20.11.25

Apostar em não apostar

 


«Portugal é um velho de 900 anos que tem um problema de jogo. O nosso modelo de desenvolvimento é baseado na raspadinha. O plano é sempre “apostar”. Apostar no Magalhães, porque a revolução digital é o futuro. Ou então, apostar no TGV, para nos ligar a Madrid e aos grandes corredores europeus. Ao mesmo tempo, é fundamental apostar no novo aeroporto de Lisboa. Sem esquecer a aposta na floresta e na biomassa. E a aposta no turismo, já que Portugal é a Califórnia da Europa. 

Desde que isso não desvie a nossa atenção da aposta em clusters industriais, com destaque para os que nos abrem a porta de entrada para a nova economia espacial. Por outro lado, a economia verde e as energias renováveis também merecem a nossa aposta. Assim como é obrigatória a aposta na economia azul, uma vez que o nosso mar tem grande potencial inexplorado, e a plataforma atlântica, meu deus, a plataforma atlântica. Embora a maior aposta talvez deva ser o lítio, visto que se trata do ouro branco português, e nos vai fazer entrar na cadeia de valor das baterias, ou o que é. No entanto, pensando bem, superior à aposta no lítio é a aposta no hidrogénio verde. Que, ainda assim, nada é comparada com a aposta nas startups e nos unicórnios.

Surpreendentemente, a maior parte destas apostas ocorre em Sines. Lisboa pode ser a capital do país, mas a sede do futuro é Sines. O resto do país está em 2025, mas Sines já vive no século XXII. É em Sines que se faz a aposta no mar, visto ser um porto de águas profundas. Mas também é o hub energético e logístico onde se aposta no gás natural e nas renováveis. E é ainda o local em que se aposta nos data centers e na inteligência artificial. Fazem-se mais apostas em Sines do que no Casino Estoril.

Nenhuma destas apostas nos tem dado a esperada taluda. A nossa grande aposta tem sido na ideia de aposta. Não interessa muito em que é que se aposta, o que interessa é haver sempre novas apostas. Enfim, sempre é melhor do que trabalhar. Como abandonar a ludopatia de repente talvez seja demasiado duro, a minha sugestão seria continuar a apostar, mas fazendo uma grande aposta em não apostar. Durante uns anos, experimentávamos esta aposta e dedicávamo-nos a modelos de desenvolvimento que não assentassem num grande gesto que tem como objectivo proporcionar uma solução milagrosa e instantânea, mas sim em trabalho chato, dedicado e paciente. Mas esta proposta vai ser mal recebida, até aposto.»


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