Mostrar mensagens com a etiqueta ciganos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ciganos. Mostrar todas as mensagens

19.11.25

Ciganos, cidadãos de segunda

 


«Imagine que, para combater o crime, bairros inteiros eram classificados como zonas de risco nas quais as polícias teriam luz verde para intervir sem controlo. Ao abrigo desta decisão, os agentes poderiam invadir casas e utilizar drones para gravar e intercetar conversações sem para isso precisarem de autorização de um tribunal. O cenário não é mera ficção: a Eslovénia acaba de aprovar uma lei que o prevê, tendo na mira bairros de moradores ciganos. Nos últimos anos, foram várias as operações de força contra esta comunidade, mas um caso recente de homicídio em frente a uma discoteca, que provocou enormes protestos na rua, levou o parlamento esloveno a elevar a repressão para um novo nível.»

Continuar a ler AQUI.

13.5.25

Combatemos Ventura calando os seus alvos?

 


«Pelo país inteiro, uma comunidade tem-se manifestado contra o homem que, desde que fundou um partido, a tem usado para o voto alimentado por um ódio tão antigo como a existência do povo cigano. Um filão extraordinário, apesar dos ciganos não representarem 1% da população. Um ódio que passou da sociedade para o espaço público. Hoje, canais de televisão referem a etnia de um criminoso, se for cigano, esquecendo-se sempre de falar dela se for branco. Talvez por se acreditar que os brancos não têm etnia. São só portugueses “normais”.

Não é a primeira vez que a campanha de um partido é “perseguida” por um grupo que o contesta. Aconteceu com os lesados do BES, com os professores e, um pouco mais complicado, com os polícias. Desde que cumpram a lei – alguns não a cumpriram e devem ser legalmente penalizados – os ciganos têm direito à sua voz e à sua defesa. E nós não temos direito de dizer que continuem a ser humilhados e insultados em silêncio, com a cumplicidade de quem acha que defender estes cidadãos portugueses custa votos.

Muitos consideram, provavelmente com razão, que esta ação concertada está a dar muitos votos ao Chega. Há até quem acredite, porque acredita que os ciganos estão genericamente à venda, que isto é manobra do próprio partido. Uma novidade: os ciganos, como todos os portugueses, têm redes sociais, grupos de WhatsApp e uma facilidade tão grande de se organizarem como qualquer outra comunidade. Outra: sentem os insultos constantes, a culpabilização coletiva e o racismo como qualquer outro grupo sentiria e, como qualquer outro grupo, são impelidos a manifestarem a sua justa revolta.

As considerações táticas quanto às consequências destes protestos estarão certíssimas, mas não se pode esperar que qualquer grupo se veja a si mesmo como um embaraço coletivo, sentindo, em momentos sensíveis, dever de se calar para não beneficiar quem o ataca. É natural que quem é insultado há anos, perante a passividade de quase todos, não seja dado a grandes taticismos. Limitam-se a fazer-se ouvir, como se fazem ouvir os pensionistas que abordam Montenegro. A dificuldade em compreendê-lo resulta da sua subalternização, mesmo aos olhos dos que supostamente os defendem: deviam, pelo menos até às eleições, calarem-se para não dar armas a quem os usa.

Sim, é provável que os protestos dos ciganos dêem votos ao Chega. Assim como as greves de serviços públicos ou as polémicas em torno da comunidade LGBT, incompreensíveis para muitos cidadãos. Mas a ideia de que os ciganos devem ficar calados, os trabalhadores não devem fazer greves, as minorias sexuais não devem ser escandalosas para não fazer crescer o Chega, parecendo acertada do ponto de vista tático, apenas garante que o Chega cumprirá a sua função: instalar o medo e cercar os alvos que escolhe com um muro de silêncio.

Não preciso de repetir o estafado poema sobre os que foram sendo catados pelos nazis, perante a passividade de todos, até já não haver ninguém para defender quem se calou. Acreditem que, em nome de valores que pareciam mais altos, também não era conveniente defender os judeus (hoje poupados pela direita do ódio, por serem instrumentais para alimentar outros ódios), os ciganos ou os gays.

É-me indiferente se, ao combater processos de estigmatização, insulto e culpabilização coletiva, estou desligado do sentimento maioritário e popular. Basta conhecer a história para saber que, em momentos sombrios como os que vivemos, raramente a decência é maioritária. Se fosse, muitas teriam sido as tragédias que nunca teriam acontecido. Nada disto é novo. Só que, no fim, defender apenas os nossos para fazer frente aos que acreditam num país só para os nossos apenas nos dá a ilusão de combate enquanto lhes damos razão.

O que tem de ser dito é que, como se percebe pelo caos que cria à sua volta, Ventura é fator de instabilidade e conflito. E que nenhum país se constrói sobre a incomunicabilidade e o ódio de que ele se alimenta. O que há para dizer é o que a decência básica manda dizer, sem pedirmos que parte do país se esconda para não lhe dar pasto.»


11.6.23

A questão cigana

 


«É possível assistir hoje, aqui e agora, numa povoação perto de nós, em Portugal (mais no Sul do que no Norte porque é no Sul que se dá uma junção de factores e não porque a razão maléfica germine melhor nesta região), à expulsão de membros de uma população de indesejáveis e até ver graffiti, escritos nas paredes como leis escritas na pedra, que são indesejáveis e devem ser postos “ao bando”, para utilizar uma fórmula antiga, recuperada pela biopolítica? Pode-se, sem temer a lei e protegido pelo silêncio público, tratar uma população como escumalha e encarnação ignóbil da figura dos párias da história, submetendo-a a uma dupla operação – só aparentemente contraditória – que consiste em expô-la e ao mesmo tempo torná-la invisível?

Sim, pode-nos calhar em sorte e se estivermos atentos assistir à repetição dos progroms que têm como objecto, no duplo sentido desta palavra, uma população estigmatizada e tão fortemente etnicizada que essa etnicização é imposta como modo de categorização política. Falo, como já se percebeu, dos Ciganos, os “Tsiganes”, os “Gitains”, os “Roms”, todos esses nomes que mostram bem que houve uma disseminação desse “povo” em toda a Europa. Mas com palavras semelhantes poderia estar a falar dos judeus na Alemanha nazi – dos judeus que desde o final do século XIX suscitaram o medo e o fascínio do capital “sem pátria”, numa época em que se dava a concentração territorial do Estado-nação, na Europa. Tal como aconteceu aos Judeus, os Ciganos também são tratados como gado, muito embora o factor “dinheiro” não lhes diga respeito e o factor “sem pátria” os afecte apenas na medida em que são vistos como “estrangeiros do interior”. A ciganofobia não é censurada socialmente, nem sequer é reconhecida como forma de racismo: é um reflexo de protecção contra gente representada como essencialmente delinquente e traficante. “Essencialmente”, porque se trata, segundo o senso comum, de transmissão pelo sangue que lhes corre nas veias e por determinação biológica.

Já não se pode dizer que são uma “população nómada”: o seu nomadismo tradicional teve que ser abandonado porque desapareceram as condições para praticá-lo: não há as estradas e os caminhos antigos, não há os terrenos sem vedações e sem muros, não há guaridas sem cadeados, não há regras de hospitalidade. Se ainda estão obrigados a algum nomadismo é por motivo de expulsão e porque não há lugar para eles. E nem sequer se procura saber qual é o lugar que eles deveriam ter. O nomadismo, hoje, num tempo em que velocidade anulou o espaço, só é praticável se for chique, como são os “nómadas digitais”. Em 2010, num tristemente célebre discurso em Grenoble, o então Presidente francês, Nicolas Sarkozy, referiu-se aos Roms como exemplo, maior entre todos, dos causadores de problemas que “les gens de voyage” colocam. Em vez de “nómadas”, Sarkozy preferiu uma designação administrativa: “gens de voyage”.

Mas regressemos à terra, à nossa terra, mais a Sul do que a Norte, mais no interior do que no litoral, onde, apesar de tudo, foi conseguida alguma integração. Seja de esquerda ou de direita, o poder local responde, por convicção ou por eleitoralismo, aos desejos da população: e esses desejos consistem quase sempre em evacuar, expulsar, terraplanar, construir muros. Não por determinações ideológicas ou instintivas maléficas, mas porque foram instruídos e habituados a ver essa gente como dejectos: traficantes (mas que outra maneira têm de chegar à “mercadoria”?, renitentes ao trabalho (mas quem lhes daria emprego, se eles contrariassem o reflexo de nem o procurar?), dados a uma procriação demasiado abundante e precoce, com uma “cultura”, se se pode dizer assim, que reproduz no seu interior hierarquias e relações de dominação e de propriedade sobre as mulheres e os filhos que não podem ser toleradas.

Quanto ao poder central, este nunca se mostrou capaz de enfrentar aquilo a que podemos, sem medo das ressonâncias desta locução, chamar “a questão cigana”, que existe há séculos e que foi acumulando hostilidades recíprocas, perseguições, dificuldades de convivência. E isso só estimula a regressão identitária: quanto mais são tratados como escumalha, quanto mais se mostram resistentes (sucessivamente à escravidão, ao holocausto, aos progroms, à exclusão) mais os Ciganos se protegem com o orgulho da “raça” e os enraizamentos culturais. Não sejamos inocentes: uma questão deste tipo não se resolve com voluntarismos e acções avulsas apenas localizadas nalguns focos: exige uma tarefa ingente que mal foi começada.»

.

30.1.20

Ciganos, esses não portugueses…




«"Esta opção reforça a ideia, errada, de que as pessoas ciganas não são portuguesas, excluindo-as do tecido nacional. Por isso, deve ser revertida. As medidas de promoção de igualdade e de combate à discriminação das comunidades ciganas devem ser uma competência da Secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade e não da Secretaria de Estado das Migrações", defende Beatriz Gomes Dias.»
.