8.4.23

Lustres

 


Lustre Arte Nova em cristal e latão, 1910.
Josef Hoffmann.


Daqui.
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Jacques Brel nasceu num 8 de Abril

 


Brel chegaria hoje aos 94. É um ritual a que regresso quase todos os anos: recordar que seria hoje um velho se não tivesse adormecido demasiado cedo: «Les vieux ne meurent pas, ils s’endorment un jour et dorment trop longtemps» – disse ele.

Um dos meus monstros sagrados, com um registo especial: tive a sorte de o ver e ouvir, em pessoa, era ele jovem e eu muito mais ainda. Em Lovaina, na Bélgica, num espectáculo extraordinário a que se seguiu, já na rua, uma cena de pancadaria entre valões e flamengos, com bastonadas da polícia e muitas montras partidas à pedrada. Tudo porque Brel, em terra de flamengos, insistiu em cantar um dos seus êxitos – Les Flamandes – onde uma parte das suas compatriotas não é muito bem tratada. Ele era assim.

Ver e ouvir AQUI, num post do ano passado, cinco vídeos, escolhidos entre muitos outros possíveis.
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Picasso morreu há meio século

 


«Quando era pequeno, a minha mãe dizia-me: se fores soldado chegarás a general, se te tornares padre serás Papa. Ao contrário de tudo isso, decidi ser pintor e converti em Picasso.»

Daqui.
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Mediocridade, fala-baratismo, absoluta ausência de sentido de Estado

 


«A maioria das coisas que as audiências parlamentares sobre a TAP têm revelado ou já eram conhecidas ou, apesar de muito rasgar de vestes, eram comuns nos governos e nas maiorias parlamentares quer do PS, quer do PSD. Elas são hoje “marca” do PS, apenas porque a longa permanência do PS no Governo tem um efeito amnésico sobre o que se passava nos governos do PSD e do CDS, onde, em particular, práticas de completa promiscuidade entre partido, Governo e Parlamento eram consideradas “normais”. É verdade que essa noção de “normalidade” também mudou, quer em termos reais, quer pela actual radicalização do discurso político, que exagera comportamentos habituais para atacar um adversário, esquecendo-se de que o mesmo era comum entre os “nossos”.

Nalguns casos, o resultado de tornar anormal o que era normal, é positivo; noutros, reforça o processo de demonização de práticas normais numa democracia que assenta em partidos políticos e em que a cobardia de muitos responsáveis face ao populismo ajuda a tornar maléficos. O resultado é uma falsa despolitização da governação, quer pela tecnocracia, quer pelo esconder de práticas mais que comuns em democracias consolidadas, como é, por exemplo, o caso inglês. É normal que, numa democracia com legitimidade eleitoral, os partidos no poder “controlem” o poder dos seus governantes, e que os governantes não se considerem acima da ideologia e da política do seu partido. O reverso está muito bem explicado para “totós” na série inglesa Sim, Senhor Primeiro-Ministro e na personagem exemplar de Sir Humphrey.

O problema não está em que haja presença partidária e marca partidária na governação, está na cada vez maior desqualificação e mediocridade do pessoal político nos partidos. E como são o que são, desertificam tudo à sua volta. As audiências da TAP são um excelente exemplo dessa crise de capacidade, competência, gravitas que enxameia a governação, e todo o sistema político no Portugal de 2023. Nem sempre foi assim, mas agora é assim.

Há razões estruturais para que tal aconteça, no processo de crescente divórcio entre os partidos e a sociedade e no seu reflexo no recrutamento e nas carreiras partidárias. Com a ascensão de gente que não tem verdadeira carreira profissional, nem a vida normal dos portugueses com a sua idade, e o seu currículo escasso e falta de experiência, almofadados pelo acesso às regalias de Estado, como deputado, governante, ou assessor, membro de gabinete, etc., é só uma questão de tempo até emergir a incompetência, mediocridade ou um qualquer Princípio de Peter.


O diálogo em email que apareceu nas audiências da TAP, entre um então secretário de Estado e a CEO da TAP, mostra como esta tem pelo menos algum bom senso e ele não tem nada, a não ser asneira. Não me surpreende. Basta ver o que escrevem deputados, dirigentes, responsáveis principalmente do PS, PSD, CDS e da IL nas redes sociais para perceber que este diálogo peca até por defeito.

Este diálogo é um sintoma do modo como nos partidos de poder se está a dar a ascensão e a construção de carreira, que já chega a cargos de governação, de gente que não tem sequer competência para gerir a arrumação de uma esplanada, com pedido de desculpa aos arrumadores de esplanadas. Tudo transpira uma absoluta mediocridade, um fala-baratismo que é hoje parte da pseudo-educação de muita gente nas redes sociais, e uma total falta da noção de Estado, uma coisa vaga, mas que, quando não se tem, brilha no escuro. Acresce que muitos dos políticos actuais que vêm das “jotas” vivem de dizer enormidades nas redes sociais, que os jornalistas amigos valorizam em tweets e na imprensa. São todos muito engraçadinhos.

O Presidente da República teria pedido uma alteração de horário de um voo regular da TAP, uma coisa que não se devia pedir, e que já se sabe nem sequer veio do Presidente. O então secretário de Estado apoia junto da CEO da TAP a pretensão com argumentos politicamente infanto-juvenis, que são uma janela completamente aberta sobre a cabeça, a formação, os hábitos políticos, a mentalidade do dito. Na cabeça dele e, pior ainda, na escrita dele, havia que aceitar a sugestão de adiamento do voo porque o Presidente podia zangar-se e deixar de apoiar o PS na questão da TAP: uma palavra dele e tudo ficaria perdido, o país voltar-se-ia contra “nós” (Governo e PS). Em si, é um incidente ridículo, mas ganha outra dimensão porque o pedido vem do lugar do poder e de um homem com poder de decisão. Ele, na verdade, está a mandar, não a pedir. E fá-lo com uma segurança e uma jactância inaceitáveis.

O Presidente da República tem muitos defeitos, mas a reacção pavloviana que o dito secretário de Estado lhe atribui imaginariamente é, pura e simplesmente, insultuosa. Como de costume, em muito deste palavreado que se aprende na Cloaca Maxima das redes sociais, o que se revela é um espelho. O que ele diz do Presidente é a imagem reflectida de si próprio, capaz de começar uma relação de ódio porque alguém o contrariou numa trivialidade, o que se compreende quando a vida, o jogo do poder e pelo poder, é feita de coisas menores e triviais. O ambiente das carreiras partidárias no topo dos gabinetes e no baixo das secções e federações é assim. Esta gente está a destruir o Governo, por muita maioria absoluta que ele tenha, e a fazer um enorme dano ao país.»

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7.4.23

Esculturas

 


La Nature, Musée Fin-de-Siècle, Bruxelas, 1899 - 1900.
Alphonse Mucha.

[Mais informação aqui.]


Daqui.
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07.04.1893 - Almada Negreiros

 


Almada Negreiros nasceu em S. Tomé e Príncipe há 130 anos. Visitei e almocei na casa onde veio ao mundo, na Roça Saudade, a 1.500 metros de altitude, da qual o pai era administrador. Com dois anos veio para Cascais e passou a viver com a família da mãe que ficou em S. Tomé e morreu pouco depois.

Num post do no passado, algumas imagens, duas com citações de Almada, pintadas na casa hoje transformada em restaurante-museu, e um vídeo com um excerto da entrevista que Almada Negreiros concedeu ao programa Zip-Zip, em 1969 (ano anterior ao da sua morte).
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Sexta Feira Santa

 


Enquanto almoço nas redondezas da Catedral, com adeptos inequivocamente entusiasmados com a hipótese de uma vitória mais logo no Benfica-Porto, percorro o Facebook e leio ateus arreigados a desejarem «Santa» Páscoa aos amigos e católicos escandalizados por ter sido marcado um jogo de futebol para uma sexta feira santa.

Isto não está fácil…
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A bandalheira

 


«A TAP é uma das bandeiras políticas de António Costa. Em dezembro de 2014, então líder da oposição, dizia, num comício em Castelo de Paiva: “É fundamental termos hoje a TAP, como foi fundamental no passado termos as caravelas que fizeram os Descobrimentos.” Menos de um ano depois, foi a votos com um programa que afirmava que a TAP era “uma ferramenta de primeira ordem para a projeção internacional de Portugal”, “um veículo fulcral de ligação à África lusófona, ao Brasil, aos principais destinos da emigração portuguesa”.

A sofreguidão de recuperar as caravelas levou Costa a negociar, através de um consultor informal, seu amigo, um acordo que trouxe a TAP de volta à esfera pública, deixando a companhia refém de uma governança bizarra, segundo a qual o Governo tinha metade do capital, mas apenas 5% dos direitos de decisão. Data de então outra frase lapidar de Costa a propósito da TAP: “A execução do programa do Governo não depende da vontade de particulares que resolveram assinar um contrato com o Estado português em situações precárias.”

Depois veio 2020 e a decisão crítica de salvar uma companhia à beira do colapso – devido a anos de prejuízos acumulados e a uma pandemia que colou os aviões ao chão – com mais de três mil milhões de dinheiro público. Em dezembro de 2021, a TAP voltava a ser 100% pública. Todo o processo foi, como não podia deixar de ser, acompanhado das correspondentes frases pomposas acerca da natureza estratégica da companhia.

Critiquei várias vezes a decisão de salvar a TAP. A prioridade de um país com carências graves na Saúde, na Educação ou nos transportes públicos não pode ser gastar dinheiro público numa companhia aérea que não fornece um serviço essencial. Quanto aos vários argumentos acerca do contributo da TAP para o PIB, o turismo, o emprego ou as exportações da economia portuguesa, todos eles enfermam de uma falácia comum. Essa falácia consiste em supor que na ausência da TAP toda a sua atividade económica desapareceria, ao invés de ser retomada (pelo menos em grande parte) pelas companhias concorrentes, ou até por uma nova que começasse do zero, tendo adquirido parte da massa falida da TAP.

Recomendo a leitura do excelente livro Milhões a voar, de André Pinção Lucas e Carlos Guimarães Pinto. Os autores recorrem a estatísticas do turismo, do negócio aéreo e a exemplos de empresas que faliram noutras paragens, para desmontar os argumentos fatalistas acerca do nosso futuro coletivo, se, em 2020, a companhia tivesse ido à falência.

Por esses dias, Pedro Nuno Santos certificava: “Se é o povo português a meter dinheiro na TAP, é bom que seja o povo português a mandar.” “ [Isso implica que] o Estado acompanhe todas as decisões com impacto relevante para a empresa.” E deixava no ar o aviso: “A música agora é outra.” Num mundo ideal, estas afirmações traduziriam o compromisso do Governo de António Costa com o desígnio histórico-patriótico-económico de uma empresa que ficou estreitamente ligada ao seu legado político. Isso não tornaria a despesa de 3,2 mil milhões de euros numa boa decisão, já que estes teriam feito muito mais falta para suprir as carências que já mencionei. Mas teríamos de reconhecer a honestidade e competência do Governo nesta matéria tão crítica. Ao invés, a comissão de inquérito que começou esta semana revela uma verdadeira bandalheira, uma palavra que escolhi de forma ponderada: “situação de grande desordem ou de desrespeito de regras, leis, princípios ou ordens”, de acordo com o Priberam.

Em primeiro lugar, parece estranho que o Governo não tenha explicado a Christine Ourmières-Widener, quando esta foi contratada, que se tratava de uma empresa sensível, salva pelo dinheiro dos contribuintes e (felizmente) sob grande escrutínio mediático, na qual importava exercer alguma contenção, evitando encomendas de carros luxuosos, mudanças de sede despesistas ou excesso de contratações de pessoas próximas. Nenhum destes atos é ilícito, mas são de moralidade duvidosa, tendo em conta que são pagos com dinheiro dos contribuintes e dos trabalhadores da TAP, que sofreram cortes salariais, em nome da saúde financeira da empresa. De toda a bandalheira, este é o mal menor.

Em segundo lugar, as explicações dos vários membros do Governo envolvidos nas trapalhadas não são exercícios da transparência democrática que se exigia perante a sensibilidade do tema.

Há o estilo cândido: Medina que convida Alexandra Reis para secretária de Estado sem fazer o trabalho de casa relativamente ao seu passado na TAP e na NAV, com uma indemnização a fazer a ponte entre as duas e depois é apanhado de surpresa pelas revelações mediáticas.

Há o estilo mentiroso: Pedro Nuno Santos que escreve, no ponto seis do seu comunicado de demissão: “Tendo o ministro tido agora conhecimento dos termos do acordo e perante as dúvidas, entretanto suscitadas, solicitou à TAP explicações em torno deste processo.” Sabemos hoje que ele conhecia os termos do acordo e participou ativamente, por intermédio de Hugo Mendes, na negociação da indemnização paga a Alexandra Reis.

Há o estilo espertalhão: João Galamba que vem dizer que a reunião entre membros do seu gabinete e deputados na véspera da audição parlamentar de Ourmières-Widener foi a pedido da TAP, que terá portanto sido informada da agenda dos membros do seu gabinete e dos nossos representantes eleitos por um passarinho.

Em terceiro lugar – e esta é porventura a questão que mais me preocupa –, como é que a orgânica e o funcionamento do Governo refletiam a importância e a sensibilidade de tudo o que tivesse que ver com a TAP? Sabemos hoje que o Governo tomava decisões críticas com uma sucessão de meras mensagens WhatsApp. Sabemos também que o secretário de Estado da tutela pressionou a CEO com o objetivo de alterar um voo (transtornando a vida a mais de duas centenas de pessoas e obrigando a TAP a pagar as devidas compensações) por conveniência de agenda do Presidente da República. O mesmo secretário de Estado avisou a CEO por SMS, num tom ríspido e informal, para não falar com a outra tutela ministerial da TAP (Ministério das Finanças), arriscando assim que decisões críticas da companhia fossem consideradas nulas ao abrigo das regras da sua gestão.

Temos igualmente conhecimento da famigerada reunião entre deputados do PS, membros do gabinete ministerial e a CEO da TAP na véspera de a mesma ser inquirida no Parlamento. Pode ter servido para comparar a receita da bouillabaisse com a caldeirada? Pode, mas não se livram da suspeição de terem preparado a audição do dia seguinte por forma a beliscar ao mínimo o Governo, sobretudo agora que nós sabemos que Ourmière-Widener sabia coisas e tinha mensagens e emails que o PS não queria que nós soubéssemos que existiam.

Bem sei que Pedro Nuno Santos e Hugo Mendes já saíram do Governo. Mas quem tinha obrigação de montar uma orgânica interna que assegurasse a lisura de tudo o que tem que ver com a TAP, como processos formais e colegiais de decisão e a mais absoluta transparência de tudo, era o primeiro-ministro – que ainda não nos deu explicações.»

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6.4.23

Jarrões

 


Jarrão decorado com cascata de glicínias sobre lírios, base azul noite. Japão, 1890.

Daqui.
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Bon voyage, Monsieur Macron

 


Eu sei que Macron está na China, mas ver um tweet oficial do governo francês em mandarim ainda (!) me espanta um poucochinho.

Até porque o conteúdo não parece justificá-lo, já que o tradutor do Google me diz que é isto: «Acredito firmemente que a China desempenha um papel vital na construção da paz. É isso que discutirei e avançarei. Também terei intercâmbios com o presidente Xi Jinping sobre temas como negócios, clima, biodiversidade e segurança alimentar.»
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Censura de antanho

 


De um texto que recorda uma das magníficas histórias que ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA ia contando:

«E não resisto a um episódio que me contou, passado com a censura, quando dirigia a revista «O Tempo e o Modo». Em 1964, Sophia de Mello Breyner traduziu de um modo sublime o «Hamlet», de Shakespeare. A versão é uma obra-prima da língua portuguesa. O António considerou dever publicar um excerto na revista. Mas era necessário enviar as provas tipográficas à Comissão de Censura. Apesar de a revista ser das mais martirizadas pela censura (tendo sofrido a proibição de cerca de metade dos textos que, entre 1963 e 1969, foram a exame), ele achou que naquele caso não haveria problemas de maior. Enganou-se, porém. O texto de Sophia veio totalmente cortado. António Alçada ficou incrédulo. Afinal, era um texto clássico do século XVII. Pegou no telefone e falou ao coronel dos serviços de censura. Eram coronéis reformados que normalmente estavam encarregados dessa triste tarefa... Do lado de lá, o censor confirmou o corte total e António, com uma infinita paciência, explicou o absurdo da situação. No entanto, o inabalável coronel insistia. Era assim, e pronto, não havia volta a dar... E lá veio a justificação. A alusão no diálogo a um Marcelo, certamente teria razão perversa. Falava-se então muito da sucessão de Salazar, e o nome que já circulava era o de Marcelo Caetano... O censor estava certo de que havia nessa referência uma ardilosa intenção política... Não se conformou, porém, António Alçada - e, palavra puxa palavra, acabou por conseguir um corte parcial... A fala de Horácio no I Ato, depois de um galo cantar, terminava assim: "O fantasma avança. Para-o! Fá-lo parar Marcelo!" E foi esta a única frase proibida.»

(Repescado aqui.)

Era assim que vivíamos…
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06.04.2011 – E o medo instalou-se até hoje

 


Ou a vinda da troika ainda tem as costas largas – como preferirem.
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Proletarização cor-de-rosa

 


«O processo de precarização do trabalho que temos vivido vai-se acentuando perigosamente. Gerações de jovens vêm sendo arrastados para a condição de trabalhadores precários e de seres humanos despidos de muitos direitos.

Para justificar este processo invoca-se que o emprego agora é volátil; produzem-se cenários catastrofistas sobre o efeito da utilização do conhecimento científico e tecnológico, colocando o enfoque na destruição de emprego e de profissões e, quase nunca, no seu potencial criativo; o aumento da esperança de vida é apresentado como um fardo que bloqueia os horizontes aos jovens; prega-se a pretensa supremacia do individualismo sobre o valor do coletivo e do bem comum.

A inculcação destas trapaças é acompanhada da propaganda de cenários cor-de-rosa, que escondem a crescente proletarização, mesmo de jovens trabalhadores de atividades e profissões qualificadas e muito qualificadas. Diz-se repetidamente que a juventude de hoje é "a geração mais preparada de sempre", que são mais "empreendedores" que nunca, que o mercado está atento ao seu "talento", que o que é bom é sair da "zona de conforto", esquecer laços familiares e relações sociais. É-lhes impingida a ideia de que trabalhar com direitos e deveres devidamente estabelecidos é uma velharia, pois bastar-lhes-á serem "bons colaboradores", a quem pretensamente será dada toda a autonomia e "liberdade".

O que lhes é dado como contrapartida? O caminhar da vida prova, dolorosamente, que as fases iniciais de grandes sacrifícios, apresentadas como mera passagem para futuros risonhos, se eternizam. Os sonhos de conquista de alguma segurança, de poderem ser criativos e livres das "grilhetas de contratos de trabalho", de terem rendimentos para uma vida autónoma, de conseguir acesso a habitação ou a formar família vão-se esfumando.

Quando, umas décadas atrás, se iniciou o arrastamento para o atual processo de precarização, ainda não eram necessários aqueles floreados linguísticos. A precariedade começou por ser imposta aos jovens de atividades e profissões de baixa qualificação. Era justificada por as pessoas não terem estudado nem se terem qualificado, e por terem o "azar" de se ocuparem em atividades domésticas, em serviços de abastecimento, de limpeza e segurança, em trabalhos na construção civil, na agricultura ou até grande parte dos trabalhos nas linhas de produção da indústria. Estes setores vêm sendo apresentados, falsamente, como atividades sem valor.»

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5.4.23

Entradas

 


Entrada da Casa Antoni Segarra. Barcelona, cerca de 1904 - 1907.
Arquitecto: Josep Masdeu i Puigdemasa.


Daqui.
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França: Presidenciais 2027

 


Vejam bem.........
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Gente de um país que é mesmo em forma de assim

 


Marcelo rejeita ter pedido para alterar voo da TAP
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Carta de três ismailis à sociedade portuguesa

 


«Este é um texto que nunca pensámos ter de escrever. No entanto, após testemunharmos o modo como a tragédia do passado 28 de março no Centro Ismaili de Lisboa, que tirou a vida à Farana Sadrudin e à Mariana Jadaugy, foi instrumentalizada para gerar mais-valia mediática e política, vemo-nos forçados a vir a público com esta intervenção.

Se falamos apenas em nosso nome, estamos certos, contudo, de que não estamos sós ao dizer que honrar a memória das vítimas significa não condescender com narrativas, no melhor dos casos, equivocadas pela ignorância e, no pior, movidas pela malícia da xenofobia, do racismo e da islamofobia que vão permeando com uma crescente e preocupante visibilidade a sociedade portuguesa.

As manifestações de solidariedade que nos chegaram demonstram como organizações e instituições da sociedade civil portuguesa partilham connosco uma profunda tristeza pela perda de duas mulheres cuja humanidade, altruísmo e dedicação aos outros expressavam o melhor de nós. Se tal nos conforta, a verdade é que para a comunidade ismaili a dor e o trauma são colectivos e transversais: jamais esqueceremos o desespero que vivemos naquele início de tarde, enquanto procurávamos a todo o custo descobrir a identidade das vítimas ou as motivações por detrás de algo que não queríamos acreditar ter acontecido.

A nossa incredulidade e sofrimento foram exacerbados pelo discurso público em torno do sucedido, que, rapidamente, assumiu contornos populistas e falaciosos. Igual a si mesma, a extrema-direita, pela voz de André Ventura, usou de forma grotesca o ataque para denunciar uma suposta “política de bandalheira e de portas abertas”, sendo as suas declarações incessantemente reproduzidas pelos órgãos de comunicação social, muitas vezes de forma acrítica e sem contraditório.

A extrema-direita seria, contudo, incapaz de retirar dividendos políticos de uma tragédia como esta se não beneficiasse de plataformas para o fazer. Vimo-lo na própria noite do ataque, com Ventura a ser convidado a participar num debate sobre “migrações”, que mais não foi senão um palco para disseminar falsidades sobre uma suposta política de imigração descontrolada. Num momento em que a nossa comunidade procura superar a dor e fazer sentido de um ato vil e, aparentemente, isolado, o oportunismo da extrema-direita ofende-nos não só pela sua enorme insensibilidade para com todos aqueles que sofreram direta e indiretamente com esta tragédia, mas também por desonrar a memória da Farana e da Mariana, e do trabalho que desempenharam, incansavelmente, em vida.

Da mesma forma nos ofendeu Mário Machado quando, em frente ao Centro Ismaili de Lisboa, afirmou que “estes templos são locais onde se praticam vários crimes, onde se incentiva à migração ilegal (...) [e] ao tráfico de drogas”. Se de um líder neonazi não esperávamos senão calúnias e falsidades, sabemos que as mesmas têm terreno fértil num contexto em que as realidades das comunidades minoritárias e racializadas como a nossa são ignoradas e tornadas invisíveis.

O Centro Ismaili integra no seu interior um espaço de oração a que chamamos “jamatkhana”, uma fusão da palavra árabe jama’a (grupo ou comunidade) e khana (casa), mas também um espaço aberto de reflexão intelectual e espiritual com vista a promover o diálogo inter-religioso e cultural. É um lugar que ocupa um espaço central nos mapas afetivos e sociais de um sem-número de pessoas das nossas sociedades.

Dizia uma jornalista que, com este ataque, o Centro Ismaili de Lisboa se transformaria num “lugar de paz que nunca o irá voltar a ser”. Gostaríamos de lhe dizer que a paz não é apenas um sentimento mas uma prática e uma construção colectiva e que, no que depender de nós, essa prática irá continuar. Sim, levará algum tempo até que as nossas feridas sejam curadas – ou pelo menos amenizadas – mas, tal como em tantos outros momentos da nossa história, persistiremos na busca de um mundo mais justo e tolerante, também para que tragédias como esta não se repitam.»

Membros da Comunidade Ismaili e activistas anti-racistas
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4.4.23

Candeeiros

 


Candeeiro de mesa banhado a prata, com abajur em concha de nautilus. Cerca de 1905.
Moritz Hacker.

[Mais informação interessante sobre o candeeiro aqui.]

Daqui.
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04.04.1914 – Marguerite Duras

 


Marguerite Duras nasceu há 109 anos em Saigão, actual Ho Chi Minh. Foi uma das grandes escritoras do século XX francês, também realizadora e guionista de filmes, para além de resistente durante a Segunda Guerra Mundial como membro do Partido Comunista Francês.
 
É vasta a sua obra no domínio da literatura, de início identificada com a corrente do nouveau roman, mas destaco dois livros que nunca esquecerei: L'Amant (1984) e antes, bem antes, Moderato Cantabile de 1958.

Mais informação e vídeos num post do ano passado.
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55 anos sem Luther King

 

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À procura de um rumo

 


«O Governo não tem sabido lidar com a maioria absoluta. Por muito que António Costa se multiplique em explicações e garanta a tranquilidade da governação, o contraste com os executivos anteriores - o famoso período da geringonça - é notório. Nessa altura, o Governo conseguiu transmitir uma mensagem objetiva: havia um propósito e os portugueses percebiam-no, concordassem ou não com ele.

Agora, a situação mudou radicalmente. Nem o Governo consegue transmitir a sua mensagem, nem os portugueses conseguem perceber qual o propósito com que trabalha. E as duas partes vão-se mantendo enredadas numa malha dominada por uma contestação muito pouco sustentada.

Confundem-se as tricas da governação com as ações governativas e contestam-se ministros e secretários de Estado por questões que nada têm a ver com a sua ação política, mas sim com matérias laterais. De que, diga-se, os próprios intervenientes não se conseguem libertar.

Enquanto o Governo se desdobra na procura de uma rota para a governação, multiplicam-se os protestos de inúmeros setores da sociedade, também eles com rumos incertos e muitas vezes sustentados em motivos pouco sólidos ou até mesmo completamente opostos ao que é anunciado.

E essa multiplicação de protestos ameaça o sucesso dos objetivos pretendidos. Um destes dias, alguém vai reparar que em vez de lutar pelas suas causas, muitos dos manifestantes estão perdidos em causas alheias. E o resultado não vai ser bom para nenhuma das partes.

Qualquer manual de luta política aborda uma regra básica: nunca desperdiçar recursos em guerras inúteis. E, na verdade, é isso que tem acontecido: o Governo perdido em explicações vãs e pouco atento à verdadeira governação e os portugueses mais preocupados em protestar, sem terem muito bem a certeza sobre porque o fazem.»

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3.4.23

Portas

 


Entrada de ferro forjado da Casa Moneta, Arte Nova. Milão, 1904.
Arquitecto: Guiseppe Borioli.
Porta por Alessandro Mazzucoletti.

Daqui.
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Com a crise da habitação, é precisa uma arquitectura política?

 


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03.04.1926 – Luís Sttau Monteiro

 


Chegaria hoje aos 97. Em jeito de homenagem, uma «Redacção da Guidinha».

Senhores da política:

Oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua senão qualquer dia estão no olho da rua a ouvir o que se disse na rua.

Jornal, 22.09.1978
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As casas não vão descer. Os salários vão subir?

 


«Portugal sempre teve este problema: trata de assuntos complexos como se fossem novos, únicos e não tivessem sucedido noutros locais do mundo. Mas em vez de copiar modelos internacionais na habitação, entra na espiral negativa de tornar indesejados os promotores de dimensão capazes de construir casas novas para arrendar a preços controlados. Ou então cria-se um clima anti-estrangeiro - como se passasse a ser possível proibi-los de quererem vir viver e investir em Portugal.

A verdade é que o preço das casas subiu muito nas principais cidades mundiais depois da pandemia. Viver-se num local mais seguro, ou com mais espaço, passou para o topo das prioridades das famílias. Em simultâneo, com a falta de confiança na banca, muitas poupanças foram parar ao imobiliário, incluindo investimentos das Seguranças Sociais, de vários países, em fundos de investimento à escala global. Consequência: subida dos preços. Em Lisboa e Porto quase duplicaram face a 2015 e continuam interessantes (vistos de fora, claro). Aliás, com ou sem Vistos Gold, com ou sem benefícios fiscais, seremos um país cada vez mais internacional - e este é o nosso seguro de vida, tendo em conta que vamos minguar de 10 para 8 milhões de portugueses.

Sabendo então que os preços não vão descer, atuar já é a única forma de evitar um descalabro social. Pôr a máquina do Estado a funcionar é o mínimo dos mínimos - vai suceder? A construção de 26 mil casas, via PRR, é uma pequena ajuda, mas mais importante é a colocação do património vago do Estado no mercado de Habitação. Terrenos urbanos públicos a custos controlados - essencial. Acelerar a burocracia do Estado e das autarquias: gritantemente urgente. Dar benefícios fiscais às cooperativas - excelente alternativa. Simplificar as decisões dos condomínios sobre o Alojamento Local - básico. Já a criação de uma taxa de 20% sobre o Alojamento Local é provavelmente uma violação do Princípio da Igualdade face aos hotéis (que, aliás continuam a surgir sem limitações). Em resumo: afinal, talvez o pacote sobreviva com utilidade, com ou sem devolutos.

Mas, no fim, permanece o problema-base de uma economia aberta: os salários. Quando esta semana o governo anunciou uma série de estímulos para os jovens entrarem no mercado de trabalho, com ordenados acima de 1333 euros, fê-lo através de propaganda pura. Razão: limita esse apoio às primeiras 25 mil candidaturas. Sem a bonificação prevista, a esmagadora maioria das PME portuguesas não o vão fazer. É um justo, mas enorme salto.

Repare-se: num problema tão crucial e com uma medida tão interessante, o governo fica a meio do caminho. Nem sequer garante a medida ao longo de 2023, ou por um ciclo de três anos - numa lógica de "quantos mais, melhor". É como se dissesse, de novo: "Se não cabes nos 25 mil, emigra". Mais: este estímulo potenciaria uma espiral de subida nos salários das empresas, promovendo revisões de escalões de todos os trabalhadores, gradualmente. E o Estado capitalizaria isso via Segurança Social. Mas afinal... 25 mil. Não mais. Dez das grandes tecnológicas instaladas em Portugal limpam os 25 mil candidatos numa penada. E o grosso das empresas nacionais fica com o aviso habitual do IEFP: "Plafond esgotado".

E assim chegamos de novo à Habitação: queremos ou não mais gente com capacidade para pagar uma renda ou uma prestação? Não sejam tão rápidos a dizer mal dos nómadas digitais ou dos estrangeiros a instalarem-se. Finalmente os salários da Europa entraram-nos pela porta dentro. Vamos ter mesmo de mudar. É agora ou nunca.»

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2.4.23

Frascos

 


Frasco para biscoitos, Arte Nova, de vidro com papoilas esmaltadas em vários estágios de floração e tampa em prata. França, 1900.
Legras.

Daqui.
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02.04.1975 – Outro aniversário: início da primeira campanha eleitoral em democracia

 


Às 0:00 horas desse dia 2 de Abril, teve início a primeira campanha eleitoral da democracia portuguesa: a que se destinou a eleger deputados com a missão de escrever uma Constituição que viria a ficar concluída um ano mais tarde.

Concorreram doze partidos: CDS, FEC (M-L), FSP, LCI, MDP/CDE, MES, PCP, PPD, PPM, PS, PUP, UDP e uma Associação ADIM (Associação para a Defesa dos Interesses de Macau).

O PPD foi o primeiro a arrancar com a colagem de cartazes, simbolicamente iniciada por três dos seus principais dirigentes – Francisco Balsemão, Magalhães Mota e Sá Borges –, foi o PS que fez o primeiro comício, com início dado por Mário Soares, em Faro, no primeiro minuto da campanha.

O processo de recenseamento foi um trabalho homérico e saldou-se pelo sucesso de uma participação de 91% dos eleitores. De um dia especialmente festivo, ficou a memória de filas intermináveis, onde muitos votavam pela primeira vez na vida.

Os resultados da votação foram os seguintes, em percentagens e número de deputados eleitos: PS 37,87% (116) / PPD 26,39% (81) / PCP 12,46% (30) / CDS 7,61% (16) / MDP 4,14% (5) / UDP 0,79% (1) / ADIM 0,03% (1).

02.04.1976 - 47 anos e uma Constituição

 


Naquele 2 de Abril, os deputados da Assembleia Constituinte, eleitos em 25 de Abril de 1975, deram por concluída a elaboração da Constituição. Esta foi então aprovada com os votos a favor dos partidos representados no Parlamento, com a excepção dos 16 deputados do CDS que votaram contra.




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Gouveia e Melo: o marinheiro pode já ter perdido as graças do mar

 


«Alguém sabe onde se meteu o almirante mais mediático deste país? Eu não, mas gostava. Estará escondido no porão de algum navio à espera que a tempestade passe, confiando que em Portugal tudo se esquece? É que desde que o famoso navio Mondego foi obrigado a abortar uma missão ao largo da Madeira que não se vê sombra do almirante, até agora sempre em prontidão para comentar coisas múltiplas na comunicação social.

Depois da avaria no navio Mondego, o mesmo em que se recusaram embarcar a 11 de Março vários militares por razões de segurança, a ministra da Defesa falou, o comando da Marinha no Funchal falou, e Gouveia e Melo zero. Nada. Conhecendo a sua performance de grande comunicador da TV, só se entende este silêncio do almirante por razões políticas. Depois do estardalhaço que fez no discurso às tropas a seguir à revolta de 11 de Março, o almirante tinha a obrigação de vir agora dizer qualquer coisinha. Independentemente de a disciplina ser uma base essencial das Forças Armadas, a cadeia de comando provou que estava errada ao considerar que estava tudo em ordem no navio Mondego. E agora deve dar explicações ao país.

O almirante Gouveia e Melo afirmou, naquelas declarações ao Sol que ficaram famosas, que "o circo" à volta da rebelião das tropas que se recusaram a embarcar tinha a ver com as sondagens que o dão como favorito para as presidenciais. Ou seja, politizou o caso em todo o seu esplendor. Podemos então concluir que o episódio desta semana pode ter funcionado como um tiro no porta-aviões relativamente às suas ambições presidenciais.

É verdade que o povo esquece depressa, que a imagem do almirante é poderosa nas massas, que ainda falta muito tempo para as Presidenciais. A própria agenda política esteve ocupada com o pacote da habitação, o assassinato de duas mulheres da comunidade ismaelita, a eutanásia, as sondagens, para se lembrar de um almirante misteriosamente silencioso.

Escondido em algum porão longe dos holofotes, aparentemente Gouveia e Melo espera que os portugueses esqueçam o episódio do navio. O esquecimento, como sabemos, é um poderoso álcool-gel para carreiras políticas.

Vamos esperar pelas próximas sondagens para as presidenciais – sondagens que nem provocaram a avaria do navio e, pelos vistos, nem o "circo" que o almirante disse ter sido criado com o motim. A esta luz, o seu discurso às tropas, com direito a directos televisivos e linguagem militar hardcore parece patético. Mas a euforia do almirante com as presidenciais pode, depois deste episódio, ter ficado comprometida.»

Ana Sá Lopes 
Newsletter do Público, 31.03.2023 (Parte 1)
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