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25.10.25

Autárquicas, social-democracia e populismo moderado

 


«As últimas eleições autárquicas podem resumir-se, de um modo algo simplista, da seguinte forma: o PSD ganhou, o PS perdeu, mas demonstrou que continua a ser claramente o segundo partido português com uma implantação no território incomparavelmente superior à do Chega, o Chega cresce, ainda que mais devagar do que nas eleições legislativas, o Livre, o BE e o PCP ficaram numa situação difícil, embora com diferenças entre si.

Isto significa que, no cômputo geral, as eleições autárquicas confirmaram o ciclo de crescimento da direita e da extrema-direita. Refira-se que esta última ganha força não apenas pelas (meras) três Câmaras Municipais que vence e pelo aumento do número de vereadores, mas também (e talvez sobretudo) porque muitos candidatos da direita dita tradicional (e não só) assumiram a agenda e os temas da extrema-direita. É por isso que a imigração, a segurança, a “subsidiodependência” e outros temas caros ao populismo estiveram tão presentes nas várias campanhas, muitas vezes substituindo os assuntos com ¬maior relevância local, como a habitação, a mobilidade, o urbanismo, os espaços verdes, a qualidade de vida.

Atualmente, a direita considera-se sempre moderada e o centro-esquerda é sempre apelidado de radical. Neste contexto, que se repete em quase toda a Europa, há uma tentação inevitável dentro dos partidos socialistas para assumir posições populistas, numa espécie de “populismo moderado” que é incompatível com a social-democracia. Mas esta opção revelar-se-á, a prazo, contraproducente.

Primeiro, no plano axiológico, porque os partidos de centro-esquerda devem manter-se fiéis aos princípios e valores que constituem a sua matriz para evitar um retrocesso social que põe em causa a democracia e os valores que constituem o nosso “chão comum” — igualdade, incluindo entre homens e mulheres, não discriminação, liberdade, solidariedade e respeito pelos direitos civis, políticos e sociais de todos.

Segundo, do ponto de vista estratégico, porque a sobrevivência destes partidos depende da fidelidade a essa mesma matriz, uma vez que só assim marcam a diferença e ocupam o seu espaço na sociedade. A indistinção face aos partidos populistas acabará, inelutavelmente, por beneficiar estes últimos (“entre o original e a cópia…”).

Quer isso dizer que os partidos sociais-democratas não se devem tentar adaptar a este novo ciclo e aos temas que interessam às pessoas (seja esse interesse espontâneo, seja induzido)? Claro que não. Mas fazê-lo implica não ceder à agenda imposta — como ainda agora o PSD cedeu no caso das burcas — e assumir a dianteira nos assuntos que preocupam as pessoas: rendimentos, direitos laborais, direitos sociais, qualidade e universalidade dos serviços públicos (a extrema-direita cresce onde os serviços públicos são piores).

Os partidos sociais-democratas têm de se opor à estigmatização dos sectores da população que estão ressentidos e desenvolver políticas públicas que encontrem soluções para os problemas das pessoas, tanto a nível local como nacional.»


17.10.25

Eleições de Schrödinger: todos ganharam, todos perderam?

 


«Na noite das eleições autárquicas, liguei a RTP Notícias e, a dado momento, dei por mim a deixar de ouvir realmente o conteúdo das intervenções do comentariado político-partidário presente no estúdio, mas antes a forma, previsivelmente entediante, com que todos se proclamavam vencedores, celebrando com regozijo as derrotas dos adversários. Parecia um concurso televisivo cuja única regra era: “Digam o que disserem, mas façam com que pareça que ganhámos a taça.” Um número de contorcionismo (in)digno do Cirque du Soleil.

Que me perdoe quem tem expertise em física quântica pela (des)apropriação científica, mas lembrou-me o gato de Schrödinger: simultaneamente morto e vivo, e cada um assegurava ter aberto a caixa relatando o que vira em relação ao seu partido. O seu gato estava vivíssimo; o do adversário, morto. Esquecendo o essencial: o gato no interior da caixa não deveria ser o partido, mas as pessoas que os partidos dizem representar e cuja vida afirmam pretender melhorar.

Vários dias depois, continuo a ler artigos de opinião sobre as eleições que parecem tratados de matemática. E o povo?, pergunta a poeta. E nós?, pergunta o povo. Não meço a vitória dos partidos pela votação obtida, seja ela mais ou menos elevada, se aumentaram os números, se resistiram, se diminuíram. Já o repeti por aqui, e não só: nenhum partido me interessa enquanto fim, mas enquanto meio. Portanto, meço vitórias a partir do impacto sobre a vida das pessoas. Não é demagogia, é pragmatismo.

Um partido pode subir a sua votação, mas se isso não lhe permite fazer aquilo para o qual deveria existir, perdeu, por muita atividade autossatisfatória exibida em praça pública.

Olhemos para Lisboa. As pessoas do Bairro da Serafina, da Liberdade ou do Bairro da Boavista, aos quais o Dr. Carlos Moedas vai “regularmente tomar cafezinhos” fictícios, estão-se a marimbar para a cozinha eleitoral, e por muito que seja um problema, nem a questão do lixo é a sua prioridade.

As prioridades são as casas onde chove lá dentro; crianças com problemas asmáticos e a humidade nas paredes; habitações sem luz, sem água ou casa de banho; casas minúsculas; rendas indecentes que estrangulam as famílias, que as obrigam a ir para ainda mais longe do seu trabalho e abandonar décadas, gerações de história familiar, afetiva num território; prédios altos com elevadores avariados; canalizações precárias, com um fiozinho de água, cuja pressão, por vezes, nem dá para relançar a água quente — e isto quando o esquentador ainda funciona —; transportes insuficientes para ir para o trabalho, escola, centro de saúde, correios; manutenção dos espaços públicos intermitente e escassa, ao ponto de passarem a ser espaços inutilizáveis ou perigosos, nomeadamente para as crianças e pessoas idosas. Uma descentralidade perpetuada de forma voluntária.

Nunca me esquecerei da alegria quando soubemos da construção do parque recreativo do Alto da Serafina e de como, de forma estratégica, não foi feita uma entrada segura para as crianças do bairro, demasiado pobres, demasiado escuras, fazendo-nos sempre sentir como clandestinos naquele (para os nossos olhos) espaço burguês. Quantas vezes tive de responder à pergunta: “Mas a Serafina e a Boavista ficam em Lisboa?”

/ Tantas contas continuam a fazer os partidos, 8%, 6%, 2%... e pouca importância parece ser dada à abstenção. Ah, mas foi mais baixa do que nas anteriores! Que bom! Palminhas! O gato está vivo! Mais de 40%. Esquerda(s), não será o momento de deixarem de se focalizar em migalhas e refletir em como trazer estas pessoas às urnas? Não será o momento de preparar já as próximas autárquicas em vez de fazer tudo à pressa, esquecendo o caráter local das eleições autárquicas e da importância do tempo longo, da proximidade com as populações e com as associações de terreno? As pessoas sabem quem por lá anda e quem só aparece em tempos de eleições. Não será o momento de divergir e negociar em privado e de se concentrar nos verdadeiros adversários em público? Não será o momento de reanimar o gato?»


15.10.25

A lentidão dos gabinetes

 

«Em março, o Parlamento aprovou uma lei que deu origem a 302 novas freguesias. O objetivo foi permitir (como aconteceu) a eleição dos órgãos das freguesias desagregadas, com um calendário adequado ao trabalho político e à operacionalização no terreno. Chegados a meados de outubro, sete meses depois, ouve-se o alerta do ministro da Coesão Territorial de que o pagamento de salários a funcionários das novas freguesias poderá estar em risco a partir de novembro.

A questão não é, obviamente, de falta de verbas. Elas existem e estão orçamentadas, porque estamos a falar apenas de uma transferência de funcionários que saem de uma União e entram nos novos órgãos que agora irão tomar posse. Como se explica, então, esta dificuldade? Importa recuperar algumas datas que parecem demonstrar que, mesmo quando as questões estão identificadas, tudo se faz com uma lentidão incompreensível.»

Continuar a ler AQUI.

O PCP e a doença infantil do comunismo

 


«Mesmo tentando disfarçar ter perdido, nestas eleições, mais 11 câmaras (tinha 34 há pouco mais de uma década, passando, nesse período, de 213 para 93 vereadores) com a reconquista de Sines, Montemor, Mora e Aljustrel, o PCP foi um dos maiores derrotados do último domingo. Porque nem as quatro novas autarquias compensam a perda de Setúbal (passa de primeira para quarta força, com menos de um terço da percentagem) ou de Évora (passa de primeiro para terceiro, com quase metade da percentagem), mais um recuo no Alentejo e o quase desaparecimento das suas já muito frágeis posições no Norte e no Centro.

O maior problema do PCP é quando se olha para o interior da sua derrota, não ficando apenas pelo deve-haver das câmaras. Não tanto no Alentejo, em que a CDU tem 9% no distrito de Portalegre (cai 5pp, é ultrapassado pelo Chega), 20% no distrito de Évora (cai 4pp, mantém-se como segunda força e mantém o número de câmaras, apesar de a troca ser de Évora por Montemor, com o mesmo autarca) e 27% no distrito de Beja (cai 5pp, mantém-se como segunda força e perde uma câmara). Aí, tendo em conta a mudança sociológica a que temos assistido na região, os comunistas caem mais um pouco, mas resistem. Porque, em meios mais pequenos, o Chega esbarra com a sua falta de quadros e implantação. Por isso teve um quarto das câmaras da CDU. Mas elegeu 137 vereadores, mais 44 do que o PCP.

Cada vez menos popular

O relevante nem foi o Alentejo. É nas zonas suburbanas do norte de Lisboa e na Margem Sul.

Em Almada, o PCP perde um terço dos votos, com o Chega e o PSD a morderem-lhe os calcanhares. No Seixal, que segurou sem dificuldades, o Chega passa a ser a alternativa. No Barreiro, a CDU perde 9pp, ficando praticamente empatada com o Chega. Na Moita, perde outros 9pp, ficando atrás do Chega. No Montijo, passa de 19% para 7%, da terceira para a quinta posição, com o Chega a três pontos de vencer. Mesmo Sesimbra e Palmela são ganhas por menos de 200 votos. E Setúbal foi o desastre que se viu.

Nos subúrbios a norte já não há tanto para cair, mas as quedas relativas até são mais significativas, porque também já não há voto útil para ganhar: a CDU desce quase para metade em Odivelas; de 10% para 7% na Amadora; de quase 30% para 11% em Loures; de 22% para 13% em Vila Franca. Em todas elas ficou atrás do Chega. Se formos ver as freguesias mais populares, a tragédia é ainda maior. É aqui que se dá a decadência do PCP. O que conta é a perda do voto popular que o PCP segurava.

Há sinais de uma tendência estranha, se olharmos para a evolução da votação dos comunistas na cidade de Lisboa, onde resistiram. Mantêm uma junta, mas, mais uma vez, é efeito do candidato local – a vitória com 42% em Carnide cai para 14% no voto para a câmara. A CDU passou, na cidade, de 10,5% para 10,9%. Sobe, em percentagem para a câmara, no Lumiar, Alvalade, Areeiro, Penha de França, Arroios, Avenidas Novas ou Campo de Ourique. Desce, em percentagem para a câmara, nos Olivais, em Marvila, Santa Clara, Carnide, Beato, Santa Maria Maior, Misericórdia, Ajuda, Benfica, Campolide. Algumas delas são exatamente onde o Chega mais cresce. Há alguns resultados menos alinhados, mas, para quem conhece a cidade, a dinâmica na mudança do tipo socioeconómico de voto é evidente.

Quem vê no resultado lisboeta da CDU uma resposta popular ao descontentamento decidiu pegar na lupa e ignorar o que aconteceu à volta e até a natureza deste voto. A inconsequência é da natureza social deste voto, o que pode oferecer-nos um mapa do futuro político dos comunistas, bem diferente do seu passado.

A cegueira da ressaca da geringonça

Este resultado do PCP acontece em simultâneo com a mudança sociológica na cidade, que assiste à expulsão das classes populares e das classes médias. Digo-o há uma década e há uma década que se confirma, com freguesias que antes eram populares ou de classe média-baixa a tornarem-se bairros “finos". Nos últimos oito anos, Lisboa perdeu 30 mil eleitores, passando de 493 mil eleitores para 463 mil. São quase 3500 pessoas a menos por cada ano que passa, numa altura em que a população da cidade se encontra estável. A explicação é simples: as classes médias estão a ser expulsas da cidade onde cresceram, ou para onde vieram trabalhar, enquanto bairros como Campo de Ourique, a baixa da cidade, Belém ou as Avenidas Novas se encontram cheios de reformados franceses ou nómadas digitais endinheirados. É por causa dessa transformação que estas eleições correspondiam a uma enorme urgência. Sem travar a sangria de classe média-baixa, a esquerda arriscar-se-ia a nunca mais vencer a capital, crescentemente transformada num condomínio.

O PCP sabia-o e, ainda assim, recusou participar numa coligação com toda a esquerda com a candidata mais à esquerda que o PS poderia arranjar. Era uma luta contra o tempo em que a esquerda, no seu conjunto, valerá cada vez menos na cidade. Que, perante isto, o grande argumento seja “mas o João Ferreira era melhor” é dos raciocínios mais ausentes de reflexão política que se pode ouvir de um marxista. Será um excelente vereador sem pasta, sem poder, sem relevância para o futuro da cidade e do PCP. Parabéns e que guarde a taça na prateleira das vitórias morais.

Para os vinte mil votos que faltaram, os 26 mil da CDU chegavam e sobravam, sendo até previsível alguma mobilização extra com a dinâmica de vitória. E se olharmos para a estrutura de voto do Chega, percebemos que o mesmo fenómeno nunca aconteceria à direita. Nem o eleitorado centrista o aceitaria, nem o voto do Chega vem esmagadoramente da direita.

Mesmo que a coligação tenha tido menos votos do que a soma dos partidos nas autárquicas anteriores, fosse por causa da candidata, por perda de voto do PS para o Chega ou porque a base eleitoral da cidade mudou no contínuo processo de gentrificação (não se podem fazer comparações de resultados ignorando a mudança de universo), não há como negar que o voto comunista chegaria para fazer a diferença, até porque algum terá vindo dos que votaram no Bloco ou no PS há quatro anos. As análises não podem, aliás, ignorar as dinâmicas que a unidade cria e as que a divisão alimenta. Nem o papel empenhado de desgaste que João Ferreira teve na candidatura e na imagem de Alexandra Leitão.

Como escrevi, a recusa do PCP, a quem foi oferecida a vice-presidência e participação ativa no programa, nada teve a ver com a justa crítica às viabilizações de orçamentos de Moedas, que o PCP também garantiu em várias autarquias de que é crítico. O PCP recusou todas as alianças, fosse com quem fosse (a não ser com o PEV, criação sua). Porque a recusa veio de uma decisão nacional. O PCP tirou uma lição da geringonça: as convergências matam.

O erro dos comunistas, típico de quem perdeu massa crítica para a decisão tática mais fina, é não ter a capacidade de compreender os momentos e os lugares em que a regra não funciona, porque nada sobreviverá pela aplicação cega do dogma. Lisboa era, definitivamente, o caso. Como era Albufeira, contra o Chega, e seguramente Loures, contra o candidato chegano do PS. A luta pela sobrevivência não pode matar as condições para essa sobrevivência. E sem esquerda o PCP não sobreviverá. Nem para bater no resto da esquerda.

Recordar 1989

Em 1989, o PCP teve a inteligência de perceber a excecionalidade que a política sempre contempla. Fez uma aliança com o PS e depois com o resto da esquerda, prescindindo da liderança autárquica, apesar de ser mais forte do que o PS na cidade. A péssima gestão de Abecassis (não tão má como a de Moedas) seria uma razão, mas a compreensão da situação nacional também foi determinante: o país atravessava o primeiro longo domínio de uma direita a meio de uma maioria absoluta que mudaria a política portuguesa para sempre. No contexto internacional, os comunistas viviam o pior ano das suas vidas. Aquela brecha era, foi mesmo, muitíssimo importante. Como foi a vitória de Sampaio contra Cavaco, nas presidenciais, também com o apoio dos comunistas. As similitudes são imensas, o PCP é que não é o mesmo.

Apesar de ter mais 1200 votos, o resultado da CDU correspondeu à perda de um vereador, à queda para o quarto lugar e, mais importante, à perda da que pode ter sido a última oportunidade para tirar a direita da liderança da capital com a frente mais ampla e mais à esquerda que Lisboa conheceu. João Ferreira concluiu, depois de garantir a vitória a Moedas, que o PCP é quem melhor resiste à direita, como se a resistência fosse uma prova de esforço, ausente de objetivos políticos concretos.

O que mudou? Os partidos com implantação social são sensíveis aos impulsos das bases. Têm massa crítica para compreender a realidade e, mesmo definindo uma regra, fazer-lhe acertos. O PCP era, ao contrário do que tantas vezes se diz, um partido pragmático. Veja-se a segunda volta das presidenciais de 1986. Esse pragmatismo tinha uma razão: a busca do poder. É isso que dá consistência, não a pureza ideológica. O PCP já não luta pelo poder, luta pela sobrevivência, pela preservação da identidade, pelo património. Um partido não serve para isso. Para isso erguem-se museus. É esta ausência de pragmatismo que o impede de adaptar a regra à situação, o medo à necessidade.

O quadrado que se estreita

Muitos elogiam a afirmação de princípios vazia de objetivos, confundindo cegueira com coragem. O PCP não é menos sectário hoje do que no passado. O sectarismo passou da tentação de impor uma hegemonia, em que fazia cedências se isso estivesse ao serviço desse objetivo, para um isolamento defensivo. Álvaro Cunhal tinha um termo para esta inconsequência com aparência de firmeza ideológica: “radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”. Lenine chamava-lhe a “doença infantil do comunismo”. Os seus maiores inimigos aplaudem porque, como se viu, tiram daí dividendos.

Isto não acontece apenas na frente eleitoral. O que o PCP está a fazer na CGTP, afastando os poucos resquícios de pluralismo que existiam na direção, no momento em que os sindicatos, no osso, mais precisam dele, é um crime. Custaacreditar que seja possível um partido que vale 3% nas legislativas comandar a maior central sindical do país e afastar as minorias da direção sem que isso a asfixie. Já não é o partido que tinha 200 mil militantes e mais de um milhão de eleitores a abusar da sua posição dominante nos sindicatos, é um partido com 180 mil votantes, em legislativas, a fazê-lo. O primeiro mata o pluralismo sindical, o segundo mata os sindicatos.

A frase estafada "o PCP não faltará, como nunca faltou, às soluções" fazia sentido nos anos 80 e 90 ou até em 2015. Hoje é um bordão sem conteúdo. Falta cegamente. Nunca faltou tanto. Falta porque já não move a luta por uma hegemonia política que assustava a direita. Move-se pela defesa de um património que a direita acha genuíno, porque belamente derrotado. Não é que o PCP não conte, é que não quer contar.

Enquanto desanca em tudo que se mova à esquerda, acusando todos de traição, o PCP é hiper-reativo a qualquer crítica. Mas devia ouvi-las: está a tornar-se um problema para a esquerda, mesmo que nela só incluam os que estão à esquerda do PS. Esta parte da esquerda terá de se reconstruir, se quer existir, como existe em França. Olhando para o PCP, não me parece que tenha interesse em fazer parte disso. Duvido, aliás, que um Livre que sonha capitalizar os despojos das esquerdas derrotadas e um BE moribundo tenham vontade para tanto.

No caso do PCP, a sobrevivência do partido tornou-se no princípio e no fim da sua ação política. Como se a ela fosse indiferente o contexto que ajuda a criar. Não haverá PCP num deserto à esquerda. Essa estratégia morrerá quando não tiver mais edifícios para vender e autarquias para perder. Quer defender o seu quadrado, não percebendo que, assim, ele será cada vez mais estreito. E isso, mesmo que se recusem a ver, ficou evidente nestas autárquicas.»


14.10.25

Lisboa, voto urbano

 


«PS, PSD e Chega subiram as suas votações na Área Metropolitana de Lisboa - mas com o partido de Ventura a reforçar-se em mais de 200% dos votos, esmagadoramente acima, em termos percentuais, do crescimento registado por socialistas (5%) e sociais-democratas (17%).»


As percepções das autárquicas

 


«Há eleições que revelam o país todo, e há eleições que o revelam em partes. As autárquicas pertencem, quase sempre, à segunda categoria. São uma soma de geografias e de personalidades, de afetos antigos e fidelidades locais. A tentação de lhes extrair um mapa nacional é antiga, mas, como todos os vícios políticos, resiste à evidência.

Veja-se Viseu. Laranja durante décadas, o Cavaquistão caiu agora para o Partido Socialista. Seria um sismo ideológico, não fosse o facto de ter nome próprio: Fernando Ruas. A derrota deve-se menos à erosão nacional do PSD do que à fadiga de um poder local sobranceiro.

Ainda assim, o saldo global é inequívoco: foi uma vitória clara do PSD. Recuperou, doze anos depois, a Associação Nacional de Municípios e conquistou as cinco maiores câmaras do país. Carlos Moedas assegurou o segundo mandato, Pedro Duarte venceu no Porto, Luís Filipe Menezes regressou a Gaia, Marco Almeida derrotou a ministra Ana Mendes Godinho em Sintra, e Carlos Carreiras, em Cascais, perdeu a maioria mas manteve o poder (com a grande surpresa a ser João Maria Jonet que, sozinho, conseguiu ultrapassar o Chega). Se é imprudente tirar conclusões nacionais de resultados locais, permitam-me uma excepção: esta foi também uma vitória pessoal de Luís Montenegro. Apostou o capital político do governo para proteger Moedas e dar lastro a Pedro Duarte, e saiu-lhe bem. Foi, em tudo, uma segunda volta simbólica das legislativas. Montenegro não só sobreviveu ao governo, como acabou de ser reeleito pelo país.

Mas há outra leitura, menos triunfalista. O PSD venceu porque aprendeu a falar a língua do tempo. E o tempo é securitário. Pedro Duarte, no Porto, preferiu as percepções aos dados e tratou a insegurança como um rumor palpável. Moedas, que já tinha o discurso oleado a esse propósito, fez o mesmo em Lisboa. Em Sintra, Marco Almeida contou com o selo de Passos Coelho e levou até ao voto a tese de que as linhas vermelhas já não servem para nada. Foi uma vitória do pragmatismo, mas também do mimetismo: o PSD passará agora a acreditar que a forma mais eficaz de neutralizar o Chega é repetir-lhe o léxico, limando-lhe o excesso.

No Partido Socialista, o dilema é outro. José Luís Carneiro tinha duas candidaturas-símbolo à prova. Alexandra Leitão, em Lisboa, apostou na coligação à esquerda e perdeu, embora por pouco. Ricardo Leão, em Loures, cultivou uma retórica de ordem e autoridade. Chegou aliás a ser atacado pelo ex-secretário geral, António Costa, por ofender “gravemente os valores do PS”. E ganhou. Não se trata apenas de sociologia local. É um sinal de que também nos socialistas o centro de gravidade se desloca. José Luís Carneiro perceberá o que os resultados insinuam: o discurso que rende hoje não é o da pureza ideológica, é o da estabilidade. A vitória de Leão pode tornar-se a gramática da nova esquerda governamental ao invés de uma esquerda que se apresenta como a última reserva moral da moderação.

No fim, as autárquicas deixaram o retrato de um país menos radical do que o medo sugeria, mas mais conservador do que a retórica admite. O Chega não destruiu o bipartidarismo, mas contaminou-o. A extrema-direita não conquistou o poder, mas mudou a gramática de quem o exerce. O mapa político português continua dividido a meio. Mas o vocabulário com que o descrevemos deslocou-se alguns graus à direita.»


13.10.25

Lisboetas: Na CML, ficámos com os “Trocos”.

 


Tristeza…

O anúncio da morte do bipartidarismo foi francamente exagerado

 


«À hora que escrevo, ainda nem todos os resultados estão fechados. Há troca de vitórias e derrotas entre o PS e o PSD. Sendo verdade que o PSD passa a ter as cinco maiores câmaras do País – Lisboa, Porto, Sintra, Gaia e Cascais –, conquistando três delas, e passa a ser o partido com mais autarquias (pouca diferença), não é menos verdade que o PS consegue ganhar novas capitais de distrito como Faro, Évora, Coimbra, Viseu e Bragança – Beja é perdida para o PSD, que também ganha Setúbal, à boleia de Dores Meira. O PS não venceu, mas é, destacadamente, a segunda força nacional.

Ao contrário do que muitos vaticinavam, o bipartidarismo não foi beliscado. As grandes disputas continuaram a ser entre os dois grandes e, apesar das importantes conquistas de Albufeira (o sétimo maior orçamento do país), o Chega fica-se por três câmaras, muito abaixo do PCP e até do CDS, e a léguas do que tinha conseguido em legislativas. Quando Ventura não é o candidato o Chega não penetra.

Quanto ao PCP, os ganhos (Sines, Montemor, Aljustrel e Sesimbra) não compensam as perdas. Não me refiro à perda de Serpa, Alcácer-do-Sal, Grândola ou Benavente, mas das duas únicas capitais de distrito que mantinha – Évora e Setúbal –, o que faz desta uma das piores noites autárquicas dos comunistas. Olhar para os resultados da CDU nas autarquias suurbanas de Lisboa também nos diz alguma coisa sobre a transformação do seu eleitorado. Irónico, é que o seu bom resultado em Lisboa tenha sido, numa noite má, determinante para a reeleição de Carlos Moedas (aliado ao resto da esquerda, haveria uma maioria absoluta para governar a cidade). Talvez volte a isto e ao instinto suicida de esquerda noutro texto.

Seja como for, a grande notícia desta noite eleitoral é que, havendo muitas notícias, não houve qualquer terramoto e o país mudou menos do que as legislativas faziam pensar.»


11.10.25

Cansadíssimo, já reflecti tudo

 


Até amanhã.

Talvez assim reflicta melhor

 


A reflectir, a reflectir

 


Porquê? Para quê? Acham que eu sou parvo?

Quando votos das autárquicas chegaram a Lisboa… a cavalo




Eu já contei esta história há uns anos, mas nunca a esqueço em véspera de eleições autárquicas. Amanhã votar-se-á uma vez mais, mas confesso que recordo sobretudo as duas primeiras: 1976 pela novidade e porque foi a única em que me candidatei ao que quer que seja (pelos GDUP, à CML, com enorme probabilidade de ser eleita, como se imagina...) e a seguinte, em 1979, por uma historieta deliciosa.

Por razões profissionais, estive durante alguns anos ligada ao processamento dos resultados eleitorais, então efectuado no Centro de Informática do Ministério da Justiça. Viviam-se semanas épicas na preparação de todos os processos, noites ainda mais épicas quando a data chegava e é quase surreal recordar hoje a dificuldade, o pioneirismo e o stress com que tudo se passava.

O apuramento era especialmente longo no caso das autárquicas pelo número de candidatos e lugares envolvidos e, em 1979, estive mais de 24 horas na Gulbenkian sem abandonar o meu posto. Muitíssimo tempo depois do fecho das urnas ainda faltavam os dados de quatro freguesias e, às 16:00 do dia seguinte, nada se conseguia saber acerca de uma delas, localizada bem a Norte do país, salvo erro em Trás-os-Montes. Primeiro faxes, depois telefonemas para o respectivo Governo Civil... tudo inútil, ninguém encontrava o rasto do presidente da única mesa onde se tinha votado. Até que, bem mais tarde, o inesperado aconteceu: o homem acabou por chegar, em pessoa, ao Ministério da Justiça em Lisboa. Tinham-lhe dito que era ali que os dados eram processados e ele pôs-se a caminho. Trazia a urna ainda fechada e tinha deixado à porta… o cavalo que o transportara desde casa!
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10.10.25

Viver Lisboa

 


Vamos. Moedas nunca mais!

Que Passos não se apoquente, não haverá linhas vermelhas nas autarquias

 


«Se Montenegro dizia “não é não” e acabou a cozinhar uma lei da imigração com Ventura, imaginem o que quer dizer a recusa em esclarecer entendimentos pós-eleitorais com o Chega. Já estão feitos. E não, falar disso não é, como disse Montenegro, “politiquês”. É o direito de os eleitores saberem se, no dia seguinte às eleições, vão ter um vereador do Chega a gerir bairros sociais, apoios sociais e polícias municipais. Até podem querer. Mas os que recusam essa ideia exigem clareza.

A palavra do líder não determina o que acontecerá em cada câmara. Mas se é líder, dá indicações gerais. Foi o que José Luís Carneiro, com uma clareza que até me surpreendeu, fez: não há entendimentos com a extrema-direita. Luís Montenegro, ao chutar para canto, também passou uma mensagem: pode haver, cada autarca decidirá. O apelo de Passos(que criou Ventura numas eleições autárquicas), para pôr de lado as linhas vermelhas, vem tarde. Já não há motivo para se preocupar. Elas já não existem. Há algum tempo. E nestas autárquicas isso deixará de ser tema. É “politiquês”.

Há autarcas que já decidiram. Em Sintra, um concelho especialmente sensível pela sua enorme diversidade cultural e étnica, Marco Almeida, o eterno candidato derrotado do PSD, já deixou claro que essas linhas vermelhas não existem.

Pelo mediatismo da jovem candidata do Chega, Rita Matias, pelo facto de este ser concelho do líder e pela importância demográfica e política de Sintra, é de esperar que o partido queira fazer desta aliança um laboratório de entendimentos e políticas discriminatórias. Talvez Marco Almeida lhe possa dar o pelouro da educação, para que leve à prática o bonito espetáculo que nos ofereceu quando leu os nomes das crianças malandras que, sendo filhas de estrangeiros, se atrevem a frequentar o pré-escolar.

Em Lisboa, não é provável que, caso Carlos Moedas consiga travar a caminhada descendente da sua campanha e vencer as eleições, queira continuar a governar em minoria. Assim como Alexandra Leitão se vai entender com o PCP (como Medina fez no passado com o Bloco, que, apesar dos avisos de Moedas, já teve vereadores com pelouro), Moedas terá dificuldade em não se entender com o partido que até teve a amabilidade de escolher, para a capital, um candidato de 20ª linha.

Não se trata de voltar a fazer os debates do passado. Debates que, como se viu nos posteriores entendimentos quanto a tudo em que seria de esperar distância, foram inconsequentes. Nessa matéria, as coisas estão claras e decididas. Trata-se de recordar que o Chega não vai apenas ganhar autarquias. Vai poder aplicar as suas políticas discriminatórias e desumanas em autarquias em que não vença. Do processo de normalização do discurso, passaremos para a normalização da prática.»


9.10.25

Discursos previsíveis e campanhas preguiçosas não mobilizam ninguém

 


«A sociedade evoluiu e com ela precisamos de evoluir todos. Adaptarmo-nos às novas realidades deixou de ser opcional, para passar a ser uma necessidade. Não se pode fazer o que ‘sempre se fez’, porque vivemos tempos que nunca se viveram.

Da mesma forma que integrámos novas tecnologias no nosso dia-a-dia, também a forma de comunicar precisa de ser repensada. A comunicação que se cria, pensa e produz hoje, não é a mesma que há 50 anos, e ainda bem. Isto não significa necessariamente que o que se faz hoje em dia seja melhor ou pior do que o que se fazia antigamente; quer dizer que é diferente, ou que pelo menos deveria ser.

Já existiram campanhas absolutamente brilhantes. Em Portugal, tivemos a histórica “Por Ti, Lisboa” de Jorge Sampaio e a inesquecível “Soares é Fixe”. Lá fora e mais recentemente, a campanha “Harris for President” que, na minha opinião, foi uma das melhores e mais criativas de sempre, ou a do partido Die Linke nas eleições federais alemãs deste ano. Dito isto, pergunto-me: se já se criaram campanhas excelentes, nacionais e internacionais, por que motivo continuamos a ver tanto desmazelo na comunicação política em Portugal?

Temos hoje mais recursos do que antes. Desde o acesso a novas tecnologias, a plataformas e redes sociais digitais, bem como outras ferramentas de comunicação online que outrora não existiam. Não obstante, continuamos a ver campanhas sem graça, sem estratégia e sem propósito.

Estamos a pouquíssimo tempo das autárquicas. De repente, as ruas voltaram a ser inundadas por cartazes, billboards e flyers. Os anos passam, os candidatos mudam, as eleições repetem-se, e os partidos continuam a acreditar que comunicar é apenas falar, quando já deviam ter começado a ouvir. Parece não se compreender o que é de facto preciso mudar: a forma como se comunica.

Vi campanhas espalhadas por todo o país e conto pelos dedos de uma mão, aquelas que realmente contam uma história e são capazes de se conectar com as pessoas. Os discursos são previsíveis. As campanhas são preguiçosas e seguem fórmulas repetidas. As ‘estratégias’ de comunicação são fracas. Continuamos na ‘mesma mesmice’: o básico, o mediano, o medíocre.

As autárquicas representam talvez as eleições mais importantes depois do fiasco das legislativas. Ainda assim, o padrão mantém-se. Os candidatos falam de forma igual, dizem as mesmas coisas e têm medo - muito medo - de arriscar e de sair da monotonia que não mobiliza, nem entusiasma. A existência de um candidato requer que ele viva tanto na rua com as pessoas, como no digital com os algoritmos.

A comunicação política deve acompanhar o progresso. É preciso compreender que uma campanha eleitoral é uma campanha de comunicação. Enquanto académico e profissional de comunicação, inquieta-me saber que os directores de campanha não são profissionais da área, mas sim juristas, engenheiros ou gestores.

É preciso fazer mais e é preciso fazer melhor. A incompetência dos partidos e candidatos na sua comunicação é também responsável pela falta de interesse das pessoas, sobretudo dos jovens, pela política. Precisamos de ver robustez e deixar de lado os hashtags sem sentido e a sobreutilização de emojis para ‘comunicar com a Geração Z’. Temos assistido a uma comunicação política fraca, que não se impõe, que tem medo, que não arroja, que não tem coragem e que não alcança os públicos que tem e alcançar. Uma comunicação que envergonha e que não é capaz de mobilizar ninguém.»


Lisboa

 


7.10.25

Autárquicas em Lisboa

 


Eu voto nesta coligação de quase todas as esquerdas.

Mudaram os tempos, há quem falte agora à chamada.



1.10.25

Lisboa, PCP e as tendências suicidas da esquerda

 


«Estarão espantados os militantes do PCP, habituados a queixarem-se do tratamento mediático, ao ver os comentadores de direita a derreterem-se com João Ferreira. Sem desmerecer as qualidades técnicas e oratórias do candidato comunista a quase tudo (se não as tivesse, não o seria, e os 12 anos como vereador também ajudam), devem desconfiar. Quando a direita convida um comunista para o brunch é mau sinal.

Não quer dizer que não respeitem João Ferreira, como respeitavam outros comunistas, a começar por Álvaro Cunhal. Quer dizer que resolveram ignorar o ódio, porque mais altos valores se levantam. Percebem que João Ferreira é a possibilidade que sobra para dispersar o cansaço com a incompetência de Carlos Moedas, prolongando-a. Nada mais do que isto.

Tendo divergido fortemente da posição do PCP quanto à guerra da Ucrânia, defendi-o quando esta mesma direita, que agora o elogia, quis transformá-lo em pária político, alimentando paralelos absurdos com a extrema-direita e apelando a boicotes à Festa do Avante. Mas não posso deixar de sublinhar a sua irresponsabilidade, não percebendo a importância quase refundadora que estas eleições têm para Lisboa e, por razões mais profundas, para o País.

Nunca fui sensível ao apelo do voto útil, apesar de, em autárquicas, ser difícil de contrariar. Não há geringonças possíveis. The winner takes it all. Quem fica em primeiro governa. E é por isso que também defendo alianças quando são possíveis. O que não faz muito sentido é achar que João Ferreira dá um excelente vereador sem pasta, na oposição, em vez de um vereador com pasta, numa autarquia de esquerda.

Assim sendo, a pergunta que sobra é: porque se pôs o PCP de fora da coligação de toda a esquerda, para a qual foi insistentemente convidado, podendo participar na construção programática como a segunda força à esquerda nesta lista? Ferreira dá um argumento que poderia ser compreensível – o PS viabilizou os orçamentos de Moedas, que o próprio PCP ajudará a eternizar no poder –, não fosse o historial dos comunistas pelo país fora ao longo dos anos.

Não foi com o PS que os comunistas tiveram mais entendimentos, que foram muitíssimo mais longe do que viabilizar orçamentos para impedir, mal ou bem, a vitimização. Os mais comuns foram com o PSD, naquilo que ficou conhecido como “vodka com laranja”, em várias autarquias do país governadas pelo PSD ou pela CDU ao longo dos anos. Havia cumplicidade programática dos comunistas com Rui Rio, quando ele, com uma desgraçada política social de habitação e a destruição de toda a vida cultural da cidade, garantia um vereador com pelouro ao PCP?

De onde vem este súbito purismo? Não veio de lado algum, porque a decisão de recusar entrar na coligação nada tem a ver com Lisboa. Ou alguém acha que Alexandra Leitão, sem ligação ao mandato de Medina ou à oposição que se fez a Moedas, e seguramente uma das pessoas à esquerda no PS, seria difícil de aceitar pelos comunistas? Se o PCP não consegue entender-se com Alexandra Leitão, aliada ao BE e ao Livre, não consegue entender-se com ninguém. Quem governou com Rio terá dificuldade em explicar porque motivo não se entende com Leitão. Quem se coligou com João Soares, num entendimento que já tinha estagnado em todos os seus propósitos programáticos, também.

Se o problema fosse Lisboa, não se repetia em mais de 300 concelhos. Tirando o Chega, com quem ninguém quer coligações, o PCP é o único partido parlamentar que não faz qualquer aliança (exceto com o PEV, que daria para outro texto). E recusou-a, para além de Lisboa, em dois casos extremos: em Albufeira, onde toda a esquerda junta poderia tentar evitar a vitória do Chega, e em Loures, onde BE, Livre e PAN estavam disponíveis para uma coligação liderada pelos comunistas contra Ricardo Leão, do PS. Nem liderando aceitam. Em lado algum. Nenhuma. Zero.

Por uma razão, que nada tem a ver com orçamentos da Câmara Municipal de Lisboa (os argumentos surgem, em cada um dos lugares, a posteriori): porque a lição que os comunistas tiraram da “geringonça” é que os entendimentos matam. E preferem que o país vire radicalmente à direita, quando esta já tem um presidente, duas regiões autónomas, as duas principais cidades e dois terços dos deputados, a correrem riscos.

Nada me move contra o PCP. Hoje, vivo dividido entre dois concelhos (Lisboa e Montemor-o-Novo), e fui a um dos lançamentos da candidatura da CDU, no concelho alentejano, por achar que Carlos Pinto de Sá é uma boa alternativa ao atual executivo do PS. E nada tenho contra divergências na bipolarização. Apoiei Miguel Portas quando achei que estava no tempo de mudar a cidade e João Soares representava o acomodamento de mais de uma década que já pouco tinha do projeto de Jorge Sampaio. Numa altura em que o país era dominado pela esquerda, com Guterres como primeiro-ministro e Sampaio Presidente. Em política, os contextos são quase tudo.

Vivemos um tempo histórico bem diferente. Dramaticamente diferente. Lisboa está a expulsar o povo do condomínio em que se tornou e esta será a última oportunidade de travar o êxodo forçado. A capital tem o pior presidente da Câmara da sua história democrática (o que os comunistas relativizam, tentando a absurda equiparação com Leitão) e só a dispersão de votos pode mantê-lo no poder. E vivemos num país onde a esquerda pode evaporar-se, desequilibrando perigosamente todo tabuleiro político.

Não preciso de recordar o “melão” com que muitos eleitores de Lisboa acordaram no dia seguinte às últimas eleições autárquicas, quando descobriram que, mesmo em maioria, entregaram a câmara a alguém que tem o currículo de incompetência, mentira e apropriação de obra alheia que a última edição da Sábado tão bem retratou. Olhando para as sondagens, as tendências suicidas da esquerda são, neste contexto, muito perturbadoras.»


28.9.25

O PS na sua «retração»

 


«Estudo de especialista da GfK Metris mostra que partido enfrenta uma “retração eleitoral sem precedentes”. Em 122 concelhos, os socialistas estão sob alerta “elevado ou “crítico”.»