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4.9.15

Quando os meus amigos refugiados eram húngaros



O recente comportamento dos dirigentes da Hungria para como os refugiados que tentam atravessar o país para atingir o centro da Europa faz soar campainhas muito antigas que nunca se apagaram na minha memória e que já referi, em tempos, neste blogue.

Como é sabido, a Revolução Húngara de 1956, contra as políticas impostas pelo governo do país e pela União Soviética, teve início em 23 de Outubro e durou até 10 de Novembro do referido anos. Tudo começou numa terça-feira, no centro de Budapeste, com uma manifestação de milhares de estudantes que tentaram ocupar a rádio e foram reprimidos. A revolta alastrou depois ao resto do país, provocou a queda do governo e a sua substituição. Em 4 de Novembro deu-se a invasão pelas tropas do Pacto de Varsóvia e a resistência acabou daí a seis dias.

A operação saldou-se por alguns milhares de mortos e por um verdadeiro êxodo de cerca de 200.000 húngaros, sobretudo jovens, que fugiram do país e pediram asilo um pouco por toda a Europa e também na América, do Norte ao Sul.

E é aqui que entra a minha história. Entre os muitos países procurados por jovens estudantes que foram saindo da Hungria assim que puderam, a Bélgica foi um deles e eu cheguei à Universidade de Lovaina um ano mais tarde. Já encontrei muitas dezenas e vi chegar outros, ainda com olhar inquieto depois de longas peregrinações por diferentes paragens. Partilhei residências universitárias com alguns e fiquei amiga de muitos.

Poderia contar dezenas de episódios, como o da minha amiga Eva que, embora apavorada, teve «a sorte» de poder fugir dentro de um armário onde um diplomata em mudanças de regresso a Bruxelas a escondeu, porque a mãe era secretária na embaixada belga em Budapeste. Mas limito-me ao mais trágico: um surto de loucura (latente, certamente, mas que só se revelou alguns anos depois da fuga), numa rapariga impecável e inteligentíssima que um dia se barricou no quarto da residência universitária durante várias horas, ameaçando suicidar-se, porque via caras de soldados russos reflectidos no lavatório e tinha outras alucinações do mesmo tipo. Só cedeu a um polícia, também inteligente, que do outro lado da porta a convenceu de que vinha prender os russos e a levou para um hospital psiquiátrico.

Em 1956 fugia-se de uma Hungria «fechada», em 2015 a Hungria fecha-se, com muros, para não deixar passar quem tenta escapar à guerra, à morte e à fome. Estou a comparar 1956 com 2015? Não e sim. Não porque estamos a falar hoje de realidades com dimensões humanitárias e quantitativas diferentes; sim porque era bom que quem já lutou pela liberdade de procurar destinos que considerou melhores não impedisse outros de fazer o mesmo. Infelizmente, a História não deixa lições.


[Republicado no Esquerda.net]
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17.3.15

Em Espanha, (quase) debaixo de água



Seria bem mais interessante andar pela Estremadura espanhola, numa curta escapadinha da pátria, se neste primeiro dia não tivesse chovido a cântaros – de Lisboa a Mérida, onde estou agora. Corajosamente, sempre fui revendo esta bela terra e alguns das belas pegadas que a História por cá deixou.

Dizem que amanhã haverá Sol…

Um pequeno apontamento: nos idos da minha juventude, quando dava aulas em Letras, precisava de autorização do ministério da Educação para sair do país e vir comprar caramenlos a Badajoz. Hoje, nem dou pela fronteira mas não posso guiar do lado de cá. Porquê? Porque há meses que espero por uma carta de condução renovada e, com o A4 que a substitui, nem há Schengen que me valha: só posso guiar dentro desse rectângulo, os meus direitos de condutora param em Elvas. Estranho progresso. 
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27.10.10

Um outro Outubro


Foi um post do Miguel Serras Pereira que me recordou que passa esta semana mais um aniversário sobre a «Revolução Húngara» de 1956.

Não entro em detalhes, mas é sabido que tudo começou no dia 23, no centro de Budapeste, com uma manifestação de milhares de estudantes que tentaram ocupar a rádio e foram reprimidos, que a revolta alastrou ao resto do país, provocou a queda do governo e a sua substituição. Que em 4 de Novembro se deu a invasão pelas tropas do Pacto de Varsóvia e que a resistência acabou daí a seis dias. A operação saldou-se por alguns milhares de mortos e por um verdadeiro êxodo de cerca de 200.000 húngaros, sobretudo jovens, que fugiram do país e pediram asilo um pouco por toda a Europa e também na América, do Norte ao Sul.

E é aqui que entra a minha história. Entre os muitos países procurados por jovens estudantes que foram saindo da Hungria assim que puderam, a Bélgica foi um deles e eu cheguei à Universidade de Lovaina um ano mais tarde. Já encontrei muitas dezenas e vi chegar outros, ainda com olhar inquieto depois de longas peregrinações por diferentes paragens. Partilhei residências universitárias com alguns e, curiosamente, houve imediatamente uma grande empatia ente húngaros e os pouquíssimos portugueses que por lá andavam.

Tudo era ainda muito recente, as histórias multiplicavam-se e estarreciam-me pela total novidade que eram para quem nunca na vida tinha conhecido qualquer cidadão de Leste. Durante muito tempo, estudei, li e interpretei muitas realidades, não só mas também com olhos húngaros, e quando vi Praga 68 foi Budapeste 56 que imaginei permanentemente.

Poderia contar dezenas de episódios, mas limito-me ao mais trágico: um surto de loucura, (latente, certamente, mas que só se revelou seis anos depois da fuga) numa rapariga impecável e inteligentíssima que um dia se barricou no quarto durante várias horas, ameaçando suicidar-se, porque via caras de soldados russos reflectidos no lavatório e tinha outras alucinações do mesmo tipo. Só cedeu a um polícia, também inteligente, que do outro lado da porta a convenceu de que vinha prender os russos e a levou para um hospital psiquiátrico.

Isto passou-se na residência onde ambas morávamos, a alguns metros de distância. No dia seguinte defendi a minha tese de doutoramento e dois dias depois regressei a Portugal. O fim da minha longa estadia belga ficaria para sempre ligado a uma terrível recordação de Budapeste 56.
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