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22.11.25
21.8.25
11.7.25
Armas para um mundo em chamas
«Em poucos meses, a Europa avançou com propostas para investir até 5% do seu PIB em armamento, justificando-se com a guerra na Ucrânia, a instabilidade no Médio Oriente e o regresso de uma lógica de confrontação militar entre blocos. No entanto, sete meses antes, durante a Cimeira do Clima de 2023, no Dubai, os mesmos governos não conseguiram reunir consenso para garantir que o Fundo Global para Mitigação e Adaptação Climática atingisse sequer 1% do PIB global.
Esta assimetria diz-nos muito sobre as prioridades reais das elites políticas e económicas. Quando o desafio é militar, a decisão é imediata. Quando o desafio é climático – estrutural, difuso e planetário –, a resposta continua a ser adiada. Esta disfunção é, ao mesmo tempo, moral, estratégica e económica.
A crise climática já não é uma ameaça futura. É presente, concreta e cada vez mais letal. Na semana passada, Portugal continental viveu uma onda de calor intensa, com temperaturas que ultrapassaram os 46 graus Celsius e dezenas de concelhos sob risco máximo de incêndio rural. Mas o calor não mata apenas nas florestas. Mata também nas cidades, nos hospitais, nos lares e nas casas onde vivem milhares de pessoas em pobreza energética severa.»
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19.6.25
26.11.24
Demasiada roupa
«Sabiam que para fabricar uma simples T-shirt de algodão são necessários 2700 litros de água doce, a quantidade média que uma pessoa bebe em dois anos? Ou que, em 2020, o consumo médio de têxteis por pessoa na UE exigia 400m2 de terreno, 391kg de matérias-primas e 9m3 de água, provocando uma pegada carbónica de 270kg?
Este é o avesso invisível da roupa que compramos, por vezes em excesso, em função daquilo a que se chama “moda rápida”. Se estivesse escrito na etiqueta, pensaríamos duas vezes antes de levar mais uma peça, apenas porque está em promoção, a qual provavelmente se soma a várias que já temos no armário.
Será que podemos melhorar a sustentabilidade do consumo de vestuário? Proteger o clima exige seguramente acordos internacionais e cimeiras, como a COP29, que terminou na semana passada, mas depende também de muitas mudanças nos comportamentos individuais de todos nós.
Há várias iniciativas que podem contribuir para esse efeito. Maior reciclagem, considerando que, atualmente, apenas 1% das roupas usadas são recicladas, ou novos modelos de modelos de negócio que facilitem a reutilização.
Essa mesma circularidade também pode ser promovida pela indústria têxtil, como acontece em Portugal com a Têxtil Manuel Gonçalves, para dar um exemplo concreto de uma empresa com uma política de sustentabilidade ambiciosa, inovadora e responsável. É notável o esforço que fazem para usar fio reciclado, aproveitar os desperdícios e até rastrear a origem do fio, uma espécie de fio inteligente, garantindo princípios éticos e de sustentabilidade ao longo da sua cadeia de abastecimento.
Na Europa, todos os anos, as pessoas consomem, em média, cerca de 26kg de produtos têxteis e deitam fora cerca de 11kg, o que justifica que a União Europeia tenha desenvolvido um Plano de Ação, em 2022, para a economia circular, com um conjunto de medidas para tornar os têxteis mais duráveis, reparáveis, reutilizáveis e recicláveis, procurando que a “moda rápida” fique fora de moda. Nesse plano, entre outros aspetos, é criado um passaporte digital para os produtos e previstas medidas em matéria de resíduos.
Outra iniciativa relevante da UE é a do rótulo ecológico que pode ser usado pelos produtores europeus em produtos que respeitam os critérios de sustentabilidade. Esse rótulo dará aos consumidores a garantia de que o produto preenche critérios ambientais rigorosos e devidamente certificados, e que não foi apenas pintado para parecer verde (o chamado greenwashing).
Contudo, a principal ajuda com que cada um de nós pode contribuir é mesmo reduzir o desperdício, evitando comprar demasiada roupa e usando a que temos por mais tempo.»
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16.11.24
Buscar amor no lugar errado
«Depois de, no ano passado, a Cimeira do Clima ter ajudado a perpetuar os interesses económicos dos Emirados Árabes Unidos, o filme negro volta a repetir-se este ano, noutra geografia igualmente inimiga das energias limpas. O Azerbaijão, país-anfitrião da Cop29, tem na produção de combustíveis fósseis quase metade das suas exportações. Na cerimónia de abertura, em Baku, o presidente Ilham Aliyev disse mesmo que o petróleo e o gás eram uma “dádiva de Deus”. Seria cómico, se não fosse ridículo.
De resto, a Cimeira do Clima está pejada de lobistas anticlima: estima-se que na edição deste ano estejam inscritos pelo menos 1773 entusiastas do petróleo, gás e carvão, bem acima dos 1033 delegados das dez nações mais vulneráveis à crise climática. Al Gore, ex-presidente dos Estados Unidos, recorreu a uma imagem curiosa para expor esta disformidade concetual: “Há uma velha canção country do Nashville chamada´‘Looking for love in all the wrong places’ (à procura do amor em todos os lugares errados)”.
O combate às alterações climáticas só é eficaz se houver boa vontade (e muito dinheiro) dos países desenvolvidos. Sem a ajuda deles, as nações mais desfavorecidas jamais terão capacidade de intervenção contra os fenómenos extremos. Mas não é aceitável que as Nações Unidas continuem a patrocinar eventos desta natureza em petroestados, ao mesmo tempo que vão dramatizando o discurso público e apelando à urgência de medidas radicais. A causa ambiental, já tão fortemente desacreditada por ambientes tóxicos e tribos negacionistas, não ganha nada com exercícios de automutilação institucional como este. A temperatura do planeta tem de baixar. A hipocrisia também.»
15.11.24
Inundações "bíblicas" e furacões "monstruosos" no horizonte
«Em Baku, os líderes mundiais estão reunidos para a COP29. Pelo menos alguns, porque grandes nomes como os chinês Xi Jinping, o americano Joe Biden, o indiano Narendra Modi, mas também o alemão Olaf Scholz ou o brasileiro Lula da Silva parecem ter tido algo mais premente na agenda do que esta Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.
Um sinal de que, mesmo nos casos em que o ambiente é uma preocupação, a urgência em agir não é muita. E nos EUA a perspetiva é que venha a piorar, uma vez que o presidente eleito Donald Trump já deixou claro que mal tome posse, em janeiro, voltará a tirar a América dos Acordos de Paris sobre o Clima. O homem que considera as alterações climáticas “um grande embuste” já tirara o país do acordo de 2015 no seu primeiro mandato e promete agora dar novo fôlego aos combustíveis fósseis.»
3.11.24
Inconsciência ambiental
«A tragédia que inundou Espanha nos últimos dias despertou-nos para os efeitos catastróficos das alterações climáticas. Centenas de vidas perdidas, um registo incontável de desaparecidos, um quadro medonho de destruição que deixou a Comunidade Valenciana mergulhada num cenário de guerra. Quase sem darmos conta, passamos de simples sinais e alertas validados cientificamente para as consequências trágicas destes fenómenos extremos. Choveu tanto num dia como num ano inteiro. E sabemos que voltará a acontecer, cada vez com mais frequência. Ainda assim, meio Mundo ignora as evidências, ridiculariza as lutas de jovens inspiradoras como a sueca Greta Thunberg, tantas vezes os mesmos que surgem depois, travestidos de especialistas, a clamar por mudança nas práticas que nos conduziram à emergência ambiental. Um problema de dimensão global não se resolve a atirar tinta para obras de arte ou na direção de políticos, é certo. Mas ignorar será sempre pior, gerando consequências ainda mais devastadoras. As novas gerações, imbuídas de uma consciência ambiental mais vincada, são a única esperança. Precisamos de ser mais produtivos, mas a exploração dos recursos naturais tem de evoluir em harmonia com o futuro da Terra, cujos gritos de sobrevivência são audíveis em tragédias como a de Espanha. Compete aos governantes, em particular, e à sociedade, em geral, comandar este processo e, definitivamente, encostar às cordas os negacionistas, que estão em todo lado, sobretudo associados a movimentos extremistas de direita. Apontemos a novas dinâmicas, otimistas e responsáveis, porque o tempo é tão curto como relativo, mas o espaço não tem limites. A margem para evoluirmos é inesgotável, ao contrário dos recursos do planeta, pelo que devemos ter isso sempre presente. A mudança depende de todos e começa em cada indivíduo, cabe aos políticos acrescentar-lhe escala.»
30.10.24
8.9.24
21.8.24
Fornos escaldantes
«A canícula está no seu auge e os últimos dados sobre o calor são avassaladores. Entre 22 de julho e 16 de agosto, onze dos 18 distritos em Portugal continental passaram por, pelo menos, um dia em alerta devido ao calor. 22 e 23 de julho foram os dois dias com a temperatura média global mais elevada registada no planeta, sendo que este ano terminará, muito provavelmente, como o mais quente em todo o Mundo. Diariamente, especialmente nas cidades, deparamo-nos com a evidência de que aumento das temperaturas é também uma crise de saúde pública. Mais de 47 mil pessoas morreram na Europa no ano passado devido ao calor, das quais 1432 eram portuguesas. A acrescentar que, em duas semanas, o país registou mais 700 mortes do que o esperado devido às altas temperaturas e ao aumento de transmissão de covid. Em Portugal, mais de metade da população reside em cidades e muitas delas não estão preparadas nem para o calor nem para o frio. Os materiais de construção das ruas e dos edifícios promovem ilhas de calor. Ao mesmo tempo, o tráfego é um dos maiores emissores de gases com efeito de estufa, os principais responsáveis pelo aquecimento global. Pelo que questionar ou boicotar diretamente as medidas para reduzir a utilização de carros nas cidades deveria ser politicamente inadmissível. Tanto o Governo como os municípios podem tomar medidas para evitar transformar as cidades em fornos escaldantes durante o verão, como aumentar as áreas verdes e o número de árvores, cuja sombra pode baixar a temperatura entre seis e oito graus. Por exemplo, Paris plantou mais de 63 mil novas árvores entre 2020 e 2023. Em contraste, as cidades portuguesas, como Porto ou Lisboa, estão a perder todos os dias árvores nas suas ruas, apesar de ambas terem programas de plantação. A nova arquitetura desenha praças sem sombra, inóspitas para os habitantes. É bom que quem tem responsabilidades nos municípios comece a lembrar-se que os construtores não podem governar o planeamento urbano.»
António José Gouveia
24.7.24
18.6.24
Gaza e o clima são duas crises e uma só indignação
«As novas gerações — porque são sobretudo elas que o fazem — protestam contra o suicídio colectivo que as alterações climáticas representam, e protestam contra as consequências trágicas do que se passa em Gaza, porque ambas merecem a mesma indignação, pela angústia da impotência que provocam e pelo desconforto da injustiça que alimentam. Essa indignação é fácil de perceber, tão fácil de subscrever.
A crise climática e a crise humanitária criam um sentimento de impotência individual e uma raiva de grupo na crítica da hipocrisia de Estados e governos que só se preocupam com elas na aparência dos discursos solenes. Um discurso duplo, ambíguo.
À ansiedade climática associa-se agora uma ansiedade humanitária e um activismo mais combativo. São duas ânsias e atitudes que não se auto-excluem nem sobrepõem. Pelo contrário, as duas complementam-se como visão crítica de um mundo governado por uma classe política encarada como falsa e cínica, capaz de sacrificar o planeta e o respeito pela vida humana, em nome de interesses opostos aos valores que tanto gostam de incluir nos seus discursos sobre a superioridade moral e ética das democracias face às tiranias.
Encontros como as COP e os protocolos de Quioto são boas intenções ultrapassadas pelas segundas intenções das potências dominantes e poluentes, que geram descrença e revolta. Na última COP 28, os activistas do clima defenderam a inclusão da Palestina no debate sobre a justiça climática global e reuniram-se à volta de campanhas como #NoClimateJusticeWithoutHumanRights.
A repetição dos ataques a Gaza, que vitimam a população civil, sem qualquer protecção, e o seu prolongamento indefinido cria uma incomodidade semelhante: como lidar com a impotência e a ansiedade destas imagens? A ecoansiedade ou a ansiedade para com Gaza têm um vírus em comum: a inacção. E a exigência de justiça como obrigação ética.
Esta discrepância entre uma crescente ansiedade, que exige mais acção, e o desinteresse dos Estados, que se confunde com inacção, aprofunda um abismo geracional e político entre quem representa e quem é representado.
Os partidos continuam a ignorar as mudanças sociológicas do eleitorado, particularmente estas inquietudes geracionais, relacionadas com a forma de governar e não com a forma de taxar impostos, e a actuar como se o mundo não estivesse em transformação, à excepção de acharem prioritário passar a mensagem política no TikTok e nos programas televisivos da manhã.
Este desfasamento mina a confiança no sistema de representação. Quem protesta convence-se que o coro de indignação a que pertence é ignorado pela classe política, e que esta promete justiça como uma noção meramente instrumental e utilitária, em negação de qualquer imperativo categórico kantiano, que tanto discurso inflamou sobre a superioridade ocidental.
Felizmente, a direita radical não sabe como lucrar com esse descontentamento, ou porque nega as alterações climáticas ou se está a borrifar para elas, mas sabe lucrar com quem pertence à mesma geração e a quem a inacção não perturba. O sectarismo à esquerda afunila-se numa estratégia de combate, o que faz com que o pluralismo seja uma extravagância dos dois lados da barricada, que não tem como consequência o alargamento da sua base de apoio.
Quer num caso, quer no outro, tem sido a Organização das Nações Unidas, enquanto organização, e não o seu Conselho de Segurança, que mais se tem batido para que o mundo acabe com a sua inércia.
O ano passado foi o mais quente de que há registo e o secretário-geral da ONU não se tem cansado de alertar para o facto de termos passado da era do aquecimento global para a da ebulição global e para a necessidade de uma “bóia de salvação” para a Terra.
Como nunca tinha acontecido em outra guerra, as instituições e funcionários das Nações Unidas e de organizações humanitárias (para não falar nos jornalistas) transformaram-se em alvos militares, como observou ao PÚBLICO o subsecretário-geral da ONU e director executivo da UNOPS, a agência da organização para as Operações. A ninguém nesta guerra é atribuído o estatuto da neutralidade.
António Guterres e Jorge Moreira da Silva não se conformam com a passividade com que assistimos à acelerada destruição do planeta e à inconcebível destruição da mais básica das básicas noções de humanidade. Os dois têm denunciado o que deveria ser denunciado ou sustentado pelas principais democracias dominantes sentadas no Conselho de Segurança e fazem-no com coragem e determinação, em nome de valores que não se transaccionam.
Infelizmente, a tentativa de acção da ONU não tem conseguido romper a inércia dos Estados. A carta das Nações Unidas não pode ser uma letra morta.»
26.5.24
O limbo dos refugiados climáticos
«O limbo dos refugiados climáticos
«Segundo um relatório do Internal Displacement Monitoring Centre, desde 2008 mais de 376 milhões de pessoas foram obrigadas a deslocar-se involuntariamente devido a cheias, tempestades, terramotos e secas. Em 2022 tivemos o recorde anual de 32,6 milhões de pessoas deslocadas por eventos climáticos. O Institute for Economics and Peace prevê que até 2050 o número total de refugiados climáticos chegue aos 1,2 mil milhões. Mas o que é um refugiado climático?
A definição não é clara, e o conceito não está abrangido pela Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951, que define o que é um refugiado, estabelece os direitos a quem é concebido o direito de asilo, assim como as responsabilidades dos Estados que o concedem. Segundo esta Convenção, um refugiado é um indivíduo que tem razões legítimas para temer ser perseguido segundo a sua raça, religião, nacionalidade, ser membro de um grupo social ou pelas suas opiniões políticas que não consegue ter proteção por parte do seu país. Em nenhuma destas categorias se enquadra a deslocação por força das alterações climáticas.
Enquanto os tratados universais dos direitos humanos não referem um direito específico a um ambiente saudável e seguro, todos os tratados das Nações Unidas reconhecem a ligação entre o ambiente e um número de direitos humanos, como o direito à vida, à saúde, à comida, à água e à habitação. Todas estas áreas são suscetíveis de interferência por parte das alterações climáticas.
Desde a 24.ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP) que se tenta definir este conceito. No entanto, os países integrantes têm declarado que preferem resolver e mitigar os efeitos das alterações climáticas na sua origem, como a diminuição dos gases de efeito de estufa. O problema desta narrativa é que já sentimos os efeitos das alterações climáticas. Em setembro de 2023, a tempestade Daniel vitimizou 12.000 vidas na Líbia e 40.000 pessoas foram forçadas a realojar-se. No verão de 2023, as cheias na região Emília-Romanha, em Itália, matou 14 pessoas e 50.000 ficaram sem as suas casas.
No ano anterior, cheias no Paquistão desalojaram mais de dez milhões de pessoas. Estes cenários tendem a piorar, e se é verdade que a maioria destas pessoas se desloca para outras regiões do seu próprio país, existem muitas outras que não, o que leva a que fiquem num limbo jurídico e prático. Durante uma audição do Comité Europeu Económico e Social, Isabel Borges, professora da Universidade de Oslo, explicou que a falta de uma definição do que constitui uma pessoa deslocada por motivos climáticos resulta na incapacidade de medição das pessoas afetadas.
No entanto, mesmo dentro das Nações Unidas não existe consenso em relação a definir um “refugiado climático”. Um refugiado pressupõe na sua definição jurídica que está impedido de regressar ao seu país de origem por perseguição do próprio Estado, tal não acontece em desastres climáticos. A solução poderá passar por realizar um novo tratado ou convenção, sendo a próxima COP29, que se irá realizar em novembro no Azerbaijão, o momento ideal para se retomar este diálogo e encontrar uma solução para os futuros refugiados climáticos.
No que toca à ajuda financeira, as próximas eleições europeias deveriam também debater estas questões, visto que o Sul Global é a região mais afetada pelas alterações climáticas e os Estados-membros têm uma dívida moral para com esta região. Uma solução seria a União Europeia alocar a receita do novo Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM) a fundos de emergência para apoiar as populações que mais vão sofrer.
Sendo considerado por muitos como um imposto ambiental, não fará sentido a sua receita ser alocada à mitigação dos resultados das alterações climáticas e não ao orçamento geral da União Europeia como está previsto?»
11.12.23
A frágil casa comum
«Lenta, demasiado lenta a resposta ao aquecimento global. Se olharmos com realismo para o que está defronte dos nossos olhos, percebemos facilmente que a corrida parece perdida. Resta-nos mitigar os danos. E mesmo isso não será fácil. Reunidos nos Emirados Árabes Unidos, dirigentes de todo o Mundo repetem o cenário deprimente de sucessivas cimeiras do clima. Há, como de costume, interesses a sobreporem-se à defesa do Planeta - como se algo pudesse assumir mais importância do que a proteção da nossa casa comum.
São sempre os mesmos de um lado e do outro da barricada. Os países desenvolvidos de um lado, no outro os países mais pobres, os mais expostos, os mais explorados, vítimas de processo de colonialismo, de exploração, de verdadeiras extorsões de recursos. São esses os mais vulneráveis às alterações climáticas, são esses a quem faltam condições financeiras para dar uma resposta adequada. Os outros, os ditos países desenvolvidos, também atingidos cada vez com mais frequência pela fúria do clima, mesmo assim, dispõem de condições financeiras para proteger as suas populações.
No Dubai, afina-se por agora o texto final. Será publicado amanhã. Resultado de uma negociação dura, feita sílaba por sílaba, palavra por palavra, para que, no final, todos possam cantar vitória. Mesmo sabendo, eles e nós, estarmos perante mais uma derrota. Os Estados Unidos não aprovam um texto onde os países desenvolvidos se comprometem a financiar a mitigação do impacto das alterações climáticas nos países mais vulneráveis. Ou seja, recusam um facto indesmentível: que os mais ricos foram os maiores poluidores até agora.
Há assuntos mais importantes, neste momento, para as grandes potências. No país do Tio Sam, a prioridade é o financiamento da guerra israelita. A política mais cínica não muda, quer se trate do futuro do Planeta ou de um povo. Os mais frágeis perderão sempre.»
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7.12.23
O boom da extrema-direita está a matar a ação climática
«A chama da extrema-direita está mais brilhante do que nunca. No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, tal afirmação teria provavelmente sido recebida com risos de escárnio, mas a verdade é que hoje, os disruptores da extrema-direita têm vindo a adquirir cada vez mais peso um pouco por todo o globo, com a Europa e o nosso país a não serem exceção. Tirando partido de uma onda de ressentimento resultante da pandemia, de constantes crises sobre o custo de vida e da fatura económica das guerras em curso, personagens exuberantes, quase cartoonescas, como Milei, Wilders, Trump e até Ventura, têm vindo a propagar-se como fogo.
Isto não deveria ser novidade, mas a extrema-direita comporta diversos riscos aos valores democráticos e à coesão social. Os seus proponentes apresentam frequentemente características de imprevisibilidade, reatividade e uma tendência para resistir a avanços anteriores de base liberal, particularmente no que concerne a assuntos climáticos e ambientais - uma arena onde os riscos atingiram proporções sem precedentes.
Em 17 de novembro de 2023, a temperatura da Terra ultrapassou pela primeira vez o limiar crítico de 2 °C e a um mês do fim do ano, 2023 está prestes a tornar-se o ano mais quente alguma vez registado. Nos próximos dias, todos os olhares irão convergir sobre a COP28, sendo a cimeira internacional reconhecida como a potencial última oportunidade do planeta para evitar exceder o perigoso limite de segurança de 1,5 °C. O foco dos especialistas gira em torno do que é visto como o desafio supremo: forjar um acordo global e abrangente que aborde de forma inequívoca a tarefa imperativa de reduzir decisivamente as emissões de carbono. No entanto, mesmo que tal aconteça, os fios de esperança poderão ser cortados a qualquer momento, se a tesoura da extrema-direita continuar a retalhar a manta política internacional.
A estratégia empregada pelos populistas de direita é bastante simples e é também aplicada em medidas de outro cariz, mas ao denunciar a transição verde como uma despesa substancial, elaboram uma narrativa que enquadra estas iniciativas como potenciais ameaças à estabilidade económica e laboral, capitalizando assim os medos mais fundamentais das pessoas. O objetivo principal é moldar a opinião pública em apoio da sua campanha, que pretensamente garante segurança de emprego.
Esta tendência tem-se manifestado um pouco por toda a Europa. Em Espanha, o Vox condenou a lei climática de 2021 do país como um "regresso às cavernas e à pobreza". De forma semelhante, na Suécia, o governo de direita reduziu os impostos sobre os combustíveis e revogou o embargo à extração de novos combustíveis fósseis, invocando potenciais prejuízos para a competitividade das indústrias e das famílias. E, há poucos dias, a oposição dos agricultores holandeses aos limites de nitrogénio contribuiu em grande medida para a vitória de Wilders.
Como se não bastasse, esta estratégia vem exercer pressão sobre governos em exercício e partidos políticos que normalmente favorecem medidas climáticas. Temendo uma perda de apoio popular, estas entidades vêem-se obrigadas a proceder a uma reestruturação estratégica.
Encontrar um equilíbrio delicado entre a responsabilidade ambiental e a resposta às preocupações económicas alimentadas pela narrativa de extrema-direita torna-se um desafio premente. A situação na Alemanha é um perfeito exemplo. O partido AfD, negacionista climático, tem criticado veementemente medidas como a eliminação progressiva das centrais nucleares alemães e a proibição dos motores de combustão interna, o que pressionou o governo de Scholz a abandonar iniciativas de mitigação climática, como a suspensão de um projeto de lei que previa a proibição de caldeiras a gás nas habitações.
Este desvio de foco poderá ter consequências desastrosas para o estado do planeta. Numa altura em que vários países europeus se preparam para eleições legislativas no próximo ano e a poucos meses da votação para o Parlamento Europeu, os governantes liberais estão mais preocupados com as urnas do que com o combate às alterações climáticas, falhando em transmitir eficazmente ao público os riscos da inação.
Sim, a transição energética é dispendiosa, 5,5% do PIB mundial em 2050, para ser exato, mas à medida que a crise climática evolui, o fracasso pode significar um custo de 20% do PIB mundial no mesmo ano, o que levaria a uma crise económica de proporções bíblicas.
Os órgãos de governo têm a obrigação de garantir que os eleitores entendam que os investimentos verdes são um caminho para uma prosperidade social duradoura. Mas esta comunicação deve ser efetuada de forma a evitar que a resistência faça descarrilar a jornada para o objetivo de net zero.
Embora difícil, é imperativo reconhecer que a prevenção da ebulição global e a redução da ascensão da extrema-direita são desafios interligados. Abordar um sem o outro não é viável, pelo que não temos outra opção senão enfrentar ambas as forças em simultâneo. A abordagem que os líderes liberais escolherem será mais critica do que nunca.»
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2.11.23
3.10.23
O mundo e o clima
sto não é catastrofismo, é a realidade. Não vale a pena mergulhar a cabeça na areia. Vivemos a época do Antropoceno, em que a acção humana tem um impacto sobre o planeta, que se pode tornar incontrolável. Não é a sobrevivência do planeta que está em questão, é a sobrevivência do Homo sapiens. A vida existe sobre a terra há 3,5 biliões de anos, a espécie humana só existe há 200.000 anos.»
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24.9.23
Deus sacode o mundo
«Imaginemos por momentos que Deus, preocupado com os habitantes de uma das suas esferas celestes, o planeta Terra, tenciona sacudi-los três vezes seguidas, em conformidade com a Trindade na criação do mundo. Não será, como nunca é nos movimentos divinos, um gesto de intenções claras. No entanto, e disso se tem a certeza, não é coisa inteiramente planificada, ou socialista; não se trata de com três toques empobrecer os 1% de muito ricos e enriquecer os restantes 99% da população. Deus, melhor do que ninguém, conhece os sistemas terrestres e sabe que essa é uma solução irrealista: o planeta não aguenta a generalização da abundância. Numa aritmética espacial simples, para cada ser humano ter o tipo de vida de um alemão de classe média, seriam necessários três planetas Terra. E, portanto, a sua intenção é outra, talvez mais excelsa. Sabemos que Deus nem sempre sabe o que faz até ao pormenor, como bem se vê se olharmos para nós como uma criação Sua. Mas importa agora saber que Ele nos tenciona abanar. Como a sacudidela é espiritual, em terra nada vai tremer, mas será sentida no coração de cada um com grande estrondo e tremor. Gestos assim tendem a provocar todo o tipo de imprevisibilidades; era de facto importante que Deus explicasse o que O faz desejar interferir de forma tão descarada e, já agora, que fosse claro relativamente aos resultados pretendidos.
Como este Deus é inventado por mim, posso convidá-lo para um copo e fazer-lhe as perguntas que importam. Já se tinha bebido bem, quando, com um ar pesaroso, Ele confessa que até agora tem vindo a ser sensível ao clamor derradeiro de Cristo: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem. É ao abrigo deste pedido, desta margem de erro assente na ignorância, e também no pressuposto beckettiano do falhar, falhar melhor, que tem vindo a olhar para a Terra e para a humanidade. O caso muda de figura, quando começa a sentir que querem que lhes perdoe porque sabem o que fazem, ou seja, pedem perdão ainda que sabendo estar a errar — e isto apesar de estar inteiramente à sua disposição acertar. Sentiu sérias dificuldades perante este novo pedido, que lhe parece inaceitável do ponto de vista da sustentabilidade cósmica. De resto, para qualquer Deus, aquele que a nível astral é conhecido por trajeto ecocida, é motivo de grande desassossego, uma vez que se vira contra a Criação.
E quanto aos resultados pretendidos com a sacudidela? Esclarece que revelar as suas intenções seria abdicar da prerrogativa celestial de escrever direito por linhas tortas; que isso nem o vinho lhe arranca. Garante apenas que nos vai trocar as voltas e que nada será como dantes. Mas trata-se de um salto cognitivo, qualitativo? Vamos ficar melhores pessoas? Silêncio divino; Deus ter-me-á deixado, porventura de regresso ao infinito. Resta-nos a nós — como sempre resta — projetar as desejáveis consequências deste prometido triabanão.
Na manhã do primeiro dia depois do tremor, imagino que todas as pessoas com mais de 45 anos são acometidas por uma onda severa de ecoansiedade. Choram quando leem notícias sobre a iminente extinção dos corais ou do leão-africano; revoltam-se com imagens de refugiados climáticos e com os fogos em que morrem milhões de animais. Agem, organizam-se, movendo as suas esferas de influência. Consequentemente, nesse mesmo dia, os mais jovens acordam com uma esperança extraordinária, nunca até aí sentida.
Bastaria este trocar de voltas para que nada fosse como dantes? Eu, terrestre, acredito que sim. A Deus desejo uma ressaca tranquila e pleno vigor nos gestos futuros.»
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