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24.11.17

O verdadeiro «Black Friday»

14.2.16

E já lá vão cinco anos



«Tahrir é a arma que resta, diz Omar Robert Hamilton, fundador de um colectivo-arquivo da revolução. Num texto publicado no Guardian, lembra: “A Praça Tahrir foi um espectáculo, por um momento parou o país, o mundo até, a história renasceu. A polícia foi expulsa das ruas e a cidade era nossa.” Isto foi real, derrubou um ditador. “Fomos naive, sem dúvida, mas o resto do mundo foi naive connosco.” O que resta hoje para lutar? “A memória da possibilidade é tudo o que temos. Talvez por agora seja o bastante. (…) “Não posso dizer que estou optimista. Mas não estou morto e não estou na prisão, então não tenho o direito de dizer que está tudo acabado.” Não enquanto a memória da possibilidade estiver lá.»

Os melhores dias das nossas vidas.(Alexandra Lucas Coelho)
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14.12.13

27.11.11

Tahrir


Mais um texto de Paulo Moura a não perder, na Pública de hoje (sem link):

«Era uma confiança tremenda, ou uma fantasia, uma presunção, ou uma gabarolice do povo. Digam o que quiserem. E, mesmo que as multidões de Tahrir tivessem o poder real de um exército, poder-se-ia ainda dizer que são uma força inútil, porque não sabem o que querem. Estive lá e confirmo: não fazem a mínima ideia. Mas as revoluções foram sempre feitas por quem não sabe o que quer. Os que sabem chegam depois, para as destruir. (…)

Outros países não têm Tahrir, o que os torna muito mais fracos. Nem podiam ter, é claro. As situações são incomparáveis. O maior desejo que os jovens egípcios ousavam exprimir, no auge do seu martírio, era o de uma democracia capitalista igual à que nos trouxe até à actual crise.

Hoje, só porque há Internet e telemóveis, tudo nos parece global, mas os ideais da Primavera árabe não têm nada a ver com os propósitos do movimento Occupy Wall Street ou os Indignados. Todos sabemos que não há nada em comum. E ao mesmo tempo todos sentimos que há.»


Na íntegra:
Temos sempre Tahrir

Ninguém sabe o que é Tahrir. Mas Tahrir existe. Lembro-me dos dias seguintes à queda de Mubarak. Muitos queriam continuar na praça. Não estavam satisfeitos. O que tinham conseguido era imenso, ainda assim pouco.
Era verdade que tinham fixado como objectivo a queda do ditador. Fora do Egipto, ninguém achava que isso fosse possível. No próprio Egipto, a maioria também não acreditava, a começar pelos que se fingiam mais optimistas. Mas, após muitos muitas manobras, muitas manipulações, Hosni Mubarak acabou por se demitir. Após muitos mortos também.
Foi o problema. Uma coisa são milhares de jovens manifestando-se e festejando numa praça. Tudo o que conseguissem seria um milagre. Outra coisa são esses jovens a morrer. Isso fez o preço subir muito. Uma vitória de Pirro já não seria suficiente. Nem sequer uma conquista simbólica em troca. Agora era preciso ir até ao fim. Mas o que era o fim?

28.2.11

Cada um viu Tahrir como quis


Pensei o mesmo que Miguel Madeira quando li este parágrafo de um artigo de Pacheco Pereira, editado primeiro no Público (em 19 de Fevereiro!...) e depois no Abrupto. Certamente que não viu a mesma Praça Tahrir que o resto da humanidade, em dezenas de vídeos, ou só olhou para uma ou outra fotografia como a deste post.

«É por isso que uma das coisas que não encaixavam na narrativa sobre a revolta árabe era ver a multidão na Praça Tahrir a rezar. Não que a fé e a oração públicas sejam por si só incompatíveis com a laicidade de um Estado, mas porque não havia excepções na muralha de corpos prostrados. Não havia cristãos na multidão, não havia um ateu, um agnóstico, alguém que não fosse religioso, e permanecesse de pé ou à margem da oração?»

Bem a propósito (ou de propósito?), Paulo Moura publicou um belíssimo texto na Pública de ontem:

Em Tahrir nem todos rezavam

Na praça Tahrir nem todos rezavam. Fazia-o quem queria, o que nunca foi a maior parte dos milhares de manifestantes. Há muitos egípcios muçulmanos que, cinco vezes por dia, fazem as orações prescritas pelo Corão. Quer estejam na praça Tahrir, quer noutro lugar qualquer. Outros egípcios muçulmanos só fazem as orações à sexta-feira, outros fazem-nas raramente, outros não as fazem nunca.

Não sei quais são as percentagens de uns e outros, nem a relação desses números com a classe social de cada um, a idade ou a região de onde provêm. Também não sei qual é a percentagem de portugueses que reza antes do deitar, e se isso depende da classe, idade ou região. Também ignoro se há estudos rigorosos sobre o número de portugueses que, nos anos 50, rezavam antes de dormir e de comer. E, desses, quantos ainda o fazem. E se os seu filhos o fazem. E os netos.

Também não sei qual é a percentagem de cidadãos dos EUA que rezam. E a dos que têm uma Bíblia à cabeceira, e a dos frequentam bruxos, videntes e "psíquicos". Já agora, também não sei o número de portugueses que o fazem.

Perdi a conta ao número de séculos durante os quais os padres cristãos impuseram às pessoas padrões de comportamento. Aliás, não sei bem quando deixaram de o fazer, nem o que ainda fariam se os deixassem.

Não sei quem disse aos muçulmanos que os judeus eram perversos, que o Ocidente conspira, as mulheres devem obedecer aos homens e os não-crentes são seres inferiores. Também não contei quantos milhões pereceram às mãos dos cristãos por serem infiéis, nem quantas mulheres da Cristandade nasceram e morreram sem terem tido vida.

Não investiguei se alguém violou uma jornalista americana na praça Tahrir, ou noutra qualquer praça ou rua do Cairo ou de Aveiro. Nem se o violador apoiava o não Mubarak, era devoto de Maomé ou da Virgem de Fátima, votava no PSD ou no Bloco. Em nenhum dos casos concluiria que a base de apoio do PSD são os violadores, que os bloquistas são frustrados sexuais ou que a vocação dos católicos é estuprar mulheres estrangeiras.

Não sei se há mais crime no mundo islâmico, judaico, cristão ou hindu, nem se há mais frustrações sexuais nos países do Norte ou do Sul, se há relação entre culpa e prosperidade económica, nem se a violência é mais própria dos climas quentes ou frios, ou a indolência directa ou inversamente proporcional à distância da praia.

O que eu sei é que na praça Tahrir nem todos rezavam. Sei, porque estive lá durante 21 dias seguidos. À hora da oração, organizava-se um cordão humano, de mãos dadas, para dar espaço a quem queria rezar. Faziam-no em conjunto, como é hábito entre os muçulmanos. Mas bastava olhar para o lado para ver a multidão que continuava de pé, a conversar. E também os grupos de cristãos que oravam juntos. Era assim, por mais que isto desoriente, incomode e fira a narrativa racista.

É admirável a capacidade humana de construir narrativas. Mas ainda mais a sua aptidão para as rasgar quando já não lhe servem. Leva tempo, porque a História mental é de longa duração. Mas não há nenhuma prova de que as civilizações árabe e muçulmana sejam incompatíveis com a democracia. Não há nada nos árabes e muçulmanos - nem a História, nem a tradição, a geografia, os textos sagrados ou o genoma - que os impeça de serem livres. O único impedimento seria não quererem, e a única ajuda que o Ocidente lhes pode dar é acreditar neles.
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19.2.11

A revolução e os lixos


No Babelia de hoje, um belo texto de Antonio Muñoz Molina, onde se fala muito de Portugal 74 e não só.

«Algunas de las revoluciones mejores de la mía [vida] les han sucedido a otros. La primera alegría política desbordada de la que tengo recuerdo me sucedió una tarde de finales de abril en Madrid, en 1974, cuando compré el diario Informaciones, que era el que leíamos los antifranquistas, y vi el titular que anunciaba la Revolución de los Claveles en Lisboa. La dictadura acababa de caer, pero había caído al otro lado de la frontera. (…)

La libertad era posible, aunque fuera en otra parte. Nosotros imaginábamos que una dictadura era como una fortaleza de muros de hormigón y troneras blindadas que sólo sería posible tomar por asalto o derribar a cañonazos: pero en Portugal el edificio entero de la dictadura se había desmoronado sin que los militares alzados contra ella dispararan sus fusiles, y sin que los carros de combate tuvieran otra misión que la de servir para que la gente feliz escalara sus torretas. (…)

Ahora me acuerdo de aquellas revoluciones siempre ajenas, triunfales o fracasadas, viendo imágenes de las multitudes en esa plaza que de pronto se ha agregado a la geografía de la libertad, la plaza Tahrir, escuchando voces de egipcios en la radio pública americana y en la BBC, leyendo los reportajes admirables de The New York Times, donde el periodismo se sigue ejerciendo como un oficio responsable de adultos. Las decepciones de tantos años, el cinismo instintivo español, no llegan a malograrme la alegría, la antigua alegría delegada por la libertad súbita de otros. Lo que vaya a pasar mañana o el mes que viene no se sabe. Lo que pasa hoy nadie lo vaticinaba hace sólo un mes. La economía, la politología, la sociología han demostrado tener el mismo rigor predictivo que la ufología. Pero esta mañana me ha alegrado el día ver en la portada de The New York Times a la gente joven de la plaza Tahrir recogiendo hacendosamente la basura acumulada en los últimos días. En mi país las grandes alegrías colectivas suelen tener un origen alcohólico o futbolístico, y dejan tras de sí un rastro de toneladas de basura que siempre recogen otros.» (O realce é meu.)
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16.2.11

Os desejos de Suzanne Mubarak


É casada com Hosni Mubarak e criou há sete anos, em Genebra, uma ONG: «The Suzanne Mubarak Women’s International Peace Movement».

Em Dezembro de 2010, recebeu em Luxor um seminário, no qual foram debatidos os problemas de escravatura no mundo moderno, trabalhos forçados, venda de crianças, etc., etc. Fez então um discurso de abertura, estranhamento premonitório (?):

«Nós acreditamos no poder da juventude para criar a sua própria visão do mundo, na sua própria linguagem, com base na sua própria experiência. Contribuímos para criar plataformas onde os jovens possam fazer-se ouvir, promover iniciativas originais e reforçar as raízes da democracia nas nossas comunidades. O nosso movimento lançou, em Setembro de 2007, a «Cyber Peace Initiative» com o objectivo de ajudar os jovens líderes a tirarem partido do reservatório infinito das tecnologias de informação e comunicação para promoverem a paz e a tolerância, para reforçarem os seus próprios movimentos sociais e transformarem as ideias em acção, para maximizarem os aspectos positivos da internet, enfrentando os seus desafios.»

Objectivos atingidos!...

(Fonte)
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11.2.11

Do Cairo a Havana


Yoani Sánchez, no Twitter, esta tarde:

@yoanisanchez: #cuba #GY Me llegan sms contando que Mubarak dimitio a la presidencia de #Egipto Es verdad eso? Por favor confirmenme al +5352708611.

@yoanisanchez: #cuba #GY Increible! llamo una seguidora de Twitter y me puso via telefonica y en vivo sonido de la tele y escuche de la salida de #Mubarak.

@yoanisanchez: #cuba #GY Un ciclo de 30 anos termina en #Egipto mientras nosotros seguimos bajo un autoritarismo de 5 decadas.

@yoanisanchez: #cuba #GY Autoritarios no tienen color politico, no importa si dicen de izquierdas o derechas, son autoritarios y ya, obsesionados con poder.

@yoanisanchez: #cuba #GY Tienen razon los censores en temerle a redes sociales, ahora mismo yo estoy aqui sin acceso a Internet y sin embargo enterandome.

@yoanisanchez: #cuba #GY Ahora mismo me siento en El Cairo, grito y festejo junto a ellos. Llamo a todos los amigos para contarles: hay un dictador menos!
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Vai uma aposta?


Assim que for possível, na primeira aberta na agenda da AR, o PS apresentará um voto de solidariedade com o povo egípcio e de regozijo pela sua vitória.

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VITÓRIA! النصر

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A praça está tão cheia que não se consegue andar lá dentro, e a toda a volta há marchas e massas, indo e vindo do edifício da televisão, completamente cercado por tanques, onde também muita gente passou a noite


«Foi assim que ontem me achei a discutir o dilema do exército egípcio com André, um brasileiro do sul. Estávamos nas imediações da praça Tahrir, num daqueles cafés cheios de homens e de fumo, entre edifícios “art-déco” enegrecidos por meio século de desmazelo. Mas como estamos em plena revolução, vários dos homens tinham fitas tricolores à volta da cabeça, e uma das raras mulheres presentes, velada até à frincha dos olhos, teclava num computador portátil.

André tem cara de norueguês, vive entre Nairóbi e Itália, venceu ataques de malária nos mais vagabundos hotéis do Corno de África e agora está a dormir num hotel menos vagabundo nestas imediações. Paga 60 libras egípcias por noite, o preço de um copo de vinho no Intercontinental, o hotel de cinco estrelas do outro lado da praça Tahrir. É um “freelancer”. Veio para o Cairo com uma encomenda de uma grande agência de fotografia. A encomenda acabou mas o trabalho não, entende André.

— “Putz”.... — diz ele, puxando mais uma fumaça de narguilé. Os paulistas é que dizem muito “putz”, uma daquelas bengalas que não querem dizer nada, género “pô” ou “puxa”, ou “caraca”. André não é paulista, mas São Paulo é a cidade brasileira de que ele mais gosta.


Discutimos o impossível: em que é que o exército egípcio está a pensar. Todos os dias cruzamos as barricadas de tanques, mostrando os nossos cartões de identidade aos oficiais. Os oficiais estão quietos. Quietos perante a revolução mas também quietos perante a polícia que na província reprime a revolução, e ainda ontem matou gente.

André diz que são os militares que estão a puxar os cordéis da revolução e que o poder será sempre deles. Eu digo que o Brasil teve 20 anos de ditadura militar e hoje, quando os jovens revolucionários na praça querem citar exemplos inspiradores além do que seria previsível (a Turquia), citam o Brasil por ter levantado a cabeça.

A revolução da praça Tahrir é esse momento: levantar a cabeça.

Eu, que vim de férias, parto em breve. Mas algures num hotel vagabundo nas imediações da praça Tahrir, um brasileiro do sul continuará a trabalhar. O trabalho dele é apanhar o momento em que a cabeça vira numa determinada direcção.»

(Título, fotos e texto de Alexandra Lucas Coelho)
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Praça Tahrir – As fotos de Alexandra Lucas Coelho



Choque e espanto a ouvir Mubarak.




E agora, na praça, sempre que alguém baixava a cabeça aparecia alguém para tentar levantá-la.


A jornalista Alexandra Lucas Coelho esteve esta noite numa varanda da Praça Tahrir e foi pondo fotografias no Facebook, para partilha. As legendas são dela.
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10.2.11

Egito: sem Mubarak?


Quando se espera que a partida de Mubarak seja anunciada ainda hoje, vale a pena ler, na íntegra, um texto publicado no último número de Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) - No Egipto, nada está decidido.

«O canal de televisão por satélite Al-Arabiyya, concorrente da Al-Jazira e próxima da Arábia Saudita, publica uma notícia surpreendente: Habib Al-Adly, o antigo ministro do Interior, o homem há muitos anos responsável pela repressão, pelas detenções e pela tortura no Egipto, é suspeito de estar por detrás do atentado contra a igreja de Alexandria a 31 de Dezembro de 2010. (…)

O regime policial foi abalado, mas no essencial continua de pé. O desaparecimento das forças policiais não deve permitir que se alimentem ilusões. (…)

A seguir, o exército. O seu alto comando está profundamente ligado a Mubarak, ele próprio um militar (desde 1952 que o poder é controlado pelo exército). (…)

No quadro desta situação que permanece em aberto, e quando a vitória das forças democráticas não é garantida, longe disso, muitos intelectuais franceses e estrangeiros preocupam-se com as ameaças que pesariam sobre o futuro do Egipto e não sobre a manutenção da ditadura. (…)

Esta maneira de decidir pelos outros povos é característica de uma perspectiva colonial, de uma perspectiva de grande potência. Ninguém se espanta quando o presidente Obama afirma que é preciso que Mubarak parta, que parta agora («now!»). Ninguém se espanta que, depois de terem apoiado durante décadas o ditador, os países ocidentais venham explicar que é tempo de mudar. É, aliás, paradoxal que Mubarak utilize estas ingerências para apresentar a oposição como pró-americana, ou mesmo pró-israelita.

Tentemos fazer uma comparação ousada. Imaginemos que nas eleições presidenciais americanas de 2000, cujo desfecho era incerto e na qual a ratificação da vitória de George W. Bush foi problemática, se tinha deslocado aos Estados Unidos um dirigente chinês, russo ou egípcio para explicar ao Senado o que tinha de ser feito…»
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