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11.1.26

Ventura, a aliança Governo/Chega e a 2.ª volta

 


«O Governo não quis arranjar um parceiro oficial para alianças parlamentares mas, se o PS serviu para viabilizar o Orçamento, o Chega tem sustentado o Governo em matérias fundamentais como nas leis de estrangeiros e da nacionalidade.

Foi interessante ver, neste sábado, André Ventura desafiar Montenegro a dar o apoio do PSD ao candidato do Chega, se passar à segunda volta com António José Seguro. A frase serve tanto para memória presente como futura: se por acaso o PSD de Montenegro viesse a fazer indicação de voto em António José Seguro, seria um acto “completamente contrário ao trabalho que tem sido feito no Parlamento e ao caminho que temos [PSD e Chega] feito, que é de neutralizar o Partido Socialista”.

É um facto que o Governo e o Chega têm um historial de colaboração e Ventura usou esse chão comum: “Seria interessante saber o que é que um primeiro-ministro e um líder do PSD fará perante um socialista e alguém com quem fez acordos na área da imigração, na área da nacionalidade, na área da descida de imposto, ainda ontem [sexta-feira] todas as medidas de habitação que o Governo queria aprovar, aprovou por causa do Chega.”

Este abraço de urso a Montenegro já há muito que está a ser preparado, como toda a gente sabe. Se “neutralizar” o PS parece estar a ser o primeiro objectivo, a vítima seguinte do líder do Chega será sempre o PSD. Aliás, neste sábado, em Portalegre, Ventura foi muito clarinho ao anunciar o seu grande objectivo: espremer os laranjinhas.

Junto a uma banca de fruta, comprou tangerinas para “mostrar como as laranjas vão ficar pequenas no dia 18”. A passagem de Ventura à segunda volta derrotando Marques Mendes ou António José Seguro é obviamente um cataclismo para qualquer dos dois partidos que construíram a democracia. Quanto a Montenegro, caso viesse a dar indicação de voto em André Ventura, estaria a escrever o bilhete de suicídio do seu partido. O mais provável é que não dê indicação de voto nenhuma


30.12.25

Superioridade moral

 


«Rana Taslim Uddim foi taxativo: "Não vale a pena estar a correr atrás de extremistas. Se nós fizéssemos uma queixa, eles teriam mais oportunidades para espalhar ódios e xenofobia. Foi por essa razão que decidimos não colocar qualquer ação cível contra o Chega. Não vamos fazer uma luta contra eles. Deixamos assim como está." No entanto, salienta: "Nós não gostamos disto, destas frases de ódio contra nós. É uma vergonha. Mas há muitas pessoas que falam a favor da nossa comunidade, como políticos, intelectuais, escritores, etc."»


Ventura e a arte de dividir para reinar

 


«Para que 2026 seja um sucesso, basta-lhe passar à segunda volta das presidenciais, dentro de três semanas. Terá deixado para trás pelo menos um dos candidatos dos partidos do sistema, senão mesmo os dois, caso o almirante consiga sair do escorrega onde se meteu. Há quem pense que a aura se acaba depois de fevereiro, quando já não houver eleições para disputar, como se fosse verdade que ele precisa mais disso do que da vida a correr mal a quem detém o poder. Precisa de tempo para que vingue a ideia de que também este governo não será capaz de cumprir as expectativas que criou.

Ventura é um líder populista, eficaz na comunicação e melhor ainda a mobilizar as emoções dos desavindos. E são tantos. Sendo de extrema-direita e sem base programática, nem sequer um conjunto de ideias minimamente coerente, o Chega cresce na polarização da sociedade porque Ventura aparece como o verdadeiro líder dos que acham que o problema está nos imigrantes, nas minorias, no assistencialismo, nos sindicatos, nos excessos da esquerda. E são cada vez mais a pensar assim. Este fim de semana, no Expresso, Gorka Castillo dava conta de que “um em cada sete espanhóis cortou relações por desavenças políticas” É o resultado da polarização, que leva também a que três em cada cinco evitem falar de política com a família e amigos. Desconheço se existe algum estudo similar em Portugal, mas não me parece que se concluíssem coisas muito diferentes, se fosse feito.

As redes sociais são a sementeira, mas há uma relação de dependência entre os media e André Ventura que ajuda a explicar o sucesso do político, tanto quanto ajuda a explicar a degradação do debate nas democracias. As sucessivas entrevistas do líder do Chega nos canais de notícias acontecem porque ele dá audiências, confirmadas pelos três debates mais vistos, com Ventura a fazer o pleno, mas as audiências existem porque o artista transforma tudo num combate de wrestling. É comum ver Ventura procurar transformar entrevistas em debates com o jornalista, para depois se vitimizar e acusar o entrevistador e o canal televisivo de o tratarem mal e discriminarem o Chega — acontece sempre que o jornalista tem de o desmentir. É comum vê-lo ignorar olimpicamente as perguntas que lhe são feitas para debitar apenas o que lhe interessa. Na linha dos longos diretos a que nos habituámos a assistir sempre que Ventura ou o partido dele estão envolvidos numa polémica.

Ventura, que aparece aos olhos dos seus eleitores como o único que diz as verdades que têm de ser ditas, mente com demasiada facilidade, manipula sem peso nenhum na consciência, defende a liberdade de expressão apenas para si próprio. Tudo junto, significa que André Ventura é um político que, se um dia tiver o poder, vai perseguir implacavelmente os seus opositores. Venci recentemente no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa uma acção colocada pelo Chega e André Ventura por ofensas ao bom nome, a propósito de dois artigos de opinião (DN e Expresso), em que alego que os discursos políticos sobre os imigrantes e as minorias têm consequências. O político que rasga as vestes para falar de liberdade de expressão não aceita sequer ser criticado pelo que diz. Avoco esta sentença para poder retirar de um desses artigos a parte em que fazia uma crítica também ao modo como a comunicação social sempre se relacionou com Ventura:

“O papel da comunicação social não pode […] assentar numa ambiguidade. O respeito pelas regras da profissão, designadamente o dever de não contribuir para a normalização do discurso de ódio, não concorre com a ambição das melhores audiências. Não há jornalismo sem regras, nem jornalismo com boas audiências sem ser bom jornalismo […] Em nome da necessidade inquestionável de pluralismo e isenção, o discurso político do Chega deve ter espaço na comunicação social, mas isso não pode nunca significar que o discurso de ódio contra determinadas nacionalidades, etnias ou raças passe incólume.”

Aqui chegados, devo dizer que, se continuarmos viciados nas polémicas criadas por Ventura, não tenho grandes dúvidas de que, em 2026, vamos ter como político do ano o mesmo que tivemos em 2025. E com uma capacidade ainda maior de dividir a sociedade portuguesa e influenciar a agenda do governo.»


29.12.25

O acordo nada secreto entre Moedas e Ventura

 


«Entre as luzes do Natal e o ruído do final de ano, confirmou-se uma evidência: há um acordo de governação entre o PSD e o Chega na Câmara de Lisboa. O “não é não” de Luís Montenegro, se fosse um dique, já teria inundado o país inteiro. Mas o primeiro a abrir deliberadamente as comportas foi Carlos Moedas, que se apresentava como obstáculo ao triunfo do extremismo político em Lisboa.

Desconfiei do que aí vinha quando foi anunciada a escolha de uma figura secundaríssima do partido para concorrer à capital e se soube de uma reunião entre André Ventura e Carlos Moedas, numa sala do Palácio de Belém, depois de um Conselho de Estado. Na altura, disse-se que entendimentos com o Chega, para viabilizar uma maioria, eram improváveis, por evidente incompatibilidade. Otimismo de quem acha que Moedas é um homem de princípios firmes. Raramente alguém com a relação que ele tem com a verdade é movido por valores. Porque há uma relação entre as duas coisas. A mitomania torna, aliás, Moedas e Ventura absolutamente compatíveis.

Em apenas dois meses, já tivemos nomeações de candidatos do Chega para a direção dos serviços sociais da Câmara de Lisboa e de empresas municipais, um regimento que limita os poderes da oposição aprovado pelo Chega, um orçamento para 2026 negociado com a extrema-direita e a integração de propostas abertamente inconstitucionais nas Grandes Opções do Plano. Enquanto Moedas se remete a um silêncio frio e calculado, à espera de que a época natalícia consuma a atenção dos lisboetas, é o vereador do Chega que vai relatando as conquistas do partido.

A evidência do acordo viu-se na estranhíssima primeira reunião do executivo. É nessa reunião que se delibera que matérias são decididas nas reuniões de vereação e quais são da competência exclusiva do presidente. A votação do Chega foi favorável a uma concentração inédita de poderes nas mãos de Carlos Moedas e à mudança de regimento, que retirou espaço à oposição. É invulgar um partido votar para ter menos poder, abdicando de competências que outras vereações sempre reclamaram. A menos, claro, que os vereadores do Chega soubessem que participariam nas decisões essenciais.

TRÊS VITÓRIAS PARA O CHEGA

A forma como Moedas apresentou o orçamento confirmou o caminho escolhido. Não houve tentativa de negociação com o PS e fizeram-se cortes em áreas que sempre foram linhas vermelhas para os socialistas. Em contrapartida, cedeu mais ao Chega em semanas do que ao PS nos últimos quatro anos.

A aproximação é programática. Numa cidade estrangulada pelo preço da habitação, e quando a própria Comissão Europeia estabelece uma relação direta entre o Alojamento Local e o crescimento do preço das casas, PSD e Chega uniram-se para travar as já tímidas medidas de regulação do Alojamento Local. Quem acompanhe a investigação jornalística sobre o financiamento do Chega feita por Miguel Carvalho sabe da importância destes setores no financiamento do partido.

A outra exigência do Chega, já tornada pública, é limitar às crianças portuguesas o apoio municipal a todas as famílias que não consigam vaga numa creche financiada pelo Estado. A proposta é flagrantemente inconstitucional, como toda a oposição fez notar, na medida em que viola de forma grosseira o princípio da igualdade. Portugueses e estrangeiros pagam os mesmos impostos e taxas municipais. Para deveres iguais, direitos iguais. Para a Câmara, o critério relevante é simples: viver na cidade, num dos poucos órgãos nacionais em que os imigrantes até têm direito a voto. Para a constituição é a igualdade perante a lei.

A terceira e a mais relevante cedência é acompanhar o programa eleitoral do Chega, que trabalha para os seus financiadores imobiliários, ao vender até metade das cerca de 21 mil casas geridas pela Gebalis. No contexto da maior crise habitacional desde os anos 80, e quando Lisboa apresenta a pior relação entre rendimentos e preços da habitação de todas as principais cidades europeias, a solução de Moedas e do Chega é delapidar o já escasso parque público. Não podemos elogiar os exemplos de Viena ou Amesterdão, onde a habitação pública representa 40% ou 30% do total da oferta, e repetir o erro da EPUL, vendendo a habitação pública em vez de construir para arrendar.

O aluguer permite fazer a rotação dos destinatários do investimento público, para garantir oportunidades aos jovens e ter uma cidade que não expulsa as suas classes médias e profissionais essenciais, como professores, polícias ou enfermeiros. O último empreendimento construído pela EPUL, no Martim Moniz, está entregue ao Alojamento Local. De que serve construir novas habitações acessíveis se, ao mesmo tempo, se perde stock público que podia servir as gerações de futuros jovens? É verdade que Costa e Medina também alienaram património. Mal, mas o contexto era diferente. Não vivíamos uma crise de habitação com esta violência e nunca foi feito nesta escala.

COMEÇOU A MAMA

Depois vieram as nomeações. A primeira foi para a direção dos serviços sociais da CML, com a escolha de uma candidata do Chega em Lisboa, “influencer” conhecida pelas suas posições xenófobas e provocatórias. Foi apresentada por Bruno Mascarenhas como prova de que “já não há linhas vermelhas” para o partido na autarquia.

A segunda, ainda mais significativa, também anunciada por Mascarenhas e nunca desmentida por Moedas, é a entrada de um representante do Chega para administrar a empresa que gere os bairros municipais em Lisboa.

Bruno Mascarenhas garante que não estão a negociar “tachos”, acusação que faria em décimos de segundo se estivesse a falar de outros partidos. Apenas não confia em terceiros para aplicar as suas políticas. Mas, mais do que programa, o Chega tem um exército de desempregados políticos, que encontraram num novo e promissor partido o seu centro de emprego, e esperam que lhes seja oferecida a generosa mama do Estado.»


3.12.25

IIegalizar o Chega?

 


«Foi quando o afilhado de 11 anos começou a trautear canções de apoio ao Chega à mesa de jantar, na noite em que o partido de André Ventura passou a ser a segunda maior força política no parlamento, nas eleições legislativas de 18 de maio, que Susana começou a pensar em como agir. “Aquilo gelou-me o sangue.” Não queria passar pelo que a avó passara, pelas adversidades da ditadura de que ouviu falar em casa. “Senti nesse momento que estávamos a caminhar para um lugar perigoso.”»


1.12.25

Quando polícias corruptos exploram imigrantes, André Ventura fica aflito

 


«André Ventura perdeu o debate na TVI com Catarina Martins logo na primeira pergunta que José Alberto Carvalho lhe fez. O líder do Chega, interrogado sobre a operação da PJ que levou à detenção de várias pessoas, incluindo dez elementos da GNR e um da PSP, envolvidos em tráfico de imigrantes, nada tinha a dizer.

As respostas de André Ventura são muito penosas de ouvir. José Alberto pergunta por que é que o interlocutor ainda não se pronunciou sobre este assunto. Ventura, claramente aflito, diz que se pronuncia “sobre os assuntos que estão na actualidade”.

José Alberto Carvalho insiste, e bem, que o assunto “é da actualidade”. Ventura foge do assunto descaradamente e diz que também “temos um assunto da actualidade”, mostrando a fotografia da fila das pessoas sem documentos na operação no Centro Comercial Babilónia na sexta-feira. Ventura, que comenta tudo o que acontece ou está para acontecer, não encontra nada para comentar sobre o escândalo do Alentejo.

José Alberto Carvalho, mostrando que é jornalista e não mestre-de-cerimónias, não larga o assunto da exploração de imigrantes com polícias envolvidos. Quase obrigado à força a reagir, Ventura tenta poupar os polícias comparando-os aos imigrantes e diz que “é tão ilegal o imigrante como o explorador”.

O moderador insiste, voltando a confrontar o candidato presidencial com o facto de alguns dos envolvidos serem da GNR e PSP. E, finalmente, Ventura concede que têm de ser “punidos”. O incómodo é brutal. Imediatamente Ventura foge do assunto que o queima, e dirige-se a Catarina Martins, culpando-a pelas leis de imigração do Governo Costa.

A seguir ao debate, para meu espanto, vi comentadores a darem a vitória a André Ventura. Quando André Ventura quer furtar-se a responder ao escândalo do Alentejo – enfim, lá responde, por causa da enorme insistência de José Alberto Carvalho – é festejado, quando André Ventura “entra na lama” é festejado, quando Catarina Martins responde à bruta aos ataques à bruta, é penalizada por “entrar na lama”.

Isto faz sentido? Nenhum. Argumentar assim não lembra ao diabo. Enfim, a grelha de análise dos debates para a eleição do Presidente da República já começa a ser parecida com a que é habitual nos comentários a seguir aos jogos de futebol.

O que se passou no Alentejo é gravíssimo. Estamos perante uma situação de escravatura de pessoas em que elementos das forças de segurança estão envolvidos. Infelizmente, este caso dá-nos o sinal do que poderá acontecer com as novas leis de imigração. Se existir trabalho, virá imigração – como acontecia em França nos anos 60 que se encheu de portugueses que “iam a salto”, pagando à pessoa que os conseguia fazer chegar a França.

A investigação da Polícia Judiciária dirige-se, não aos imigrantes propriamente ditos (a quem Ventura declarou guerra permanente), mas aos suspeitos que “se aproveitaram da situação de fragilidade (documental, social e económica) de cidadãos originários de países terceiros, na sua grande maioria indocumentados, para daí retirarem avultadas vantagens económicas”. Os elementos da GNR e PSP exerciam “o controlo e vigilância sobre trabalhadores estrangeiros”. Continuo a citar o comunicado do Ministério Público: “Estes suspeitos ameaçavam ainda aqueles cidadãos, dando-lhes a entender que a queixa às autoridades não seria uma alternativa viável para reagir aos abusos de que foram ou estão a ser alvo.”

O leitor tem a certeza que os mais de 20% de eleitores que votaram no Chega nas legislativas se identificam com estes agentes de segurança que exploraram estes imigrantes? Eu, por acaso, não tenho nada essa certeza.

A questão é que o medo que André Ventura demonstrou no debate da TVI, perante José Alberto Carvalho, a falar deste caso, transmite a ideia de que está convencido de que entre os polícias corruptos e o eleitorado do Chega existe uma grande simpatia mútua.

Os elementos das forças de segurança não foram agora detidos por uma questão processual: as escutas não estavam transcritas e a juíza não aceitou escutas não transcritas.

Aquele debate da TVI tem história e não é a “lama”: é a incapacidade de André Ventura falar sobre a exploração de imigrantes se meter membros das forças de segurança. Já se tinha assistido à defesa do Chega do polícia que assassinou Odair Moniz, sem qualquer compaixão pelo morto.

Este país ainda tem um regular funcionamento das instituições. Mas ninguém tenha dúvidas de que, caso a revisão constitucional para dar mais poderes ao Presidente da República que Ventura defende fosse avante, íamos ter outro país. Estas são mesmo as eleições presidenciais mais importantes da democracia.»


28.11.25

Mas o Chega sobe e sobe

 


«Em causa estão acusações feitas aos funcionários parlamentares por alegada “falta de neutralidade política”. “Têm sido acusados de alterar os Diários da Assembleia da República com intuito único de serem ocultados os apartes destinados ao Chega”, escreve o sindicato, que aponta como exemplo a acusação feita pelo deputado Pedro Frazão, “por falta de fidedignidade da transcrição da sessão plenária do dia 17 de setembro”. O deputado tinha pedido um inquérito que visava o líder da bancada do PSD, Hugo Soares, e que foi chumbado pela Comissão de Ética. Pedro Frazão recorreu, alegando que a ata da sessão “omitia o teor dos protestos e contraprotestos do social-democrata, que classificou como ‘intimidatórios e desabridos’, configurando, alegadamente, ‘amea¬ças de agressão física’”.»


11.11.25

A terceira margem da direita

 


«Jacques Danton e Robespierre eram inimigos íntimos, e um acabou por levar o outro à guilhotina. Mas, antes de subir ao cadafalso, Danton terá murmurado a Robespierre: “tu vens atrás”. E foi. E foi nessa sucessão de quedas internas que Jacques Mallet du Pan acaba por encontrar a imagem que atravessou o fim do século: as revoluções, como Saturno, devoram sempre os seus próprios filhos.

Há sempre um momento em que a energia que rasgou a porta do palácio começa a desconfiar dos que estão dentro do palácio. O poder deixa de ser o alvo da ira. O poder passa a ser o prémio. Nos Estados Unidos, a fratura na direita radical abriu-se antes de termos linguagem para a descrever. O movimento MAGA desenhava fronteiras e, à sua volta, crescia uma juventude que já nem reconhecia fronteira nenhuma. Dali nasceu um novo tipo de energia política que se alimenta do sentimento de que a História foi sequestrada e de que o futuro já está escrito noutro lado, por outros. E essa energia cruzou o Atlântico. Chega a Portugal como ecos que parecem locais, mas que trazem o desenho inteiro de outra história.

É que, por cá, esse movimento é incorporado por grupos como a Reconquista, que tratam a exclusão como um destino português e a palavra como uma arma simbólica. É um subterrâneo que opera com uma lógica própria: os argumentos que lançam (como a importação do conceito de remigração) servem para sinalizar pertença. Pedro Frazão grava um vídeo e promete que o Chega é um “aliado” de quem vive desse subsolo. Não foi um desvio. A pergunta é a outra: porquê arriscar a associação do Chega a um movimento encabeçado por quem defende que só os homens devem votar, que vê o sufrágio como filtro biológico?

Para se perceber a estratégia — porque é calculada —, é preciso olhar para o berço da direita radical. Nos Estados Unidos, a nova direita já se fragmentou há uns anos em dois corpos distintos mas interdependentes, que se alimentam mutuamente enquanto se corroem: a direita radical institucionalizada (o movimento MAGA) e o corpo marginal das comunidades digitais (representada sobretudo por Nick Fuentes, cabecilha dos “Groypers” e que, ao longo dos anos, expressou em registos públicos admiração por Adolf Hitler).

Mas a corrosão está a culminar numa guerra interna que deixou de ser retórica para se tornar um desenho estratégico. A direita institucional descobriu que já não controla o timbre da sua base mais jovem. E a base mais jovem percebeu que pode viver sem mediação. Nick Fuentes reapareceu não porque a opinião pública tenha decidido que ele é, afinal, tolerável, mas porque a nova arquitetura dos media digitais elimina a função de porteiro. E é nesse vazio que se instala a guerra civil da direita americana: de um lado, os que tentam instrumentalizar o perímetro democrático; do outro, os que entendem a própria destruição do perímetro como o gesto político fundador. É uma fratura que actua de fora para dentro, até que dentro e fora se tornem indistinguíveis.

O Chega conhece este risco. E Pedro Frazão sabe o que está a fazer quando acende um fósforo no pavilhão da Maia. No plano imediato, cola o partido à linguagem que sobe das margens. No plano estratégico, tenta neutralizar a ameaça futura de uma fuga geracional que aconteça à direita do Chega. A mensagem é menos sobre o evento em si. Frazão quer, com a participação no evento, assegurar que o partido é ainda o vértice da energia radical, antes que alguém, daqui a dois ou três anos, possa roubar-lhe esse centro de gravidade. E é neste ponto que o gesto ganha densidade política: para o Chega, não é a adesão ideológica que importa, é o medo de perder a pulsão que deu a vida ao partido.

O gesto que nasce como afronta ao sistema termina sempre como ambição pelo trono do sistema. Querem ser a exceção, mas também quem define a regra. E, quando este momento chegar, a tensão deixa de ser entretenimento. Torna-se política. O Chega percebe isso. Tenta agarrar as margens antes que as margens o dispensem. E o país, que ainda lê estes episódios como fricções laterais, vai descobrir que o que realmente está em jogo não é a explosão do perímetro.

É quem fica com o perímetro na mão depois de ele cair.»


8.11.25

Os cristãos cruéis

 


«As pessoas deviam ler o programa do Chega. É um documento bem elaborado, consistente entre os seus diversos pontos, e traduz a prática do partido. Ele assenta, nos seus pontos programáticos essenciais, na ideia da “auto-responsabilidade”, uma ideia que tem origem no liberalismo económico, associada a uma interpretação cristã pós-reforma, muito comum nas igrejas evangélicas.

O primeiro ponto do programa, intitulado “primado da moral”, é histórica e ideologicamente falso. Não há nenhuma “tradição civilizacional portuguesa” que pressuponha “que o primado moral da auto-responsabilidade antecede e determina tudo o resto na condição humana”. Nem há, “no campo religioso, a auto-responsabilidade deriva da matriz milenar judaico-cristã e, no campo intelectual, deriva da matriz milenar greco-romana”. Bem pelo contrário.

No segundo ponto, o sujeito é o Chega e, por isso, a declaração programática da “legitimidade moral” da sua posição apenas ao partido responsabiliza. E a frase é mais clarificadora do modo como a direita radical populista vê a sua função.

O Chega “assume que os inevitáveis encargos impostos à condição humana devem ser remetidos para o interior de cada sujeito individual ou colectivo, para a sua consciência e conduta pessoal, familiar, institucional, partidária, comunitária, nacional, humana”. Esta frase diz tudo – podíamos traduzi-la da seguinte maneira, inteiramente fiel ao seu conteúdo: se és pobre, a culpa é tua, se és sujeito a qualquer violação dos teus direitos, se és explorado, se és vítima de discriminação ou de qualquer forma de violência, a culpa é tua. São os “inevitáveis encargos impostos à condição humana”.

Os pontos seguintes do programa explicam por que razão “a solidariedade deve estar subjugada à auto-responsabilidade considerando que a inversão dos termos gera parasitismo social, subsidiodependência ou dependência da ajuda externa dos Estados com a consequente perda de autonomia, liberdade e dignidade de indivíduos e povos que, no limite, conduz à destruição das economias e à corrupção das democracias.”

Não é preciso ir mais longe, está de novo tudo dito. Por isto é que a extrema-direita, a direita radical populista assenta num ataque à “empatia” e à “compaixão”, que consideram a origem da fraqueza e da crise da “civilização ocidental”. Como Elon Musk disse várias vezes, “a fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”. Ou Charles Kirk, santo e mártir do trumpismo, que adorna uma T-shirt usada por Rita Matias: “Eu não suporto a palavra empatia, na verdade penso que a empatia é um termo new age construído e que faz muitos estragos.” Aqui, empatia está por simpatia, e por compaixão, termo também atacado pela direita radical populista, ao exemplo do trumpismo.

Para eles, a sociedade assenta no primado do mais forte, e os mais fortes ganharam essa condição por via da “auto-responsabilidade”, sendo que os mais fracos só são fracos ou porque não trabalham, ou porque se entregam ao “parasitismo social” e à “subsidiodependência”.

Estes homens e mulheres consideram-se cristãos, fotografam-se de joelhos nas missas, marcam encontros para a saída das igrejas e tem o apoio, para o Chega e o ADN, da crescente comunidade evangélica, ironicamente resultado do afluxo de imigrantes brasileiros.

O cristianismo tem muitos crimes na sua história, mas, nos nossos dias, a Igreja Católica e muitas comunidades luteranas e protestantes dão um papel relevante à “empatia” e à “compaixão” e já têm falado com toda a clareza na defesa dos mais fracos, em particular dos imigrantes, de uma forma que se percebe que é claramente contra o populismo anti-imigrante do Chega. Eles são contra os cristãos cruéis que se pavoneiam nas missas e depois olham com asco e desprezo os seus irmãos mais fracos, mais pobres, e conhecendo, em particular os evangélicos, a Bíblia, não querem aprender nada com ela.

Na verdade, quer no Antigo Testamento, nos ensinamentos do profeta Miqueias, quer no Novo Testamento, a fonte próxima do cristianismo ocidental, a ideia de “amar o teu próximo como a ti mesmo” é essencial. Não é um comentário de um qualquer profeta ou evangelista, é Jesus que aparece a dizê-lo, respondendo em seguida sobre “quem é o meu próximo?”. E Jesus responde com a Parábola do Bom Samaritano (no Evangelho de Lucas):

“Um homem descia de Jerusalém para Jericó quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes tiraram-lhe as roupas, espancaram-no e foram embora, deixando-o quase morto. Aconteceu estar a descer pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: ‘Cuide dele. Quando eu voltar pagarei todas as despesas que tiver’.”

Não custa perceber que face ao homem caído, vindo de uma guerra qualquer, fugindo da miséria e da fome, tentando atravessar meio mundo para mandar dinheiro para a sua família – como fizeram os portugueses emigrados na França e Alemanha –, tudo feridas do mal viver, o sacerdote e o levita que “passaram para o outro lado”, desprezando qualquer “compaixão”, são legítimos militantes do Chega. E o Bom Samaritano não é – é da turma da “empatia”.

Eu sou ateu, conheço a história do cristianismo, sei de muitas crueldades cometidas em nome de Jesus, mas também sei que nessa herança vem também a Parábola do Bom Samaritano e que muitos cristãos fazem tudo para a viver. Eles não fazem parte dos cristãos cruéis que hoje cultivam o desdém pela “compaixão”.»


4.11.25

O colinho que damos a André Ventura

 


«Já não é a indiferença da maioria que abre alas à extrema-direita portuguesa; André Ventura é levado ao colo pelo Governo e pelas televisões. Este fim de semana, Ventura abandonou o estúdio queixando-se da CNN, mas esteve no canal a ser entrevistado por jornalistas e comentadores em agosto, voltou no mesmo formato em setembro, respondeu às perguntas de uma estrela do canal em outubro e foi questionado por um jornalista e dois políticos comentadores no sábado. Fico à espera do dia em que vão pedir a Montenegro e a Carneiro para entrevistarem Ventura!»


31.10.25

"Vai para a tua terra". O racismo no Parlamento agora é aceite

 


«Caro leitor, cara leitora:

A História acelerou de tal forma em Portugal que coisas que há nem meia dúzia de anos seriam impensáveis hoje são moeda corrente.

Portugal foi sempre um país racista, mas era um racismo envergonhado, negado e escondido. As leis não eram racistas, ainda que a prática o fosse. Agora, esse país racista que os partidos democráticos tiveram tanto trabalho em negar e até a combater está posto a nu.

O grito de "vai para a tua terra" que o deputado do Chega Filipe Melo dirigiu à deputada do PS Eva Cruzeiro limitou-se a confirmar quão verdadeira era a intervenção da socialista, que acusava o Chega de ser um partido racista. A frase de Melo justifica a intervenção de Cruzeiro.

A lição do grito "vai para a tua terra" consolida o Chega como partido racista, como já se via no discurso sobre a comunidade cigana; nos comentários de alguns membros sobre a morte de Odair Moniz, assassinado por um polícia; no cartaz e nos discursos de Ventura que nos manda a todos (sabemos que não é a todos, é dirigido aos imigrantes asiáticos) "para o Bangladesh".

Se, há 20 anos, alguém se dirigisse ao deputado Narana Coissoró, antigo líder parlamentar do CDS nascido em Goa, com uma frase igual – "Vai para a tua terra" – caía o Carmo e a Trindade. O Presidente da Assembleia da República, fosse ele Barbosa de Melo, Vítor Crespo ou Almeida Santos, ter-se-ia imediatamente insurgido. Agora, não aconteceu nada.

Podem-se fazer ataques racistas na Assembleia da República que José Pedro Aguiar Branco não vai perder uma hora de sono. O pior é que já ninguém liga. Pedro Delgado Alves protestou, mas a caravana passa. Isto é a institucionalização do racismo no segundo órgão de soberania, perante o alheamento sórdido da comunidade política.

O que Filipe Melo fez na Assembleia da República fazem-no muitos portugueses brancos contra negros nas ruas das cidades. Mas fazem-no contra a lei, porque as leis em Portugal não permitem a discriminação em função da raça. Agora, no Parlamento, a lei também pode ser ultrapassada à vontadinha.

O racismo que sempre existiu em Portugal deixou de ser envergonhado. No fundo, já não é só o Chega, com os seus discursos, a torná-lo aceitável.

Nos últimos dias, o ministro António Leitão Amaro fez bastante para conseguir que o ódio ao imigrante, que neste momento já é "mainstream", se torne um acto banal.

A França não queria que a Itália integrasse a então Comunidade Económica Europeia para evitar que os italianos viessem "roubar" os empregos dos franceses e fazer diminuir os salários. Em Portugal, é visível que o ódio ao imigrante não cresce pelo facto de os imigrantes virem "roubar empregos". Cresce mais pelo sentimento anti-cosmopolita (para não lhe chamar outra coisa) que Pedro Passos Coelho verbalizou numa das últimas sessões públicas onde esteve: "Se tudo se mantiver como está com o reagrupamento familiar e por aí fora, qualquer dia as pessoas (…) sentem-se estrangeiras na sua própria terra".

O zeitgeist europeu está com este tipo de discursos. Não há muito tempo o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, um advogado de direitos humanos, fez um discurso semelhante – que foi mais polémico no Reino Unido do que aqui foram as palavras de Passos Coelho. Aliás, Starmer acabou por dizer à BBC que estava "profundamente arrependido" de ter dito que as ilhas britânicas corriam o risco de se transformar "numa terra de estranhos".

Em Portugal ninguém pede desculpa, porque não existe – dentro e fora dos partidos – uma sociedade civil tão forte como no Reino Unido, que também tem os seus problemas: o partido de Nigel Farage, o Reform UK, irmão do Chega, lidera as sondagens.

Sendo assim, Leitão Amaro sente-se à vontade para acusar os governos socialistas de terem promovido uma "reengenharia demográfica e política do país" com a manifestação de interesses. A expressão é nova, o Chega usa outras para bramar contra "a mistura".

Uma parte do PSD acha que é hasteando as bandeiras do Chega que o vai esvaziar. Leitão Amaro, depois da aprovação da Lei da Nacionalidade, declarou que, doravante, "Portugal é mais Portugal", uma expressão com o único objectivo de empunhar o discurso nacionalista, colando a lei da nacionalidade às regras para a imigração, tal como fez Montenegro, que voltou a atacar as "portas escancaradas" que alegadamente o PS abriu.

A normalização do discurso anti-imigrante, genericamente baseado em percepções, nunca discute o que acontecerá a Portugal se os imigrantes deixassem de contribuir para a economia portuguesa e para a demografia nacional. É como se fossem dois mundos à parte: como se o crescimento do país não estivesse ligado à mão-de-obra imigrante, para a qual agora se passou a dificultar a integração.

Quanto à sustentabilidade da Segurança Social, num país em que os habitantes não querem ter filhos (aliás, tal como André Ventura e muitos votantes do Chega não querem) quem vai financiar a reforma do líder do Chega e dos outros milhares de portugueses quando chegar a altura? Ou a ideia é mesmo acabar com as pensões? Se for, assumam. Pelo menos, os eleitores ficam esclarecidos.

Salazar, que Ventura quer ver regressar em triplicado, defendia o "Portugal multirracial". Não é que seja grande consolo tendo em conta todo o panorama, mas o discurso oficial nos últimos tempos da ditadura pelo menos não era racista.

"Ó Portugal, se fosses só três sílabas/de plástico, que era mais barato!" Ninguém nos descreveu como o O'Neill.

Até para a semana.»


29.10.25

Salazar vence concursos televisivos, Ventura eleições

 


«Já lá vão quase 20 anos desde que Salazar foi escolhido num programa televisivo como o maior português de sempre. Na altura, os 41% que recolheu foram explicados pelo enviesamento da amostra, pois a escolha dependia de uma votação telefónica que refletia a mobilização da claque salazarista. De tal forma que noutro estudo realizado na época, assente numa amostra representativa, a votação no ditador de Santa Comba Dão caiu para cerca de 10% e os grandes portugueses afinal eram outros: D. Afonso Henriques, Luís Vaz de Camões e o Infante D. Henrique.

Retenham estes 10% e, antes de regressarmos a Salazar e a Portugal, façamos uma curta digressão pela Rússia. No seu livro O Futuro é História – Como o Totalitarismo se Apoderou da Rússia, a páginas tantas, Masha Gessen reflete sobre o papel da versão local do formato da BBC, Great Britons, na criação de um contexto ainda mais hostil aos poucos resquícios de liberalismo por aquelas paragens. A votação “popular" televisiva foi uma oportunidade para testar, de novo, o apelo de Estaline (apresentado como general patriota, mesmo sendo georgiano), e, sobretudo, para promover valores autoritários e líderes fortes. O vencedor acabou por ser o menos controverso Alexander Nevsky, herói militar do século XIII, canonizado por enfrentar os invasores ocidentais. Tudo manipulado de modo profissional e com recursos públicos, ao serviço de Putin.

Recupero este episódio para sublinhar que a pulsão autoritária não começou no último par de anos. Estamos perante uma vaga de fundo global, com protagonistas nacionais, e, sobretudo, com instrumentos eficazes de propagação. Uma pulsão que varia pouco de país para país. O que me devolve à vitória de Salazar no concurso da RTP, certamente assente numa votação sobrevalorizada, mas que revelava algo mais profundo: os 41% estavam sobrestimados, porventura os 10% correspondiam à realidade, e o que contava era a insinuação de que, afinal, um ditador era apreciado, mesmo que em silêncio.

Entretanto, um pouco por todo o Ocidente, agudizaram-se clivagens sociais latentes que tiveram a sua primeira grande expressão eleitoral no referendo do “Brexit”; a covid-19 acelerou um mal-estar larvar e as redes sociais tornaram-se armas de destruição do espaço público. Entre nós, há 20 anos, muitos olharam para a popularidade de Salazar como um mero resquício nostálgico. Depois disso, os “coletes amarelos” foram encarados como uma manifestação sem tração social, e a emergência do Chega vista como um epifenómeno, que desapareceria assim que o seu líder carismático regressasse à casa de partida, o PSD.

Uma sucessão de erros de avaliação que comprova que a popularidade de ditadores em formatos televisivos para o grande público não foi um sintoma de nostalgia política, mas sim um indício da emergência de um fenómeno novo, com agentes ativos, recursos e tempo para criar um terreno fértil.

É por isso que, com previsibilidade, ao jogar a cartada “um Salazar em cada esquina” para lançar a sua campanha presidencial Ventura sabia o que estava a fazer: não apelava ao passado, convocava o futuro. O truque garante-lhe exposição mediática, polariza e mobiliza um campo em ascensão — o dos que olham para as democracias como regimes capturados por elites, com instituições de intermediação nas quais não se pode confiar, e que aguardam por um homem forte que ponha fim à alegada “bandalheira”. Nuns casos é Putin, noutros Trump. A nós, calhou-nos o Andrezito — para usar o acertado epíteto de Isaltino Morais.»


27.10.25

Um salazarista sem coragem

 


«Depois destas autárquicas, André Ventura teme que se instale a ideia de que está em queda e, no início da pré-campanha presidencial, usou o truque do costume: dizer coisas chocantes para ser assunto. Fez uns cartazes assumidamente racistas, que, em vez de nos chocarem, deviam levar à intervenção do Ministério Público para repor a legalidade. Não é fácil, tendo em conta a crescente influência do partido naquela instituição. E disse que o país precisava de três Salazares.

André Ventura acha que eram precisos três Aljubes onde enfiar os seus opositores. Três Tarrafais, para os torturar e matar. Acha que a opinião dos outros devia ser suprimida do espaço público, para ficar a falar sozinho. Que os que discordam de si deviam ser perseguidos, silenciados. Que os que o enfrentam nas urnas deviam ser eliminados, como foi Humberto Delgado.

Ventura gostaria de garantir monopólio industrial aos empresários que lhe são próximos. Talvez aqueles que lhe pagam as campanhas milionárias. Esmagar a concorrência, controlar a economia até à fiscalização do último isqueiro para proteger a indústria fosforeira. Gostaria de oferecer aos patrões amigos os bons préstimos de uma polícia política, para perseguir trabalhadores insurretos. Por ele, proibiam-se as greves.

Ventura tem saudades de uma Lisboa cercada de barracas. De uma cheia a matar centenas de miseráveis. Tem saudades da pobreza extrema, do analfabetismo, do país a fugir a salto. Dispensaria o Serviço Nacional da Saúde, um sistema de segurança social universal, o ensino obrigatório. E gostaria de poder esconder tudo o que falhava através da censura. Adoraria mandar várias gerações para uma guerra. Vê-los regressar estropiados, traumatizados ou num caixão, não esquecendo as vítimas do lado oposto.

Ventura gostava que, chegado ao poder, se pudessem esconder os podres dos seus. Que um escândalo como o Ballet Rose, em que a fina flor do regime se entregava à pedofilia, pudesse ser abafado na justiça (como foi, por intervenção do seu querido Salazar) e na imprensa. Que o nepotismo e a cunha (vale a pena ler o livro de Marco Alves, “Salazar Confidencial”) fossem a regra. Gostava, gostava três vezes, que a impunidade dos seus fosse absoluta.

André Ventura é um homem sem convicções. Não é certo que muitos ditadores as tenham, para além da mera vontade de se perpetuarem no poder. Mas está na altura de levarmos a sério o que diz. Não se levou Donald Trump a sério, julgou-se que era apenas um provocador, e lá vai ele estendendo o seu poder, esmagando a imprensa livre, silenciando as universidades, controlando a justiça, utilizando todas as instituições do Estado para destruir a democracia e o Estado de Direito. Riram-se enquanto dizia ao que vinha. Sim, Ventura é um oportunista. Mas orgulha-se de Salazar. Que tal levarmo-lo a sério? Sem indignação. Apenas sabendo o que temos pela frente e agindo em conformidade.

Quanto à justificação que deu depois, dizendo, porque nos toma por parvos, que o povo usa aquela expressão – a avó dele usava-a e era uma democrata –, é apenas a o costume: atira a pedra e esconde a mão. Diz, mas tem medo de assumir o que diz. Quer o efeito, mas teme as consequências. Só uma coisa separa André Ventura de um salazarista assumido: a cobardia.»