16.9.23

Vitrais em Lisboa

 


Vitral da Casa Malhoa, construída para servir de habitação e atelier de trabalho do pintor José Malhoa, (hoje Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves), Av.5 de Outubro, Lisboa, 1904-1905.
Arquitecto: Manuel Joaquim Norte Júnior.

Daqui.
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Democracias e extrema-direita

 

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A estátua

 


Também tenho direito a fazer uma proposta sobre a famosa estátua de Camilo ou ainda me expulsam das redes sociais: vista-se a menina todos os meses com um vestidinho típico de cada região de Portugal e inclua-se a visita à estátua nos circuitos turísticos.

Seria o nosso Manneken-Pis!
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A bússola das previsões

 


«Revisão em alta, revisão em baixa, desaceleração acentuada ou ténue, projeções preliminares, definitivas e necessariamente revistas, umas décimas a mais ou a menos, quadros macroeconómicos em barda, inflação, recessão, deflação, cálculos repetidos em inglês, francês, alemão. Em português.

A nossa vida coletiva é hoje orientada por uma bússola de previsões demasiadas vezes errada. Vamos por onde nos dizem, até onde nos dizem. Sempre que nos enganam, e são tantas as vezes que se enganam por todos nós, atira-se a culpa para os ciclos económicos. Temperamentais como os mercados financeiros. E, além do mais, previsões são previsões. Pode-nos sempre sair a fava, certo?

Duas ou três mãos de gente decidem por um continente. O ascendente dos zandingas económicos na Europa, camuflados em instituições sérias, robustas e altamente politizadas, é um dos fenómenos mais curiosos e perversos da chamada sociedade capitalista democrática. Veja-se o que tem sido o percurso errático do Banco Central Europeu (BCE) na gestão da inflação. A decisão de aumentar (pela décima vez) as taxas de juro é, mais do que um sinal da assertividade do BCE, uma demonstração do falhanço da sua capacidade de antecipação dos acontecimentos. Depois, há que olhar para a medida com os olhos pedagógicos do cínico: esta tentativa encapotada de arrastar as economias para uma recessão é, na verdade, um mal menor no bolso da Europa do Norte. Christine Lagarde nem disfarçou, ao insistir na necessidade de os estados pararem com as ajudas aos mais desfavorecidos, algo que revela, para além de algum autismo institucional, uma completa falta de sensibilidade social.

Por tudo isto, é fundamental repensar a arquitetura de funcionamento do BCE, que verdadeiramente não dispõe de mais nenhum instrumento capaz de fazer travar a inflação que não seja matando o doente com a cura. Os falcões continuam a ditar as regras, numa autofagia controlada que aprofunda, a cada dia, a medida da nossa irrelevância enquanto nação. Seguimos. Obedientes e endividados.»

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15.9.23

Fachadas

 


Fachada Arte Nova da Casa Vicent, Rua 31 de Janeiro, Porto, 1914-1915.
Arquitecto desconhecido.

Daqui.
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15-16.09.1973 – Quando mataram Víctor Jara

 


Víctor Jara foi assassinado em 15 (ou 16) de Setembro de 1973, poucos dias depois do golpe em que morreu Salvador Allende.

No dia 11, estava nas instalações da Universidade, que foram cercadas por militares, sendo depois transportado para um Estádio transformado em campo de concentração, onde foi torturado e assassinado.

Finalmente, em Agosto de 2023, o Supremo Tribunal do Chile condenou a 25 anos de prisão sete militares na reserva e o director do Serviço Prisional na altura pelo sequestro e homicídio de Víctor Jara.

Poucas horas antes de morrer, escreveu o seu último poema – «Somos cinco mil» – que chegou até nós graças aos seus companheiros de cativeiro:


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Fernando Botero

 


Morreu, com 91 anos, o artista colombiano mais do que famoso no seu país e não só, que deixa pintura e escultura excepcionais e um lindíssimo museu onde passei algumas horas em Bogotá.

Ver AQUI algumas fotografias que então tirei.

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Onze anos

 


... que passaram depressa. Estamos (quase) todos diferentes? Talvez.
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A única certeza: pagar mais pela casa

 


«Para muitas famílias que estão neste momento a contar as economias que ainda restam para pagar a prestação do crédito à habitação, as notícias divulgadas ontem pelo Banco Central Europeu são trágicas e podem significar a falência.

A presidente Christine Lagarde confessou que a decisão de subir as taxas de juro pela décima vez consecutiva não foi consensual, insistiu que os governos devem continuar a retirar medidas de apoio à economia, avisou que os juros não irão descer tão cedo e deu a entender que este poderá ser o último aumento. Mas a única certeza que temos é que a prestação da casa vai continuar a aumentar.

Mais pressão, portanto, para António Costa e mais expectativa quanto às medidas que serão aprovadas na próxima semana para responder, como reconhece a ministra Mariana Vieira da Silva, às necessidades que as famílias portuguesas sentem.

O que se espera é que o novo pacote de ajuda não seja eleitoralista e crie condições para que os portugueses não sejam dependentes de mais subsídios e apoios, de forma a devolver a dignidade que a classe média tem vindo a perder sucessivamente ao longo do último ano e das dez subidas consecutivas das taxas de juro.

Quem pode foge do país. Jovens, recém-formados, enfermeiros, médicos, profissionais ligados às tecnologias, etc. E vão embora não só pelo presente (três em cada quatro jovens recebem um salário abaixo dos mil euros), mas, sobretudo, por uma ausência de futuro. A começar pela habitação, afinal o lar é um dos alicerces da vida.

A maior parte dos jovens de hoje, e leia-se jovens até aos 35 anos, já não querem saber se um partido é de Direita ou de Esquerda. Querem que quem governe não lhes roube o futuro e não destrua o presente do pais.»

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14.9.23

Elevadores

 


Elevador de Santa Justa, "Obra-prima de ferro" em estilo neogótico. Lisboa, 1900-1902.
Arquitecto: Raoul Mesnier de Ponsard (discípulo de Gustav Eiffel).

Daqui.
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Um pequeno absurdo

 



Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,

que o absurdo, mesmo em curtas doses,

defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!

Se é verdade o aforismo faca afia faca

(não sabemos falar senão figuradamente

sinal de que somos pouco capazes de abstracção).

Se faca afia faca,

então que a faca do absurdo

venha afiar a faca da nossa embotada vontade,

venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado

e o dia a dia será nosso e diferente.

Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.

Mas tudo será melhor que este dia a dia.

Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.

Mas nós não queremos ser um povo feliz.

Para isso bastam os suíços, os suecos, que sei eu?

Bom proveito lhes faça!

Nós queremos a maleita do suíno,

a noiva que vê fugir o noivo,

a mulher que vê fugir o marido,

o órfão que é entregue à caridade pública,

o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital

onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou

nenhuma. Nós queremos ser o aleijado nas ruas, a pedir esmola, a

a bardalhar-se frente aos nossos olhos. Queremos ser o pai

desempregado que não sabe que Natal há-de dar aos seus.

Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia.

Um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.

Alexandre O'Neill 
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Isto vai, compatriotas, isto vai…

 

(Expresso, 14.09.2023)

… para onde é que não sabemos!
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Estado da União: e as pessoas?

 


«A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, proferiu o seu discurso anual sobre o Estado da União Europeia (UE) no Parlamento Europeu. Considerado um dos momentos de maior relevância política, uma vez que permite o escrutínio do seu trabalho e revela as propostas futuras, as palavras de Von der Leyen assumiram este ano maior importância por estarmos a apenas nove meses das próximas eleições europeias, e da sua possível (previsível) reeleição para um segundo mandato. Este discurso, no entanto, resultou numa mão-cheia de nada: limitou-se a ser uma lista de prioridades atingidas neste mandato e foi muito parco em propostas e ações concretas para o futuro da UE.

Se por um lado a presidente da Comissão Europeia destacou a necessidade de garantir a igualdade de género, apelou ao diálogo social e à necessidade de garantir uma transição justa e equitativa, sem deixar ninguém para trás, não houve qualquer referência a um plano de ação ou a qualquer medida concreta no âmbito social. A inflação e o aumento das taxas de juro dificultam a vida das pessoas e sobre isso pouco disse.

Mas não só. Volvidos dois anos da maior pandemia deste século, nada sobre saúde, em especial sobre saúde mental. Nada sobre jovens, um ano após o Ano Europeu da Juventude. E nada sobre habitação - uma questão problemática e crítica para Portugal, que precisava de um compromisso europeu numa iniciativa de habitação acessível.

Uma agenda dos oceanos? Uma aposta na economia azul sustentável? Nada.

Novos recursos próprios da UE, regras fiscais, governação económica ou instrumentos financeiros permanentes para responder às crises? Também nada.

Por outro lado, destaco como positivo, no discurso de Ursula von der Leyen, a necessidade de flexibilizar as Pequenas e Médias Empresas (PME), adaptando-as à realidade económica atual. A criação da Plataforma de Tecnologias Estratégicas para a Europa (STEP), para impulsionar, alavancar e orientar os fundos da UE, pareceu-me promissora e será benéfica também para o tecido empresarial português.

Positivo foi também o compromisso com a conclusão dos acordos comerciais, em particular com o Mercosul, até ao final do ano, e a nova aposta na computação, nomeadamente num novo quadro mundial para a Inteligência Artificial, baseada nos pilares de segurança, governação e orientação da inovação.

Por fim, mas não menos importante, a solidariedade e a adesão da Ucrânia à UE. O alargamento deve ser um dos motores para uma Europa mais forte e inclusiva, com um pacto de migrações firme.

Assim ficaram definidas as prioridades da Comissão de Ursula von der Leyen até ao final do mandato: muito de nada. A presidente da Comissão Europeia frisou, sem medo, as suas diversas conquistas, já reconhecidas por todos, mas permaneceu vaga sobre os seus planos para o futuro, como expectável, e sobre muitas prioridades que deviam estar no cerne do seu discurso.

Caberá agora aos grupos políticos, que, como o PS, defendem uma maior resposta social e o combate às alterações climáticas, lutar contra os sucessivos bloqueios da Direita, recheados de populismos e de desinformação, que continuarão, certamente, a marcar a agenda nos próximos meses até às próximas eleições europeias. A aliança do Partido Popular Europeu (PPE), ao qual pertence o PSD e o CDS, à Extrema-Direita tem sido recorrente e apresenta dificuldades acrescidas a uma Europa de futuro.

"O que é importante para os europeus é importante para a Europa", disse Von der Leyen. Que assim seja. Da parte do PS, estaremos cá para garantir isso.»

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13.9.23

Restaurantes

 


Restaurante Ourives Petisqueira, Calçada de Santo André, Lisboa. Fim do século XIX, início de XX.

Daqui.
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Natália Correia

 


Não me apetece publicar nas redes sociais um 348º poema seu como forma de homenagem. Mas, sim, foi uma grande mulher que chegaria hoje aos 100.
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Jean-Luc Godard

 



Marcou gerações, pioneiro que foi, com alguns outros, da célebre «Nouvelle Vague».



«Qu'est ce que je peux faire? J'sais pas quoi faire! Qu'est ce que je peux faire? J'sais pas quoi faire! Qu'est ce que je peux faire ? J'sais pas quoi faire!»
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Capital sem pátria

 


«Marx tinha razão: o capital não tem pátria. Mas a nacionalidade da propriedade conta e conta muito.

O modo como regimes não democráticos, como aqueles que se abrigam em torno dos países árabes, se infiltraram no mundo dos negócios de desporto, que não apenas o futebol, revelam uma tendência em que o poder obscuro do capital tudo envolve e tudo compra.

Um trabalho apurado descobre que por detrás das modalidades desportivas economicamente mais poderosas e dos negócios que lhes estão associados está o poder do capital árabe, seja resultado de uma economia saudável e escrutinada, seja o resultado dos lados mais obscuro do mundo do capitalismo.

A instância olímpica, porventura a última reserva moral de um desporto respeitado, não ficou imune a este vírus e os escândalos em que se envolveram algumas figuras proeminentes aí o estão a provar. Nada assegura que o problema não tenha recaídas e que os casos se não sucedam.

Direitos humanos, respeito pelas minorais étnicas, sociais ou sexuais, respeito pelos direitos laborais tudo é esquecido em função do sacrossanto poder do capital. E como o capital não tem fronteiras descobrimos uma série de organizações desportivas nacionais com a presença de capitais oriundos desses países num movimento de captação de poder que faz as delícias de quem deles beneficia, mas que hipotecam a independência das organizações nacionais.

O movimento migratório, para a alguns desses países, de grandes atletas em final de carreira e de outros técnicos desportivos, não coloca, na generalidade dos casos, qualquer problema de consciência moral, como não coloca a crescente designação de dirigentes desses países para estruturas de topo do movimento desportivo internacional.

A estratégia de controlo obedece a um cuidado movimento junto das principais alavancas do desporto na sua dimensão de negócio e o futebol não é distinto do que se procurou no golfe ou no automobilismo.

Esta tendência, de investimento de regimes não democráticos de várias latitudes do globo em organizações e projectos desportivos, não é de hoje e moldará o desporto nos próximos anos. Resta aspirar que nesta submissão ao mundo dos negócios o desporto possa dar algum contributo para a democratização destes países no sentido de respeitarem os direitos humanos no seu entendimento mais extensivo, e não para agravar a suspeição em torno da transparência e integridade das suas competições e de quem as governa.

Infelizmente, da parca informação explorada e disponível na comunicação social nacional, o caminho tem sido tormentoso e o balanço preocupante.

Este jornal tem sido neste contexto, uma honrosa excepção, na investigação dos circuitos que o capital de vários países árabes tem feito pela Europa e por Portugal num esforço de esclarecimento que só pode ser saudado. Até porque, esse trabalho, contrasta com o silêncio da generalidade de outros meios de comunicação social perante uma ocorrência que está a configurar o desporto das próximas décadas.

Regressemos a Marx, esse defunto, cujas ideias ainda não deixam de inquietar as mentes mais brilhantes, seja para o defender, seja para o contestar. Em tempos de globalização e de neoliberalismo há capital com rosto e, como é da sua própria natureza, existe para se reproduzir. Cabe às dinâmicas democráticas e respeitadoras dos direitos humanos defender os termos dessa reprodução e demonstrar que o neoliberalismo e o poder do capital, como o “espírito” do tempo, não podem ser deixados sozinhos na evolução da humanidade.»

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12.9.23

Janelas

 


Janela no exterior do famoso Restaurante Falstaff, Bruxelas, 1903.
Arquitecto: Émile Houbion.

Daqui.
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Edgar Morin – uma entrevista

 


Vale a pena ler:

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12.09.1924 – Amílcar Cabral

 


Nasceu na Guiné (Bafatá), em 12 de Setembro de 1924, fez o liceu em Cabo Verde, veio mais tarde para Lisboa onde se licenciou em Agronomia. Em 1956 foi um dos fundadores do PAIGC, partido que liderou e que, em Janeiro de 1963 declarou guerra contra o colonialismo de Portugal. Dez anos mais tarde, em 20 de Janeiro de 1973, assassinaram-no em Conacri.

AQUI, pode-se ver um vídeo com uma entrevista que deu precisamente em Conacri, em 1969, bem como ler informação adicional sobre um riquíssimo arquivo acerca da sua vida.
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Escravatura consentida

 


«Uma corriqueira discussão em Lisboa, entre um motorista e um cliente, igual a tantas outras que ocorrem nas chegadas dos aeroportos, destapa uma realidade tenebrosa. Na recusa do motorista em pôr as malas na bagageira da viatura havia motivo impensável: na mala do carro encontrava-se o corpo de um homem, imigrante, que aí achou o quarto para descansar. Perante tamanha desumanidade, as imagens históricas dos arquivos da Revolução Industrial são meros postais ilustrados. Assistimos a uma nova escravatura. Não podemos continuar a fazer de conta, não podemos continuar a olhar para o lado.

De cada vez que há necessidade de pedir um transporte ou uma refeição, através de uma plataforma, devemos pensar com seriedade no ato, no gesto. O que está por trás destes novos serviços? Facilitam-nos a vida, é certo. Primeiro, à distância de um toque no ecrã do telemóvel, são práticos; segundo, mais baratos que os velhos táxis e têm fama de boa civilidade no relacionamento com os clientes. Tudo fatores determinantes na escolha de um serviço. Contudo, é bom lembrar: quem são os homens por detrás das plataformas? Os que enriquecem à conta da miséria de quem contratam sem os mais básicos direitos, mesmo sem rosto, sabemos a sua origem. E neste ponto cabe às autoridades, aos governos democráticos, tomar posição. Refiro-me aos motoristas que nos transportam e fazem da bagageira do automóvel precário tugúrio, aos rápidos estafetas da comida ao domicílio.

São os mesmos homens que dormem em movimentos, clandestinos, nas malas de carros. Não por capricho absurdo. Carecem de capacidade financeira para pagar as dívidas às organizações mafiosas que os trouxeram para a Europa e, muito menos, para garantir a renda de casa, onde possam viver com o mínimo de dignidade. É politicamente correto dizer-se que não compramos roupa de determinada marca porque é feita graças ao trabalho escravo na Índia ou na China - mas recusamos, como se nada fosse, ver os escravos modernos, povoando as ruas das nossas cidades.»

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11.9.23

Vasos e mais vasos

 


Vaso de sopro com plantas em alto relevo sobre base de âmbar. Cerca de 1900.
Émile Gallé.

Daqui.
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Chile – 50 anos (3) Luis Sepúlveda «fala» com Allende (2019)

 


Era já uma tradição: todos os anos, nesta data, Luis Sepúlveda publicava um texto no Facebook e eu trazia-o para aqui. O último (este) é de 2019 por razões óbvias: a maldita Covid levou-nos LS alguns meses depois.


«Hoy...

Lo que me queda, Compañero, es el "metal sereno de tu voz" mientras el más hermoso sueño era ametrallado en las calles de Chile y, por última vez nos recordabas nuestro compromiso con el futuro y tu determinación de no rendirte.

Lo que me queda, Compañero, es la memoria, el recuerdo indeleble de mis hermanos que permanecieron contigo o muy cerca de ti combatiendo en La Moneda, los edificios aledaños, los cordones industriales y las barriadas populares.

Lo que me queda, Compañero, sobre el dolor, la bronca, el olor a sangre y pólvora, es el honor de haber estado junto a ti durante el tiempo que integré el GAP, ese "Grupo de Amigos Personales" encargados tu seguridad, y que tan bien supo definir "Eugenio":

”A diferencia de lo que son hoy día los servicios de seguridad, cuyo objetivo es la destrucción, nuestra misión era la de protección de un hombre que encarnaba las esperanzas de un pueblo y que era el único que garantizaba que ese proceso iniciado el 4 de septiembre siguiera adelante. Nuestro único delito fue dejar de pensar en nosotros como individuos, y estar dispuestos a dar la vida por Allende”.

Hoy, lo que me queda, Compañero Presidente, es el orgullo que tal vez ya no importe a nadie, pero que sigue ahí, latiendo, entre la piel y la camisa.»

Luis Sepúlveda no Facebook
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Chile – 50 anos (2) O último discurso de Allende (11.09.1973, 10:10)

 


Na íntegra, o texto do último discurso de Salvador Allende, que nem sempre é fácil seguir quando se ouve no vídeo:

«En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección: el capital foráneo, el imperialismo, unidos a la reacción, crearon el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara el general Schneider y reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.

Me dirijo a ustedes, sobre todo a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños. Me dirijo a los profesionales de la patria, a los profesionales patriotas que siguieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios clasistas que defendieron también las ventajas de una sociedad capitalista.

Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron y entregaron su alegría y su espíritu de lucha. Me dirijo al hombre de Chile, al obrero que trabajó más, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos, porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando las vías férreas, destruyendo los oleoductos y los gasoductos, frente al silencio de quienes tenían la obligación de proceder.

Estaban comprometidos. La historia los juzgará.

Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz ya no llegará a ustedes. No importa. La seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal con la patria.

El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi patria, tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo en el que la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano. Tengo la certeza de que, por lo menos, será una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.»


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Chile – 50 anos (1)

 


11 de Setembro de 1973, exactamente há meio século, foi o dia em que o regime democrático do Chile foi derrubado por uma acção conjunta dos militares e outras organizações chilenas, com o apoio do governo dos Estados Unidos e da CIA.

Salvador Allende afirmou, bem antes desse dia, que estava a cumprir um mandato dado pelo povo em 1970 e que só sairia do palácio depois de o cumprir. Ou que o faria «com os pés para diante, num pijama de madeira». Assim aconteceu.

Depois, foi o que é conhecido: 30.000 chilenos foram assassinados durante o regime de Pinochet.

O bombardeamento de La Moneda:





Distúrbios, ontem, durante a homenagem aos desaparecidos:


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10.9.23

Centros de mesa

 


Centro de mesa Arte Nova, com donzelas banhadas a prata e vidro cristal colorido finamente cortado. Cerca de 1900. 
WMF 

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Jorge Sampaio

 


Morreu há dois longos anos.
Ainda assistiu ao estertor da Gerigonça, já não à maioria absoluta do seu partido (que ignoro se apreciaria…), a uma terrível guerra causada pela invasão de um país por outro na Europa, a uma inflação descabelada, a birras entre um dos seus sucessores e outro seu colaborador muito próximo. Talvez tenha sido melhor para ele, mas o seu peso fez falta por cá.
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A bolha vai rebentar

 

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Os conflitos Marcelo-Costa são amendoins (por enquanto)

 


«A menos que um dia destes Marcelo Rebelo de Sousa organize um Congresso Portugal Que Futuro, como Mário Soares fez em 1994, este presente “conflito institucional” não ficará para a história. É quase um redondo zero, se compararmos o que aconteceu no passado entre Presidentes e chefes de Governo.

Mesmo com o primeiro-ministro a querer explicar que as suas competências e as do Presidente são diferentes - o famoso "galho", em que Costa remeteu o povo para o provérbio de mau gosto 'Cada macaco no seu galho' e Marcelo respondeu suavemente afirmando dispensar metáforas “agrícolas-florestais” –, este mal-estar é coisa nenhuma, se nos lembrarmos do conflito institucional a sério que marcou a relação Mário Soares-Cavaco Silva. Enquanto Costa não pedir que as audiências com Marcelo sejam gravadas, como fez Pinto Balsemão no seu tempo em relação às conversas que tinha com Ramalho Eanes, a agitação entre Governo e Presidente ainda é para “meninos”.

Tenho as minhas dúvidas de que passe disso, apesar de Costa ter dado um tiro no porta-aviões a Marcelo quando, na batalha naval entre Governo e Presidente, insistiu em manter João Galamba no Governo contra a vontade do Presidente.

Na manhã deste sábado estava a ver a entrevista que o líder parlamentar do PS deu ao programa Vichyssoise, do Observador. Eurico Brilhante Dias dizia que seria “terrível” e “politicamente dramático” se Presidente e primeiro-ministro “não cooperassem como têm cooperado desde 2016”.

Um desabafo minimal, se compararmos com os ataques do passado. Se recuarmos três décadas, no dia 13 de Julho de 1990, um antecessor de Eurico chamado António Guterres, então líder parlamentar do PS, atacava Cavaco por ir apoiar a reeleição de Mário Soares mas querer desvalorizar as presidenciais.

Os Diários da Assembleia da República, disponíveis online, transcrevem esse discurso de António Guterres, onde o agora secretário-geral da ONU acusava o Governo de “conduzir uma guerrilha permanente” ao Presidente Soares, “visando o desgaste da figura, do Presidente e, o que é pior, o desgaste da instituição Presidência da República”. “O Governo e o PSD têm de optar com clareza: se apoiam Mário Soares, devem parar com esta guerra, que só prejudica o prestígio das instituições.”

O PSD apoiou Mário Soares e a guerra nunca parou: agravou-se profundamente. Comparar esta acusação de Guterres com a euforia com que tantos dirigentes socialistas apoiaram e elogiaram profusamente a recandidatura de Marcelo é um delírio.

Há dias, um ex-ministro de Cavaco contava-me que o antigo chefe do Governo chegava absolutamente furioso das reuniões semanais com Mário Soares, que, contra o mito de que era um líder político que odiava ler documentos técnicos, exigia saber tudo ao pormenor. Havia uma questão prévia: entre Cavaco e Soares existia um fosso político e zero amizade pessoal. Entre Marcelo e Costa não demos por isso no primeiro mandato – e a amizade pessoal é continuamente reafirmada, até porque, pelo menos no passado, existiu.

Mário Soares acusava a maioria absoluta do PSD de estar “governamentalizada”. Em 1993, decidiu cancelar as comemorações oficiais do 25 de Abril por causa da greve dos jornalistas contra o novo regulamento que restringia a circulação no Parlamento; em Maio de 1994, convencido de que António Guterres não estava a ser suficientemente enérgico como líder da oposição, promove o Congresso Portugal Que Futuro. A reacção de Cavaco resumiu-se numa frase: nesse fim-de-semana ia passear para o “Pulo do Lobo”. Guterres suspirou e fingiu que não via. É agora divertido recordar isto quando é o PS e o Governo que estão preocupados com o facto de Marcelo poder roubar a Montenegro o protagonismo de “líder da oposição”.

Os conflitos Marcelo-Costa são amendoins (por enquanto) Com o Congresso Portugal Que Futuro, o mundo ia acabar mas não acabou. A coabitação institucional manteve-se desgraçada, a guerra Presidente-chefe de Governo intensa e, naquele tempo, era Pacheco Pereira, que tinha participado na comissão da primeira candidatura de Mário Soares, o principal porta-voz do PSD para os ataques ao Presidente da República.

Mário Soares contribuiu para o desgaste do cavaquismo – a Presidência Aberta em Lisboa foi um ponto alto –, mas o cavaquismo morreu por si. Já não representava o país. Tinham-se passado 10 anos desde que Cavaco Silva, em 1985, tinha vencido as eleições sem maioria.

O passado é um país distante, mas o presente não tem um avo da dimensão das crises institucionais que o país já viveu. Por enquanto, só amendoins.»

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