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3.7.25

Despesa militar: fraude ou tragédia

 


«Está prestes a construir-se mais um consenso nacional sem debate. Ou com um debate que se resumirá, mais uma vez, em reafirmar o nosso europeísmo e atlantismo, como se a condição para a participação portuguesa nestes espaços fosse a de nos mantermos, usando um termo que esteve em voga, fora do radar. O novo consenso é gastarmos 3,5% do nosso PIB em gastos militares tradicionais, a que se acrescentam, na habitual promoção europeia da mentira, 1,5% de despesa de segurança nacional, com utilização civil e militar, para chegar aos tais 5%.

Desta vez, não estamos sozinhos na cobardia. A meta dos 5% é como a degradante mensagem de Mark Rutte ao homem que acabou de abandonar a Ucrânia, ameaça anexar um território de um membro fundador da NATO e não dá garantias de cumprir o artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte. Servem para alimentar o ego de Trump, mostrando que a Europa se transformou na corte de um rei louco.

Os EUA não gastam 5% do seu PIB em defesa. Esse limiar só é ultrapassado por cinco países. Três estão em guerra (Ucrânia, Rússia e Israel), dois são ditaduras (Argélia e Arábia Saudita). Os EUA gastam cerca de 3,5% para alimentar um poderoso complexo económico-militar, para saltar de guerra em guerra e ter bases espalhadas um pouco por todo o mundo. Tudo o que, espera-se, não estará no horizonte da Europa.

Defendo uma coordenação europeia no investimento em defesa, que permita complementaridade, contrariando redundâncias e incompatibilidades, e uma estrutura europeia de defesa fora de uma União já demasiado bloqueada, que inclua alguns países fora da UE (Noruega e Reino Unido) e exclua outros que estão dentro (Hungria e Eslováquia, por agora), aliados objetivos de Putin. A coordenação de investimento não obriga a gastar mais (a Europa tem capacidade militar de sobra), mas de forma mais racional. Decidir gastar sem se saber com quem e para quê é tratar de negócios, não é tratar de segurança. Fazer este planeamento sem debater o investimento tecnológico ou controlo soberano sobre infraestruturas sensíveis é viver no passado.

Na crise financeira, que se transformou, por inépcia de Bruxelas e Frankfurt, numa crise das dívidas soberanas, os países periféricos e mais expostos foram tratados como culpados e devidamente castigados, chegando, no caso da Grécia, a níveis de sadismo assinaláveis. Agora, que o centro sente o perigo mais próximo e a Alemanha acha que até pode lucrar com uma economia de guerra, a conta será dividida por todos, incluindo os países mais pobres e seguros, como nós. E o bom aluno voltou a chegar-se à frente, para ser rápido a mostrar serviço. Quando olhamos para Durão Barroso e António Costa percebemos o habitual excesso de zelo: o governante da província sonha ser alguém na política dos grandes.

Portugal tem um aeroporto para construir, um TGV para começar, um Serviço Nacional de Saúde para salvar, uma Escola Pública para reinventar, uma crise da habitação para debelar. Temos muito por fazer. É absurdo andar a inventar onde gastar, só em “gastos militares tradicionais”, 10 mil milhões, que é mais ou menos o que o Estado português gasta em educação e ensino superior. Como podemos achar que isto é a nossa prioridade? Como se toma esta decisão, que condiciona tantos investimentos urgentes para o nosso futuro, sem um debate sério?

Há investimentos militares necessários e alguma especialização interessante, tendo em conta a nossa posição atlântica. Mas tenhamos noção das proporções. Até por sabermos que, como o dinheiro não cai das árvores e temos um governo apostado em reduzir os impostos, isto terá mesmo de ser tirado ao Estado Social. Aqui e na Europa, abrindo a porta do poder aos amigos de Putin.

Claro que isto pode não passar de um jogo contabilístico, que eterniza uma forma de estarmos na Europa e no mundo, baseada em enganos, truques e falta de coragem. Mas, se assim é, não continuem com a conversa do retorno do investimento em defesa, baseada num imaginado keynesianismo militar. Primeiro, porque os jogos contabilísticos não animam economias. Depois, porque os gastos, se forem mesmo feitos, também não.

A indústria militar tem poucos players instalados e implica um enorme desenvolvimento tecnológico. E, para que isto resulte no longo prazo, é preciso fazer o que os Estados Unidos fazem há décadas: criar mercado. Ou seja, promover guerras para escoar produto. Talvez Portugal consiga vender munições e fardas, para, em troca, comprar aviões. O deve e haver deixará o país mais pobre e desqualificado. É um péssimo negócio, irracional nos seus termos e absurdo nas nossas prioridades. Na melhor das hipóteses, isto é uma fraude. Na pior, uma tragédia.»


30.6.25

Cadafalso europeu

 


«Sem que se entenda um racional evidente, a Europa embarca na política de rearmamento à boleia de uma percepção de domínio e chantagem norte-americana que devia fazer corar de vergonha os líderes europeus, se os houvesse. (…)

Que os EUA queiram desmantelar o Estado social europeu, não admira. Mas, à excepção de Espanha, que o faça com a concordância acéfala da União Europeia é de um requinte que ilumina a vergonha alheia. (…)

Resta a consolação de pouco disto ser para valer. Ao longo dos próximos quatro anos, Portugal investirá acima dos 2% do PIB, de forma gradual e crescente, para em 2029 estar em posição de cumprir o objetivo final de 5% nos seis anos seguintes. (…) Ou seja, só o imediato é para levar a sério, já que em 2029 estaremos – provavelmente – com uma nova administração norte-americana e todo um novo mundo que não se adivinha. Na Europa, este é só um cadafalso para várias decapitações.»

Na íntegra AQUI.

14.6.21

E Carlucci a bater palmas lá nos eternos céus a que subiu

 




Se não tivesse ouvido as primeiras declarações de Costa sobre o caso CML, garanto que duvidava destas. (E Carlucci a bater palmas lá nos eternos céus a que subiu.)

«Bom, ninguém me vai pedir seguramente explicações sobre processos administrativos, porque ninguém tem dúvidas sobre qual é o papel de Portugal relativamente à Rússia. Já ninguém teve dúvidas quando, durante o PREC, qual foi a posição que Portugal e a maioria dos portugueses tomaram, quando em plena ‘guerra fria’ estava em causa saber de que lado nos colocávamos. Essa é uma dúvida que felizmente não existe.»
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23.3.20

Tempos de trevas mas também de luzes



«Nos tempos que correm, só há um tema, o que não nos ajuda a passar o tempo nem a libertar a mente. Vírus, corona, Covid-19, formas de contágio, infetados, internados, cuidados intensivos, mortes, são as palavras do momento. E, para aqueles que dizem ver mais além, as palavras não soam melhor: crise económica, falências, desemprego, recessão...

Pelo meio, são muitos os exemplos que nos mostram que o ser humano, no meio de todas as suas imperfeições, é, de facto, humano. No sentido de humanista, como o atesta a multiplicidade de estórias comoventes e comovedoras de dedicação ao bem comum, de amizade, de fraternidade, de solidariedade a que também vamos assistindo. Que nos fazem acreditar que, afinal, há futuro para a humanidade!

Mas, ao mesmo tempo, assistimos (os mais atentos e que diversificam as fontes de informação...) a episódios que mostram que o lado mais negro do Mundo continua a "brilhar". Só assim se pode classificar o facto de, nos tempos que correm, estar a decorrer, na Europa central e nos países bálticos, uma operação de grande envergadura da NATO, apelidada "Defender Europe 20". Que visa enviar 20 000 soldados diretamente dos EUA para a Europa, na maior mobilização de forças em mais de 25 anos. Ao mesmo tempo que milhões de pessoas são colocadas de quarentena em suas casas. Quando há falta de materiais e equipamentos básicos nos hospitais. Quando assistimos a diversos países, designadamente os EUA, a proibirem a entrada de cidadãos da Europa no seu país. Ao mesmo tempo, dizia, milhares de soldados dos EUA, acompanhados de equipamentos e material de guerra (e, presumo, acompanhados de hospitais de campanha bem apetrechados) cruzam o Atlântico para desembarcar na Europa onde, juntamente com militares de outros países da NATO, desenvolvem exercícios militares de grande envergadura. Que não foram suspensos devido à pandemia, apenas foram "ajustados". Porque, apesar de nos dizerem que esta pandemia se equipara a uma guerra, os verdadeiros "senhores da guerra" não podem abdicar dos seus exercícios militares!...

Simultaneamente, a União Europeia, um dos pilares da NATO, manifesta total incapacidade de apoiar os seus estados-membros, particularmente a Itália, cujo povo é o que mais tem sofrido os efeitos do Covid-19. Bem pode a UE, face aos tempos que vivemos, dizer que "alivia" as regras orçamentais - e era o que faltava se tal não acontecesse! Porque, de facto, nesta crise não houve UE! Situação que é ainda mais vergonhosa quando vemos a desembarcar, nessa mesma Itália, médicos e equipamentos chineses. Ou equipas de médicos cubanos que, apesar do selvático embargo económico ao seu país, dizem presente nos momentos em que a solidariedade se impõe...»

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19.11.10

Notícias de uma Cimeira (7)


A propósito da notícia que caiu a meio da tarde de ontem, segundo a qual «trinta e cinco [pessoas], na sua maioria de nacionalidade finlandesa, foram interceptados num autocarro, com destino a Lisboa, na posse de “material com mensagens anti-NATO”», e dos detalhes entretanto conhecidos, como o facto de alguns vestirem roupa preta, dispenso-me de comentar e remeto para o que a Fernanda Câncio escreveu.

A ler na íntegra, mas também «tenho para mim, até porque é público, que as cenas mesmo a sério, daquelas tipo atocha, twin towers e metro de londres, não costumam ser feitas por malta que viaja de autocarro em grupo com tshirts e chega no dia anterior aos acontecimentos».
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18.11.10

Quando até Alberto João Jardim passa a símbolo de sensatez


«Estas cimeiras, normalmente, organizam-se em sítios onde não afectam a vida das pessoas, onde há uma facilidade logística.» «Vê-se em França ou na Alemanha.»
«Fazer uma cimeira deste volume no centro de uma cidade, isto é mais uma loucura à portuguesa, é mais um sinal de incompetência.»

(Fonte)

Ler também – onde isto chegou para se ver José Castro Caldas de acordo com AJJ!
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NATO – O que está em questão (2)


«Vinte e um anos após a queda do Muro de Berlim, 20 anos depois da reunificação da Alemanha, 19 anos passados sobre a dissolução da União Soviética e a extinção do Pacto de Varsóvia, a NATO é o derradeiro arsenal, unipolar, da guerra fria.

É o armazém da tralha de 46 anos de corrida armamentista e de chantagem nuclear. Não tem qualquer razão de existir, a não ser para fomentar o chorudo negócio do armamento, o poder do complexo e da clique militar-industrial que comanda a política americana, e dar emprego a milhões de apóstolos da guerra, formados em cursilhos na doutrina do poder e do terror militar, que agora pregam pelo Mundo, em vez da extinção do único bloco político-militar, o alargamento da NATO.

O objectivo é velho e relho. Já nos anos 60 do século passado, quando a NATO constituía o maior sustento do aparelho militar português nas guerras coloniais, os falcões da Aliança e os peneireiros de Lisboa sustentavam que o Trópico de Câncer deveria ser entendido "cada vez mais como um limite imaginário", de modo a não perturbar "a eficácia da Aliança". Mas terminada a guerra fria, não há justificação racional para a persistência e globalização da NATO. As ameaças invocadas - como o terrorismo ou a pirataria marítima - podem e devem ser enfrentadas num quadro multilateral de cooperação entre estados no seio nas Nações Unidos. E querer atribuir à NATO funções na luta contra o aquecimento global é o mesmo que entregar o comando das corporações de bombeiros a um incendiário. As guerras da NATO na Europa e no Médio Oriente contribuíram decisivame9nte para a destruição ambiental em vastas áreas do planeta.

Mas claro que a Cimeira vai aprovar tudo o que lhe aprouver. E assim será até que o mundo construído pelos senhores da guerra lhes rebente nas mãos.» (sublinhado meu)

João Paulo Guerra, no Económico.
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17.11.10

NATO – O que está em questão


Quando andamos todos distraídos com o folclore que a comunicação social nos traz sobre a actuação dos polícias nas fronteiras e o cerco a Lisboa no próximo fim-de-semana, vale a pena voltar ao essencial.

Relativamente leiga neste tipo de assuntos, tenho procurado ler, ver e ouvir o que encontro, numa tentativa de entender o que se vai passar em auditórios e corredores do Parque das Nações e nas manifestações programadas para as ruas de Lisboa.

Cito apenas a última emissão do «Expresso da Meia-Noite» (12/11/2010), da qual retive, para além de outros aspectos, duas ideias principais que resumo em menos de três linhas: trata-se de uma organização que anda à procura de uma (nova) razão de ser, numa tendência de securitização crescente, e é grande e perigosa a ambiguidade que reina quanto aos limites entre o seu campo de actividade e o da ONU.

Os 50 minutos do vídeo da SIC N:




O essencial da posição que José Manuel Pureza tomou no programa está resumido nesta sua intervenção na AR:



P.S. – Vale a pena dar uma vista de olhos ao curriculum de J. M. Pureza.
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A quem mando a factura? - Notícias de uma Cimeira (7)

Estive em Buenos Aires há sete anos e sempre pensei lá voltar. Não estava planeado que fosse agora, mas será se…

Se… o quê? Se conseguir sair desta terra sitiada onde os nossos governantes aceitaram (ou propuseram?) albergar uns senhores encartados que vão discutir para que serve exactamente a organização que os congrega. Prejudica-se toda uma cidade, mesmo um país, deslocam-se milhares de pessoas para um recinto, onde, até prova em contrário, nem se sabe se algo de significativamente importante poderá acontecer. Umas dezenas de actores e multidões de paparazzi que vão tirar umas fotografias e filmar cenas absolutamente triviais. Todo um absurdo, se pararmos um pouco para pensar que o progresso das telecomunicações já devia ser usado para evitar, ou pelo menos minimizar, estas invasões mais ou menos bárbaras e despudoradamente caras.

Mas regressando ao que interessa. É certo que, quando o meu grupo viajante projectou esta ida à Argentina e ao Chile, já se sabia que haveria guerreiros em Lisboa a 20 de Novembro, mas ninguém - nem nós, nem a agência de viagens, muito menos a Ibéria -, previu o arsenal que se preparava e partiu-se do princípio que a capital de um país tem sempre um aeroporto. Ilusão e erro que nos custará uma ida até ao Porto para conseguir chegar a Madrid, esperando que não exista nenhum VIP que resolva fazer por lá uma escala e fechar também os céus da Invicta... Rumaremos na véspera à margem Sul, para evitar cortes de acesso ao Norte... De carro, obviamente, porque já foram anunciados atrasos e interrupções também na circulação de comboios e não escaparíamos, pelo menos, a uma inspecção das malas onde levamos roupinha para dezassete dias, por polícias zelosos com esperança de lá encontrarem canivetes, catanas ou coktails molotov e de nos colarem na testa uma etiqueta de anarquistas.

Só não sei se devo mandar a factura de danos, gasolina e  portagens para Belém, para S. Bento ou para a Casa Branca.

P.S. - Ainda escreverei talvez sobre o que se vai sabendo das actuações policiais. Para já, leia-se este texto do Pedro Sales.
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