«Quando, no dia 28 de Fevereiro de 1994, José Saramago se sentou a escrever o seu diário, não poderia imaginar que, 31 anos depois, o primeiro-ministro o citaria. O problema não era a imaginação de Saramago, capaz de alguns feitos notáveis, como o de inventar mulheres que conseguiam ver por dentro de corpos, penínsulas que se separavam de continentes, heterónimos que permaneciam vivos depois da morte do seu criador. Mas nem ele seria capaz de prever que o que estava a escrever naquele dia do fim do século XX haveria de animar um debate parlamentar no final do primeiro quartel do século XXI. A entrada do diário dizia o seguinte: “Helena Carvalhão Buescu telefonou de Lisboa para me dizer que ‘In Nomine Dei’ ganhou o Grande Prémio de Teatro da APE. Foi por unanimidade, acrescentou (…). Evidentemente, a peça não é má, e se lhe deram o prémio é porque entenderam que o merecia, mas talvez o não tivesse se andasse mais gente a escrever para o teatro em Portugal. Encomendassem as companhias peças (pudessem encomendá-las) e a situação seria diferente. Valha o meu teatro o que valer, ‘In Nomine Dei’ não existiria se de Münster não mo tivessem pedido. Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.” Era, portanto, um lamento sobre a falta de apoios ao teatro. Se as companhias tivessem condições para encomendar peças, dizia Saramago, mais autores as escreveriam, e mais pujante estaria a nossa dramaturgia.
A reflexão ficou sossegada no segundo volume dos “Cadernos de Lanzarote” durante mais de três décadas até que, no debate da semana passada sobre o Estado na Nação, Luís Montenegro disse o seguinte: “Esta é uma nação forjada na vontade de permanecer. No ímpeto de navegar contra o medo. Na coragem de acreditar mesmo quando os ventos sopram de frente. Como escreveu Sophia, nós somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos.” Assim que deram pelo erro, várias pessoas criticaram o primeiro-ministro, por ter atribuído erradamente a Sophia uma frase de Saramago. Enfim, é o país que temos. Um olhar mais sofisticado sobre o discurso do primeiro-ministro teria permitido ver o que ele é: uma sentida homenagem a José Saramago. Mais de 30 anos depois de o Nobel português ter assinalado a falta de investimento na nossa dramaturgia, o primeiro-ministro deixa claro que já não somos esse país e, para o provar, é ele mesmo quem aparece a compor esta divertidíssima farsa.»

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