4.9.21

Do fundo do baú (11)

 


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04.09.1970 – O Chile com Allende

 



Excerto do discurso de vitória nas eleições presidenciais. Texto completo AQUI.
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O PSD, ainda



 

Eu juro que não estou especialmente preocupada com o que se passa no PSD, mas Rui Rio está a ultrapassar todas as minhas piores expectativas.
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A política em forma de guerra

 


«A campanha para as eleições autárquicas ainda não começou oficialmente, mas já é bem visível, até nos cartazes cujas mensagens são declarações de guerra, que elas vão acentuar a tendência dominante de asfixia do pensamento. A desqualificação do adversário e o triunfo de um tom acusatório e de deslegitimação têm substituído progressivamente a argumentação racional no debate político. A radicalização em curso não resulta da afirmação de posições radicais fundadas, mas de uma incapacidade de discussão. E cada vez mais o discurso se centra na designação de um inimigo político.

Já seria preocupante se o fenómeno estivesse exclusivamente localizado na arena partidária, em momentos de luta por pequenos e grandes triunfos ou, pura e simplesmente, pela sobrevivência. Acontece, porém, que esse movimento tem uma dimensão mais vasta e penetrou progressivamente no espaço público, em geral, e já se instalou nos media sob várias formas, inclusivamente como feira das opiniões. E assim nos aproximamos de um apagamento da ideia de espaço público, no sentido em que ele foi teorizado a partir do século XVIII. O estremecimento dos quadros institucionais em que decorre a vida política atingiu também com severidade o espaço público. Não é apenas a lógica da guerra e da mobilização total que o afecta, é também a saturação. Por exemplo, a saturação do discurso económico.

Para perceber tudo isto, serve de ajuda o quadro proposto pelo jurista Carl Schmitt (nazi, é verdade, mas tão importante para o conceito de político e das suas categorias modernas), ao definir a comunidade política pela lógica binária amigo/inimigo. A distinção amigo/inimigo como critério do político é, na concepção de Schmitt, uma relação existencial, uma questão de vida ou de morte, um dos dois tem de desaparecer. Não é uma luta do Bem contra o Mal ou do Belo contra o Feio: Schmitt não pratica a amálgama desta oposição com considerações morais ou estéticas. Não estou a insinuar que está em curso a instalação do fascismo e a recuperação do conceito de político que foi tão importante para o Terceiro Reich. A lógica totalitária dos fascismos precisou de outros factores: o recurso ao mito, por exemplo (sobre este assunto, leia-se O Mito Nazi, um livro de Jean-Luc Nancy e Philippe Lacoue-Labarthe que acaba de sair em tradução portuguesa na editora Documenta). E esses factores que engendraram uma ideologia como lógica de uma ideia levada às últimas consequências não são repetíveis, já não podem ser actualizados. Além disso, o medium dos conceitos já não tem qualquer importância no discurso político que procede pela desqualificação e deslegitimação do adversário. Toda a tendência para estabelecer comparações entre épocas diferentes e descontínuas é fonte de grandes equívocos.

Mas é bem visível a polarização e a radicalização que atravessam hoje o espaço público, onde cada vez é mais difícil distinguir os meios de comunicação clássicos daqueles que a digitalização colocou ao dispor de toda a gente. A vida pública e política decorre ao ritmo das grandes indignações e emoções. Governa-se fazendo apelo à adesão emocional; exerce-se a oposição cultivando o tom de indignação. E assim se progride na gritaria infecunda, em zonas perigosas de irracionalidade, de onde a política, em rigor, foi expulsa. O espaço político substituído por um campo de batalha: eis a manifestação mais visível de um mal-estar que não pode acabar bem. E as campanhas eleitorais, na medida em que são o momento em que tudo isto emerge no seu grau mais elevado, enquanto caricatura, tornaram-se um contributo notável para a degradação política e do espaço público. É a isto que estamos a assistir e não é coisa bonita de se ver: o espaço público político transformado numa feira onde cada um avança para o outro para lhe arrancar das mãos o objecto. E assim se medem as forças e as fraquezas. Nada resta para pensar, muito sobra para indignar e odiar. A comunidade política, que sofreu um enorme estremecimento provocado pelas forças do mercado e pela inversão da hierarquia entre interesse público e interesse privado, entrou num processo de suicídio assistido pelo espaço público.»

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3.9.21

Do fundo do baú (10)

 


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03.09.1940 – Eduardo Galeano

 


Um grande uruguaio que nasceu em Montevideu e que nos deixou há seis anos. Quis ser jogador de futebol, mas acabou escritor com mais de quarenta livros publicados. Andou a fugir de ditaduras, em 1973 foi preso depois do golpe militar no seu país e exilou-se na Argentina. Com outro golpe militar  o de Jorge Videla em 1976 , viu o nome colocado na lista dos «esquadrões da morte», partiu para Espanha e só nove anos mais tarde regressou à cidade que o viu nascer.

Ia assim o mundo em 3 de Setembro de 1940, descrito por Galeano nesta página de Os filhos dos dias, publicado em 2012:



Dois vídeos:




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O PSD ensandeceu

 


Garantem-me que isto não é fake e que é mais uma graçola daquele partido versão Seixal, local onde começa hoje a Festa do PCP. Um dia destes, o Chega começa a parecer um menino de coro.
Reparem nalguns nomes, nem lá falta o Pe. Portocarrero.
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Quatro casamentos e três funerais

 


«Cada refugiado afegão que aterrou em Portugal vinha acompanhado de uma única mulher. Caso tivesse mais, por lá ficaram — assim estabelecem os critérios da NATO, afirmou o ministro da Defesa. No estado em que estava o aeroporto de Cabul, percebe-se que ninguém tenha começado a discutir uma lista de embarque baseada no modelo familiar da arca de Noé. Resta saber se a bagagem em excesso largada em terra pode ser recuperada pelo Estado português ou se vai ficar definitivamente entregue ao cuidado dos locais.

A NATO garante que se limita a seguir o estabelecido pelos países de acolhimento, e não parece estar a mentir. No regime do reagrupamento familiar português, cada homem autorizado a residir em território nacional pode mandar vir uma esposa. A poligamia é para deixar lá nesses sítios exóticos; por aqui somos gente decente. E não estamos sozinhos: todos os Estados-membros afirmam solenemente a contrariedade do casamento poligâmico à ordem pública para rejeitar qualquer possibilidade de um muçulmano deambular por essa Europa fora com as suas quatro esposas. O nosso regime tem, aliás, por base uma diretiva europeia; a culpa só podia ser dos burocratas sem coração que legislam em Bruxelas.

Acontece que a dita diretiva só proíbe Portugal de autorizar a entrada das várias esposas quando o marido já mora por aqui e é casado. No resto, cada Estado-membro define se o círculo familiar relevante para o reagrupamento só integra a Malala, ou também abrange a Amina, a Nazia e a Farida. A opção por a Malala ser a única mulher que pode embarcar no avião é mesmo nossa.

As declarações enérgicas contra qualquer admissão da poligamia em território europeu são fáceis de perceber. Abrir a porta a hordas de muçulmanos com várias mulheres a tiracolo tem o condão de pôr toda a gente maldisposta. Os mais conservadores começam logo a bradar contra o multiculturalismo que já está a dar cabo das nossas instituições milenares — esquecendo que o regime nacional do divórcio já esteve mais longe de ser uma espécie de poligamia em série. Progressistas e feministas desatam a denunciar a desigualdade de um casamento onde o marido consegue ver-se livre da mulher dizendo três vezes talaq, enquanto esta tem de aturar homem até que ele se digne deixá-la ir à vida dela.

O que pouca gente sabe é que, pela calada, os tribunais têm recorrido regularmente a um ramo de direito pouco conhecido do grande público, o Direito Internacional Privado, para ir resolvendo os problemas concretos colocados pelos casamentos poligâmicos. Nunca se reconhece a validade de um casamento poligâmico quando um dos cônjuges seja português ou residente em Portugal, nem se permite a sua celebração em território nacional. Mas aceita-se que um segundo casamento seja considerado quando tiver sido celebrado num país que admite a poligamia, entre nacionais e residentes nesse país, sempre que não o fazer deixa a terceira parte ainda mais desprotegida.

Na situação das mulheres afegãs, é difícil dizer que não se justifica permitir a sua entrada. Nem que seja porque outro valor, superior à exclusividade do casamento, se impõe: a própria vida destas, muito provavelmente em risco. Podem deixar o Abdul trazer todas as suas esposas. Juridicamente, estamos equipados para lidar com isso. Os tribunais já mostraram ter capacidade para tratar os casamentos poligâmicos sem pôr em causa a sacrossanta exclusividade do matrimónio ou aplicar a sharia e obrigar a Yasmina a andar de burka. Resta saber se, politicamente, há vontade para o fazer.»

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2.9.21

Do fundo do baú (9)

 


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Mikis Theodorakis morreu aos 96 anos

 


Theodorakis era muito reconhecido na Grécia devido à sua música inspiradora e pelo desafio que manteve durante a ditadura que governou o país. No entanto, era reconhecido em todo o mundo pelas suas composições para diversos filmes, entre os quais também "Z" em 1969 e "Serpico" em 1973. (…)

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Ninguém nos salva



 

«Não devemos analisar a descrença dos povos na democracia pelo crescimento de forças antidemocráticas. Isso é a consequência extrema. É nas posições consensuais e aparentemente neutras que o desconforto se expressa. Os apupos a Gouveia e Melo retrataram uma margem de chalupas ensandecidos por excesso de exposição às redes sociais. Os aplausos, uns dias depois, foram mais significativos. Eles resultam de uma vacinação bem sucedida, obviamente. E os aplausos a quem a coordenou não podiam ser mais merecidos. Mas alguém imagina que seriam dirigidos assim, de forma espontânea, à passagem de uma ministra da Saúde, a quem a maioria (segundo as sondagens) até reconhece um bom trabalho? A reação corajosa do vice-almirante à horda de imbecis que o insultou também explica esta reação. Mas qual seria o tratamento mediático de ato semelhante vindo de um político? Não seria a coragem transformada em arrogância? Ainda reconhecemos a políticos o direito de usar assim a sua autoridade?

É reconhecida a Gouveia e Melo uma autoridade extraordinária. Essa autoridade é-lhe dada pelos bons resultados. Mas a parte extraordinária da sua autoridade vem da farda. Por ela, que não se sujou na lama política, apesar de sabermos como é romântico esse olhar sobre as altas patentes militares, dar ao cargo um estatuto de missão. Apesar de haver corrupção entre os militares (todos nos lembramos de Tancos), a opacidade das Forças Armadas ainda lhes garante, como aos magistrados, as ilusões que o tempo dos “grandes estadistas” oferecia à política: não sabíamos das pequenezas que a grandeza escondia. As pessoas só se autorizaram ao merecido aplauso porque aquele homem não era um político. Sentiram-se confortáveis com a ideia de que podia ser consensual.

O problema não é o mérito reconhecido ao trabalho de Gouveia e Melo. É a necessidade de muitos em construir um herói muito para lá das suas próprias responsabilidades num processo que correu bem, antes de tudo, por condições prévias favoráveis: um SNS melhor do que o pintam, vacinação em ano de autárquicas com empenhamento das câmaras e adesão popular num país que, graças a um passado recente de miséria económica sanitária, ainda tem uma invejável confiança nas vacinas. E é isso que explica porque Portugal era, quando Francisco Ramos se demitiu, o quinto país da UE com mais primeiras tomas, proporcionalmente. Se ele era tão incompetente como alguns dizem, então nós somos mesmo extraordinários.

Não estão em causa as inquestionáveis qualidades de Gouveia e Melo. Está em causa uma sociedade que deixou de ser capaz de olhar para o que ela própria construiu em democracia com respeito e admiração. E tem de atribuir toda a razão do sucesso, em exclusivo, a um salvador de um país “que não se governa nem se deixa governar”.

Temos um SNS muito melhor do que a nossa condição económica e social justificaria. Temos um poder local em que participam centenas de milhares de cidadãos e que mudou este país radicalmente. Os dois tiveram um papel absolutamente determinante no sucesso da vacinação. Mas alguma coisa nos impede de exibir por estas instituições, construídas por nós, um orgulho semelhante ao que entregamos às glórias de passados longínquos ou a figuras sebastiânicas, sejam boas ou más. O nosso desporto é explicar o que “só neste país” funciona mal. E retirar-nos a nós, como entidade coletiva, os méritos das nossas vitórias. Como povo, continuamos, meio século depois da instauração da democracia, a colocar-nos no papel subalterno de quem precisa de um pai protetor. E é nesse papel que a direita descendente do autoritarismo português nos quer.

Uma parte resulta de uma campanha ideológica bem sucedida contra os serviços do Estado. Mas outra resulta de subdesenvolvimento democrático que, para além encontrar mais autoridade numa farda ou numa beca (como no Brasil) do que naqueles que elegemos, tem mais facilidade em prestar tributo a homens providenciais do que a instituições públicas.

O facto de haver tabloides e alguma direita desesperada que andou a especular sobre a possibilidade de o vice-almirante vir a ser candidato à Presidência, como se um chefe de Estado militar fosse imaginável num país europeu do século XXI, é a confissão desta automenorização cívica. E é uma tentativa politiqueira de eclipsar o Governo do sucesso da vacinação, claro.

O vice-almirante fechou exemplarmente e com um assinalável poder de síntese a campanha absurda de quem o quis transformar no que ele não é nem quer ser: “Qualquer ser que apareça como o salvador da pátria é mau para a democracia, porque a democracia salva-se em conjunto com todos os atores do sistema democrático. Não é uma personagem que salva a democracia porque isso é outra coisa. Eu não quero ser essa pessoa.” Não é habitual um militar dar lições de democracia a jornalistas e políticos. Mas também não é a primeira vez na nossa história.»

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1.9.21

Do fundo do baú (8)

 


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Ele aí está

 


01.09.1939 - A invasão da Polónia

 


Na manhã de 1 de Setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polónia e, dois dias depois, a Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha.

Três vídeos muito úteis para aprender ou relembrar:






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Guardem essa empatia

 


«Nós vimos o desespero daquele povo. Nós vimos homens a morrer ao tentar subir para as rodas de um avião. Nós vimos mulheres com crianças ao colo a esborracharem-se para tentar entrar no aeroporto. Nós vimos. Nós sentimos. Nós sentimos empatia. E a empatia é o sentimento mais potente que o ser humano pode ter. Empatia é amor pelo desconhecido. É humanidade desconstruída peça a peça. É nesse momento que retiramos os rótulos, os títulos, a cor de pele, a religião e a nacionalidade... É nesse momento que percebemos que aquele mundo gigante de diferenças se transforma num espantoso nada.

A empatia é a coisa mais bonita que podemos sentir, é o que nos agarra os pés à terra, é aquela voz que nos sussurra ao ouvido a dizer que a bondade tem de ser sempre maior que a maldade. Agora seguremos essa empatia. Agarremo-la bem. Não a percamos já. Guardemo-la num lugar seguro. Guardemo-la no lugar mais seguro do nosso coração.

Há anos que penso sobre este assunto. Nem sempre sei para onde levar os meus pensamentos, mas esta relação entre a humanidade, a história, as estórias, a notícia e a nossa empatia ou a falta dela, para mim, é o centro do universo. O ser humano enquanto animal pouco ou nada evoluiu desde que saiu do vale do Rift nas montanhas da Etiópia. A relação entre a história e as estórias é complexa. É a história que nos ensina, é a história que nos explica o presente e aponta o caminho do futuro, mas por vezes nada nos diz sobre as estórias ou sobre todas as estórias. E isso é muito injusto porque as estórias são as nossas vidas e as vidas dos outros. A notícia é perversa. A notícia vive do entusiasmo, vive do medo, da extravagância, do espanto, do deslumbramento, mas também da empatia. A notícia conta apenas algumas estórias e por isso conta mal a história. A notícia só sobrevive da alternância. A continuidade mata a notícia. E quando matamos a notícia, aos poucos deixamos morrer a empatia. E ao deixarmos morrer a empatia, a história e as estórias vão perdendo a humanidade. E nós não somos ninguém sem o outro e por isso vamo-nos perdendo na imensidão de notícias que já não o são, e permitimos que a estória da nossa vida se faça apenas com pequenas doses de empatia, que não fazem história.

As preocupações humanitárias são algo de muito recente na nossa história. Estão ainda numa fase embrionária. A Cruz Vermelha foi fundada em 1863 para tentar tratar como pessoas as vítimas dos conflitos. A Carta Internacional dos Direitos Humanos é de 1948 e ainda não entrou nas nossas cabeças. Os Médicos Sem Fronteiras, a maior e mais antiga organização não-governamental médica do mundo, foi criada em 1971 com o intuito de oferecer cuidados médicos à proporção das necessidades, e ainda assim quão longe estamos de qualquer espécie de igualdade e justiça — há 50% da população mundial que não tem acesso a cuidados de saúde e 25% não tem acesso a medicamentos essenciais. Um ser humano preocupar-se com a vida de outro ser humano que não conhece, que não compreende a língua, que não se assemelha na cor ou na cultura, que não comunga da mesma religião, é algo que começou há um segundo, se olharmos para a história da humanidade como tendo 24 horas.

Eu tinha 20 anos quando começou a guerra no Afeganistão, em 2001, acho que foi a primeira guerra que vi com atenção na televisão. Se a memória não me atraiçoa, eu não senti qualquer empatia. Eu apenas achava que era espectacular ver a brutalidade bélica e os jornalistas de capacete na cabeça a gritar pela nossa atenção. Certamente, a comunicação era mais pobre, mais incompleta. “Ninguém” nos contava as estórias do Afeganistão e, por isso, a história tirou-lhe a humanidade.

Uns dez anos mais tarde, quando fui trabalhar para o Afeganistão, com os Médicos Sem Fronteiras, descobri uma coisa absolutamente incrível: são pessoas, como eu, que lá vivem. Incrível descoberta! Não sei como ninguém me deu um Prémio Nobel logo ali. Mas a minha ignorância de décadas tem explicações históricas, pela falta de estórias que me chegavam, pela falta de humanidade com que se fala de um conflito armado e, embora a guerra tenha piorado durante 20 anos, a notícia pouco passou de 2001 e por isso não me lembro de sentir empatia, essa força motriz que nos faz ser humanos.

Por isso, digo: seguremos bem essa empatia, guardemo-la num lugar seguro. Um lugar onde conheçamos bem o caminho. Porque a notícia vai passar, as estórias vão deixar de nos aparecer e a história vai continuar sedenta de humanidade.

Por todos os conflitos armados, por todas as pessoas que sofrem o inimaginável, por um mundo melhor, por amor ao próximo e por amor-próprio, guardemos bem essa empatia.»

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31.8.21

Do fundo do baú (7)

 


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Da série «Dantes é que era bom

 

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Balsemão sobre Marcelo

 


Ouvir a partir do minuto 1:37.
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31.08.1945 – Sérgio Godinho

 



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Um país esvaziado

 


«Agosto é por norma sinónimo de pausa na atualidade política e agenda mediática, regra que este ano se confirmou, ressalvadas as exceções da catástrofe política e humanitária no Afeganistão e da evolução da vacinação. A aproximação do congresso do PS resumiu-se à polémica sobre a sucessão do líder e o tabu que deixará de o ser em 2023, não havendo propriamente temas inovadores a saltar à vista nas três dezenas de moções sectoriais.

Depois do retrato desolador de um país desequilibrado e esvaziado traçado pelos censos 2021, poderia esperar-se uma discussão sobre a visão que o partido no poder tem para revitalizar o país, mas o tema resume-se ao eterno apelo à regionalização (em que ninguém acredita seriamente) e a um clássico discorrer sobre as oportunidades para o interior do país.

Mais do que um problema do interior, a demografia é já uma questão central para o futuro do país. E deveria suscitar um sobressalto cívico, ser assumida como uma causa que interessa a todos, onde quer que vivam. Como pode ter futuro um território que desliza sempre para duas ou três cidades, sem polos intermédios de atração, sem sinais de inverter tendências sustentadas ao longo de décadas? Como se explica esta espécie de conformismo com os slogans de sempre, com as promessas de incentivos e de investimentos que, na hora da verdade, não mudam nada de estrutural?

As perguntas são inquietantes quando desfiadas em tempos de reflexão dos partidos que há muito vão ocupando o eixo de governação. E quando se aproximam as eleições autárquicas e muitos projetos se discutem entre eleitores cada vez mais envelhecidos e, sobretudo, cada vez mais descrentes o maior drama é exatamente esse: a falta de horizontes de esperança e a sensação de que se atingiu um ponto de não retorno em muitos municípios. Os autarcas não podem ser bodes expiatórios das sucessivas perdas dos seus territórios. A escala local é demasiado pequena para, sozinha, promover políticas capazes de atrair e fixar pessoas. Sem ação política no Terreiro do Paço, nada será possível. Esse deve ser um desígnio nacional.»

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30.8.21

Do fundo do baú (6)

 


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Costa e os sucessores

 

«António Costa é um centralizador. Gosta de acreditar que controla tudo no Governo e no PS. O que não quer controlar não lhe interessa ou está a cargo de pessoas que ele vê como prolongamentos de si mesmo. Como centralizador que é, acredita que controlará a sua sucessão. Mário Soares tentou-o e não conseguiu. Nem Guterres ou Sócrates o conseguiram, para me ficar pelos que experimentaram o poder. Nem Cavaco Silva, no PSD. Mesmo Durão Barroso, que escolheu o homem que lhe sucederia no Governo, se saiu mal. É uma guerra perdida. Conseguiram-no Francisco Louçã e Álvaro Cunhal, em partidos com culturas diferentes da do PS.»

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Copo mais do que meio cheio

 

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Um novo capítulo nas relações internacionais

 


«Os dias passam e o mundo continua a ver as imagens dramáticas captadas no perímetro exterior ao aeroporto de Cabul, agora agravadas pelo ataque bombista. Essa é a parte mais visível do choque e do pavor dos afegãos que não acreditam nas promessas feitas pelos talibãs. Mas há mais Afeganistão para lá de Cabul. No país, sobretudo nas principais cidades, vive-se o mesmo pânico e desespero. Só que aí sofre-se longe dos olhos do mundo. Quem vive nessas regiões e pode, procura refugiar-se no Paquistão ou noutros países vizinhos.

Há quem pense que estas imagens ficarão na memória da humanidade por muitos anos. E que serão recuperadas cada vez que for conveniente atacar os países ocidentais. Isso vai de facto acontecer. São cenas que deixam uma péssima representação do Ocidente, de abandono, incoerência e improvisação. Já a questão da memória é mais improvável. As duas últimas décadas têm sido infelizmente abundantes em tragédias humanas. Mas cada nova desgraça tende a esconder as anteriores. A lembrança do que aconteceu na Síria ou, mais recentemente, das situações dramáticas que as populações do Líbano, de Myanmar e outras vivem quotidianamente, é cada vez mais ténue. De momento, a derrocada afegã ocupa todo o ecrã.

O que não podemos esquecer é que no olho do furacão dos conflitos estão pessoas. É tempo de pensar em termos de gente de carne e osso, homens, mulheres e crianças, que sofrem todas as violências, humilhações, terrores e misérias que estas crises provocam. A segurança internacional e a diplomacia devem reportar-se, acima de tudo, ao quotidiano de quem é vítima dos extremismos, dos abusos de poder e de todo o tipo de tiranias, sejam elas em nome de um caudilho iluminado, de um partido detentor da verdade absoluta ou de uma bandeira religiosa.

Há três décadas, o PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - ajudou-nos a descobrir uma evidência que ninguém antes queria ou conseguia ver. Com o lançamento do primeiro relatório sobre o desenvolvimento humano - e dos seguintes, ano a ano - sublinhou que o crescimento económico só faz sentido quando tem como objeto central os indivíduos, de modo a tirar cada um da pobreza, da ignorância e da ignomínia. Não é o PIB que conta, mas sim o progresso que cada pessoa consegue realizar em termos de uma vida com mais dignidade.

As cenas à volta do aeroporto de Cabul deveriam ter um efeito similar. E do mesmo modo que os relatórios do PNUD serviram para criar novas alianças em matéria de cooperação para o desenvolvimento, a aflição e as incertezas que resultam da cedência do poder aos talibãs devem ser vistas como oportunidades para estabelecer pontes entre as grandes potências, a China e a Rússia incluídas. A reunião do G7 desta semana podia ter sido aproveitada para envolver Beijing e Moscovo no debate sobre as condições do reconhecimento da nova realidade afegã. Infelizmente, tal não aconteceu. A única preocupação foi a vã tentativa de convencer Joe Biden a prolongar a presença militar dos EUA para além de 31 de agosto. A reunião confirmou, uma vez mais, que no Ocidente não há outra liderança para além da voz da América.

O G7 deveria mostrar-se especialmente inquieto com o tipo de governação que os talibãs vão impor. A Rússia está consciente dos riscos para a estabilidade dos seus aliados na Ásia Central. A China está preocupada com a defesa dos seus interesses no Paquistão - os chineses não excluem um cenário em que terroristas paquistaneses e outros possam atuar, no futuro, a partir do Afeganistão e ameaçar o corredor económico que une a China ao porto de Gwadar, no oceano Índico. Quer a China quer a Rússia teriam certamente muito interesse em participar nessa discussão com os países do G7. Assim se transformaria uma crise numa oportunidade de aproximação entre potências rivais. Ganhariam todos com esse tipo de diálogo, a começar pelos cidadãos do Afeganistão.

Esta proposição pode parecer irrealista. Mas o virar de página que nos é imposto pelos talibãs exige que se olhe para as relações internacionais com uma imaginação nova e de futuro. Quem irá agarrar esse desafio?»

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29.8.21

Do fundo do baú (5)

 


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Em tempo de Feiras do Livro


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Congresso do PS



 

Estive a ver agora o discurso do dr. António Costa, convencida de que se tratava do encerramento do congresso do seu partido, que ele falaria da estratégia que tem para o futuro do mesmo, o que pensa sobre o que pode e deve ser mudado, como é que o PS se situa no terrível momento de perigo para a democracia que vivemos no mundo e até em Portugal, como é que os seus militantes se vão organizar e comprometer para receber as avalanches de novos imigrantes, etc. etc.

Enganei-me: ouvi não um secretário geral, mas um primeiro ministro triunfante e «em paz de espírito» pela acção do seu governo «no caminho certo», que enumerou uma lista sem fim de vitórias e de promessas de medidas mais ou menos avulsas (algumas sem dúvida importantes) para um futuro próximo. A propaganda soma e segue, o mundo e a estratégia continuam confinados.
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O direito à busca da felicidade

 


«Se o conceito de "direito à busca da felicidade" fosse algo de real para os políticos e fazedores de opinião, o parecer do Comité Económico e Social Europeu de 22/10/2008 que, entre outras propostas, sugeria que "uma política que deixe de basear-se exclusivamente na importância unilateral do crescimento económico e seja determinada igualmente por factores sociais e ambientais poderá permitir escolhas políticas mais equilibradas e contribuir para uma economia mais sustentável e mais solidária", para usar uma expressão popular, não teria caído em cesto roto.

Mas claro que caiu, apesar de haver economistas que já demonstraram que o PIB, como conceito económico, não se tem mostrado capaz para resolver os problemas das comunidades humanas no século XXI. Só o que os Donos deste Mundo preferem impor-nos a sua realpolitik, da qual resultam tragédias como aquela que está a acontecer no Afeganistão (não é a primeira e infelizmente não será a última).

Não fora a desgraça de tantas vítimas, seria completamente risível ver os que bramavam que "a América não negoceia com terroristas" a ceder a todos os ultimatos dos talibãs. Estes actos vão ter seríssimas e graves consequências, cujos efeitos se irão prolongar no tempo.

O que é particularmente terrível, quando estamos a viver tempos em que as forças e os estados que nunca cumpriram as regras de convivência internacional consagradas na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Carta das Nações Unidas, neste momento, já nem se dão ao trabalho de disfarçar o ódio que têm a esses valores ético-sociais, à Democracia e ao Estado de direito. Mas não, a narrativa que agora se pretende criar é que há uns terroristas (os que bombardearam o aeroporto de Cabul) que ainda são piores que os talibãs. Afinal, não é só o Chega que vai ser "normalizado" - os talibãs também o vão ser.

Não contem comigo para esse "peditório". Porém, os ataques aos direitos humanos também ocorrem no Ocidente - e há que os combater, pois não são só os extremistas muçulmanos que não querem que as mulheres "saiam à rua". Combatê-los a todos sem excepção.

Volto à inseminação post mortem. Devido a uma cruel postura burocrática de uma unidade do SNS, a Ângela Ferreira e o Hugo tiveram de esperar um ano antes de iniciar os procedimentos de PMA, quando não estava em causa verificar a existência de uma situação de infertilidade, mas sim tratar uma situação de preservação da fertilidade futura. E a Lei da PMA e os regulamentos aprovados pelo CNPMA, durante o tempo em que fui presidente dessa entidade, permitiam que o procedimento se tivesse iniciado de imediato. Teria sido possível, se tudo corresse bem, ao Hugo ter conhecido esse seu filho ou filha. Espero que a ignomínia e a crueldade não prossigam com a concretização do acto de destruição do material genético do Hugo, só por razões de pura e mesquinha burocracia. A Ângela, uma brava Mulher do Norte, com uma coragem notável e inspiradora, não merece mais este agravo.»

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