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8.10.24

Não há almoços grátis

 


«O Governo quer acabar com a publicidade na RTP, de forma gradual, até 2027. A informação foi confirmada esta terça-feira, 8, pelo primeiro-ministro.»

Ler o texto AQUI.

10.8.22

10.08.1912 - Jorge Amado

 


Faria hoje 110 anos e continuam, com toda a justiça, referências à sua vida, a muitos dos livros, às suas estadias em Portugal.

Recordo o «acessório»: o que foi, entre nós, o retumbante sucesso de Gabriela, cravo e canela, a primeira de todas as telenovelas emitidas pela RTP, entre Maio e Novembro de 1977, com base na obra de JA com o mesmo nome. Companhia da hora do jantar, cinco dias por semana, em casa ou em cafés (eram muitas as famílias que ainda não tinham aparelhos próprios), era assunto generalizado de conversa, trouxe para a língua portuguesa termos e expressões brasileiras e transformou Sónia Braga num ídolo.

A «Gabrielomania» fez parar literalmente o país: a Assembleia da República interrompeu os trabalhos pelo menos quanto foi emitido o último episódio (era vital saber se Gabriela ficava ou não com Nacib...).

No dia seguinte à última emissão, o Diário de Lisboa discutiu o corte de trinta episódios, de que a telenovela terá sido objecto em Portugal. Ver imagem com a notícia sobre a polémica AQUI.
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15.7.22

Fogos florestais enlouquecem os canais de TV em Portugal

 


Zé-António Pimenta de França, um jornalista meu amigo, publicou ontem este texto importante no Facebook:

«Eu deixo pura e simplesmente de ver notícias na TV quando chegam os fogos florestais. Faz-me mal ver a excitação irresponsavelmente criminosa que reina nas redacções de TV pelo país fora. São horas e horas seguidas de directos ininterruptos sem qualquer racionalidade, dignidade ou mais-valia informativa sobre os incêndios.

Ressalvando o caso da RTP, que neste aspecto se tem portado uns furos acima dos canais privados (embora ainda com alguma cedência excessiva ao espectáculo), as direcções de informação dos canais nacionais não estão interessadas em informar de forma digna e racional sobre nada de nada. Estão interessadas é em dar espectáculo e em atrair audiências através de sensacionalismo histérico, veiculado através de directos constantes, mesmo quando não há razão nenhuma para directos. Não fazem informação, fazem entretenimento e captação de audiências utilizando como base material noticioso. A triste coisa que se chama, em linguagem técnica 'infotainment'.

Para isso, despacham equipas de reportagem pelo país fora, atrás dos incêndios, as quais, em regra, para agradar às suas chefias, não hesitam em atrapalhar bombeiros e equipas de socorro em prol do espectáculo voyeurista.

Ainda ontem à noite me ligou, escandalizado, o meu irmão Miguel (que é professor, nada tem a ver com jornalismo) contando-me algo que acabava de presenciar: uma repórter de TV entrevistava um comandante de bombeiros numa frente de fogo, perseguindo-o com perguntas e perguntas sem parar até que o senhor, depois de se ter escusado várias vezes delicadamente a continuar a conversa porque tinha trabalho urgente, sem resultado, acabou pura e simplesmente por virar costas com um grito "Deixe-me em paz! Não vê que estou a trabalhar?"...

Agora mesmo, acabo de encontrar um post do Rui Elias Maltez (o post não está partilhável, por isso optei por copiá-lo para aqui, junto com a ilustração que o acompanhava), narrando uma situação incrível, na qual o repórter Amílcar Matos (TVI/CNN) afirmava, numa intervenção em directo, o seguinte:

"48º, é o n° que se quer atingir, hoje, aqui em Coruche. Se esse número [de graus] for atingido temos record batido e Coruche faz a festa"... enquanto no insersor, uma legenda 'informa' a audiência que "Coruche pode bater hoje recorde europeu"!...

Ou seja, 48 graus de temperatura, um inferno, será uma festa para os coruchenses, diz, todo contente, o Sr. Amílcar! Pasmo total!!!

Esta frase é uma clara demonstração da tortuosa perversidade reinante na 'cultura' das redacções de televisão em Portugal (uma perversidade que já há muito contaminou todo o sistema de comunicação social nacional, sublinho).

Não há aqui nada mais que o aproveitamento mais desalmado e egoísta da desgraça dos incêndios. Zero objectividade, zero empatia, zero preocupação com o drama das populações. Há apenas oportunismo perverso e cruel da desgraça alheia. Faz-me lembrar o caso dos ladrões que aparecem nos grandes acidentes de avião ou comboio, para espoliar os feridos e mortos dos seus pertences. Paralelamente, estes "repórteres" pilham nas emoções das vítimas dos incêndios, mostrando como se afligem e choram ao ver as chamas a devorar as suas casas, colheitas ou animais, as suas vidas a esvair-se em fumo. Fazem deste drama um espectáculo. E insistem e voltam a insistir, sem qualquer espécie de pudor, perguntando uma e outra vez "Onde estava? O que sentiu? E agora que vai fazer?"...

E cuidam sempre de sublinhar a falta de bombeiros, de meios aéreos, para culpar alguém (como se fosse possível algum país ter bombeiros ou meios suficientes para responder a uma catástrofe destas!). Preocupação legítima? Não, apenas a segunda fase do aproveitamento da desgraça, introduzindo o espectáculo de oportunismo político que se segue, invariavelmente. Uma vez as chamas extintas, prossegue o 'infotainment' dos fogos, desta vez na arena política, com acusações e inquéritos, etc...

Lembra-me a amiga Joana Lopes (obrigado!) de algo que era para incluir aqui neste texto e me passou: acresce que a exibição contínua de imagens de incêndios é contraproducente porque encoraja os pirómanos a passar à acção... Isto está estudado e comprovado. Este espectáculo dantesco em exibição permanente nos noticiários só poderá levar mais gente a atear fogos, na esperança de terem o seu momento de glória e de verem os aviões e os bombeiros em acção.

A exibição destas imagens devia ter um tempo máximo permitido (curto, o suficiente para dar a notícia e mais nada) por dia. Desta forma os noticiários ver-se-iam obrigados a dar só o essencial.

Compete aos órgãos profissionais dos jornalistas impor regras e disciplina nesta selva...

Mas os senhores directores de informação das televisões não querem saber disto para nada. Querem é encher os bolsos dos donos dos canais com conquista fácil de audiências voyeuristas que os incêndios garantem...

Esta gente não tem nada a ver com o jornalismo, profissão que pratiquei toda a vida, durante quase quatro décadas. Só nos envergonham a todos! São desprezíveis!!!...

PS: Cada vez mais me convenço mais que o directo é o maior inimigo do jornalismo, na medida em que, ao eliminar ou reduzir drasticamente o papel do mediador (a função central do jornalismo) elimina também a reflexão racional sobre a realidade, que constitui a sua missão essencial. O directo é o princípio da morte do jornalismo porque privilegia a emoção, a qual usurpa o lugar da reflexão e o trabalho de confirmação e contextualização da realidade, essenciais à sua compreensão...»

Fica este inacreditável vídeo:


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8.5.22

Assim continuamos

Liguei a TV na RTP1 às 13h para saber algumas notícias importantes do dia. Os primeiros 13:15 minutos mostram-me que a vitória de um clube de futebol foi, sem dúvida, o que de mais importante aconteceu no mundo desde ontem à noite.
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19.3.22

Razão, excitação, cansaço, desintoxicação

 


«Cobrir, em termos comunicacionais, uma guerra como a da Ucrânia é muito difícil. Implica novas regras de boa comunicação e deontologia jornalística, mantendo as antigas, adaptadas a um conflito com características inéditas. Muitas imagens da guerra actual parecem-se com outras relativamente recentes: bombardeamentos da faixa de Gaza e no Iémen, ataques na Bósnia, na Sérvia, na Líbia, na Somália, na Guerra do Golfo. Do mesmo modo, a presença da memória da II Guerra Mundial, principalmente na imagem das cidades devastadas sem distinção entre prédios “civis” e objectivos militares, parece também servir de comparação. Eu insisti no “parecem” porque penso que esta guerra tem características novas e problemas novos, todos muito centrados na comunicação social.

Há, para já, duas coisas que são novas, até porque a velha máxima de que a quantidade gera a qualidade é relevante, entendendo-se como qualidade não um conceito valorativo, mas uma nova forma de identidade, e que são: a presença maciça da comunicação social, produzindo ou incorporando na sua informação milhares de vídeos, e aquilo a que a CNN americana e a portuguesa chamam “breaking news”, ou seja emissões de quase 24 horas por dia sobre o mesmo assunto, com a excepção nacional, obviamente, do futebol.

Não sei quantos jornalistas estão na Ucrânia e nos países limítrofes, com excepção da Rússia onde não podem trabalhar a não ser clandestinamente, mas devem ser várias dezenas. Isso significa uma cobertura intensiva, desigual no seu valor e dependente do conhecimento, medo e comodismo do correspondente, e que tem sido muito centrada nos refugiados, numa primeira fase, e agora nas destruições civis. Por razões óbvias, as informações sobre a guerra propriamente dita são escassas e muito dependentes do acesso aos campos de batalha. Aqui não há jornalistas “embebidos” como na guerra do Golfo nas unidades militares, quer nas russas, quer nas ucranianas, e é também neste terreno que há muita desinformação dos dois lados. Sabemos pouco sobre a frente de batalha, mas isso é normal na condução de operações militares. O que é grave é que essa ignorância não pareça ser sentida como importante, no meio da multidão de imagens muito mais “populares”.

A transmissão principalmente nas televisões, o meio mais poderoso na sua comunicabilidade e empatia, de 24 horas por dia, levanta sérias questões de qualidade do jornalismo e da sua função de dar a todos, em democracia, informações rigorosas para poderem ter opinião e decidirem. Uma guerra é um tema emocionalmente forte, e 24 horas de guerra por dia presta-se a dois efeitos aparentemente contraditórios: um, um efeito de viciação; outro de cansaço. Quer num caso, quer noutro, o rastro comunicacional torna-se essencialmente emotivo e pouco racional, o que o deixa muito propício à manipulação. No contexto de mentalidade, cultural, social e política, actual torna-se mais um factor agravante da radicalização numa sociedade que já o é em demasia.

Numa democracia, as emoções têm um papel decisivo e tudo as favorece, enquanto a necessidade da razão tem uma vida difícil. As emoções moldam a opinião pública com facilidade, e a razão, não. A comunicação social, principalmente a televisão, que é claramente preponderante mesmo em relação ao papel das chamadas “redes sociais”, comunica facilmente a emoção, e com 24 horas em cima, com uma repetição sistemática de imagens fortes, esmaga a razão. Não podemos deixar que a razão se refugie apenas na reacção do medo, ele próprio uma emoção. O caso da discussão sobre a “zona de exclusão aérea” é um desses casos.

Podemos achar que toda esta imersão emotiva é por uma boa causa, a causa da indignação colectiva contra a violência agressiva de Putin e dos seus crimes, mas não basta ter uma boa causa, é preciso transformá-la em políticas democráticas, no contexto da vida pública em liberdade, e defrontar muitas questões que a emoção não só não cuida, como impede. Políticas de alianças e defesa, políticas energéticas, políticas de independência alimentar, políticas de emigração e refúgio, políticas face à pandemia, políticas externas para além do teatro europeu, políticas de liberdade e contra a censura, tudo numas circunstâncias em que a guerra actual mudou quase tudo. Tudo isto devia estar a ser discutido desde já, para além dos anátemas e da arregimentação, mas isso pode ser mau para as audiências, porque, quer por viciação, quer por cansaço, as pessoas não estão para aí viradas.

Mas sabem qual é alternativa? A alternativa é usar a superficialidade das emoções para fazer uma caça às bruxas, ou para fazer passar pseudo-argumentos que são uma patetice mas circulam. Como, por exemplo, dizer que os ucranianos estão a resistir aos russos porque como povo já tinham resistido à obrigatoriedade da vacinação. Os portugueses pelo contrário, como foram que nem cordeirinhos vacinar-se a mando do “Estado”, não levantariam um dedo se fossem invadidos pelos espanhóis. O desmame das “breaking news” vai ser complicado, mas é necessário.»

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18.3.22

Queridas TVs

 


Uma vaca voadora já tivemos. Mas porta-aviões, só os chineses...

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11.12.21

Rendeiro e televisões



Um país que aguenta que TODAS as estações de TV dediquem horas e horas à detenção de Rendeiro, sem reagir a não ser com lamúrias (e tenho consciência de que isto não passa de mais uma…), nem o Sol e o belo tempo de Inverno que está a ter merece.
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23.11.21

CNN

 


Oxalá não venha aí o dia em que teremos de reconhecer que a CMTV não é nada má!
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23.9.21

Uma incompreensível suscetibilidade



 

«É claro que boa parte dos cidadãos não se dá conta. Até porque sempre conheceu esta maneira de funcionar. Mas há também quem frequente rádios e televisões de outros países europeus. Ou que tenha vivido longos anos longe, sem contactos durante muito tempo com as estações portuguesas. E que, por isso mesmo, saiba comparar com outras maneiras de produzir entretenimento como informação. O que leva naturalmente a uma atitude crítica para com o que rádios e televisões propõem em Portugal.

Tal atitude manifesta-se sobretudo em relação à televisão. Até porque ela é, há longos anos, o ator dominante da paisagem mediática. E, claro está, a crítica endereça-se a maior parte das vezes à RTP. Porque é ela que faz parte há mais tempo do património cultural português. Porque é considerada como “serviço público” e, por isso mesmo, paga naturalmente por todos nós. Quando as privadas existem sobretudo como negócio ou como instrumentos de pressão social, cultural e política. E quando estas mesmas televisões podem mudar de proprietários, como aliás se tem visto. Mas imagina-se dificilmente que a pública possa mudar de proprietário(s) e daquilo que é teoricamente o seu projeto cultural.

Porém, os responsáveis da RTP não gostam nada que os cidadãos-pagadores-da-contribuição-audiovisual façam uso do sentido crítico. Recorrem assim ao velho adágio que estipula que a melhor defesa é o ataque, desencadeando a “bomba atómica” que consiste em acusá-los de “censura”. Mesmo quando críticos há que viveram e foram vítimas da censura, no que consumiam como no que produziam, quando a maior parte dos ditos responsáveis (se não todos) nunca souberam o que isso era.

Ora, não será salutar em democracia que, livremente, serenamente e sem demagogia, haja espectadores que se interroguem sobre a “sua” televisão? Sobre a duração dos telejornais (duas a três vezes superior à da maior parte dos colegas europeus)? Sobre o facto de que, no início dos jornais, quando há títulos, sejam sempre três e que um deles seja obrigatoriamente sobre futebol? Sobre a seleção dos factos de atualidade praticada geralmente; dando demasiada atenção a crimes, acidentes e curiosidades sem relevância social, e ao futebol (quotidianamente cuidado); esquecendo boa parte das vezes a atualidade internacional, societal, económica e cultural, o estrangeiro sendo amiúde tratado apenas a partir de faits-divers; transformando a “cobertura” da vida política em simples seguidismo diário (ou quase) de líderes partidários e ao que foi “cozinhado” previamente pelas assessorias destes, não fazendo o jornalista um elementar relato de síntese?

Não será de facto saudável que haja espectadores que se interroguem sobre a hierarquização e o alinhamento dos temas tratados? Sobre a formulação dos textos, em termos sintáxicos como lexicográficos (e até sobre os erros gramaticais regularmente cometidos na escrita como na pronúncia)? Sobre a raridade das reportagens (no sentido forte do termo) e dos documentos, devidamente gravados, montados e acompanhados pela indispensável voz “off”? Sobre a presença exagerada de jornalistas que mais nada fazem do que mostrar-se e estender o microfone a quase sempre o mesmo tipo de testemunhas, transformando até bastantes vezes a dita presença do/da jornalista numa entrada pela esquerda (ou direita) do ecrã e uma saída pela direita (ou esquerda), com ares por vezes de risível passagem de modelos?

E não será ainda normal que haja espectadores que se interroguem sobre a notória ausência de especialistas da redação nas principais áreas do conhecimento, capazes de pôr em perspetiva e analisar factos importantes da atualidade? E que achem pouco desejável que se recorra a “comentadores” que já fazem isso mesmo noutros jornais (impressos, radiofónicos, televisivos ou digitais), provocando uma lamentável concentração da “opinião” muito pouco pluralista?

Países há nesta nossa Europa em que a crítica dos media é uma atividade permanente de sítios em linha, rubricas regulares na imprensa diária e publicações periódicas especializadas. Por vezes mesmo com críticas ferozes aos programas de entretimento como de informação. Sem que isso provoque a suscetibilidade e muito menos a agressividade a que a direção da informação da RTP Televisão nos tem habituado nestes últimos tempos. Até porque as congéneres europeias têm consciência que os cidadãos mais não fazem do que usufruir de um elementar direito constitucional em democracia. E porque tais críticas os levam a reconsiderar o seu próprio trabalho e a procurar tomá-las em consideração em realizações ulteriores.

Habituada a imperar num panorama mediático nacional demasiado reduzido, a direção da informação da RTP Televisão não suporta reparos e muito menos críticas, estimando-se detentora de práticas profissionais inquestionáveis. Um pouco de autocrítica e de modéstia não lhe faria nada mal. Para bem de todos nós…»

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2.3.21

Hoje é dia de festa?

 

Os canais de TV, de informação e não só, estão quase todos a comemorar o primeiro ano de Covid em Portugal. É para animar os cidadãos confinados? Será que isto vai durar todo o dia? Não saberei porque o comando já exerceu a sua função.
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14.2.21

Isto não é fake

 


Sempre é mais original ser absolvido por incitar à Ressurreição do que a uma Insurreição.
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5.2.21

A mentira no pequeno ecrã

 


«A quem se dispõe a ver e ouvir os principais noticiários televisivos, à noite, pelas 20h, em qualquer um dos principais canais (RTP1 — salva-se a RTP2 — SIC e TVI) é-lhe infligida uma dose superlativa e alongada de notícias e reportagens sobre o Covid-19 que são exactamente iguais às notícias e reportagens do dia anterior, quase iguais às da semana anterior e horizontalmente encadeadas, sem picos nem descontinuidades, nas do mês anterior. A única coisa que difere é o teor de dramatismo, a acentuação, a mímica dos jornalistas (categoria na qual o vencedor absoluto é o clown José Rodrigues dos Santos). Todos os dias, o empenho destes jornalistas em nos fazer imergir na peça que eles interpretam em vários andamentos (perigo, desastre, tragédia apocalipse) deixa-nos obtusos, anestesiados, irritados ou aterrorizados, conforme o nosso grau de permeabilidade e de “literacia mediática”, como se diz hoje. Sem negar a gravidade da pandemia, devemos perceber que quanto mais este jornalismo obeso e com a cegueira da enumeração se aplica a mostrar menos dá a ver, quanto mais imagens nos fornece mais visão nos confisca, quanto mais nos quer convencer de que toca a realidade e a verdade mais produz ficção e mentira. Este jornalismo da mesmice — dos mesmos factos, das mesmas pessoas e do mesmo tom — que encena pela redundância uma ilusão de totalidade (e que, por isso, precisa sempre de muito tempo, é uma espécie de roman-fleuve diário) coloca-nos perante um enigma: os jornalistas fazem-no por genuína convicção, por convicção induzida através de um mecanismo coercivo, ou sem nenhuma convicção, mas enquanto funcionários pragmáticos? Ficaríamos a saber alguma coisa de útil e mais aprofundada se eles se dispusessem a falar da sua profissão e das circunstâncias em que trabalham sem ser para cantar hinos e celebrar os sucessos da instituição que lhes dá emprego. John Maynard Keynes disse uma vez dos seus pares: “Os economistas estão ao volante da nossa sociedade, mas deviam estar no banco de trás”. É justo e razoável achar que Keynes tinha razão em 1946, quando fez essa afirmação, e continua a tê-la hoje. Vão para ele os créditos se dissermos mais ou menos o mesmo de quem vai ao volante deste jornalismo que nos é servido diariamente na televisão (não falo agora dos jornais porque aí, apesar de tudo, a paisagem é menos monótona e mais plural).

Atentemos no seguinte: o canal de televisão que à segunda-feira, num programa de fact-checking chamado Polígrafo, traça “uma linha em nome dos factos”, dizendo-nos “onde acaba a verdade e começa a mentira”, é o mesmo que levou uma hora e meia a mentir-nos no Jornal da Noite que antecede esse programa. Não mente por dizer mentiras ou falsear imagens, não é a actual questão das fake news e da pós-verdade que aqui surge como pertinente ou a solicitar análise. Mente pelo encadeamento de palavras e de imagens, pela poluição discursiva e visual que produz, pelo tom adoptado (a dimensão prosódica do discurso, digamos assim), arrastando-nos para uma das regiões mais poluídas do planeta. Ai, nem palavras nem imagens são zonas a defender. Cumpre-se um formulário que encontrou uma representação eloquente no mais repetido estribilho dos últimos meses: “Hoje há X mortes a lamentar”. Temos à nossa disposição outras maneiras de dizer, de fazer, de dar a ver (mesmo na televisão em Portugal: é preciso dizer que nem tudo se equivale, não há apenas os jornais televisivos das 20h, nem todos praticam o mesmo tipo de jornalismo) que, sem a pretensão de um polígrafo, nos facultam elementos suficientes para percebermos onde está a mentira. Há uma cena do filme Palombella Rossa em que o protagonista, um deputado comunista interpretado pelo próprio realizador, Nanni Moretti, entrevistado por uma jornalista, começa a fazer um relato de lutas ecológicas e políticas travadas por comunidades indígenas do Peru. A entrevistadora, achando o assunto pouco interessante, interrompe-o e faz-lhe perguntas sobre o seu divórcio e o seu estilo de vida. Atingindo o extremo da impaciência, o entrevistado dá uma bofetada à jornalista e grita-lhe: “Ma come parla? Come parla?”, como quem diz: “Como é possível falar dessa maneira? Como posso eu continuar a falar consigo?”»

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2.12.20

Eduardo Lourenço e a santa ignorância

 


As televisões passaram o dia de ontem a falar de Eduardo Lourenço, como seria de esperar. A páginas tantas, a SIC Notícias chamou Reinaldo Serrano, jornalista da casa desde a sua fundação e ligado ao comentário no domínio da cultura. E foi então que surgiu a «pérola» inesperada: 

«O grande legado dele [Eduardo Lourenço] é obrigar as pessoas à reflexão e é uma reflexão contínua. É curioso que ele em muitos textos, sobretudo em crónicas, utilizava uma expressão também lindíssima da literatura e que já ninguém usa: depois da crónica dizia "Vence em...." 2000, por exemplo. Ou seja aquela crónica tinha uma data de validade porque a própria realidade e a sua dinâmica faz com que nada seja definitivo.... » 
O comentário pode ser visto e ouvido AQUI

Ninguém é obrigado a saber que Eduardo Lourenço fixou residência em Vence, no Sul da França, desde 1965, mas todos os que se deram ao trabalho de acompanhar o seu percurso o sabem, pela importância que isso representou na sua vida. O que não devia acontecer era que uma TV chamasse, num dia tão especial, um comentador que desconhece a vida do comentado.
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29.9.20

Catarina Martins no Polígrafo





Independentemente do conteúdo, vale a pena avaliar a agressividade do entrevistador e a firmeza da entrevistada.
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25.2.20

Prós & Contras



«O que valia a pena, e desde há muito, era um Prós & Contras sobre o Prós & Contras»

(André Barata no Facebook)

O de ontem, sobre racismo, foi um horror! Tudo tem limites.
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Vírus à portuguesa



O que as TVs continuam a emitir a propósito do único português atingido é absolutamente vergonhoso! Se se percebe o stress do próprio e da família, já é absolutamente inadmissível que o dito stress seja alimentado (sim, alimentado) por reportagens de telemóvel em punho, onde os próprios exigem outras terapias sem saberem do que falam e pretendem que diplomatas portugueses estejam presentes «à cabeça do doente»

Tudo isto se passa sem qualquer moderação ou filtro e as ditas TVs pretendem apenas espalhar o pânico em Portugal e aumentarem audiências. Devia existir uma qualquer forma de as punir, pelo menos no que diz respeito à RTP, ou ainda veremos José Rodrigues dos Santos apresentar o telejornal com uma máscara atada às orelhas.
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