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9.1.26

O melhor não-candidato

 


«Quem está desencantado com a política deve fazer uma reflexão profunda e ajustar as suas expectativas. Uma coisa é o eleitor ser exigente; outra é ser mimado. Nas próximas eleições presidenciais, os cidadãos terão à sua disposição, no boletim de voto, 14 nomes. Desses, só 11 tiveram as suas candidaturas aprovadas pelo Tribunal Constitucional. Ou seja, vai ser possível escolher candidatos que são mesmo candidatos e candidatos que o não são. O velho lamento dos eleitores rabugentos, que sempre se queixaram de não sentirem identificação com nenhum dos candidatos, perde razão de ser porque agora, além dos candidatos, podem escolher não-candidatos. Se não se identificarem com qualquer dos candidatos e também não encontrarem uma única pessoa válida entre os não-candidatos, é perfeitamente legítima a suspeita de que o problema talvez seja deles.

Como sempre, no nosso país as boas iniciativas são vistas com desconfiança. Em vez de inspirar alegria por oferecer maior possibilidade de escolha, a inclusão dos nomes dos não-candidatos no boletim foi alvo de azedos reparos. Para quê, perguntam os críticos, juntar o nome de gente que não tem a mínima hipótese de ser eleita, à lista dos candidatos oficiais? Trata-se de um péssimo argumento. Entre os candidatos oficiais também há muitos que não têm a mínima hipótese de conseguir a eleição. Porque é que o sr. José António de Jesus Cardoso, que está no boletim apesar de não ser candidato, teria menos direito a figurar na lista do que André Ventura — que, de acordo com todas as sondagens, também não tem qualquer hipótese de ser Presidente da República, uma vez que perde com qualquer outro candidato numa hipotética segunda volta?

A razão para o boletim ter 14 nomes em vez dos 11 que foram aprovados é surpreendente: o boletim foi impresso com demasiada antecedência. Talvez seja a primeira vez que, em Portugal, o Estado faz uma coisa com antecedência, em vez de a deixar para o último minuto. Em lugar de haver boletins a menos, porque só começaram a ser impressos na véspera, há boletins com candidatos a mais, porque foram impressos há semanas. O facto de ambos os métodos merecerem críticas pode deixar o Estado confuso, e até magoado. Faça o que fizer, ninguém aprecia. E por isso pode decidir-se por, para a próxima, não imprimir boletim algum. O que poderá, enfim, merecer elogios, dado haver, ao que parece, um número crescente de pessoas para as quais isto de haver eleições é uma fonte de chatices perfeitamente evitáveis.»


2.1.26

Principais destaques do que não se destacou

 


«Enquanto todos os jornais se entretêm a fazer o balanço do que aconteceu em 2025, eu dedico-me à mais útil tarefa de fazer o balanço do que não aconteceu. Dá trabalho, porque o universo das coisas que não aconteceram é muito maior, o que talvez afaste os preguiçosos. Creio que, quando falamos do que não aconteceu este ano, teremos de destacar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à Spinumviva que o Chega prometeu pedir, independentemente do que acontecesse nas eleições. Até agora não foi pedida e, tendo em conta a velha instituição portuguesa conhecida como “depois mete-se o Natal”, é improvável que possa ser pedida antes de 2026. Do mesmo modo, deve registar-se a não ocorrência da CPI potestativa aos incêndios, prometida igualmente pelo Chega. Por muito que o problema dos incêndios tenha sido em grande medida solucionado quando Ventura apagou uma labareda com um ramo de árvore, o certo é que o Chega ameaçou com a convocatória de uma CPI que não chegou a ocorrer.

Do mesmo modo, não ocorreram também as eleições presidenciais — o que é normal, visto estarem marcadas para 18 de Janeiro. Mas parecem já ter ocorrido, tal a frequência com que Ventura alega ter vencido a primeira volta. Sempre que algum adversário lhe lembra que concorre a todos os cargos com excepção da eleição para chefe de turma do 7º-B da C+S de Alcabideche, o presidente do Chega responde que, de acordo com as sondagens, está em primeiro lugar, pelo que o povo português deseja que ele concorra e seja eleito Presidente. Sucede que as mesmas sondagens indicam que, entre os candidatos capazes de atingir a segunda volta, Ventura é o único que não tem qualquer hipótese de ser Presidente da República. Um fenómeno que o próprio explica da seguinte forma: “Eles vão unir-se todos contra mim.” Com a palavra “eles” Ventura refere-se a três quartos do povo português. São esses “eles” que têm declarado não votar em André Ventura seja quem for o seu adversário. Os inimigos de quem diz falar em nome do povo são três quartos do povo, coisa que talvez seja difícil de explicar.

Não tendo ainda sido realizadas as presidenciais, também não ocorreu a vitória de qualquer dos candidatos, que não puderam ainda cumprir as suas promessas. Uma das mais curiosas é de Marques Mendes, que prometeu nomear um jovem para o Conselho de Estado. Não disse qual, porque, ao que parece, não interessa. O importante é estar lá uma pessoa de determinada faixa etária. Não está em causa o que pensa o novo conselheiro, só interessa que seja um conselheiro novo. Sou a favor deste modelo que dá atenção ao que as pessoas são, e não ao que as pessoas pensam. Tenho sentido a falta de ruivos no Conselho de Estado. E de carecas também. Na qualidade de careca, não me tenho sentido representado. Talvez um jovem ruivo careca possa ser escolhido, para bem de Portugal.»


18.12.25

Deixa o Luís adiar

 


«Quando se soube que Luís Montenegro tinha dito aos autarcas, no Congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses, que a regionalização não ia avançar nesta legislatura, temi pela saúde dos profissionais da comunicação social. Se o primeiro-ministro vai passar a anunciar todas as coisas que não vão avançar em Portugal, a quantidade de conferências de imprensa que os jornalistas terão de acompanhar vai conduzi-los ao esgotamento. O número de medidas e obras que não vão avançar supera largamente o das que vão avançar – até porque, entre as que vão avançar, também se contam algumas que não avançam. No histórico dia 14 de Maio de 2024, o governo anunciou que o novo aeroporto de Lisboa ia finalmente avançar. Não tenho passado por Alcochete, mas suspeito que, mais de um ano e meio depois, o avanço não se nota. O aeroporto Luís de Camões já tem nome – que é, de facto, o mais importante, mas creio que não tem mais nada.

Na mesma semana em que anunciou o não avanço da regionalização, Montenegro prometeu o avanço do salário mínimo nacional para 1600 euros. Enfim, não foi bem prometer. Disse que era um objectivo realista e será “calendarizado” quando “houver alicerces para isso”. Quando, em Outubro de 2020, o parlamento discutiu uma proposta de aumento do salário mínimo para 850 euros, uma deputada do PSD disse que a proposta “não era para levar a sério” e que a sua concretização seria “um acto irresponsável”. Escassos 5 anos depois, o mesmo PSD acha realista o objectivo de aumentar para 1600 euros. A diferença entre uma proposta realista e outra que não é para levar a sério é o modo como é apresentada. Quem pretende aumentar o salário mínimo é irresponsável; quem diz ter o objectivo de aumentar o salário mínimo é realista. Ter objectivos não custa dinheiro. Quem acha que o primeiro-ministro disse que o salário mínimo aumentará para 1600 euros quando houver alicerces para isso tem de ir ler melhor as declarações. Ele foi ainda mais realista do que isso. Disse que, quando houver alicerces para isso, o aumento será calendarizado. Isto é de uma prudência extraordinária. Outros líderes políticos talvez se precipitassem, aumentando o salário mínimo quando as condições para isso surgissem. Mas Montenegro avança passo a passo. Quando houver alicerces, calendariza-se. Porque não é certo que, mal haja condições para aumentar o salário mínimo para 1600 euros, Montenegro tenha tempo para o fazer imediatamente. Nessa altura, pode estar ocupado a inaugurar o aeroporto.»


12.12.25

Confirma-se a relação entre imigração e criminalidade

 


«A operação Safra Justa, no âmbito da qual foram detidas 17 pessoas, entre as quais 10 militares da GNR e um agente da PSP, veio dar razão a André Ventura. Segundo a Polícia Judiciária, os detidos pertencem a um “grupo violento, de estilo mafioso”, que explorava imigrantes ilegais “cobrando alojamentos e alimentação e mantendo-os sob coacção através de ameaças, havendo mesmo vários episódios de ofensas à integridade física”. Ou seja, tal como o presidente do Chega tem defendido, existe uma óbvia ligação directa entre imigração e criminalidade: se não existissem imigrantes, estes portugueses agora detidos não teriam quem escravizar.

Surpreendentemente, André Ventura tem guardado, sobre esta estrondosa vitória política, um modesto silêncio. Apesar de os agentes da autoridade estarem a ser pagos pelos mafiosos, Ventura não apareceu a fazer uma das suas entusiasmantes proclamações contra a corrupção e os corruptos que dão cabo deste país. Apesar de ter aqui excelente pretexto para afixar cartazes a dizer “Os militares da GNR têm de cumprir a lei”, ou “Isto não é uma esquadra da PSP”, Ventura não o fez. Temo que esteja a ficar mole.

O país tem, aliás, um problema difícil de resolver. Este nosso admirável povo, que Ventura tanto ama, tem sido “pastoreado nos últimos 50 anos” (para usar o vocabulário oficial do Chega) pelo PS e pelo PSD, partidos que Ventura tanto odeia. Mas foi esse mesmo admirável povo que votou naqueles iníquos pastores. Se alguém vitimou o povo foi o próprio povo. É ao povo que Ventura deve pedir responsabilidades. A outra hipótese é exigir explicações àqueles que durante anos militaram e ocuparam cargos dirigentes nos partidos-pastores. Ventura conhece bem uma pessoa que fez exactamente isso até 2018. A terceira e última hipótese é culpar aquilo que Ventura designa por “a esquerdalhada”. A responsabilidade pelo estado do país é de um quadrante político que tem menos de um terço do Parlamento, não ocupa a Presidência da República há 20 anos, e não manda em nenhum dos cinco maiores municípios do país. Mas parece que está muito forte na comunicação social, que é o mais importante. Porque só assim consegue exercer uma influência tal que produz o resultado de ter menos de um terço do Parlamento, não ocupar a Presidência da República há 20 anos, e não mandar em nenhum dos cinco maiores municípios do país.»


5.12.25

Viva a fractura de ossos

 


«Em Fevereiro de 2009, o piloto italiano Valentino Rossi, nove vezes campeão do mundo de motociclismo, foi levado para o hospital na sequência de um acidente. Ele estava em casa, a fechar as cortinas de uma janela, quando escorregou e caiu em cima de uma mesa de vidro, cortando-se na mão direita e no pé esquerdo. O caso proporcionou tantos comentários jocosos como observações que se costumam fazer em funerais. Pessoas mais inclinadas para detectar ironias sugeriram o uso obrigatório de capacete sempre que fosse necessário lidar com os perigosos cortinados; cidadãos mais amigos de reflectir sobre a existência a partir de lugares-comuns escolheram sobretudo os populares clássicos “isto basta estar vivo” e “Deus é que sabe”.

Dez anos depois da queda de Valentino Rossi, um menino de 11 anos partiu uma perna a jogar à apanhada, no recreio do colégio que frequenta, em Braga. Desde essa altura, a sua mãe tem tentado convencer vários tribunais a declarar perigoso o jogo da apanhada, mas sem sucesso. Na semana passada foi o Supremo Tribunal de Justiça a recusar a pretensão da mãe, que promete continuar a interpor recursos. As mães do meu tempo também se preocupavam com a segurança dos filhos. As maiores obsessões da minha eram que eu tivesse cuidado a atravessar a estrada e não aceitasse doces de desconhecidos. Carros e drogas eram os maiores perigos que ela identificava. Mas agora o mundo parece estar mais perigoso, e há mães que consideram que as crianças devem ser protegidas da apanhada. O problema é que, sendo verdade que é possível partir uma perna a brincar à apanhada, essa não é a única actividade escolar que pode provocar lesões, como a minha experiência de aluno do ensino primário me foi indicando. Há quem esfole os joelhos a jogar à bola. Ou apanhe herpes a jogar ao bate pé (um abraço, Susaninha). Uma vez, um colega meu engasgou-se com um papo seco, sem que a sua mãe tenha tentado que um tribunal declarasse perigosa a ingestão de pão. Há quem aponte este caso como um exemplo dos problemas desta nova geração, superprotegida pelos pais, mas é na verdade um problema da minha, superprotectora dos filhos. Creio que a Justiça deve continuar a não proibir a apanhada. Mas não sei se um tribunal não devia considerar perigoso este tipo de maternidade.

Espero que a identidade do miúdo, agora com 17 anos, continue a ser reservada, para que nunca ninguém saiba quem ele é. Ser o rapaz cuja mãe quer proibir a apanhada faz muito pior à saúde do que partir uma perna.»


20.11.25

Apostar em não apostar

 


«Portugal é um velho de 900 anos que tem um problema de jogo. O nosso modelo de desenvolvimento é baseado na raspadinha. O plano é sempre “apostar”. Apostar no Magalhães, porque a revolução digital é o futuro. Ou então, apostar no TGV, para nos ligar a Madrid e aos grandes corredores europeus. Ao mesmo tempo, é fundamental apostar no novo aeroporto de Lisboa. Sem esquecer a aposta na floresta e na biomassa. E a aposta no turismo, já que Portugal é a Califórnia da Europa. 

Desde que isso não desvie a nossa atenção da aposta em clusters industriais, com destaque para os que nos abrem a porta de entrada para a nova economia espacial. Por outro lado, a economia verde e as energias renováveis também merecem a nossa aposta. Assim como é obrigatória a aposta na economia azul, uma vez que o nosso mar tem grande potencial inexplorado, e a plataforma atlântica, meu deus, a plataforma atlântica. Embora a maior aposta talvez deva ser o lítio, visto que se trata do ouro branco português, e nos vai fazer entrar na cadeia de valor das baterias, ou o que é. No entanto, pensando bem, superior à aposta no lítio é a aposta no hidrogénio verde. Que, ainda assim, nada é comparada com a aposta nas startups e nos unicórnios.

Surpreendentemente, a maior parte destas apostas ocorre em Sines. Lisboa pode ser a capital do país, mas a sede do futuro é Sines. O resto do país está em 2025, mas Sines já vive no século XXII. É em Sines que se faz a aposta no mar, visto ser um porto de águas profundas. Mas também é o hub energético e logístico onde se aposta no gás natural e nas renováveis. E é ainda o local em que se aposta nos data centers e na inteligência artificial. Fazem-se mais apostas em Sines do que no Casino Estoril.

Nenhuma destas apostas nos tem dado a esperada taluda. A nossa grande aposta tem sido na ideia de aposta. Não interessa muito em que é que se aposta, o que interessa é haver sempre novas apostas. Enfim, sempre é melhor do que trabalhar. Como abandonar a ludopatia de repente talvez seja demasiado duro, a minha sugestão seria continuar a apostar, mas fazendo uma grande aposta em não apostar. Durante uns anos, experimentávamos esta aposta e dedicávamo-nos a modelos de desenvolvimento que não assentassem num grande gesto que tem como objectivo proporcionar uma solução milagrosa e instantânea, mas sim em trabalho chato, dedicado e paciente. Mas esta proposta vai ser mal recebida, até aposto.»


13.11.25

Eu sou mais de centro do que tu

 


«Vejam como são as coisas. Se, há 60 anos, duas pessoas se fechassem numa sala com um homem e apertassem com ele, perguntando-lhe insistentemente se ele era de esquerda, e ele resistisse a responder, esse homem seria um herói. Na semana passada foi exactamente isso que aconteceu a António José Seguro — e ele foi criticado. Duas jornalistas do “Público”, Ana Sá Lopes e Maria Lopes, submeteram-no a intenso interrogatório, mas ele bateu-se muito bem, e surpreendeu: naquela inquirição, foi o interrogado que recorreu à tortura do sono, dando as respostas mais chatas de que se lembrou. Por exemplo, quando lhe perguntaram “é um homem de esquerda, certo” optou por responder à pergunta imaginária “como definiria a sociedade portuguesa?”, e disse: “a sociedade portuguesa é uma sociedade profundamente dividida. Há demasiadas divisões, e muitas das divisões são artificiais”. As jornalistas/inspectoras insistiram. Perguntaram se os valores de Seguro não estariam um pouco mais à esquerda que os de Marques Mendes e Gouveia e Melo. Era uma pergunta mais fácil, porque em teoria é possível estar à esquerda de Marques Mendes e Gouveia e Melo sem se ser de esquerda. Mas Seguro não cedeu, e pediu que parassem de “distribuir rótulos pelas pessoas” e de as “encaixar em gavetas e em departamentos”. Dias depois, na RTP, Seguro encaixou-se numa gaveta e num departamento, quando disse ao jornalista Vítor Gonçalves que se tinha exprimido mal, e que era inequivocamente de esquerda. E acrescentou, para justificar o erro: “sou um ser humano”. Esta última informação talvez seja mais danosa do que a primeira. Se Seguro receava que o eleitorado o rejeitasse por ser um candidato de esquerda, devia recear mais ainda que os cidadãos ficassem a saber que ele é um ser humano, tendo em conta a quantidade de eleitores que parecem preferir um ser desumano.

Ficou então estabelecido que Seguro é de esquerda, mas também parece ter ficado claro que existe o temor, justificado ou não, de que ser de esquerda possa ser uma desvantagem. Durante muito tempo, verificou-se o contrário. Não me lembro de Cavaco Silva ter dito alguma vez que era de direita. Até o CDS se chama Centro Democrático e Social, para desmentir qualquer inclinação à direita. Mesmo agora, Gouveia e Melo tem feito um esforço enorme para se declarar de centro, do exacto centro do centro. O problema de ser do centro do centro é que é um abuso da moderação. Quem se diz de centro pretende declarar-se moderado. O centro-esquerda é esquerda moderada; o centro-direita é direita moderada. Mas o centro-centro, sem nenhuma inclinação, significa que se é da moderação moderada. Ora, ser moderado na moderação é ser imoderado. Talvez a ciência política devesse estudar — e alertar para os perigos — do extremo-centro.»


30.10.25

Danny Ocean é parvo

 


«Quem diz Danny Ocean diz Thomas Crown, e também diz aquele velhinho, interpretado por Sean Connery, que vai à Malásia roubar não sei quê juntamente com Catherine Zeta-Jones. No passado dia 19 de Outubro, às 9h30, três ou quatro ladrões envergando coletes amarelos estacionaram um camião de mudanças junto ao Museu do Louvre, subiram na plataforma elevatória até à varanda do primeiro andar, partiram o vidro da janela, dirigiram-se à galeria de Apolo, serraram algumas vitrines com uma rebarbadora, e roubaram jóias no valor de 90 milhões de euros. Depois, saíram por onde entraram e desapareceram nas suas motas, a caminho da auto-estrada.

Note-se que não elaboraram um plano complicado, não foram requisitar as plantas do museu para ver se era possível introduzirem-se no sistema de ventilação sem serem vistos, não se disfarçaram sequer com um bigode postiço. Ora, não foi a isto que o cinema me habituou. Eu estava há anos convencido de que não era possível assaltar um museu sem antes treinar durante semanas num armazém onde era fielmente reproduzido o interior do museu e o seu intrincado sistema de raios laser, do qual era preciso escapar com cabriolas que só estão ao alcance de atletas olímpicos.

Nos filmes em que se realiza um assalto destes, a equipa de ladrões inclui sempre um especialista em explosivos, um génio da informática, um carteirista experimentado e um acrobata de nacionalidade chinesa. Em todos esses filmes, o assalto requer um investimento que chega a ascender a metade do valor do saque. Os gatunos que assaltaram o Louvre compraram uma rebarbadora e quatro coletes. Com 40 euros apetrecharam-se para roubar 90 milhões. Mais: estes ladrões não dedicaram sequer dois minutos a pensar numa estratégia para se esconderem da equipa responsável pela segurança do museu. Os guardas abordaram-nos e eles limitaram-se a fazer-lhes ver que a rebarbadora, quando em contacto com o corpo humano, aleija. Os guardas foram sensíveis a esse argumento e afastaram-se.

Na comunicação social foram publicados vídeos, feitos pelos próprios seguranças, dos criminosos a cortarem tranquilamente o vidro das vitrines. O assalto foi uma lição importante para os museus, mas sobretudo para Hollywood. Este tipo de filme deve passar a durar apenas cinco minutos. O orçamento não precisa de exceder os 40 euros. E o realizador deve concentrar-se em filmar, não os imponentes casinos de Las Vegas, nem a paisagem de Kuala Lumpur, mas o duro e prosaico perfil de uma rebarbadora.»


23.10.25

Última hora! Parece que há extremismo num partido extremista

 


«Após cinco anos de militância no Chega, o prof. Gabriel Mithá Ribeiro, eminente intelectual, descobriu que André Ventura é um narcisista autoritário. Esta extraordinária perspicácia só está ao alcance de eminentes intelectuais como o prof. Gabriel Mithá Ribeiro. As pessoas normais mantêm a convicção de que André Ventura é um democrata humilde, mas o prof. Mithá dedicou-se a estudar o assunto e tirou outra conclusão. A divulgação da descoberta era tão urgente que levou o prof. Mithá a quebrar os seus princípios. Em 2024, ele escreveu um livro em que dava aos leitores o seguinte conselho, entre outros: “Defenda-se da guerra psicológica da comunicação social contra si tratando-a como é, o tumor maligno da democracia.”

Esta semana, coitado, viu-se forçado a aceitar os convites de vários tumores malignos, não para os submeter a vigorosa quimioterapia, mas para comunicar ao país a sua assombrosa revelação. Deu várias entrevistas na sequência de um artigo, publicado no “Observador”, em que escreveu o seguinte: o Chega é “um partido cada vez mais disfuncional no sentido patológico do termo”. E é nítido, segundo o prof. Mithá, o “inchaço do ego patológico do líder”. O problema é que, em Março do ano passado, a propósito do livro “Na Cabeça de Ventura”, do jornalista Vítor Matos, o prof. Mithá escreveu, no mesmo “Observador”, que a obra era uma manifestação da “avassaladora patologia sociomental esquerdista”, acrescentando que “o que resulta do livro é a promoção social de hábitos patologicamente selectivos na relação com o meio envolvente”, até por se tratar de uma obra que promovia um “tipo ameaçador de patologia mental”.

O seu autor, Vítor Matos, pertencia a uma casta “socialmente patológica”, e o próprio livro enfermava de uma “lógica patológica”: “A patologia de Vítor Matos é tal que atribui à sua sagrada pessoa o direito de determinar autocraticamente o que é ‘A cabeça de Ventura’.” O jornalista era “um violador patológico da busca da verdade e do respeito pela dignidade alheia”, e o prof. Mithá terminava o artigo lamentando o facto de vivermos numa “sociedade que tolera as patologias dos Vítores Matos & Associados”. Em Setembro de 2021, num artigo intitulado “Selvajaria contra o Chega”, o prof. Mithá já tinha alertado: “Vivemos na era dos sujeitos mentalmente patológicos tutelarem os demais.” E, em Maio de 2020, no texto “André Ventura: votaria nele?”, o prof. Mithá apontava os nomes de “José Saramago, Eduardo Lourenço ou José Gil”, e até pessoas “do calibre de Ricardo Araújo Pereira” como “cabeças instigadoras da pior patologia mental socialmente transmissível”. Este afã com que durante anos denunciou as mais patológicas patologias parece indicar que o prof. Mithá levou a sério a missão de constantemente recordar a todos que, aprisionada na palavra patologia, está a palavra tolo.

Uma novela muito engraçada de Machado de Assis conta a história do dr. Simão Bacamarte, um médico que tem, exactamente como o prof. Mithá, a mania de detectar patologias em todo o lado. Desata a identificar traços de loucura nas outras pessoas e a encarcerá-las num manicómio chamado Casa Verde. O hospício vai ficando cada vez mais cheio, porque o dr. Bacamarte vai progressivamente verificando que toda a gente que o rodeia é louca, circunstância que o leva a desconfiar de que talvez o único louco seja ele — e, por isso, no fim resolve fechar-se sozinho na Casa Verde. No preciso momento em que o prof. Mithá percebeu que os militantes do Chega sofriam de um distúrbio, vários dos seus antigos companheiros de partido descobriram que ele também não é bom da cabeça. O deputado Luís Paulo Fernandes foi à CNN dizer que o prof. Mithá “deve ter um problema grave de saúde mental”. Pela minha parte, lamento que o prof. Mithá e o Chega se tenham separado. Acho que, como se costuma dizer, só se estragava uma casa. E era, sem dúvida nenhuma, uma casa verde.»


16.10.25

Um Nobel para Trump. E um Óscar, também

 


«Vai ser difícil explicar esta aos vindouros. O mundo está num estado de insanidade tal que foi Donald Trump — Donald Trump! — a dizer: bom, vamos lá parar com esta loucura. Bem sei, bem sei. Ainda há pouco tempo ele estava empenhado na construção de um grande empreendimento imobiliário de luxo no local onde decorria uma catástrofe e numa operação de limpeza que implicava a remoção de milhares de pessoas para longe da sua terra. Enfim, pormenores.

Mas de repente resolveu envolver vários países da região em negociações que resultaram num acordo de paz. Há quem diga que só tomou essa decisão por vaidade. O seu único objectivo, dizem os críticos, era vencer o Prémio Nobel da Paz. Por mim, não o censuro. Se ele obtiver uma paz minimamente estável e duradoura naquela região, acabando com o horror a que todos assistimos nos últimos anos, proponho dar-lhe não apenas o Nobel da Paz mas também o Óscar de Melhor Actor. O Nobel da Paz para premiar os esforços levados a cabo para a obtenção da paz; o Óscar de Melhor Actor para premiar o modo como fingiu que a sua principal preocupação era a obtenção da paz.

Além disso, fico feliz que Donald Trump tenha interesse neste tipo de galardão. É importante não esquecer que ele foi eleito manifestando desprezo pelas instituições “do sistema”. Parte do fascínio que o seu discurso exerce sobre o eleitorado tem a ver com essa crítica às elites que atribuem estes prémios. Que ele esteja interessado em ser distinguido por essa elite malvada pode contribuir para pacificar a sociedade. Por mim, recebia também o Nobel da Medicina pela sua brava luta contra o paracetamol.

Na verdade, o que interessa a motivação de uma pessoa se o importante é o resultado obtido? Quando temos um filho pré-adolescente que não quer estudar e lhe prometemos uma viagem à Disneylândia se ele passar no exame de Matemática, queremos mesmo saber se ele se esforçou por amor à aquisição de conhecimento ou por afeição ao Mickey? Sei que a comparação com um pré-adolescente é injusta, dado que, em termos de maturidade, as crianças pré-púberes estarão num patamar superior ao do Presidente dos EUA, mas talvez a solução para todos os problemas do mundo seja prometer a Donald Trump uma viagem ao destino que, para ele, equivale à Disney. Que é, provavelmente, a ilha de Jeffrey Epstein. Há que perceber se é possível reabrir aquilo, com nova gerência.»


3.10.25

Luís Møntenegrø, primeiro-ministro da Dinamarca

 


«Mal se soube que o Governo ia dar incentivos fiscais a quem arrendasse casas a preços moderados, a medida recolheu bastantes elogios. Quando, no dia seguinte, se descobriu que o conceito de renda moderada ia até 2300 euros, o entusiasmo esmoreceu um pouco. Segundo os críticos, num país em que o salário médio ronda os 1400 euros, não se pode chamar moderada a uma renda de 2300 euros. Mas suponhamos que os dois elementos de um casal ganham, cada um, 1400 euros. Juntos, auferem 2800 euros. Podem perfeitamente pagar os 2300 euros de renda e ainda ficam com 500 euros para as outras despesas mensais. Assim já se percebe melhor porque é que se chama renda moderada. Porque o casal em causa terá de ser moderado. Moderado na alimentação, moderado nos transportes, moderado nas despesas com a educação dos filhos.

Uma pergunta impertinente repetida muitas vezes foi: onde? 
Onde é que uma renda de 2300 euros é moderada? A resposta é evidente: na Dinamarca. É frequente ouvirmos suspirar que em países como a Dinamarca se vive melhor. Pois bem, Luís Montenegro já se comporta como se fosse o primeiro-ministro dinamarquês. Agora só falta o povo acompanhar este esforço. Se temos mesmo vontade de viver como os dinamarqueses, há que começar por algum lado. O custo da habitação é um aspecto tão bom para começar como qualquer outro. A objecção do costume é: sim, mas nós não temos os salários da Dinamarca. Calma. Uma coisa de cada vez. A minha tia não tinha pássaros no jardim. Instalou uma casinha para pássaros e de repente passou a ter. O método do Governo é igual: primeiro, faz-se uma casa para pessoas que têm salários ao nível da Dinamarca. E depois essas pessoas acabarão por aparecer.

Aliás, é possível que já estejam a aparecer. O ministro da Habitação disse que as rendas de 2300 euros são moderadas para agregados familiares cujo rendimento seja de 5 mil euros líquidos — ou seja, para casais em que cada cônjuge ganhe mais de 2500 euros por mês. De acordo com um estudo recente, os trabalhadores que ganham 3 mil euros por mês ou mais correspondem a 2% da população. Significa isto que o Governo é alvo da habitual injustiça conhecida por “preso por ter cão e preso por não ter”: se não se preocupa com as minorias, é insensível; se toma medidas que beneficiam 2% da população, também é criticado. Enfim. Pela minha parte, em sinal de apoio a esta medida vou abrir uma garrafa de champanhe que adquiri a preço moderado. Na loja havia champanhe caríssimo. O que eu comprei é apenas bastante caro. Sou pela moderação.»


26.9.25

Que maravilha/chatice, isto da liberdade

 


«Sobre isto da liberdade de expressão parece haver três opiniões possíveis: há quem seja a favor, há quem seja contra, e há quem seja a favor ou contra consoante goste ou não goste do que os outros dizem. Convém manter presente que só o primeiro grupo é constituído por democratas. As pessoas que pertencem ao segundo grupo raramente o confessam em público — o que só lhes fica bem. Uma vez que são contra a liberdade de expressão, faz sentido que permaneçam caladas, a dar o exemplo.

O Presidente dos Estados Unidos da América, a terra dos livres, disse esta semana o seguinte: “Li algures que as televisões estavam 97% contra mim, repito, 97% negativas, e mesmo assim eu venci, e facilmente [as eleições]. Elas só me dão má publicidade, má imprensa. E, quer dizer, têm uma licença. Eu diria que talvez a licença lhes devesse ser retirada.” Donald Trump pertence ao terceiro grupo, juntamente com vários dos seus apoiantes — e, curiosamente, vários dos seus adversários. Que haja cidadãos para os quais a liberdade de expressão deve ser limitada quando ouvem coisas que consideram ofensivas é infeliz, mas talvez não seja muito grave. Já que o Presidente de um Estado democrático esteja convencido do mesmo é capaz de ser um pouco perturbador.

A questão de saber se o Presidente, incumbido de defender a lei que protege a liberdade de expressão, pode em vez disso apelar à limitação da liberdade de expressão, é de ordem legal — mas também há um problema de ordem lógica. Se, como Trump tem afirmado, é verdade que Charlie Kirk morreu pela liberdade de expressão, então as pessoas que usam a sua liberdade de expressão para se pronunciarem sobre a sua morte, incluindo as que dizem sobre o assunto coisas horríveis, estão a homenagear Charlie Kirk. Por outro lado, as que pretendem limitar a liberdade dos outros, mesmo — ou sobretudo — dos que dizem coisas horríveis, estão a ofendê-lo. Donald Trump devia estar indignado com Donald Trump.

As declarações de Trump não são propriamente surpreendentes. Ninguém pode dizer que está surpreendido, tanto quanto ao conteúdo como quanto ao estilo. O Presidente dos EUA cita as fontes em que costuma confiar para obter informação: “algures”. Depois revela que, por muito que os media conspirem esmagadoramente contra si, mesmo assim isso não tem qualquer efeito, visto que apesar da maquinação ele “vence facilmente”. No entanto, apesar de os conspiradores não lhe causarem qualquer dano, mesmo assim ele acha que não deviam poder criticá-lo. Tenho a ideia de que este tipo de pessoa que, por causa de mero desconforto, se desfaz em queixinhas e lamúrias, tinha um nome. “Snowflake”, parece que era.»


19.9.25

Não quer ouvir 20 vezes por semana

 


«Não quer ouvir. Eu sei que não quer ouvir, mas vai ter de ouvir. Porque eu vou dizer-lhe olhos nos olhos e cara a cara. Sempre que eu falo é olhos nos olhos e cara a cara. E é assim que lhe vou dizer o que não quer ouvir, mas vai ter de ouvir. Depois disto vou à SIC Notícias. E amanhã à CNN. E depois de amanhã à RTP. E no dia seguinte à CMTV. Porque lá também não querem ouvir, mas vão ter de ouvir. É impressionante a quantidade de vezes que quem não me quer ouvir me convida para me ouvir. Mas aceito sempre, porque fui escolhido por Deus, não sei se já disse. Deus confiou-me a difícil mas honrosa missão de transformar Portugal. Ele era espectador da CMTV e, quando me viu a debater penáltis e foras de jogo com o Aníbal Pinto, terá pensado: é este. Este é o eleito. A escolha final foi entre mim e o Octávio Machado. Mas acabei por ser eu o preferido. Deus está muito atento à actualidade política de Portugal. A mãe d’Ele já cá veio passar uns dias, como sabe. E Deus terá percebido que eu sou a voz do povo. Eu digo o que toda a gente diz. Com coragem. É preciso ter muita coragem para dizer o que toda a gente diz. Dizer o que mais ninguém diz é que é fácil. Por isso é que eu tenho tudo contra mim. Tirando Deus e o povo inteiro. Só tenho o Criador do universo e todo o povo a meu favor. De resto, está tudo contra mim.

É isto que eu venho aqui dizer-lhe olhos nos olhos e cara a cara. Eu sei que não quer ouvir, porque faz parte do sistema. E as coisas que eu digo não interessam ao sistema. É por isso que eu já sei que isto que eu estou a dizer não vai passar. Embora estejamos em directo e, por isso, seja impossível não passar. Mas por vontade do sistema não passava. O sistema é responsável por esta podridão dos últimos 50 anos. Nos 50 anos anteriores a esses, vivia-se bem. As árvores eram feitas de chocolate e as flores eram de chupa-chupa. Havia respeito e boa parte das pessoas não sabia ler. Por isso não ia verificar se o que eu digo é verdade. Sabia que o Presidente da República fez mais de 1500 viagens? Já sei o que me vai dizer: isso é mentira. Típico do sistema, preocupar-se com coisas dessas. O que interessa é que o Presidente fez várias viagens. Foram 165. Que é um número. Assim como 1500. É outro número. Eu disse que o Presidente fez um determinado número de viagens, e a verdade é que ele fez mesmo um determinado número de viagens. Por muito que não goste de ouvir.

E é por isso que eu não tenho medo de nada. É admirável que uma pessoa que vive em democracia e, por isso, pode dizer o que lhe apetecer, não tenha medo de nada, não lhe parece? Há um único adversário suficientemente temível, suficientemente violento, suficientemente poderoso para me derrubar: o refluxo gástrico.»

Ricardo Araújo Pereira

5.9.25

E agora, Portugal? Despenteias-me?

 


«Como é evidente, o povo português é o desgraçado da anedota. Na sequência de um acidente, um homem está no hospital com as pernas e os braços partidos, falta-lhe um olho e come por um tubo. Exasperado com a sua má sorte, solta um palavrão. Uma freira vai a passar e repreende-o:

— Não devia dizer coisas dessas, meu filho. Deus castiga.

— O que é que ele vai fazer, irmã? Despentear-me?

Para mim, que estou a perder o cabelo, a anedota não é assim tão engraçada. Sei que é possível Deus intervir de forma bastante cruel a nível capilar. Todos os dias surpreendo, ao espelho, um careca na minha casa de banho. Levo algum tempo a perceber que sou eu. Ainda assim, ocorre-me aquela anedota sempre que, na televisão, um comentador diz recear que venha aí uma crise política. Confesso que não estou muito preocupado. Creio que uma crise política seria uma lufada de ar fresco. Tivemos quatro eleições legislativas nos últimos seis anos. Uma crise, segundo o dicionário, é uma perturbação, uma mudança súbita, um percalço na marcha regular das coisas. Gostaria imenso que um percalço viesse subitamente perturbar o modo como as coisas têm marchado regularmente. Quando a marcha regular das coisas é haver eleições num período cada vez mais curto, uma crise seria uma legislatura chegar ao fim.

Parece-me que basta examinar o modo como os acontecimentos têm decorrido para perceber o que o país nos está a querer dizer. Houve eleições em 2019. E, a seguir, em 2022 — três anos depois. E, a seguir, em 2024 — dois anos depois. E, a seguir, em 2025 — um ano depois. Não sei se estão a ver onde quero chegar. É muito óbvio que se trata de uma contagem decrescente. Portugal está a contar: 3, 2, 1… Como se faz na passagem de ano. Ou antes do deflagrar de uma bomba. O país parece sentir que alguma coisa está para acabar. Como a contagem decrescente tem a ver com o espaço entre eleições, é possível que o que está para acabar seja a democracia. O cansaço gerado pela instabilidade costuma levar a um desejo de estabilidade. Fartas de legislaturas cada vez mais pequenas, certas pessoas podem sentir-se tentadas a querer experimentar legislaturas cada vez maiores. Com 48 anos de duração, por exemplo. Sendo assim, uma crise não é exactamente um problema. É capaz de ser uma necessidade.»


28.8.25

É um pássaro! É um avião! É o Ventura!

 


«As câmaras do partido de André Ventura tiveram a sorte de captar o momento em que André Ventura, arriscando abnegadamente a própria vida, apaga um violento incêndio que lavrava na base de um eucalipto, e as imagens surpreenderam toda a gente. Como era possível que o presidente do Chega estivesse ali em mangas de camisa, perdendo a oportunidade de usar a sua capa e o fato de licra azul que exibe no peito um S (de “show off”)? Enfim, o acto heróico podia ter sido mais bem encenado, mas ficou o essencial: André Ventura participou decisivamente no combate aos incêndios. Este ano já arderam 250 mil hectares, mas podiam ter ardido 250 mil hectares e mais 20 centímetros quadrados se não fosse a acção do intrépido político-bombeiro.

Mais uma vez, Ventura teve a felicidade de protagonizar um daqueles actos de valentia que não exigem grande sacrifício, que é a melhor e mais barata modalidade de bravura. A minha avó teve de lidar com um fogo maior no bolo comemorativo do seu 80º aniversário. Nas últimas eleições, se bem se lembram, Ventura já se tinha batido que nem um leão contra a azia. E venceu-a quase sozinho, contando apenas com a ajuda de umas sete ambulâncias e três hospitais. Felizmente, ao que tudo indica, está agora totalmente recuperado, embora eu tenha a suspeita de que possa ser novamente acometido pela cruel maleita na próxima campanha eleitoral, porque o refluxo gástrico parece ter grande sentido de oportunidade político. Se não houver recidiva da azia, tenho a certeza de que Ventura terá a sorte de ser vitimado por um ataque de acne ou por uma micose da unha, que, por serem também gravemente incapacitantes, conseguirão igualmente excitar a mesma compaixão no eleitorado.

Entretanto, anseio por novas iniciativas heróicas do presidente do Chega, como uma pega de caras a um hamster ou a captura, em flagrante delito, de um gatuno no momento em que está a furtar um chupa-chupa a um colega, numa creche. E tenho a certeza de que será um bandido chamado Ahmed, daquela turma cheia de mini-imigrantes que o Chega denunciou há uns meses, porque só há uma coisa pior do que esses imigrantes que vêm para cá e nem querem aprender a nossa língua, que são esses imigrantes que vêm para cá e se inscrevem na escola porque querem aprender a nossa língua. No mínimo, espero que Ventura aproveite a época balnear para ir à Fonte da Telha salvar a nado o programa eleitoral do Chega. Na zona da rebentação, que já assusta.»


20.8.25

Os meios de conspiração social

 


«Todos os que têm dirigido a sua solidariedade para quem perdeu casa e outros bens nos incêndios deviam pensar melhor. Estão a esquecer a principal vítima do fogo, que é Luís Montenegro. No Algarve, o primeiro-ministro queixou-se das estações de televisão, que estavam naquele dia a “preencher ecrãs com metade da imagem com labaredas e outra metade com a Festa do Pontal”. Pretendia com isso dizer que a comunicação social tinha o objectivo maldoso e pouco subtil de mostrar que, enquanto parte do país ardia, vários membros do Governo estavam reunidos numa festa. Infelizmente, Montenegro ficou-se pela crítica, e não deu sugestões aos jornalistas acerca do modo como deviam noticiar dois acontecimentos que estavam, de facto, a ocorrer ao mesmo tempo. Talvez devessem mostrar apenas as labaredas. Ou mostrar apenas a Festa do Pontal. Ou mostrar as labaredas, depois mostrar outra coisa qualquer, e depois então mostrar a Festa do Pontal. Entre as imagens das labaredas e as da festa do PSD, uma reportagem que fizesse o papel que aquele gelado de limão desempenha nas refeições compridas, para limpar o palato entre um prato e outro. Talvez pudesse ser mesmo uma reportagem sobre gelados de limão, para garantir que o palato fica limpo e que ninguém associa as imagens do fogo às imagens da festa.

No espaço de pouco mais de um mês, Montenegro é o terceiro político que se queixa da perfídia dos jornalistas. Sócrates declarou ser vítima de uma conspiração da comunicação social, Ventura também se queixa de ter toda a comunicação social contra si, e agora é Montenegro que revela um plano da comunicação social para o atacar. O que isto indica é que a comunicação social é muito mais perigosa do que se pensa. Uma coisa é os jornalistas montarem uma conspiração contra uma pessoa. Duas conspirações já parece demasiado. Mas três conspirações é simplesmente ridículo. O plano parece óbvio: ao empreenderem tantas conspirações, os jornalistas pretendem conspirar contra a própria ideia de conspiração. Quando vários dirigentes políticos, e tão diferentes entre si, se queixam do mesmo suposto inimigo, ficamos com a ideia de que são paranóicos narcisistas com a mania da perseguição, o que é evidentemente impossível. Há realmente uma conspiração em curso. E destina-se a desacreditar quem denuncia conspirações.»


8.8.25

Anda tudo a mamar

 


«Quem costuma reputar de populista a ideia segundo a qual, e cito, “anda tudo a mamar”, teve esta semana um azedo revés. Essa opinião, que é habitualmente expendida em certos snack-bares, foi no entanto subscrita pela ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, num ambiente em que, de acordo com os jornais, não era possível avistar uma única sandes de torresmo. A perspectiva subiu na vida, tendo migrado do snack-bar para o ministério, e tomou a seguinte forma: “Infelizmente, também temos conhecimento de muitas práticas em que, de facto, as crianças parece que continuam a ser amamentadas para dar à trabalhadora um horário reduzido, que é duas horas por dia que o empregador paga, até andarem na escola primária.” O primeiro aspecto a reter é de ordem, digamos, epistemológica. Quando a ministra revela ter “conhecimento de muitas práticas em que, de facto, as crianças parece que continuam a ser amamentadas (…) até andarem na escola primária”, dá um contributo para a ciência que não foi devidamente valorizado. Ela mostra que é possível conhecer um facto cuja descrição começa com a expressão “parece que”. Noutros tempos, isso seria estranho, e a formulação “tenho conhecimento de que parece que” seria escarnecida por ser familiar de outras tais como “temos provas irrefutáveis de que se calhar”, “tudo indica com rigorosa precisão que é mais ou menos isto”, e “não há dúvida de que talvez”. Mas hoje ficamos satisfeitos por saber, de ciência certa, que parece que. E o que parece é que há mulheres, que a ministra diz serem “muitas”, que, para manterem a redução de horário, amamentam os filhos até eles andarem na primária. Pessoalmente, não conheço muitas mulheres que amamentem até aos dois anos de idade. Que amamentem até aos três, suponho que sejam menos ainda. Até aos quatro talvez haja algumas, mas nunca soube de um único caso. O que significa que também desconheço práticas de amamentação até aos cinco anos de idade. Portanto, fico surpreendido que haja “muitas” mulheres que amamentam até aos seis, que é a idade em que as crianças entram na primária. Não sabemos exactamente quantas serão essas muitas, mas são as suficientes para que a ministra as refira. Por isso, tenho a certeza de que parece que são várias.

O segundo aspecto importante da intervenção da ministra tem a ver com o problema demográfico. Sempre que se aborda o tema do envelhecimento da nossa população, há quem defenda que é preciso incentivar a natalidade. Esquecendo, claro, que cada bebé nascido tem uma mãe. Uma destas vigaristas que depois vão, em grande número, tentar amamentar os filhos até ao ensino básico. O ideal seria que os bebés tivessem dois tipos de consulta periódica: uma com o pediatra, outra com a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Uma para zelar pela saúde do bebé, outra para evitar que a saúde do bebé prejudique a saúde das empresas.»


31.7.25

De quem é o Carvalhal? É de vários grupos hoteleiros!

 


«Segundo o Expresso, várias praias do concelho de Grândola têm neste momento acesso condicionado. Entre Tróia e Melides, há muitas praias em que nem toda a gente pode entrar, fazendo de Grândola uma vila certamente menos morena, dado que já não se consegue estar sossegado ao sol no areal. Talvez haja uns retoques a dar à letra da canção do Zeca Afonso. “Em cada rosto igualdade” mantém-se, uma vez que toda a gente está igualmente impedida de ir ao areal. Só pode ir quem estiver alojado em certos empreendimentos turísticos, o que não parece ser o caso de muitos grandolenses. E deve ser possível continuar a encontrar em cada esquina um amigo, porque na praia — onde, aliás, não há esquinas — ninguém consegue entrar facilmente.

Devíamos ter desconfiado. Um membro da família Espírito Santo já tinha dito, há uns anos, que gostava de ir à Comporta para viver “em estado mais puro”. “É como brincar aos pobrezinhos”, acrescentou, celebremente. Como é evidente, quando se quer brincar aos pobrezinhos, a primeira regra é não deixar entrar pobrezinhos. Caso contrário, eles ganham sempre, e a brincadeira perde a graça. É como ir brincar aos futebolistazinhos com o plantel do Real Madrid. Nem sequer tocamos na bola.

Na verdade, a criação de praias privadas e exclusivas é uma medida de elementar justiça. A praia é um sítio em que estamos praticamente nus: um fato de banho, e é tudo. Ora, quando estão nuas, as pessoas parecem mesmo iguais, o que é lamentável. Não há um fato italiano a marcar a diferença, um automóvel de gama alta para ajudar a fazer distinções, um relógio de luxo a indicar um estatuto diferente. 
O ideal é encontrar um modo de garantir que os pelintras não podem entrar. Não faz muito sentido que quem tem casas melhores, carros melhores e roupa melhor não frequente uma praia melhor. Mesmo a circunstância de o sol brilhar para todos sempre me pareceu injusta. Pode ser que ainda se consiga fazer alguma coisa em relação a isso. Julgo que as reivindicações de igualdade feitas em nome de Grândola são perigosas. Recordo que Grândola, vila morena, é logo promovida a cidade no fim da primeira quadra. Precisaremos de mais provas de que os grandolenses são abusadores? Se lhes dermos acesso à praia não se sabe o que pode acontecer. Cuidado com isso.»