1.10.25

Lisboa, PCP e as tendências suicidas da esquerda

 


«Estarão espantados os militantes do PCP, habituados a queixarem-se do tratamento mediático, ao ver os comentadores de direita a derreterem-se com João Ferreira. Sem desmerecer as qualidades técnicas e oratórias do candidato comunista a quase tudo (se não as tivesse, não o seria, e os 12 anos como vereador também ajudam), devem desconfiar. Quando a direita convida um comunista para o brunch é mau sinal.

Não quer dizer que não respeitem João Ferreira, como respeitavam outros comunistas, a começar por Álvaro Cunhal. Quer dizer que resolveram ignorar o ódio, porque mais altos valores se levantam. Percebem que João Ferreira é a possibilidade que sobra para dispersar o cansaço com a incompetência de Carlos Moedas, prolongando-a. Nada mais do que isto.

Tendo divergido fortemente da posição do PCP quanto à guerra da Ucrânia, defendi-o quando esta mesma direita, que agora o elogia, quis transformá-lo em pária político, alimentando paralelos absurdos com a extrema-direita e apelando a boicotes à Festa do Avante. Mas não posso deixar de sublinhar a sua irresponsabilidade, não percebendo a importância quase refundadora que estas eleições têm para Lisboa e, por razões mais profundas, para o País.

Nunca fui sensível ao apelo do voto útil, apesar de, em autárquicas, ser difícil de contrariar. Não há geringonças possíveis. The winner takes it all. Quem fica em primeiro governa. E é por isso que também defendo alianças quando são possíveis. O que não faz muito sentido é achar que João Ferreira dá um excelente vereador sem pasta, na oposição, em vez de um vereador com pasta, numa autarquia de esquerda.

Assim sendo, a pergunta que sobra é: porque se pôs o PCP de fora da coligação de toda a esquerda, para a qual foi insistentemente convidado, podendo participar na construção programática como a segunda força à esquerda nesta lista? Ferreira dá um argumento que poderia ser compreensível – o PS viabilizou os orçamentos de Moedas, que o próprio PCP ajudará a eternizar no poder –, não fosse o historial dos comunistas pelo país fora ao longo dos anos.

Não foi com o PS que os comunistas tiveram mais entendimentos, que foram muitíssimo mais longe do que viabilizar orçamentos para impedir, mal ou bem, a vitimização. Os mais comuns foram com o PSD, naquilo que ficou conhecido como “vodka com laranja”, em várias autarquias do país governadas pelo PSD ou pela CDU ao longo dos anos. Havia cumplicidade programática dos comunistas com Rui Rio, quando ele, com uma desgraçada política social de habitação e a destruição de toda a vida cultural da cidade, garantia um vereador com pelouro ao PCP?

De onde vem este súbito purismo? Não veio de lado algum, porque a decisão de recusar entrar na coligação nada tem a ver com Lisboa. Ou alguém acha que Alexandra Leitão, sem ligação ao mandato de Medina ou à oposição que se fez a Moedas, e seguramente uma das pessoas à esquerda no PS, seria difícil de aceitar pelos comunistas? Se o PCP não consegue entender-se com Alexandra Leitão, aliada ao BE e ao Livre, não consegue entender-se com ninguém. Quem governou com Rio terá dificuldade em explicar porque motivo não se entende com Leitão. Quem se coligou com João Soares, num entendimento que já tinha estagnado em todos os seus propósitos programáticos, também.

Se o problema fosse Lisboa, não se repetia em mais de 300 concelhos. Tirando o Chega, com quem ninguém quer coligações, o PCP é o único partido parlamentar que não faz qualquer aliança (exceto com o PEV, que daria para outro texto). E recusou-a, para além de Lisboa, em dois casos extremos: em Albufeira, onde toda a esquerda junta poderia tentar evitar a vitória do Chega, e em Loures, onde BE, Livre e PAN estavam disponíveis para uma coligação liderada pelos comunistas contra Ricardo Leão, do PS. Nem liderando aceitam. Em lado algum. Nenhuma. Zero.

Por uma razão, que nada tem a ver com orçamentos da Câmara Municipal de Lisboa (os argumentos surgem, em cada um dos lugares, a posteriori): porque a lição que os comunistas tiraram da “geringonça” é que os entendimentos matam. E preferem que o país vire radicalmente à direita, quando esta já tem um presidente, duas regiões autónomas, as duas principais cidades e dois terços dos deputados, a correrem riscos.

Nada me move contra o PCP. Hoje, vivo dividido entre dois concelhos (Lisboa e Montemor-o-Novo), e fui a um dos lançamentos da candidatura da CDU, no concelho alentejano, por achar que Carlos Pinto de Sá é uma boa alternativa ao atual executivo do PS. E nada tenho contra divergências na bipolarização. Apoiei Miguel Portas quando achei que estava no tempo de mudar a cidade e João Soares representava o acomodamento de mais de uma década que já pouco tinha do projeto de Jorge Sampaio. Numa altura em que o país era dominado pela esquerda, com Guterres como primeiro-ministro e Sampaio Presidente. Em política, os contextos são quase tudo.

Vivemos um tempo histórico bem diferente. Dramaticamente diferente. Lisboa está a expulsar o povo do condomínio em que se tornou e esta será a última oportunidade de travar o êxodo forçado. A capital tem o pior presidente da Câmara da sua história democrática (o que os comunistas relativizam, tentando a absurda equiparação com Leitão) e só a dispersão de votos pode mantê-lo no poder. E vivemos num país onde a esquerda pode evaporar-se, desequilibrando perigosamente todo tabuleiro político.

Não preciso de recordar o “melão” com que muitos eleitores de Lisboa acordaram no dia seguinte às últimas eleições autárquicas, quando descobriram que, mesmo em maioria, entregaram a câmara a alguém que tem o currículo de incompetência, mentira e apropriação de obra alheia que a última edição da Sábado tão bem retratou. Olhando para as sondagens, as tendências suicidas da esquerda são, neste contexto, muito perturbadoras.»


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