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14.3.19

14.03.1975 – O tempora, o mores


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12.3.19

11 de Março, um passado cheio de agora



«O dia 11 de Março de 1975 é um marco na história da democracia portuguesa. Se o 25 de Abril representa o dia em que o anterior regime político foi deposto, o 11 de Março constitui o momento de refundação do regime económico. Este facto, por si só, justifica que se recupere esta data e o seu significado. No momento actual, há motivos redobrados para o fazer.

Nas vésperas da revolução, o regime económico em Portugal era caracterizado por dois aspectos distintivos: uma elevadíssima concentração da propriedade (3/4 da produção eram assegurados por 16,5% das empresas); e uma forte articulação entre os poderes industrial e financeiro.

Os grupos industriais CUF e Champalimaud controlavam o Banco Totta & Açores e o Banco Pinto & Sottomayor, respectivamente. Grupos com origem no sector financeiro, como o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, o Banco Português do Atlântico ou o Banco Borges & Irmão, estendiam as suas participações a vastas áreas da actividade industrial.

Este pequeno núcleo monopolista, por vezes em parceria com empresas estrangeiras, controlava o essencial da economia portuguesa. O poder que advinha das suas actividades de crédito e a proximidade ao regime político permitiam-lhes manter esse domínio. O controlo da banca proporcionava o necessário músculo financeiro. O apoio do regime assegurava os mercados de escoamento, limitava a concorrência e reprimia as reivindicações dos trabalhadores.

O regime económico da era marcelista não terminou logo em 25 de Abril de 1974. Nos meses que se seguiram manteve-se intacta a estrutura de poder industrial e financeiro, apesar da instabilidade crescente. Para essa instabilidade contribuíam dois factores decisivos. O primeiro era a grande crise económica mundial, marcada pela desaceleração do crescimento nas economias capitalistas desde finais da década de 1960, pela implosão do sistema de câmbios fixos no Verão de 1971 e pelo enorme aumento dos preços do petróleo na sequência da guerra israelo-árabe do Yom Kippur, em Outubro de 1973. O segundo factor de instabilidade, claro está, foi a dinâmica do movimento social que se seguiu à queda do regime salazarista.

O 25 de Abril aconteceu quando os primeiros sinais de crise internacional começavam a chegar a Portugal, reflectindo-se no aumento da inflação e em dificuldades financeiras em muitas empresas. Incentivados pelo desmantelamento do aparelho repressivo do fascismo e pelas expectativas acrescidas de melhoria das condições de vida, centenas de milhares de portugueses fizeram sentir a sua voz nas ruas e nas empresas, reclamando os seus direitos e questionando as orientações de gestão dos empregadores.



11.3.19

11.03.1975, ainda



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11.03.1975 - O início do PREC



Nesse décimo primeiro dia de Março de 75, pelas 11:45, o RAL 1 (mais tarde conhecido por RALIS), foi bombardeado por aviões da Base Aérea nº 3 e cercado por paraquedistas de Tancos, na concretização de uma tentativa de golpe de Estado, liderada por António de Spínola.

O que se passou durante o resto desse dia é resumido num documento do Centro de Documentação 25 de Abril e está parcialmente gravado nos vídeos (no fim deste post). Dia que acabou já sem Spínola no país: com a mulher e quinze oficiais fugiu de avião para Badajoz.

11 de Março marca o início do PREC, que viria a durar oito meses e meio – até ao 25 de Novembro. Quem já era adulto lembra-se certamente dos ambientes absolutamente alucinantes de tudo o que se seguiu, sobretudo a partir de 14 de Março quando foi criado o Conselho da Revolução e se deu a nacionalização da Banca e da maior parte das companhias de Seguros.

E não se julgue que foi só a chamada extrema esquerda a aplaudir essas medidas:
«As nacionalizações são saudadas à esquerda e não são contrariadas à direita. O PPD apoiou-as, embora prevenindo que "substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de Estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa".
Mário Soares mostrou-se eufórico, considerando tratar-se de "um dia histórico, em que o capitalismo se afundou". Disse num comício que "a nacionalização da banca, que por sua vez detém (…) a maior parte das acções das empresas portuguesas e, ao mesmo tempo, a fuga e prisão dos chefes das nove grandes famílias que dominavam Portugal, indicam de uma maneira muito clara que se está a caminho de se criar uma sociedade nova em Portugal".» (Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, p. 28.)

Foi assim, por mais inverossímil que pareça a 44 anos de distância.

Para quem quiser conhecer ou recordar os acontecimentos:






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21.11.18

21.11.1975 – O juramento no Ralis



Há quem não tenha idade para o recordar ao vivo e a cores, há os que ainda se lembram com terror do que sentiram com aquilo que o juramento no Ralis podia prenunciar e há aqueles a quem nunca será roubada a utopia de um acto que pertence a uma herança que ainda hoje os mantém de pé no presente e perante o futuro.

A quatro dias do 25 de Novembro, o juramento de bandeira dos cento e setenta novos recrutas do RALIS ficou para a História – queira-se ou não.



Imagens e palavras quase surrealistas quando vistas e ouvidas hoje, mas que funcionam para muitos como uma espécie de relíquia de «um sonho lindo que acabou». Um caminho que ficou para trás mas que não se apaga – nunca.

A notícia no Diário de Lisboa do dia:


19.9.18

19.09.1975 – Posse do último Governo Provisório




Discurso de Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro:

«Como o senhor Presidente da República, também eu rejeito a social-democracia como objectivo final da revolução. (…) Admitimos partidos que defendam a social-democracia, com os quais consideramos ser necessário e útil colaborar, sem, no entanto, lhes permitir tomar a direcção política do processo revolucionário.»

Ver mais AQUI.
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7.9.18

07.09.1975 – Quem se lembra dos SUV?




Os SUV (Soldados Unidos Vencerão) – uma auto-organização política de militares, clandestina, que se definia com «frente unitária anticapitalista e anti-imperialista» – apresentaram-se «embuçados por razões de segurança» numa conferência de imprensa realizada no Porto e transmitida pelo Rádio Clube Português , em 7 de Setembro de 1975.

Organizaram desfiles em várias cidades, mas julgo que nenhum teve a dimensão do de Lisboa, em 25 de Setembro, com apoio de partidos como o MES, a LCI, a UDP e o PRP. Centenas de soldados fardados, acompanhados por representantes das comissões de trabalhadores e de moradores e por uma verdadeira multidão, subiram do Terreiro do Paço até ao Parque Eduardo VII, onde teve lugar um comício. No fim deste, foram desviadas dezenas de autocarros da Carris, que levaram quem quis até ao presídio da Trafaria, de onde, pelas 2:00 da manhã, foram libertados dois militares que se encontravam detidos, precisamente por terem distribuído panfletos de propaganda da manifestação.

Para se perceber um pouco mais do que estava em causa, vale a pena ler o MANIFESTO com que os SUV se apresentaram, precisamente nesse 7 de Setembro.
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19.7.18

19.07.1975 – Mário Soares na Fonte Luminosa



No seguimento do chamado «caso República», depois de muitas peripécias, o jornal saiu para a rua em 10 de Julho de 1975, com o nome de um director nomeado pelo MFA (e não com o de Raul Rego). Os ministros socialistas que faziam parte do IV Governo Provisório (Mário Soares, Salgado Zenha e Almeida Santos) pediram a demissão, e foram seguidos pelos do PSD, o que provocou a queda do Governo e a sua substituição pelo seguinte – o quinto e último presidido por Vasco Gonçalves –, que tomou posse em 8 de Agosto.

Entretanto, no dia 19 de Julho, o PS organizou a famosa manifestação da Fonte Luminosa – marco importante na história daquele Verão quente de 1975.

Foi António Guterres que organizou o comício, no qual discursaram vários dirigentes socialistas, sendo Salgado Zenha o penúltimo e Mário Soares a encerrar, com um discurso violentíssio contra o PCP e o governo de Vasco Gonçalves. Alguns excertos desse discurso (tirados de O Portal da História).

«O dia de hoje foi um dia grave na história do nosso povo. Depois de uma campanha alarmista de boatos sem precedentes, de uma ‘intentona’ artificial, de uma falsa conjura com intenção de enganar o povo; depois disso, organizaram-se barreiras para impedir que o povo dos arredores de Lisboa, deputações do povo de Portugal viesse aqui manifestar-se livremente, em favor da liberdade, da democracia, do socialismo. (...)

É uma cúpula de paranóicos, a direcção do PCP. É uma cúpula de irresponsáveis a dos dirigentes da Intersindical, que não representam o povo português. E as Forças Armadas, dando cobertura a esses irresponsáveis, indo acreditar que havia uma marcha sobre Lisboa, que nunca existiu – que só existiu na cabeça desses paranóicos – constituíram também graves responsabilidades. (...)

Dizemos que a reacção não passará, mas digamos também que a social-reacção não passará. Temos dito, e prova-se na prática da nossa acção política quotidiana, que nós não somos anticomunistas. Quem está a provocar o anticomunismo, como nem Caetano nem Salazar foram capazes de provocar é a cúpula reaccionária do PCP. (...)

A situação portuguesa é de tal maneira grave, o ambiente requer um Governo de salvação nacional e de unidade das forças políticas, que nós dizemos daqui ao Presidente da República e ao Conselho da Revolução que o primeiro-ministro designado para constituir o 5.º Governo Provisório não nos parece ser neste momento um factor de coesão e de unidade nacional. Portanto dizemos-lhes, com a autoridade de sermos um partido maioritário na representação do povo português, que será melhor eles escolherem uma outra individualidade que dê mais garantias de apartidarismo real, para que possa formar um governo de coligação nacional. (...)

O MFA que faça pois atenção, porque a hora é de autocrítica, é de emendar os erros passados. E esse MFA que iniciou esta revolução que foi chamada justamente a mais bela da Europa, uma revolução das flores, esse MFA se escutar a voz do Povo, tem todas as condições para, aliado ao Povo, poder salvar ainda a nossa revolução que está em perigo, porque há aqui e ali manchas de contra-revolucionários que querem polarizar à sua volta o descontentamento provocado pelo sectarismo e pelo fanatismo intolerável dos sociais-reaccionários que são a direcção do PCP». (...)

Este foi um dia de vitória. Tenhamos confiança no futuro, tenhamos confiança no nosso Povo. A revolução está em marcha e não pára.

Venceremos!»
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14.3.18

14.03.1975 – «O dia em que o capitalismo se afundou» (M.Soares dixit)



As semanas que se seguiram ao 11 de Março de 1975 foram naturalmente ricas em acontecimentos e convulsões. Três dias depois, no dia 14, para além de ser criado o Conselho da Revolução, deu-se a nacionalização da Banca e dos Seguros. 

Da imprensa da época:

«As nacionalizações são saudadas à esquerda e não são contrariadas à direita. O PPD apoio-as, aliás, embora previna que “substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de Estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa”.
Mário Soares mostra-se mais expansivo. Eufórico mesmo, considerando aquele “um dia histórico, em que o capitalismo se afundou”. Dirá, a propósito o líder socialista, num comício: “A nacionalização da banca, que por sua vez detém (...) a maior parte das acções das empresas portuguesas e, ao mesmo tempo, a fuga e prisão dos chefes das nove grandes famílias que dominavam Portugal, indicam de uma maneira muito clara que se está a caminho de se criar uma sociedade nova em Portugal”.»  (Realce meu)

(Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, edições Expresso / Público, 2006, p. 28.)
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3.12.17

A estrada



«Julho de 1975. O pátio era enorme. Alinhadas a régua e esquadro, as modestas casas térreas desenhavam um rectângulo. Duas portas. Uma para um corredor apertado. Outra para a liberdade das dunas de areia. Pequenas, tinham cozinha e quarto. A casa de banho era ao fundo, só uma, para 13 casas. E uma bomba para tirar água. Era ali, que famílias de pobres trabalhadores passavam as férias. Para mim, era uma festa. Um ritual. Um mês na praia. Prevenia as doenças de Inverno e esquecia os deveres da escola. Brincava até o sono vencer. Os amigos eram todos os anos os mesmos. O João, engenhocas, o Paulo, traquina, o Jorge, calmo, e o Francisco, a referência, não fosse ele o mais velho. Era tão boa a praia. Os banhos com a digestão feita, os gelados ao domingo, as mãos sujas dos matrecos, o bronzeador e a bandeira verde. E os livros.

Depois de almoçar deitava-me no colchão duro da cama de ferro e lia. E foi naquele pátio de gente honrada que um livro me marcou. A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe. Tal era a brutalidade do patrão e o sofrimento do escravo, que várias vezes soluçava até que desisti. Nunca consegui terminar as 170 páginas. Foi uma etapa da minha infância. Talvez a linha de partida da minha consciência.

Comecei a interrogar a vida. Porque havia pobres e ricos. Porque não éramos todos felizes. E se o meu pai me ajudava a compreender melhor o mundo, Jorge Amado, com Os Capitães da Areia, colocou-me na estrada que ainda hoje acredito que é a que nos leva ao melhor destino. Ávido, comia as palavras de Pedro Bala e Gato. Depressa terminei. E no mesmo dia voltei à página 1. Até ao fim. Novamente.

O Gamelas era um homem forte. Guarda-redes de andebol. Trabalhador. Um amigo. Naquele dia de sol, foi ele que me fritou o bife, as batatas fritas e o ovo estrelado. Foi ele que me levou à praia. E foi ele também que um dia me salvou de eu morrer afogado. Eu não sabia da minha mãe nem do meu pai. Mas a vida continuava feliz no pátio. Só aos amigos se confiam os filhos. Chegou a noite e a minha mãe e o meu pai continuavam sem aparecer. Chegou o meu avô. Levou-me. Sem grandes palavras. Soube depois que a antiga vivenda de um industrial, que admirava Álvaro Cunhal e que a alugara ao Partido, tinha sido atacada, apedrejada e incendiada. A minha mãe e o meu pai estavam lá. Na vivenda.

Colado ao vidro de trás da carrinha do meu avô, descemos a avenida muito devagar. A bonita vivenda de azulejos únicos e candeeiros de loiça estava quase toda destruída. O passeio desapareceu. Arrancado. As pedras foram lançadas contra as janelas e paredes. As janelas desapareceram. As paredes estavam todas picadas da força das pedras. A mancha negra do cocktail Molotov deixava imaginar o pior. Continuei sem saber da minha mãe e do meu pai.

Agosto de 2017. Num colchão melhor mas numa cama de ferro, combato o calor da serra algarvia. Deixo-me levar pela escrita de Miguel Carvalho em Quando Portugal Ardeu. Passaram 42 anos. Para mim, não. Estou novamente na carrinha do meu avô a descer a avenida. E Miguel Carvalho leva-me a descobrir outras avenidas. Avenidas e quelhos que eu desconhecia. Todo o terror da direita portuguesa. Os atentados. Os assassinatos. Os negócios. As mentiras. As bombas. Os tiros. A CIA. A impunidade. O branqueamento. Sinto o meu pai e a minha mãe. Tento imaginar as pedradas. A raiva que vinha de fora e a fibra que vinha de dentro. As cabeças partidas. O carro que incendiaram. O soldado que morreu. Já não me lembro como foi o nosso reencontro depois de descer a avenida. Pouco importa. Sei que durante muito tempo sentia medo. Até à noite em que acordei ao som do tiro de caçadeira. Na rua, e em frente ao portão de ferro, escrito a tinta branca e letras grandes, ameaçavam o meu avô: “Porco comunista, vais morrer.”

Tinha oito anos. Percorri a estrada. Sem medo. Fui crescendo. O pátio desapareceu. A vivenda continua na avenida. Carrego o fardo das interrogações. Podia ter sido colega do Milhazes em Moscovo, dirigente, deputado ou outra coisa qualquer. Nunca quis nada. Só um mundo para todos. Mas não existe. Um mundo para todos. Há que continuar pela estrada.

No dia dos meus 50 anos recebi um abraço e um embrulho. Desembrulho e o papel rasgado faz antever O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch. Está desde então na minha mesa-de-cabeceira. Um ano. O tempo que o estou a ler. Devagar. Rouba o sono. E ao lado, Forte de Peniche-Memória, Resistência e Luta. Devagar. Faz chorar. Fico com insónias.

A estrada continua.»

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2.12.17

A rede terrorista de extrema direita no pós-25 de Abril


Há alguns dias, pus aqui um pdf com o conteúdo do livro Quando Portugal Ardeu.
Fica hoje uma entrevista muito esclarecedora ao seu autor, Miguel Carvalho. De certo modo, até mais frontal do que o próprio livro, na minha opinião.


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25.11.17

Boa leitura para um 25 de Novembro – «Quando Portugal ardeu»




Conhecer um pouco (não tudo) do que foi a direita-direita, sobretudo depois do fim do PREC.

(É possível fazer download.)
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25.11.1975 – Foi há 42 anos e é sempre a minha música deste dia




«Foi um sonho lindo que acabou»
«É um lindo sonho para viver / Quando toda a gente assim quiser»
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21.11.17

21.11.1975 – O célebre juramento no Ralis



A quatro dias do 25 de Novembro, o juramento de bandeira dos cento e setenta novos recrutas do RALIS, em 21 de Novembro de 1975, ficou para a história como símbolo de fim de ciclo, foi uma espécie de canto do cisne de um PREC que acabava.



Imagens e palavras quase surrealistas quando vistas e ouvidas hoje, mas que funcionam para muitos como uma espécie de relíquia de «um sonho lindo que acabou». Um caminho que ficou para trás mas que não se apaga – nunca.

A notícia no Diário de Lisboa do dia:


20.11.17

20.11.1975 – Quando um governo fez greve



Há 42 anos, os jornais anunciavam que, na madrugada de 20 de Novembro de 1975, a Presidência do Conselho de Ministros tinha emitido um comunicado onde explicava que o VI Governo Provisório decidira «suspender o exercício da sua actividade» até estarem garantidas condições para o exercício da mesma. O próprio primeiro-ministro confirmou-o, algumas horas mais tarde.



Na tarde do mesmo dia, teve lugar uma grande manifestação em Belém, com muitos milhares de participantes, convocada pelas Comissões de Trabalhadores da Cintura Industrial de Lisboa e apoiada pela Intersindical, PCP e FUR. Foi pedida a nomeação de um governo «verdadeiramente revolucionário» e gritou-se, repetidamente, «Suspensão é demissão!»

Para além da recordação da efeméride note-se o seguinte: a manifestação foi convocada para o próprio dia, não para semanas mais tarde, e repito que contou com a participação de milhares de pessoas. Num tempo em que não existiam telemóveis, nem internet, foi a rádio, o passa-palavra, telefonemas para empresas e para amigos, que serviram de arautos para a mobilização. E esta funcionou, sem hesitações. Estávamos em período revolucionário (mais exactamente, a escassos dias do fim do mesmo) e havia esperança e espírito de luta – inesquecíveis.

P.S. – Uma recordação anedótica: quando acabou a concentração em Belém, já bastante tarde, estávamos absolutamente esfomeados e nada havia para comer nas imediações. Desesperados, tentámos o restaurante de um hotel e a resposta foi negativa: estavam cheio de retornados e já nada restava. Entre dentes, um colega meu «rosnou»: «A fome é tanta que até um retornado marchava!»

Cinco dias mais tarde… the end.
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9.11.17

09.11.1975 – «O povo é sereno, é apenas fumaça!»



Há 42 anos, a pouco mais de duas semanas do 25 de Novembro, os ânimos andavam bem exaltados, o centrão estava bem alinhado e não havia Geringonça à vista.

PS e PPD, secundados por CDS, PPM e PCP de P-ML, convocaram uma manifestação de apoio ao VI Governo Provisório e ao primeiro-ministro, com o lema: «Pinheiro, em frente, tens aqui a tua gente!». O Terreiro do Paço encheu-se mas ninguém recordaria hoje o facto (todos os espaços se enchiam, dia sim dia sim…) sem as granadas de fumo e de gás lacrimogéneo (mais alguns tiros) que deflagraram durante o discurso de Pinheiro de Azevedo contra as forças à esquerda do PS. Iniciativa de autoria não muito clara e objecto de acusações cruzadas, mas que foi um enorme susto para muitos e gáudio para a esquerda da esquerda que viu a cena em casa, em directo televisivo (as paredes da sala em que estou ainda devem guardar o eco das gargalhadas).

«O povo é sereno, é apenas fumaça!», gritou o então primeiro-ministro, numa tirada que ficou para a pequena história dos últimos dias do PREC.


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