei a Moçambique há 20 anos. 
.

25.6.22

Moçambique – Há 47 anos, a independência

 


Nasci numa rua com acácias vermelhas que nunca esqueci.

Sem qualquer consciência do que significava ser filha de colonos, achando perfeitamente normal que o mainato Fabião estivesse sempre por perto, 24 horas por dia. Excepto durante algumas, poucas, nas tardes de Domingo, em que desaparecia, vestido de branco, através do canavial que separava os quintais das moradias nem sei exactamente de quê.

Sem estranhar que só houvesse meninos brancos na escola, a decorar nomes de estações e apeadeiros da linha do Norte de um Portugal desconhecido, também os afluentes do Dão, e com a árvore de Natal posta numa varanda mas enfeitada com flocos de neve. Com a Polana como praia civilizada e o Palmar ainda totalmente deserto.

Fui «retornada» bem antes do tempo de outros, odiei Lisboa – cinzenta, tacanha e suja – mas por cá fiquei, nem sei se para o bem ou se para o mal.

Hoje, a terra que vi quando cheguei a este mundo comemora 47 anos de independência. Carrega um passado e um presente duros. Espero que venha a ter pela frente um futuro bem melhor.


.
.

5.12.21

Assim vamos no aeroporto da capital

 

«...Já sofri muito em aeroportos. Já passei por algumas situações caóticas. Nada que se pareça com o que se passou ontem, sábado, em Lisboa, à chegada do voo procedente de Maputo. Acho que nem nunca vi em toda a minha vida uma desorganização tão bem organizada. Em primeiro lugar os funcionários contratados para fazerem a triagem dos passageiros para o teste obrigatório (85 euros) eram poucos, mal treinados e muito mal informados. Embora estivesse nas primeiras filas demorei quase três horas até conseguir sair do aeroporto. Houve gritaria, tentativas de rebelião e até de fuga, que não resultaram, porque depois do teste nos colocaram pulseiras e quem não as tinha foi forçado a voltar para trás na polícia de fronteira (fecharam as cancelas automáticas). Enfim, um caos total e absoluto. Filas e mais filas. Famílias com crianças. Doentes. Tudo amontoado, num desrespeito total pelos direitos das pessoas e pelas regras básicas de distanciamento e higiene num contexto de pandemia. As bagagens empilhadas num canto e, já na saída, mais filas e mais polícias para controlar, uma última vez, quem tinha e não tinha testes. Uma vergonha!...»

José Eduardo Agualusa, hoje, no Facebook
.

10.11.20

Moçambique; um enorme drama sem fim à vista

 



«Os grupos armados que há três anos espalham o terror no Norte de Moçambique atacaram várias aldeias, decapitando e desmembrando “mais de 50 pessoas”, incluindo vários rapazes. Os ataques começaram a 31 de Outubro e aconteceram ao longo de vários dias, primeiro em 11 aldeias do distrito de Muidumbe, depois em povoações da região de Macomia, ambas na província de Cabo Delgado.»
.