Os proibicionistas exultam e esperam que, a partir de hoje, passemos a morrer muito mais saudáveis. E a ideia é «avançar de seguida para outros alimentos», o que até já devia ser feito. Em breve, restaurantes sem saleiros?
Não se educa, proíbe-se: a tradição ficou-nos no sangue (e a UE veio ajudar). Se é possível comprar pão sem sal, ou com muito pouco, esta medida só pode ser publicidade a uma qualquer Tristar ou incitamento a comércio clandestino e ao secular contrabando.
Podiam ter optado por uma pequena etiqueta: «Comer pão mata».
Há dois dias que ando a dizer que sou solicitada para tantas «Causas» humanas que ninguém me apanha a empenhar-me nas que tratam de bichos.
Mas a proibição de touradas na Catalunha fez-me regressar ao Butão. Sendo o budismo religião de estado, é por lá proibido matar todas as espécies de animais, o que não impede que se coma regularmente carne e peixe - alegadamente porque a altitude o exige, sob pena de envelhecimento precoce… Quem mata então os ditos animais? Os vizinhos indianos de Bengala: sendo hindus, podem fazê-lo sem qualquer tipo de problema.
Também os catalães continuarão a assistir, bem perto, às suas «corridas» porque, ao Sul da França, que as cultiva desde meados do século XIX, não chegou ainda a proibição. Quando a União Europeia as impedir nos 27, os chineses importá-las-ão para Pequim ou para Xangai – estarão apenas uns quarteirões mais longe.
Quero com isto dizer que adoro touradas? Não: só assisti a uma, a pedido de uma amiga americana de passagem por Lisboa. Mas detesto «humanismo» por decreto proibitivo. Como para o fumo.
E «Tourada» será, sempre e também, esta canção de Ary dos Santos, que, ao vencer o Festival da Canção em 1973, foi uma grande farpa espetada no velho regime:
P.S. - Veja-se aqui quem votou a favor e contra, na Catalunha, e muitas coisas ficam explicadas: o separatismo é quem mais ordena, por aquelas bandas, o resto é mais ou menos uma certa dose de hipocrisia.
Num país em que um terço da população é fumador - a Turquia -, a ERC lá do sítio condenou uma estação de televisão a uma multa de cerca de 24.000 euros por esta exibir imagens do capitão Haddock a fumar cachimbo.
Ainda não li em nenhuma estatística que o ridículo seja causa frequente de morte mas tenho pena.
Tive um colega americano que acabou por deixar de fumar porque, para o fazer, tinha de andar mais de 100m com neve até ao joelho. Lá chegaremos. E morreremos todos com uma saúde absolutamente impecável.