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3.9.24

Muito menos do que humanas

 

Ebrahim Noroozi/AP

«Horia Mosadiq, jornalista e ativista afegã, desfia memórias que hoje parecem devaneios impossíveis. “Em miúda, lembro-me da minha mãe a vestir minissaias e a levar-nos ao cinema.” Esse tempo e as imagens de um Afeganistão que não foi sempre sombrio são o mais óbvio desmentido dos argumentos do regime talibã, que não apenas impôs um total apagamento das mulheres nas mais recentes leis de vício e virtude, como tentou criticar as reações externas.

Zabihullah Mujahid, o principal porta-voz do governo talibã, diz haver “arrogância” e desconhecimento da lei islâmica. Além de não haver direito à “compreensão” da comunidade internacional perante graves atentados a direitos humanos, o que está a ser aplicado não encontra respaldo no islamismo, como o comprova a história do próprio Afeganistão e de outros países islâmicos. Assiste-se a uma supressão total de 14 milhões de mulheres e meninas e a uma afirmação de ódio pela figura feminina.

Nos três anos desde que tomou o poder, o regime já tinha excluído as mulheres de quase toda a vida pública, impedindo a frequência do ensino médio, o emprego remunerado ou o simples ato de ir a um salão de beleza. Estava-lhes igualmente vedado o acesso ao sistema de justiça e foi assumida uma aplicação discricionária de punições, incluindo a normalização do apedrejamento. Agora até a voz é proibida, mesmo em circunstâncias em que seja audível a partir do interior de uma casa.

A reação da comunidade internacional é demasiado tímida, quase limitada à posição das Nações Unidas e aos alertas das associações de defesa dos direitos humanos. O que se passa no Afeganistão é demasiado monstruoso e não é um problema de mulheres. É um ataque a todos os seres humanos. Uma negação do direito a existir. Uma obsessiva intervenção para tornar menos do que humana metade da população do Afeganistão.»


28.8.24

As mulheres afegãs estão a ser apagadas da História

 

Vasco Gargalo

«Quando, em 2021, os talibãs recuperaram o poder no Afeganistão, 20 anos depois de terem sido derrubados por uma coligação liderada pelos EUA, e juraram que desta vez seria diferente, que as meninas iam poder ir à escola, que o uso do hijab seria apenas aconselhado, que não haveria discriminação de mulheres no âmbito da sharia (a lei islâmica), o mundo ocidental desconfiou.

O ceticismo não tardou a provar-se justificado. Meses depois, as meninas foram proibidas de frequentar escolas secundárias e universidades, as mulheres impedidas de trabalhar e viajar sozinhas, as apresentadoras e jornalistas televisivas intimadas a cobrir o rosto. E os talibãs estavam só a começar. Três anos depois do seu regresso ao poder, a lista de retrocessos é impressionante.

Salões de beleza encerrados, afegãs perseguidas e torturadas, a mulher totalmente arredada da vida pública, um apartheid de género brutal. No ano passado, um relatório com a chancela da Amnistia Internacional classificava mesmo a perseguição de género no Afeganistão como um crime contra a humanidade.

O próprio Parlamento Europeu aprovou, em março, uma resolução que apelava à criação de um mecanismo de investigação independente das Nações Unidas a este propósito. Mas o ímpeto opressivo e segregador do regime talibã (que até hoje não foi reconhecido por nenhum país do Mundo) não conhece limites.

Agora, as autoridades ratificaram uma lei moral que reforça a repressão de mulheres e raparigas. Graças ao artigo 13, anunciado por um aberrante “Ministério para a Propagação da Virtude e Prevenção do Vício”, as mulheres ficam impedidas de cantar, falar ou sequer ler em público. Além de se reforçar que não podem ter uma nesga de pele à vista.

“Asseguramos que esta lei islâmica será uma grande ajuda na promoção da virtude e na eliminação do vício”, vincou o porta-voz do dito Ministério. Parece saído de um filme delirante, mas não, é real e está a acontecer em pleno século XXI. A lei reflete “uma visão desoladora do futuro”, reconheceu a missão das Nações Unidas no Afeganistão. Mas o indizível atentado às mulheres afegãs prossegue, à vista de todos, e perante a confrangedora inércia da comunidade internacional. Até quando? E nós - que apesar de ainda termos uma longa luta pela frente no que à igualdade de género diz respeito, gozamos, pelo menos, do pleno direito de erguer a nossa voz bem alto -, vamos continuar a fingir que não é nada connosco?»


22.12.22

Entretanto no Afeganistão

 




Muitos estudantes masculinos abandonaram um exame como forma de protesto contra a decisão de excluir as raparigas.


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26.9.21

Podem os homens que têm tanto medo das mulheres governar o Afeganistão?



 

«Na década de sessenta do século passado, quando os países do Médio Oriente se levantaram contra as potências coloniais, o Islão foi incorporado como elemento constitutivo do movimento de libertação nacional na maioria dos países árabes, com exceção da Arábia Saudita que sempre esteve fechada no seu mundo absolutista da dinastia da casa Saud.

O movimento do chamado renascimento árabe Al Bath na Síria e no Iraque, a FLN na Argélia com Houari Boumediene, no Egito de Nasser, no Iémen do Sul são exemplos vibrantes de sociedades renascidas da ocupação em que o papel das mulheres assumiu relevo.

Era perfeitamente possível ver nas ruas do Cairo, Aden, Argel, Damasco ou Bagdad jovens namorados e casais de braço dado e era muito raro encontrar mulheres nos centros urbanos de cara tapada com hijab ou nicab e muito menos com burqa.

Na OLP era perfeitamente visível o extraordinário papel das mulheres na luta mais geral do povo palestiniano pelo direito a edificar o seu Estado livre e soberano da ocupação israelita.

Estes países tinham uma conceção do islão que permitiu aos movimentos de libertação nacional integrá-lo de forma positiva nesse quadro político e sociológico.

O Afeganistão dos anos 60/70 era nesta matéria um país ainda mais avançado nos grandes centros urbanos onde as mulheres tinham o seu papel nos mais variados setores da vida económica, social e cultural.

A partir dos anos oitenta, a Arábia Saudita com todo o seu poderio financeiro e económico foi investindo um pouco por todos os países árabes e muçulmanos grandes somas para difundir a sua conceção fundamentalista e retrógrada do islão. Financiavam a construção de mesquitas, enviavam religiosos e acenavam com novos investimentos.

A Arábia Saudita espalhou por todo o mundo muçulmano os seus pregadores e as suas escolas de difusão do wahabismo sunita, a versão mais fundamentalista e retrógrada do islão.

Com a invasão do Afeganistão pela URSS, a Arábia Saudita investiu com os EUA somas incalculáveis de dólares no apoio aos autodesignados mujahedin

A implosão da URSS também contribuiu para uma viragem do nacionalismo árabe para uma visão fundamentalista que a Arábia Saudita impulsionou. Fez medrar uma nova guinada no sentido do mais recalcitrante conservadorismo que foi da Al-Qaeda ao Daesh, ao Hamas, e aos taliban apoiados pelo Paquistão e saídos das entranhas da guerra contra a URSS e que os EUA e a Arábia Saudita apoiaram.

Como sempre seguindo as peugadas da História as criaturas foram nos seus desígnios muito para além dos seus criadores.

A desastrosa invasão do Iraque criou em todo o mundo muçulmano um desespero e uma revolta que muito contribuiu para esta viragem nos valores do Islão dada a ausência de alternativas no plano das políticas dos países árabes. O Islão apareceu aos muçulmanos como a sua única identidade.

Esta nova visão misógina e retrógrada, própria das sociedades tribais de mentalidade atrasada, foi promovida pela Arábia Saudita.

O papel da mulher na Arábia Saudita serviu também de inspiração aos taliban. Foi daquele país que se transpôs a sharia para ser a lei fundamental, ou seja, a Constituição do país, a qual não tem normas e resulta do que se diz do que o Profeta disse e de umas tantas citações do Corão.

Na Arábia Saudita as mulheres para estudarem precisam do parecer favorável de um familiar masculino, as escolas não são mistas; uma mulher que precise de uma intervenção cirúrgica tem de ter o parecer favorável do familiar masculino mais próximo e têm obrigatoriamente de ser vistas por médicas. Não podem andar na rua sós. Nas mesquitas em que podem entrar, ficam atrás dos homens. O seu depoimento como testemunhas vale metade do dos homens e no direito sucessório recebem metade do que recebem os herdeiros homens. Já podem tirar carta de condução, mas não é fácil.

Os jihadistas sunitas beberam até a última gota este fel/inferno que impõem às mulheres onde tomam o poder desconsiderando e perseguindo-as como seres inferiores. 

Os taliban acabam de criar o Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, encarregado de promover a pureza da sharia.

Num mundo em que o tempo acelera, os talibans vão tentar impor o regresso ao passado com todo o cortejo de horrores. Não querem que as mulheres calcem sapatos para não ouvirem o barulho que fazem as suas pernas a andar na rua porque os perturba.

Podem os homens que têm tanto medo das mulheres governar um país? Vamos ver.»

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25.9.21

Entretanto no Afeganistão

 



Reflectir sobre isto, e sobre o que aí vem, é que é importante. Não ter quase dois dias de reflexão para decidir como votar na freguesia de Rebimba o Malho. (Espero que não exista nenhuma terra com este nome…)
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10.9.21

Afeganistão 2020


 

As Memórias do Facebook mostram-me que estas mulheres estavam a fazer o exame de acesso à universidade há um ano, à torreira do Sol e com respeito da distância social por causa da pandemia. Certamente que se lembram agora deste dia com sabor a um paraíso quase perdido
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9.9.21

Entretanto no Afeganistão

 


«Há dias, um talibã do Afeganistão foi questionado, em entrevista, sobre a importância do uso do hijab (véu islâmico) e respondeu da seguinte maneira: - "Você compra um melão já talhado ou intacto? Claro que compra o intacto. Uma mulher sem o hijab é como um melão talhado". »
 
Alexandre Guerreiro no Twitter
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Para nossa eterna vergonha

 


«A saída desordenada da comunidade internacional do Afeganistão e a devolução gratuita do poder aos Talibãs é uma vergonha para a comunidade internacional e uma tragédia para os milhões de afegãos que se envolveram no processo de mudança política, social e cultural do país nos últimos 20 anos. Em situação particularmente vulnerável estão as mulheres que estudaram, trabalharam e exerceram cargos públicos. Penso especialmente nas 270 juízas: essas “infiéis” que ousaram sentar-se em frente de homens, olhá-los com autoridade e julgá-los pelos seus actos. Têm a cabeça a prémio. Ninguém sério acredita nas promessas de tolerância daqueles tresloucados barbudos com pensamentos medievais que consideram as mulheres sub-humanas e já andam por todo o lado armados com metralhadoras a matar e perseguir.

A discussão dos aspectos geopolíticos e geoestratégicos da retirada unilateral dos Estados Unidos, da irrelevância dos seus aliados e da impotência de organizações internacionais é importante, mas deixo-a para os especialistas. É sempre possível encontrar boas razões para justificar más acções. A verdade que mais me importa sublinhar é a do falhanço moral indesculpável da comunidade internacional, que abandonou pessoas a quem tinha dado esperança e incentivado a correr riscos com base em promessas de protecção que não cumpriu. É fácil agora culpar os Estados Unidos, mas não podemos apagar a responsabilidade dos outros países envolvidos no processo de estabilização do Afeganistão – entre os quais Portugal, que mandou para lá milhares de militares, deixou lá vidas e gastou milhões de euros.

De acordo com o documento “Out of the Shadows, Onto the Bench: Women in Afghanistan´s Justice Sector” da International Development Law Organization, só nos primeiros 10 anos de presença internacional no Afeganistão, as mulheres com licenciatura em direito atingiram 18% e constituíam 19,3% dos advogados, 9,4% dos procuradores e 8,4% dos juízes. Todas essas pessoas foram apanhadas de surpresa e estão agora em risco. Basta ver o que dizia a juíza presidente do tribunal de recurso para crimes de corrupção, Anisa Rasolli, em 11 de Junho deste ano: “Acredito que o sistema judicial Afegão está a recuperar a decência. Se a situação actual se mantiver, estou optimista quanto ao futuro do judiciário no Afeganistão”. Enganou-se. Dois meses depois a comunidade internacional tinha saído, o presidente afegão fugido, as Forças Armadas entregado as armas e os Talibãs tomado conta do país.

Nos dias da debandada caótica, daquelas cenas horríveis que vimos no aeroporto de Cabul, apenas umas poucas juízas puderam fugir do país com as famílias. Ninguém se lembrou de as considerar prioritárias. Que se saiba, 9 conseguiram refugiar-se no Reino Unido e umas duas dezenas noutros países, com o apoio de diversas organizações internacionais, nomeadamente as que representam juízes e juízas. Foi constituído um grupo ad-hoc de pessoas com contactos no terreno e nas entidades nacionais e internacionais relevantes para coordenar o processo de evacuação dessas mulheres e suas famílias. Há países dispostos a conceder vistos – Portugal é um deles, segundo declarações públicas de responsáveis do governo. E há condições de acolhimento que as associações internacionais e nacionais de juízes podem assegurar.

No entanto, a situação é ainda incerta e não consente optimismos. As juízas estão escondidas em casas de familiares. Os contactos pessoais (telefone, email e zoom) são muito difíceis. Os países que se disponibilizaram a conceder vistos hesitam agora por causa do problema logístico de terem encerrado as suas representações diplomáticas em Cabul e não poderem emitir e entregar pessoalmente esses documentos. (…) Uma tarefa ciclópica de êxito incerto. É essencial que todos nos sobressaltemos agora para que amanhã não nos venha a pesar na consciência a morte daquelas mulheres que abandonámos para nossa eterna vergonha.»

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8.9.21

Mulheres afegãs

 


O mínimo que podemos fazer é mostrá-las, com esta força incrível.

Mais imagens AQUI.
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3.9.21

Quatro casamentos e três funerais

 


«Cada refugiado afegão que aterrou em Portugal vinha acompanhado de uma única mulher. Caso tivesse mais, por lá ficaram — assim estabelecem os critérios da NATO, afirmou o ministro da Defesa. No estado em que estava o aeroporto de Cabul, percebe-se que ninguém tenha começado a discutir uma lista de embarque baseada no modelo familiar da arca de Noé. Resta saber se a bagagem em excesso largada em terra pode ser recuperada pelo Estado português ou se vai ficar definitivamente entregue ao cuidado dos locais.

A NATO garante que se limita a seguir o estabelecido pelos países de acolhimento, e não parece estar a mentir. No regime do reagrupamento familiar português, cada homem autorizado a residir em território nacional pode mandar vir uma esposa. A poligamia é para deixar lá nesses sítios exóticos; por aqui somos gente decente. E não estamos sozinhos: todos os Estados-membros afirmam solenemente a contrariedade do casamento poligâmico à ordem pública para rejeitar qualquer possibilidade de um muçulmano deambular por essa Europa fora com as suas quatro esposas. O nosso regime tem, aliás, por base uma diretiva europeia; a culpa só podia ser dos burocratas sem coração que legislam em Bruxelas.

Acontece que a dita diretiva só proíbe Portugal de autorizar a entrada das várias esposas quando o marido já mora por aqui e é casado. No resto, cada Estado-membro define se o círculo familiar relevante para o reagrupamento só integra a Malala, ou também abrange a Amina, a Nazia e a Farida. A opção por a Malala ser a única mulher que pode embarcar no avião é mesmo nossa.

As declarações enérgicas contra qualquer admissão da poligamia em território europeu são fáceis de perceber. Abrir a porta a hordas de muçulmanos com várias mulheres a tiracolo tem o condão de pôr toda a gente maldisposta. Os mais conservadores começam logo a bradar contra o multiculturalismo que já está a dar cabo das nossas instituições milenares — esquecendo que o regime nacional do divórcio já esteve mais longe de ser uma espécie de poligamia em série. Progressistas e feministas desatam a denunciar a desigualdade de um casamento onde o marido consegue ver-se livre da mulher dizendo três vezes talaq, enquanto esta tem de aturar homem até que ele se digne deixá-la ir à vida dela.

O que pouca gente sabe é que, pela calada, os tribunais têm recorrido regularmente a um ramo de direito pouco conhecido do grande público, o Direito Internacional Privado, para ir resolvendo os problemas concretos colocados pelos casamentos poligâmicos. Nunca se reconhece a validade de um casamento poligâmico quando um dos cônjuges seja português ou residente em Portugal, nem se permite a sua celebração em território nacional. Mas aceita-se que um segundo casamento seja considerado quando tiver sido celebrado num país que admite a poligamia, entre nacionais e residentes nesse país, sempre que não o fazer deixa a terceira parte ainda mais desprotegida.

Na situação das mulheres afegãs, é difícil dizer que não se justifica permitir a sua entrada. Nem que seja porque outro valor, superior à exclusividade do casamento, se impõe: a própria vida destas, muito provavelmente em risco. Podem deixar o Abdul trazer todas as suas esposas. Juridicamente, estamos equipados para lidar com isso. Os tribunais já mostraram ter capacidade para tratar os casamentos poligâmicos sem pôr em causa a sacrossanta exclusividade do matrimónio ou aplicar a sharia e obrigar a Yasmina a andar de burka. Resta saber se, politicamente, há vontade para o fazer.»

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1.9.21

Guardem essa empatia

 


«Nós vimos o desespero daquele povo. Nós vimos homens a morrer ao tentar subir para as rodas de um avião. Nós vimos mulheres com crianças ao colo a esborracharem-se para tentar entrar no aeroporto. Nós vimos. Nós sentimos. Nós sentimos empatia. E a empatia é o sentimento mais potente que o ser humano pode ter. Empatia é amor pelo desconhecido. É humanidade desconstruída peça a peça. É nesse momento que retiramos os rótulos, os títulos, a cor de pele, a religião e a nacionalidade... É nesse momento que percebemos que aquele mundo gigante de diferenças se transforma num espantoso nada.

A empatia é a coisa mais bonita que podemos sentir, é o que nos agarra os pés à terra, é aquela voz que nos sussurra ao ouvido a dizer que a bondade tem de ser sempre maior que a maldade. Agora seguremos essa empatia. Agarremo-la bem. Não a percamos já. Guardemo-la num lugar seguro. Guardemo-la no lugar mais seguro do nosso coração.

Há anos que penso sobre este assunto. Nem sempre sei para onde levar os meus pensamentos, mas esta relação entre a humanidade, a história, as estórias, a notícia e a nossa empatia ou a falta dela, para mim, é o centro do universo. O ser humano enquanto animal pouco ou nada evoluiu desde que saiu do vale do Rift nas montanhas da Etiópia. A relação entre a história e as estórias é complexa. É a história que nos ensina, é a história que nos explica o presente e aponta o caminho do futuro, mas por vezes nada nos diz sobre as estórias ou sobre todas as estórias. E isso é muito injusto porque as estórias são as nossas vidas e as vidas dos outros. A notícia é perversa. A notícia vive do entusiasmo, vive do medo, da extravagância, do espanto, do deslumbramento, mas também da empatia. A notícia conta apenas algumas estórias e por isso conta mal a história. A notícia só sobrevive da alternância. A continuidade mata a notícia. E quando matamos a notícia, aos poucos deixamos morrer a empatia. E ao deixarmos morrer a empatia, a história e as estórias vão perdendo a humanidade. E nós não somos ninguém sem o outro e por isso vamo-nos perdendo na imensidão de notícias que já não o são, e permitimos que a estória da nossa vida se faça apenas com pequenas doses de empatia, que não fazem história.

As preocupações humanitárias são algo de muito recente na nossa história. Estão ainda numa fase embrionária. A Cruz Vermelha foi fundada em 1863 para tentar tratar como pessoas as vítimas dos conflitos. A Carta Internacional dos Direitos Humanos é de 1948 e ainda não entrou nas nossas cabeças. Os Médicos Sem Fronteiras, a maior e mais antiga organização não-governamental médica do mundo, foi criada em 1971 com o intuito de oferecer cuidados médicos à proporção das necessidades, e ainda assim quão longe estamos de qualquer espécie de igualdade e justiça — há 50% da população mundial que não tem acesso a cuidados de saúde e 25% não tem acesso a medicamentos essenciais. Um ser humano preocupar-se com a vida de outro ser humano que não conhece, que não compreende a língua, que não se assemelha na cor ou na cultura, que não comunga da mesma religião, é algo que começou há um segundo, se olharmos para a história da humanidade como tendo 24 horas.

Eu tinha 20 anos quando começou a guerra no Afeganistão, em 2001, acho que foi a primeira guerra que vi com atenção na televisão. Se a memória não me atraiçoa, eu não senti qualquer empatia. Eu apenas achava que era espectacular ver a brutalidade bélica e os jornalistas de capacete na cabeça a gritar pela nossa atenção. Certamente, a comunicação era mais pobre, mais incompleta. “Ninguém” nos contava as estórias do Afeganistão e, por isso, a história tirou-lhe a humanidade.

Uns dez anos mais tarde, quando fui trabalhar para o Afeganistão, com os Médicos Sem Fronteiras, descobri uma coisa absolutamente incrível: são pessoas, como eu, que lá vivem. Incrível descoberta! Não sei como ninguém me deu um Prémio Nobel logo ali. Mas a minha ignorância de décadas tem explicações históricas, pela falta de estórias que me chegavam, pela falta de humanidade com que se fala de um conflito armado e, embora a guerra tenha piorado durante 20 anos, a notícia pouco passou de 2001 e por isso não me lembro de sentir empatia, essa força motriz que nos faz ser humanos.

Por isso, digo: seguremos bem essa empatia, guardemo-la num lugar seguro. Um lugar onde conheçamos bem o caminho. Porque a notícia vai passar, as estórias vão deixar de nos aparecer e a história vai continuar sedenta de humanidade.

Por todos os conflitos armados, por todas as pessoas que sofrem o inimaginável, por um mundo melhor, por amor ao próximo e por amor-próprio, guardemos bem essa empatia.»

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30.8.21

Um novo capítulo nas relações internacionais

 


«Os dias passam e o mundo continua a ver as imagens dramáticas captadas no perímetro exterior ao aeroporto de Cabul, agora agravadas pelo ataque bombista. Essa é a parte mais visível do choque e do pavor dos afegãos que não acreditam nas promessas feitas pelos talibãs. Mas há mais Afeganistão para lá de Cabul. No país, sobretudo nas principais cidades, vive-se o mesmo pânico e desespero. Só que aí sofre-se longe dos olhos do mundo. Quem vive nessas regiões e pode, procura refugiar-se no Paquistão ou noutros países vizinhos.

Há quem pense que estas imagens ficarão na memória da humanidade por muitos anos. E que serão recuperadas cada vez que for conveniente atacar os países ocidentais. Isso vai de facto acontecer. São cenas que deixam uma péssima representação do Ocidente, de abandono, incoerência e improvisação. Já a questão da memória é mais improvável. As duas últimas décadas têm sido infelizmente abundantes em tragédias humanas. Mas cada nova desgraça tende a esconder as anteriores. A lembrança do que aconteceu na Síria ou, mais recentemente, das situações dramáticas que as populações do Líbano, de Myanmar e outras vivem quotidianamente, é cada vez mais ténue. De momento, a derrocada afegã ocupa todo o ecrã.

O que não podemos esquecer é que no olho do furacão dos conflitos estão pessoas. É tempo de pensar em termos de gente de carne e osso, homens, mulheres e crianças, que sofrem todas as violências, humilhações, terrores e misérias que estas crises provocam. A segurança internacional e a diplomacia devem reportar-se, acima de tudo, ao quotidiano de quem é vítima dos extremismos, dos abusos de poder e de todo o tipo de tiranias, sejam elas em nome de um caudilho iluminado, de um partido detentor da verdade absoluta ou de uma bandeira religiosa.

Há três décadas, o PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - ajudou-nos a descobrir uma evidência que ninguém antes queria ou conseguia ver. Com o lançamento do primeiro relatório sobre o desenvolvimento humano - e dos seguintes, ano a ano - sublinhou que o crescimento económico só faz sentido quando tem como objeto central os indivíduos, de modo a tirar cada um da pobreza, da ignorância e da ignomínia. Não é o PIB que conta, mas sim o progresso que cada pessoa consegue realizar em termos de uma vida com mais dignidade.

As cenas à volta do aeroporto de Cabul deveriam ter um efeito similar. E do mesmo modo que os relatórios do PNUD serviram para criar novas alianças em matéria de cooperação para o desenvolvimento, a aflição e as incertezas que resultam da cedência do poder aos talibãs devem ser vistas como oportunidades para estabelecer pontes entre as grandes potências, a China e a Rússia incluídas. A reunião do G7 desta semana podia ter sido aproveitada para envolver Beijing e Moscovo no debate sobre as condições do reconhecimento da nova realidade afegã. Infelizmente, tal não aconteceu. A única preocupação foi a vã tentativa de convencer Joe Biden a prolongar a presença militar dos EUA para além de 31 de agosto. A reunião confirmou, uma vez mais, que no Ocidente não há outra liderança para além da voz da América.

O G7 deveria mostrar-se especialmente inquieto com o tipo de governação que os talibãs vão impor. A Rússia está consciente dos riscos para a estabilidade dos seus aliados na Ásia Central. A China está preocupada com a defesa dos seus interesses no Paquistão - os chineses não excluem um cenário em que terroristas paquistaneses e outros possam atuar, no futuro, a partir do Afeganistão e ameaçar o corredor económico que une a China ao porto de Gwadar, no oceano Índico. Quer a China quer a Rússia teriam certamente muito interesse em participar nessa discussão com os países do G7. Assim se transformaria uma crise numa oportunidade de aproximação entre potências rivais. Ganhariam todos com esse tipo de diálogo, a começar pelos cidadãos do Afeganistão.

Esta proposição pode parecer irrealista. Mas o virar de página que nos é imposto pelos talibãs exige que se olhe para as relações internacionais com uma imaginação nova e de futuro. Quem irá agarrar esse desafio?»

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29.8.21

O direito à busca da felicidade

 


«Se o conceito de "direito à busca da felicidade" fosse algo de real para os políticos e fazedores de opinião, o parecer do Comité Económico e Social Europeu de 22/10/2008 que, entre outras propostas, sugeria que "uma política que deixe de basear-se exclusivamente na importância unilateral do crescimento económico e seja determinada igualmente por factores sociais e ambientais poderá permitir escolhas políticas mais equilibradas e contribuir para uma economia mais sustentável e mais solidária", para usar uma expressão popular, não teria caído em cesto roto.

Mas claro que caiu, apesar de haver economistas que já demonstraram que o PIB, como conceito económico, não se tem mostrado capaz para resolver os problemas das comunidades humanas no século XXI. Só o que os Donos deste Mundo preferem impor-nos a sua realpolitik, da qual resultam tragédias como aquela que está a acontecer no Afeganistão (não é a primeira e infelizmente não será a última).

Não fora a desgraça de tantas vítimas, seria completamente risível ver os que bramavam que "a América não negoceia com terroristas" a ceder a todos os ultimatos dos talibãs. Estes actos vão ter seríssimas e graves consequências, cujos efeitos se irão prolongar no tempo.

O que é particularmente terrível, quando estamos a viver tempos em que as forças e os estados que nunca cumpriram as regras de convivência internacional consagradas na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Carta das Nações Unidas, neste momento, já nem se dão ao trabalho de disfarçar o ódio que têm a esses valores ético-sociais, à Democracia e ao Estado de direito. Mas não, a narrativa que agora se pretende criar é que há uns terroristas (os que bombardearam o aeroporto de Cabul) que ainda são piores que os talibãs. Afinal, não é só o Chega que vai ser "normalizado" - os talibãs também o vão ser.

Não contem comigo para esse "peditório". Porém, os ataques aos direitos humanos também ocorrem no Ocidente - e há que os combater, pois não são só os extremistas muçulmanos que não querem que as mulheres "saiam à rua". Combatê-los a todos sem excepção.

Volto à inseminação post mortem. Devido a uma cruel postura burocrática de uma unidade do SNS, a Ângela Ferreira e o Hugo tiveram de esperar um ano antes de iniciar os procedimentos de PMA, quando não estava em causa verificar a existência de uma situação de infertilidade, mas sim tratar uma situação de preservação da fertilidade futura. E a Lei da PMA e os regulamentos aprovados pelo CNPMA, durante o tempo em que fui presidente dessa entidade, permitiam que o procedimento se tivesse iniciado de imediato. Teria sido possível, se tudo corresse bem, ao Hugo ter conhecido esse seu filho ou filha. Espero que a ignomínia e a crueldade não prossigam com a concretização do acto de destruição do material genético do Hugo, só por razões de pura e mesquinha burocracia. A Ângela, uma brava Mulher do Norte, com uma coragem notável e inspiradora, não merece mais este agravo.»

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27.8.21

Uma frase terrível

 


… para mais tarde recordar:

«Não vamos esquecer nem vamos perdoar o que aconteceu. Vamos fazer-vos pagar
Joe Biden, 26.08.2021

Reforçada por uma outra que nem traduzo:
«We will hunt you down and make you pay»
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26.8.21

Portugal e colaboradores afegãos não monogâmicos

 


Não sei se isto será «o caso do dia», mas arrisca-se a fazer correr mais tinta do que a epístola de S. Paulo.

O governo conta trazer um grupo de 116 pessoas, que inclui os afegãos que trabalharam com os portugueses em Cabul e respectivas famílias. Claro que é possível que nem todos os afegãos pratiquem a monogamia. Mas… só poderão trazer uma das mulheres.

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25.8.21

Sei onde estiveste no inverno de há vinte anos



 

«O tempo pode ser cruel quando a memória nos serve: há vinte anos, um jornal de referência titulava a duas páginas “Guerra ao Islão”, os vigilantes admoestavam severamente quem se atrevesse a duvidar da ordem de Bush, “não há mas”, só a obediência total era permitida. Mário Soares e Maria de Lurdes Pintasilgo, entre quem criticou a ideia selvagem da guerra para impor um regime, foram apontados como capituladores e comparados a Chamberlin perante Hitler. No parlamento, Assis admoestava Soares e comparava-se a si próprio a Churchill em nome do “partido da guerra”, para Cabul todos e em força, enquanto os partidos de direita lamentavam que Portugal não tivesse a força operacional para ajudar a ocupar outros países. Foi-nos garantido que o Bem triunfaria sobre o Mal na senda das bombas que iriam civilizar o Afeganistão.

Vinte anos depois, esta narrativa tropeça na realidade, mas ainda é enunciada nos recônditos da ideologia. Um dos bilhetistas do Correio da Manhã reduz o caso ao anedótico: “As tropas americanas deviam e podem ser uma força para o Bem. E é por isso que a saída atrabiliária de Cabul dói: aos afegãos na carne, pelo abandono; ao mundo, por ver o Bem recuar”, depois de “duas décadas de belíssima liberdade das mulheres afegãs”. Ora, a “belíssima liberdade” foi um raro privilégio para as poucas mulheres que puderam estudar e, para a maioria das adolescentes, a continuação do analfabetismo e do casamento forçado; a “força para o bem” foi a generosa corrupção que permitiu triplicar a área dedicada à produção do ópio. E, se o Bem tanto fazia pela civilização, porque negociou com o Mal e lhe cedeu o país? E logo o campeão do Bem, Donald Trump, e o seu sucessor, Joseph Biden, irmanados na entrega do poder ao Mal?

Como não há nenhum dos chefes do “partido da guerra” que agora venha dizer que continuará a ocupação, soa a falso toda a sua prosápia recente (quem foi que disse Chamberlin?). Diz Merkel que foram cometidos “muitos erros” e que a “comunidade internacional se enganou por completo na avaliação da situação”. A comunidade internacional, aqui, é a Nato, ou seja, ela própria e os seus aliados. O que ela não nos diz é se a derrota militar e política podia ser evitada, se é possível criar um regime a partir de uma ocupação estrangeira, ou o que queria fazer depois de criado o problema desde esses dias sinistros em que os EUA e o Paquistão financiaram e apoiaram o que hoje chamamos talibãs, naquele tempo em que a “belíssima liberdade” das mulheres não interessava. Os talibãs são filhos do império e do obscurantismo, quando os meios não olhavam para os fins.

Por isso, dizendo ou não dizendo o que querem fazer agora com os “muitos erros”, o que não nos podem pedir é que esqueçamos como andaram nas últimas décadas a destruir aquele país. Chamem-lhe o Bem e o Mal, mas volta-se a descobrir que entre os que se consideram mais civilizados estão os mais selvagens, que usam a guerra como um brinquedo.»

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