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30.4.25

Quando a luz falha

 


«O que aconteceu na segunda-feira não foi apenas uma interrupção técnica. Foi um curto-circuito simbólico. A luz caiu, sim — mas o que se apagou, por instantes, foi a ilusão de que temos tudo sob controlo. Ficámos entregues a nós próprios, sem rede, sem desculpa. Corpos parados. Vidas suspensas. Uma sociedade moderna em modo de espera, revelada na sua versão mais crua: fragmentada, ansiosa, quase primitiva.

Houve vizinhos que falaram pela primeira vez. É verdade. Mas não foi um milagre cívico. Foi o reflexo de um país que, habituado a viver só, estranha o contacto quando ele aparece sem aviso. E logo se recolhe assim que pode. A luz voltou. E, com ela, o hábito de evitar.

A atomização da vida moderna não se cura com um apagão. Só se revela.

E o que vimos, naquelas horas de silêncio eléctrico, foi um retrato sem filtros: somos frágeis, desconectados, dependentes de ecrãs para nos sentirmos acompanhados. A confiança social — a matéria invisível que sustenta o edifício democrático — oscilou tanto quanto a corrente. Vivemos, enfim, juntos, mas não vivemos com.

O apagão não inventou esta solidão. Só a iluminou. Durante longas horas, vimos o que preferimos ignorar: que a estabilidade é uma construção artificial. E, ainda que tudo tenha voltado ao normal, alguma coisa ficou — não nos dados, mas no subsolo.

Porque vivemos num tempo em que a ordem custa a manter: uma guerra prolongada no continente, o regresso de Trump à Casa Branca, a inflação instável, o clima em crise. Num mundo assim, até uma falha breve pode lembrar-nos: o futuro já não é uma linha reta. E, quando o futuro assusta, o presente basta.

O apagão não foi suficientemente longo para ser um trauma colectivo. Mas também não foi neutro. Em épocas de instabilidade, até os choques pequenos afinam o instinto político. Se o mundo balança — e o Governo se mantém de pé — pode ser o suficiente para querer que continue.

Não por convicção. Mas por reflexo.

É esse reflexo que hoje molda eleições em várias latitudes. No Canadá, Mark Carney não lidera por prometer mudança. Lidera porque parece um porto seguro no meio do ruído. “Parece saber o que faz”, dizia esta semana um eleitor em Toronto. Uma frase breve, quase banal, mas que captura o espírito da hora: não se quer novidade. Querem-se travões.

Na Austrália, o incumbente Anthony Albanese estava a cair nas sondagens. E depois o mundo tremeu. Trump carregou nas tintas, a China endureceu, a guerra arrastou-se. Hoje, Albanese está tecnicamente empatado. E pode ganhar na próxima semana — não por ser uma promessa de futuro, mas por não assustar no presente.

Portugal não escapa a esta maré. A E-Redes falhou na comunicação. A REN falou em problemas exteriores. A Proteção Civil demorou a ativar alertas. Durante os primeiros minutos, quem precisava de informações consultava o governo espanhol ou as atualizações de Pedro Sánchez — porque em Portugal, a luz caiu, mas a palavra também. Luís Montenegro não brilhou no apagão. Mas também não caiu. E, para muitos, isso bastará. Porque, num país onde a rede falha sem aviso, e a explicação demora mais do que o restabelecimento, manter o que há já é meio caminho para evitar o que poderia vir.

A oposição ensaiou uma resposta. Pedro Nuno Santos tentou o tom institucional — mas é difícil parecer estadista sem Estado. Ventura reagiu como seria de esperar: culpou a dependência energética, criticou o encerramento das centrais a carvão e evocou a “soberania nacional” como antídoto. A versão local de um discurso que já ouvimos noutras línguas: menos Europa, menos transição energética, mais controlo. É o trumpismo aplicado à corrente elétrica. Mas sem internet, o populismo ficou sem amplificador — e a tese morreu à nascença.

E, nestas alturas, o silêncio de quem governa vale mais do que o ruído de quem promete.

A política não vive só de ideias. Vive de atmosferas. E a atmosfera, agora, não pede rupturas. Pede garantias. Mesmo frágeis. Mesmo conhecidas. O apagão passou. Mas a instabilidade ficou. E, enquanto durar, o voto não tenderá a ser um salto em frente. Será um gesto de contenção. Uma âncora lançada no meio da corrente.

Não é o regresso das grandes narrativas. É o regresso das mãos previsíveis. É o regresso à política aborrecida — porque, em tempos incertos, o tédio é uma forma de esperança. Não promete o céu. Mas segura o chão.

E, quando a luz falha, o chão basta.»


29.4.25

Regresso às origens

 


Não sei o que se passou. Sei que não se podia ter passado

 


«Estou a escrever este texto às 18h15 de 28 de Abril de 2025, um dia que ficará para a História por nos mostrar o que pode acontecer a uma sociedade totalmente dependente da electricidade quando a energia eléctrica falha. Escrevo este texto à mão, num bloco de notas amarelo da Amazon, que me chegou num dia em que havia electricidade. O meu computador está com pouca bateria e achei melhor não a gastar a escrever um texto de raiz, porque demora demasiado. Quando estiver pronto, planeio passá-lo para o computador, esperando que por essa altura o mail ou o WhatsApp já funcione, e o PÚBLICO o possa publicar. Talvez não possa. Talvez o jornal nem chegue a ser impresso.

À hora a que escrevo, não sei ainda o que se passou neste dia. Há quem fale num incêndio em França que atingiu linhas de alta tensão. Há quem fale num problema grave na rede eléctrica espanhola, de onde estaríamos a importar 30% da energia ao final da manhã. Sem esses 30%, a rede nacional ficou sem capacidade de resposta e deu-se o apagão, não sei se por decisão da REN ou por falha do sistema. Na verdade, não sei nada, excepto isto: o que quer que tenha acontecido, não poderia ter acontecido assim. Porque não ficámos só sem luz. Ficámos também sem comunicações. Ficámos sem boa parte dos transportes públicos (a CP já estava em greve, como sempre acontece após fins-de-semana prolongados, e por aí não se notou a diferença). E, nalguns casos, ficámos sob ameaça de um corte de água.

Certamente irão aparecer muitos especialistas a explicar-nos o que é que se passou, mas convém que ninguém se engane: isto é um problema político antes de ser um problema técnico, porque nós chegámos aqui por opções políticas de vários governos – e, pelo que se viu neste dia trágico, por muita ignorância e incompetência técnica.

Vamos cá ver: nós não fomos atacados pelo senhor Vladimir Putin. A Ucrânia foi, e muito, e nem ela teve um apagão igual a este. Nós não fomos vítimas de um ataque nuclear. Aquilo que este dia inimaginável nos diz é o seguinte: Portugal pode ficar sem electricidade, sem comunicações, e até sem água, porque uma rede de alta tensão ardeu em França ou porque houve um problema grave na rede espanhola. Peço desculpa pela pergunta: quando é que nós vendemos a nossa soberania energética à Espanha e à França? Quando é que nós fomos informados que um bater de asas de uma borboleta em Madrid poderia causar uma catástrofe eléctrica em Portugal?

Ouvir Luís Montenegro dizer na tarde deste dia, com milhares de portugueses a vaguear desesperados pelas ruas, que a culpa não é nossa porque o incidente não teve origem em Portugal, é patético. Ouvir o ministro da Coesão Territorial a levantar a hipótese de um ataque cibernético, ao mesmo tempo que era desmentido por quem tem a tarefa de vigiar ataques cibernéticos, é risível. Ver os primeiros-ministros de Portugal e Espanha, mais de sete horas após o apagão, declararem que não faziam ideia do que aconteceu, é do domínio do inconcebível.

Temos Estados gigantescos e gargantuescos, que consomem quase metade da riqueza nacional. Temos de perguntar a quem manda: se o Estado não serve para assegurar o mais básico do básico, serve para quê? A privatização da REN vai ser questionada – e bem, porque nunca deveria ter acontecido. Mas o problema vai muito para além da REN. É a mediocridade deste Estado que nos deve preocupar a todos. E a forma como o Governo apagou com este apagão não pode descansar ninguém.»


30.8.22

Quando o capitalismo falha

 


«Reformas, unificação e interconexões. Este era o objetivo da Europa para um mercado de eletricidade que se vem construindo desde a década de 1990. O último passo para que todos os países da União Europeia passassem a um mercado livre foi há oito anos.

Desde essa altura, são as empresas privadas (ou não) a ditar os preços da luz supervisionados pelos reguladores. O objetivo de tudo isso era a construção, posterior, de um mercado único europeu de eletricidade, mais adequado a uma combinação energética com foco em energias renováveis (principalmente, eólica e solar), favorecendo o consumidor com o fim dos monopólios estatais. Com a guerra da Ucrânia tudo mudou. Devido à dependência energética da Rússia, a Europa (e Portugal) está perante uma realidade em que os privados são "obrigados" a fazer disparar a fatura junto dos consumidores, fazendo com que o mercado livre ambicionado pela Europa se vire contra os seus concidadãos.

Não foi por acaso que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, veio ontem afirmar que há que rever os princípios de mercado no setor da energia, apelando a "uma intervenção de emergência" já que a reforma que levou mais de duas décadas a construir não se aplica às atuais circunstâncias. Ou seja, deixar que o mercado funcione num produto tão essencial como a eletricidade afinal não é assim tão benéfico para os consumidores.

E qual é a solução imediata? Mudar as leis para que haja maior intervenção estatal na definição dos preços da energia? Sim, pode acontecer. Mas não nos livramos dos preços impostos pelo mercado internacional.

Cortar com o fornecimento russo tem um lado da moeda cruel, que é continuar a comprar energia a preços incomportáveis até a Europa conseguir fazer o seu abastecimento numa aposta a longo prazo nas energias renováveis. Ou reforçar a tão nefasta energia nuclear. Os ministros da Energia vão reunir-se numa cimeira extraordinária a 9 de setembro prontos a quebrar com as regras do mercado livre. Veremos o que sairá da torre de Babel.»

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10.2.20

Só 80.000 cidadãos?


Para a próxima terão de ser muitos mais, de preferência por voto nas urnas.

«A campanha lançada em 2018 pela associação para a redução do IVA da energia foi assinada por 80 mil cidadãos que pediam a redução do IVA na electricidade, no gás natural e no gás engarrafado.»

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7.6.19

Esta energia que nos esgota



«Portugal tem uma das eletricidades mais caras da Europa, tanto em termos absolutos como relativamente ao poder de compra. Para o consumidor doméstico, o preço da eletricidade em Portugal no segundo semestre de 2018, expresso em euros por KWh, foi o sexto mais elevado da União Europeia. Em termos de paridade de poder de compra, Portugal lidera a tabela: tem mesmo os preços da eletricidade mais elevados de toda a UE.

É também conhecido que estes preços extraordinariamente elevados estão associados a um peso anormalmente alto das taxas e impostos na formação do preço da eletricidade, o qual excede largamente a média dos outros países europeus. Isso deve-se em parte ao facto de, por iniciativa do anterior governo de direita e da troika, o IVA sobre a eletricidade ter passado da taxa de 6% para a taxa de 23%, apesar de se tratar obviamente de um bem de primeira necessidade. O governo atual reduziu novamente a taxa de 23% para 6%, mas apenas para o termo fixo e apenas no caso da potência contratada mais baixa, o que está muito longe de ser suficiente.

Há porém uma outra parte, também contabilizada dentro dos “impostos e taxas”, que é ainda mais importante para a formação destas tarifas extravagantes e que constitui uma fonte de lucro inesgotável para as elétricas, principalmente a EDP: as rendas habitualmente designadas por CMEC, ou Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual, asseguradas pela incompetência e cumplicidade de diversos governos no decurso de um processo de privatização do sector feito à medida dos mesmos interesses que não se têm esquecido de premiar um corropio de ex-governantes com sinecuras nos seus órgãos de gestão. No âmbito dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito às rendas exessivas no sector da energia, o montante total destas rendas – na sua larga maioria suportadas pelos consumidores – foi estimado em muitos milhares de milhões de euros ao longo dos últimos vinte anos.

É sabido, ainda, que as famílias portuguesas têm um dos níveis mais elevados de pobreza energética da Europa, para o que contribuem a ineficiência energética do edificado e a elevada dependência relativamente à eletricidade para regulação do conforto climático nas habitações, mas cuja causa mais decisiva não é técnica, mas económica e política: o facto das tarifas da eletricidade terem duplicado desde a privatização, alcançando níveis absurdos para o poder de compra da população. E nada disto é estranho ao facto de Portugal ter ainda um dos níveis mais elevados de mortalidade excessiva no Inverno em toda a União Europeia, apenas ultrapassado por Malta.

Nesta semana que passou, o responsável da Bosch em Portugal assinalou outra dimensão ainda do problema: o preço da eletricidade em Portugal, por ele qualificado como “exorbitante”, onera de forma significativa a estrutura de custos das empresas, principalmente as empresas industriais para as quais a energia é um insumo importante, e limita fortemente a sua viabilidade. As rendas extraídas por umas poucas empresas sanguessugas – e por uma delas, em particular – empobrecem diretamente as famílias, mas também constrangem fortemente a estrutura produtiva nacional.

Há um nexo triste que relaciona a forma promíscua como foi levada a cabo a privatização do sector elétrico, as rendas excessivas de milhares de milhões de euros, as tarifas extravagantes pagas pelos consumidores domésticos e empresariais, os constrangimentos ao desenvolvimento e qualificação da economia portuguesa, os níveis recorde de pobreza energética entre as famílias portuguesas de baixos rendimentos e os padrões de morbilidade e mortalidade excessivas no nosso país. É a história de um capitalismo de compadrio desumano e medíocre.»

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