27.10.25

Um salazarista sem coragem

 


«Depois destas autárquicas, André Ventura teme que se instale a ideia de que está em queda e, no início da pré-campanha presidencial, usou o truque do costume: dizer coisas chocantes para ser assunto. Fez uns cartazes assumidamente racistas, que, em vez de nos chocarem, deviam levar à intervenção do Ministério Público para repor a legalidade. Não é fácil, tendo em conta a crescente influência do partido naquela instituição. E disse que o país precisava de três Salazares.

André Ventura acha que eram precisos três Aljubes onde enfiar os seus opositores. Três Tarrafais, para os torturar e matar. Acha que a opinião dos outros devia ser suprimida do espaço público, para ficar a falar sozinho. Que os que discordam de si deviam ser perseguidos, silenciados. Que os que o enfrentam nas urnas deviam ser eliminados, como foi Humberto Delgado.

Ventura gostaria de garantir monopólio industrial aos empresários que lhe são próximos. Talvez aqueles que lhe pagam as campanhas milionárias. Esmagar a concorrência, controlar a economia até à fiscalização do último isqueiro para proteger a indústria fosforeira. Gostaria de oferecer aos patrões amigos os bons préstimos de uma polícia política, para perseguir trabalhadores insurretos. Por ele, proibiam-se as greves.

Ventura tem saudades de uma Lisboa cercada de barracas. De uma cheia a matar centenas de miseráveis. Tem saudades da pobreza extrema, do analfabetismo, do país a fugir a salto. Dispensaria o Serviço Nacional da Saúde, um sistema de segurança social universal, o ensino obrigatório. E gostaria de poder esconder tudo o que falhava através da censura. Adoraria mandar várias gerações para uma guerra. Vê-los regressar estropiados, traumatizados ou num caixão, não esquecendo as vítimas do lado oposto.

Ventura gostava que, chegado ao poder, se pudessem esconder os podres dos seus. Que um escândalo como o Ballet Rose, em que a fina flor do regime se entregava à pedofilia, pudesse ser abafado na justiça (como foi, por intervenção do seu querido Salazar) e na imprensa. Que o nepotismo e a cunha (vale a pena ler o livro de Marco Alves, “Salazar Confidencial”) fossem a regra. Gostava, gostava três vezes, que a impunidade dos seus fosse absoluta.

André Ventura é um homem sem convicções. Não é certo que muitos ditadores as tenham, para além da mera vontade de se perpetuarem no poder. Mas está na altura de levarmos a sério o que diz. Não se levou Donald Trump a sério, julgou-se que era apenas um provocador, e lá vai ele estendendo o seu poder, esmagando a imprensa livre, silenciando as universidades, controlando a justiça, utilizando todas as instituições do Estado para destruir a democracia e o Estado de Direito. Riram-se enquanto dizia ao que vinha. Sim, Ventura é um oportunista. Mas orgulha-se de Salazar. Que tal levarmo-lo a sério? Sem indignação. Apenas sabendo o que temos pela frente e agindo em conformidade.

Quanto à justificação que deu depois, dizendo, porque nos toma por parvos, que o povo usa aquela expressão – a avó dele usava-a e era uma democrata –, é apenas a o costume: atira a pedra e esconde a mão. Diz, mas tem medo de assumir o que diz. Quer o efeito, mas teme as consequências. Só uma coisa separa André Ventura de um salazarista assumido: a cobardia.»


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