Pedro Santos Guerreiro publicou ontem, no Negócios, uma texto delirante – ou que espelha bem os delírios dos últimos dias (*).
Quer perceber o que se está a passar na política portuguesa? Ora, é fácil. É uma gaiola das malucas onde dois bêbados se encostam para não cair depois de andarem de mota no poço da morte.
Era dar-lhes um valente par de estalos. Enfim, um trambolho, é o que isto é. Uma coisa grotescómica. Palavra de jornalistas, políticos, comentadores, analistas e de uma série de personalidades com mais ou menos prestígio que vão escrevendo sobre a crise política que começou no dia 1 de Julho, com a demissão de Vítor Gaspar. Já bem depois da cena do palhaço. Quem diria? Pelos vistos, todos!
"Era uma metáfora!" Assunção Esteves bem tentava explicar-se ontem à noite, depois de ter feito uma citação, contra os manifestantes expulsos do Parlamento, de uma frase originalmente dita contra o regime nazi. "Não podemos deixar, como dizia a Simone de Beauvoir, que os nossos carrascos nos criem maus costumes". Uma metáfora. Uma metáfora? Mais uma plantada no jardim das figuras de estilo, que ganhou muitas flores desde que a crise política eclodiu. De "galinhas sem cabeça" a "bêbedos agarrados um contra o outro", diz-se e escreve-se de tudo. É a linguagem nesta crise. Ou é a linguagem desta crise. Lembra-se do palhaço? Não é preciso ir tão longe. A última semana e meia basta para estofar almofadas, umas fofas outras duras, de metáforas, imagens, metonímias, alegorias, perífrases e outras figuras de grande estilo.
"É como se dois suicidas se apaixonassem a meio da queda e acabassem por cair numa pilha de colchões", escreveu João Miguel Tavares, um dos cronistas que mais se esforçou na caracterização da crise política, "uma coisa tipo poço da morte, com os irmãos Pedro & Paulo em equilibrismos alucinados em cima de uma mota em alta velocidade". A imagem sugere alto risco. Mas também espectáculo e jogo, que habitam muitas figuras de estilo usadas por estes dias. Casino, poker, xadrez, roleta (e até roleta russa) são imagens repetidas para expressar o ambiente de negociação, de imprevisibilidade, de sorte e azar. Falando em motas: um partido numa coligação "não pode ser uma espécie de 'sidecar' sem travões nem guiador nem embraiagem", lembra Bagão Félix. Aceleremos.
Da condução, ou falta dela, escreveu ainda Fernanda Câncio, ao referir-se a um primeiro-ministro "decidido a, mesmo abandonado e traído pelo seu sagrado Gaspar, amarrar-se sozinho ao leme do barco para o levar". "Naufrágio" encontra-se aqui e ali, falando-se amiúde de "tempestade perfeita" (Manuela Ferreira Leite), imagem usada também por Pacheco Pereira: "Apesar de o Navio ser Fantasma, há uma regra básica que se aplica: os mortos não ressuscitam." Quem falou em mortos? Toda a gente. Num "ambiente digno de um funeral" (João Marcelino), "Cavaco passou a este Governo uma certidão de óbito" (Marina Costa Lobo) e agora "o Governo morreu" (Leonel Moura). Mas "o falecido Governo em funções só será enterrado em Junho de 2014. Entretanto fica insepulto a encher o país de moscas" (Sérgio Sousa Pinto). Pacheco Pereira parece concordar: "Podem vaguear pelas sombras do mundo, podem procurar um porto inexistente, podem assombrar os vivos. Mas o Governo está morto, mesmo que não esteja enterrado. Podem colocá-lo de pé com um andaime nas costas, injectá-lo com formol, pintá-lo com cera, empalhá-lo, mas morto está e vai continuar a estar."