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16.12.25

Interior sem papel e sem voz

 


«A expressão "doce como um pastel de nata" foi usada pela revista "The Economist" para descrever o bom desempenho económico de Portugal, resultado da combinação do crescimento do PIB acima da média europeia, inflação controlada e valorização do mercado acionista.

O turismo e os novos residentes estrangeiros com maior capacidade financeira foram decisivos para impulsionar a procura de investimento. Apesar disso, o primeiro-ministro reconhece o desafio de transformar os bons resultados macroeconómicos na melhoria de salários e de condições de vida.

A doçura da atual conjuntura contrasta com a amargura de um país cada vez mais assimétrico. O alerta mais recente vem da única distribuidora nacional de imprensa, que admite ajustar rotas em oito distritos do Interior. A subida de custos, a quebra de vendas e a redução da receita comprometem a continuidade da distribuição de jornais nessas regiões.

A confirmar-se, parte significativa do território ficaria privada de acesso à imprensa diária, passando a depender de canais televisivos e plataformas digitais. A exclusão informativa atinge sobretudo populações envelhecidas, com menor literacia digital, agravando o esvaziamento populacional que há décadas fragiliza o Interior.

O país assiste, assim, a um novo tipo de centralismo - o digital - que reforça o sentimento de abandono nas regiões afastadas dos grandes centros urbanos. O distanciamento face às fontes de informação e decisão política são propícios à expansão de discursos populistas, fenómeno visível em Portugal e a nível global.

Um país antigo, desafios persistentes: durante nove séculos o país preserva a coesão cultural e identitária; contudo, o imobilismo político e a ausência de estratégias para o território têm ampliado as desigualdades territoriais.

As políticas públicas têm, de forma constante, falhado em inverter o declínio de parte do país. Ao Interior cabe-lhe sempre a fava do bolo-rei.» 


9.12.25

Greve de Jornalistas

 


ESTA GREVE GERAL TAMBÉM É PARA JORNALISTAS

Todos os antigos presidentes do Sindicato dos Jornalistas (entre os quais tenho a honra e o orgulho de me incluir) subscreveram um apelo à adesão dos jornalistas à greve geral de dia 11 de dezembro, contra a proposta de legislação de trabalho apresentada pelo Governo. Aqui se deixa o teor do referido apelo:

O jornalismo é feito por pessoas que trabalham, como as outras, na maioria com baixos salários e contratos precários, que na mesma medida serão afetadas pela danosa e incompreensível revisão das leis laborais proposta pelo atual Governo.

Ainda que tenham deveres próprios, desde logo o de informar, os jornalistas não estão limitados nos seus direitos enquanto trabalhadores, o que inclui o direito à greve.

Além disso, o jornalismo deve espelhar a comunidade em que se insere e também acompanhar as suas aspirações e reivindicações, sempre solidário com os mais vulneráveis e denunciando qualquer tentativa de fazer regredir os direitos e as conquistas sociais já alcançados.

A revisão laboral em cima da mesa é um gigantesco ataque à dignidade de quem trabalha - e o jornalismo sempre se pautou pela defesa da dignidade.

Aderir à greve geral do dia 11 de dezembro é, pois, ficar do lado certo da História, ao lado do coletivo de trabalhadores e trabalhadoras que justamente reivindicam melhores condições de vida, defendem os seus direitos e contestam a revisão laboral em curso.

A legislação proposta, a ser executada, aumentará também a precariedade dos e das jornalistas, com impacto direto na liberdade de imprensa e, portanto, na qualidade da democracia.

Assim, enquanto cidadãos, jornalistas e antigos presidentes do Sindicato dos Jornalistas, consideramos que é nosso dever acompanhar o apelo do nosso Sindicato para uma adesão em massa à greve geral.

Apelamos a quem exerce a profissão de jornalista para que se junte a esta luta, essencial para impedir o impacto desastroso da proposta de revisão laboral nas vidas dos trabalhadores e de toda a comunidade.

CESÁRIO BORGA, JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA, JOAQUIM LETRIA, ANTÓNIO MATOS, DIANA ANDRINGA, ALFREDO MAIA e SOFIA BRANCO

16.10.25

Jornalismo nos EUA

 


«As principais marcas americanas de comunicação social mostram-se unânimes na crítica ao Ministério da Defesa norte-americano, liderado por Pete Hegseth, depois de terem recebido deste departamento novas “regras” para o acompanhamento noticioso do que se passa no Pentágono. Em consequência, dezenas de repórteres entregaram os seus “passes” de acesso ao edifício e decidiram abandonar os seus postos, em protesto.»


14.8.25

Tudo tem limites? Parece que não

 


Este pasquim cria tum título que nem sequer respeita o resumo que faz a seguir. Mas claro que aquilo que «vale» é mesmo o título.

20.10.24

A segurança dos jornalistas

 

«Não existe democracia sem cidadãos informados e sem instituições que estruturem as intermediações no funcionamento da sociedade. No tempo presente, o direito à informação é espezinhado, cultiva-se a opacidade, e está a “normalizar-se” a morte de jornalistas que tentam informar-nos a partir de teatros de guerra e conflito, que proliferam. (…)

Os média tradicionais (sem dúvida importantes) sofrem a influência dos outros. Além disso, estão sujeitos a pressões vindas da estratégia ultraliberal que marca a ação política, do clima belicista que acentua análises dicotómicas entre o bem e o mal, dos negócios do mercado onde se movem atores influentes da geopolítica com objetivos diametralmente opostos. E, a volúpia do imediatismo é tentação fatal. (…)

A Comunicação Social está em estado periclitante que ameaça a democracia. A melhoria das condições de trabalho dos jornalistas e uma melhor utilização da digitalização e de novos média são duas medidas estruturais indispensáveis.»


15.6.24

O DN soma e segue

 


Depois da despedida de Ana Drago, que publicou ontem o seu último artigo, é hoje a vez de António Brito Guterres:

Eram os dois comentadores, bem à esquerda, que lia sempre no jornal em questão. Talvez por isso foram arquivados.

9.12.23

Se vives pelos media, morres pelos media

 


«Confesso que às vezes me interrogo se determinados aspectos da actividade política não fazem mal à cabeça. Não encontro outra explicação para que homens inteligentes passem a limitados para não dizer outra coisa, homens íntegros passem a mentirosos em série, homens que sabem muito passem a rudimentares ignorantes, homens que têm mundo e experiência fiquem boçais, homens que percebem mecanismos complexos fiquem ao nível das “influenciadores/as” de revistas do nosso provinciano jet set, homens que tomaram muitas vezes decisões difíceis e arriscadas fiquem intimidados com medo pânico das aberturas dos telejornais de escândalos.

Veja-se o caso mediático obsessivo das “duas gémeas”, que devia enjoar qualquer pessoa de bem e saudável da cabeça. O que é que levou o Presidente a não ter dito desde o primeiro dia que “sim, de facto meti uma cunha a pedido do meu filho, porque fiquei condoído com a situação de duas meninas com uma doença terrível e estava convencido que podia fazer alguma coisa para lhes minorar o sofrimento e o dos pais. Reconheço que fiz mal, mas não foi por mal, criei uma situação de desigualdade e abusei da minha influência, pelo que peço desculpa aos portugueses”?

Ninguém pediria a queda do Presidente, chamaria a atenção para o problema nacional das cunhas, e ficaria aos olhos de todos como um homem que fez uma asneira, mas que nunca tinha actuado por interesse próprio e o fizera por sensibilidade para com o sofrimento. Não seria o primeiro Presidente que actuava assim, havia também no passado um outro presidente que, quando defrontado em visitas oficiais com pedidos para que alguém doente pudesse ser internado com celeridade, metia também uma cunha, ou remetia a pessoa doente para um seu ajudante ou um acompanhante da visita para resolver o problema. Dizia-se ironicamente que havia nos hospitais da província visitados uma “ala do Presidente”…

O Presidente não fez nada disto, e enredou-se e enreda-se todos os dias em todos os tipos de mentiras do catálogo que os antigos fizeram ainda em latim: mentira, omissão da verdade, sugestão de falsidade. E cada dia lhe cai em cima a contradição entre o que está a dizer, e um email, um testemunho, um telefonema, o rastro de actos a que certamente não atribuía na altura particular importância, porque não estava a esconder nada e não achava que houvesse alguma coisa a esconder. E todos os dias as suas contradições e as contradições de todos os que ficaram envolvidos nesta história abrem um telejornal. A que se segue mais outra contradição para tapar a anterior e o desgaste reputacional é infinitamente maior a cada dia que passa, com todos os que tocaram no caso das “gémeas” envolvidos num labirinto que eles próprios teceram.

O mesmo se aplica aos esquecimentos inverosímeis como o de Pedro Nuno Santos, e de muitos outros que nunca conseguirão explicar que “se esqueceram” de coisas que ou sabiam muito bem ou deveriam procurar, nem que fosse quando começou o escândalo, porque elas acabam por aparecer. E, pior, ainda que tentem dizer que não sabiam ou não se lembram de actos relevantes das suas responsabilidades, que, quando os praticaram, lhe pareciam normais, mas que numa dada altura ou em certas circunstâncias depois se revelaram graves.

Recordo que em nenhuma circunstância estamos a falar de crimes, porque aí as coisas mudam de carácter, mas de más práticas, negligências, incompetências ou desatenções. São graves e podem trazer custos para as pessoas e o país, mas que, a terem sanção, ela é de outra natureza, disciplinar, de carreira ou reputacional. Mas o exagero actual, se rende em termos de audiências, tem também o efeito maligno de transformar más práticas em crimes e assim relativizar o crime.

O clima de radicalismo que se vive em Portugal e nas democracias tem também que ver com isto. Não é que não deva haver denúncia e escrutínio, mas o efeito do exagero, o jornalismo persecutório que vive da excitação muitas vezes de trivialidades, o emergir do mundo sinistro da cloaca das redes sociais ao ar pressupostamente livre dos media aniquila aquilo que devia ser o trabalho fundamental do jornalismo e que dá o nome à coisa, mediar. O jornalismo lida com os factos, deve ser fiel aos factos, e deve procurá-los, quando aparecem mentiras, ocultações e enganos, mas não pode ignorar o contexto e o sistema de mediações que todas as escolas de Jornalismo ensinam, mas que a tendência para o “reality show” sensacional faz esquecer todos os dias.

O chamado “jornalismo de investigação” é uma das tarefas fundamentais do jornalismo em democracia, mas a “investigação” é um instrumento, o produto final é que é jornalismo sem adjectivação. E este não vale apenas pela qualidade do instrumento que é a investigação, mas por outras qualidades que fazem a mediação e que vão da qualidade da escrita ou da fala ao conhecimento da lei, do equilíbrio do julgamento e da ponderação da gravidade do que se está a dizer, na enunciação da complexidade, por adiante. Senão não há distinção entre o jornalismo e os pasquins de escândalos que precisam do exagero para se venderem ou a reprodução acrítica das denúncias anónimas e da bufaria vingativa ou dos telefonemas e espectáculos que o Ministério Público divulga ou anuncia quando não consegue ter provas.

Comecei este texto com a referência a “determinados aspectos da actividade política que fazem mal à cabeça” e acabei por falar das perversões do jornalismo, porque há uma forte correlação entre os dois. O que se passa é que cada vez menos a acção política tem autonomia do contínuo político-mediático, com políticos a serem formados e a viverem toda a sua vida útil dependurados obsessivamente nos jornais, nas rádios, nas televisões e agora, cada vez mais destrutivamente, nas redes sociais. Isso significa que quando o sistema mediático se volta para o sensacionalismo, para uma ténue distinção entre a verdade e falsidade, a ignorância agressiva, a calúnia como respiração, o mundo da denúncia e da vingança, eles que se alimentaram sempre da promiscuidade com os media, quando caem em desgraça, ficam desvairados e só fazem asneiras. O sistema que alimentaram prepara-se agora para os comer. Vivos.»

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13.11.23

Prémio Nobel da Paz para António Costa, já!

 


«Primeiramente, faz-se necessário atribuir autoria ao título deste artigo. Roubei-o a um comentário feito pelo meu grande amigo e colega Daniel Pinéu numa publicação minha na rede social X (antigo Twitter). Eu estava a comentar que bastou uma crise governativa em Portugal, seguida da dissolução da AR e chamada antecipada de eleições pelo Presidente da República, para que a guerra de Israel contra o Hamas e a Faixa de Gaza praticamente deixasse de existir nos noticiários nacionais.

Como consumidora de informação de noticiários portugueses, penso que esta mudança de ventos é exemplificativa de um paradigma de produção e consumo de informação que precisamos rever como sociedade. Estivemos a esmiuçar 30 dias de guerra ao detalhe. Analisámos, opinámos, espalhámos informação e até desinformação.

Eu ouvi de tudo. Ouvi que era injusto que palestinianos pudessem ir viver para Israel enquanto os israelitas não podem viver em Gaza (errado e absurdo, quem quer viver numa prisão a céu aberto voluntariamente?). Ouvi que, embora quiséssemos, em casos de guerra, não podemos esperar reduzir as "casualidades civis” para “perto de zero” (quando a respeitada organização Defense for Children International estimou que a cada 10 minutos (!!) uma criança perdeu a sua vida em Gaza no último mês e pouco). Ouvi que deslocamento forçado de populações em guerra para a indigência, num contexto agreste sem água, eletricidade e comida, é normalíssimo, que isso não pode ser uma violação do direito internacional humanitário e que o Egipto que abra a fronteira e receba este povo todo (afinal, eles que são árabes que se entendam, não é?). Ouvi que o Hamas não é uma organização terrorista, porque vale tudo na luta de resistência anticolonial. Ouvi até que os civis judeus que, se não quisessem ser chacinados com suas crianças e bebés ao colo, não deviam ter ido viver para ao pé de uma zona cerceada e estrangulada social, económica, política e culturalmente (embora eu ainda tenha de facto dificuldade em compreender como é que um festival de música se lembrou de ir comemorar a paz e a “liberdade eterna” ao pé de uma prisão a céu aberto, sem considerar a falta de respeito e humanidade que isto significa). Pouco cuidado vi em garantir que tanta informação incorreta fosse colocada no plano óbvio da opinião-em-jeito-de-bitaites-de-bar, e em esclarecer a diferença entre achismo e evidência histórica/política.

Durante este mês, que terminou precisamente no dia em que nos chegou a informação acerca do escândalo permeando altas instâncias do Governo português e que levaram ao pedido imediato de demissão do primeiro-ministro, os espectadores foram bombardeados com imagens e breaking news, discussões sobre a terceira guerra mundial e a potencialidade/eventual probabilidade de utilização de armamento nuclear ao pé da Europa, conversas de claque que ignoram (todos) os seres humanos (ainda) envolvidos nestes massacres, representações estereotipadas de um “outro” muito distante e de imensa ansiedade relacionada com a normalização da guerra – transmitida em direto, já agora, em substituição de outra.

Toda esta situação deveria nos levar a refletir sobre como queremos informar e que tipo de comunicação é eficaz para construir sociedades e democracias resilientes, desconstruir simplificações e estereótipos incongruentes e diminuir o risco de radicalização, polarização e extremismos. A "verdadeira resolução da guerra" pela queda do Governo é um exemplo premente de como estamos a produzir e consumir informação numa perspectiva episódica, reativa e alarmista. Os produtores de informação devem se perguntar que tipo de sentimentos pretendem/estão a suscitar nas suas audiências. Queremos com a informação detalhada e baseada em grandes crises que as pessoas se tornem mais conscientes, mais humanas, mais solidárias e mais empáticas? Ou estamos inconscientemente a reproduzir um paradigma de medo, ansiedade e ameaça – os últimos claramente mobilizados de forma hábil pelos movimentos políticos de espectro extremista?

Em tempos de eleições antecipadas, mais do que nunca precisamos nos perguntar: estamos com o nosso trabalho a contribuir para a democracia, a construção de sociedades inclusivas e informadas e a resiliência democrática ou, pelo contrário, estamos contribuindo para o fortalecimento do campo de florescimento de narrativas fáceis, instrumentalizáveis e extremistas? Sugiro a reflexão.»

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27.2.23

27.02.1934 – Baptista Bastos

 


Para além do que foi toda a sua vida, isto ficou-lhe colado à pele:
«Onde é que estava no 25 de Abril?» – perguntava ele aos convidados do programa «Conversas Secretas» na SIC e numa série de 16 entrevistas realizadas para o «Público».

Chegaria hoje aos 89.
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15.12.22

A foto do dia

 


Só por maldade da Visão é que foi escolhida esta fotografia de António Costa para a capa do número da revista que saiu hoje, para já não falar da frase escolhida para a acompanhar. Não li a entrevista, só a lerei se alguém ma enviar, mas a imagem é suficiente para já ter gerado nem sei quantos memes, mais ou menos divertidos, que inundam as redes sociais.

Tantos assessores e nenhum cuida da imagem do chefe?
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3.9.22

Uma urgência a não ignorar



 

«Há como que um mistério na chamada “contemporaneidade” portuguesa: como é que um povo pôde viver mais de dois séculos sem uma informação de qualidade? E sobretudo sem uma informação suficientemente difundida por entre a população? Três primeiras explicações saltam aos olhos: a alta e duradoira taxa de analfabetismo, alargada a uma instrução reduzida e manifestamente deficiente; um poder de compra que também ele foi durante longos decénios reduzido, fazendo desde logo dos jornais e dos recetores de rádio e de televisão produtos de luxo; um clima político repressivo em diversas fases da história, impedindo a afirmação de uma prática jornalística livre e de uma informação de qualidade.

Mas estas explicações liminares não respondem a outra interrogação: como é que, globalmente, ao longo destes mais de dois séculos, os meios dirigentes deste país não sentiram a necessidade de dispor de uma informação de qualidade, abundante e plural para melhor exercerem as suas próprias funções de direção? Interrogação tanto mais pertinente que, até aos anos 1990, grosso modo, o acesso a média estrangeiros foi bastante difícil e limitado.

Resta-nos uma explicação particularmente desagradável: os meios dirigentes deste país foram-se concentrando ao longo dos séculos na “capital do império”, onde círculos de poder diversos se foram habituando a reinar sem prestar contas ao resto do país. E pior do que isso: interiorizaram um modelo de governação que não só ignora largamente a população, como prefere mantê-la longe dos corredores do poder, das suas manobras, negociações e decisões. O que explica o desinteresse profundo dos meios dirigentes em relação à situação de subdesenvolvimento atroz dos média em Portugal e da preocupante insuficiência da informação que praticam. E o constante desinteresse dos meios governamentais que se têm sucedido no poder da atual Segunda República [de 1926 a 1974, Portugal viveu em Ditadura e não em República] é terrivelmente significativo disso.

Porque Portugal vive de facto num inaceitável estado de subdesenvolvimento em matéria de média de informação jornalística, particularmente evidente no que diz respeito à imprensa escrita (em papel ou em digital). São raros os diários nacionais como os regionais, sendo as difusões (circulações) de todos eles inconcebivelmente baixas num país com a dimensão demográfica que é a sua. E, embora os periódicos (não diários) sejam relativamente numerosos, as difusões são igualmente bastante reduzidas e até mesmo, em muitos casos, insignificantes.

A própria paisagem mediática dita “nacional” (imprensa, rádio, televisão e média em linha) está unicamente sediada em Lisboa, com uma pequena exceção no Porto, sendo o resto do país um desolador deserto. Um duplo deserto aliás: nenhum média “nacional” emana deste resto do país e a pretensa imprensa “nacional” pouco se vende na chamada “província”. Enquanto jornais, rádios e televisões com origem na “província” praticam um jornalismo particularmente pobre. Uma situação que tem tendência a acentuar-se, dada a evolução atual dos investimentos publicitários nos chamados média “tradicionais”.

Ora, uma democracia no pleno sentido do termo supõe cidadãos bem informados e meios dirigentes dispondo de elementos fatuais de informação e de análise que permitam a uns e outros tomar as decisões que lhes parecem impor-se. O que pressupõe a existência de uma paisagem mediática diversificada e plural, mas também redações numerosas e competentes. Porque um dos dramas dos média de informação jornalística em Portugal é a pobreza das redações, em termos quantitativos como de especializações. O que se traduz por conteúdos editoriais bem mais reduzidos do que os de confrades com posicionamentos comparáveis noutros países da Europa. Mas também por conteúdos menos substanciais, tratados quantas vezes por jornalistas que passam, por exemplo, de uma área geopolítica para outra de um continente diferente, de um tema médico-hospitalar para outro sobre um caso judicial, de uma guerra no estrangeiro para um fogo de floresta. Uma larga ausência de especialistas a que vem acrescentar-se uma escassez de correspondências e de reportagens no interior do país como no estrangeiro que, quando realizadas, revelam quase sempre uma manifesta falta de meios técnicos e humanos. O que é particularmente evidente em audiovisual, o jornalista mantendo-se longe do acontecimento, enquanto as gravações e as montagens prévias são extremamente raras.

Tal escassez de meios financeiros, técnicos e humanos, aliada a formações académico-profissionais muito discutíveis, faz que os jornais sejam muitas vezes meros canais amplificadores do que foi produzido pelas assessorias mais diversas (ministérios, partidos, ordens, sindicatos, corporações, polícias, bombeiros, autarquias…), quantas vezes sem que a mais elementar distância, a desejável verificação e o salutar sentido crítico tenham sido exercidos. Vêm juntar-se-lhes despachos, sons e imagens propostos por agências de informação, muitas vezes unicamente a portuguesa Lusa, por vezes também as britânico-estado-unidenses, com o que isso significa como visão da atualidade no mundo. Um conjunto de conteúdos ou perspetivas de conteúdos acolhido como maná por redações e que as leva a produzir jornais exageradamente monotemáticos-folhetinescos (covid, fogos, Ucrânia, urgências hospitalares…).

Para que Portugal possa de facto vir a ser um membro entre os melhores da União Europeia nesta matéria, é, pois, urgente que o seu sistema mediático e o tratamento da informação sejam repensados. Mas, numa perspetiva puramente liberal, a sociedade portuguesa sendo o que é e tem demonstrado ser, haverá provavelmente pouco a esperar dos meios económicos em termos de iniciativa, ab ovo, a última tendo sido a criação do PÚBLICO pelo grupo Sonae em 1990, há 32 anos. Aos poderes legislativo e executivo de tomarem, pois, iniciativas de modo a incrementarem as indispensáveis evoluções. Criando uma fundação dotada de um fundo capaz de permitir o financiamento parcial de iniciativas provenientes dos meios editoriais e jornalísticos com vista a criar novos média de informação ou a reforçar iniciativas (jornalísticas e promocionais) de média existentes. Este fundo proviria do Estado e da União Europeia, mas também de empresas, instituições ou pessoas privadas, como consequência de uma legislação fiscal favorável às doações à fundação. Da mesma maneira que uma legislação devidamente adequada deveria garantir a independência e a sua não recuperação por criaturas partidárias notoriamente incompetentes na dupla matéria mediática e jornalística.

A entrada de Portugal na rota de um verdadeiro progresso democrático, quase meio século depois do 25 de Abril, depende largamente do estatuto que soubermos dar aos média de informação e à sua prática jornalística. Os meios dirigentes responsáveis do país não podem continuar a ignorá-lo…»

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18.10.21

Há 100 anos, a Seara Nova

 


A quem não teve oportunidade de ver, na RTP2, os dois episódios do documentário realizado por Diana Andringa «HÁ 100 ANOS, A SEARA NOVA», aconselho vivamente que o faça AQUI, na RTP Play.
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10.10.21

O jornalismo é notícia

 


«Há uma regra não escrita nos jornais segundo a qual o jornalista não é notícia. O que nos leva muitas vezes a fazer uma interpretação extensiva e excessiva dessa máxima aplicando-a aos próprios problemas do jornalismo, omitindo o tanto que há para revelar e refletir no setor. Das matérias laborais à profunda crise dos média, são muitos os temas que merecem ser ditos, tal o impacto que essa omissão tem no direito constitucional de informar e ser informado.

"Não existe democracia sem liberdade de expressão", disse Berit Reiss-Andersen, porta-voz do comité norueguês, ao anunciar o Nobel da Paz 2021. Claro que há uma realidade específica dos jornalistas e ativistas Maria Ressa e Dmitri Muratov, um contexto podre em países em que os direitos e liberdades não estão garantidos. Mas não é abusivo perceber que este é o momento de discutirmos todas as ameaças à liberdade de expressão.

Ao contrário do que seria mais cómodo admitir, a liberdade de informar e o direito de ser informado não são limitados apenas por regimes totalitaristas, nem estão em risco em países longínquos. Das fake news aos monopólios no mundo virtual, são muitas as ameaças que colocam em causa a informação credível e a valorização que fazemos, enquanto cidadãos, do trabalho de quem verifica factos e fontes, pesquisa histórias, investiga versões oficiais e oficiosas.

A liberdade de expressão está ameaçada quando há falta de saúde financeira nas empresas de comunicação social. Não há verdadeira independência editorial sem independência económica e sem uma visão do papel crucial da informação que não esteja dependente da narrativa miserabilista da sustentabilidade financeira.

Temas como a literacia financeira, o financiamento da informação, a criação de condições para que os jornalistas trabalhem com tempo e recursos têm impacto em toda a sociedade. São direitos de quem informa e de quem quer ter acesso a informação rigorosa e verdadeiramente livre. E deveres dos poderes a quem cabe assegurar que a liberdade de expressão não é letra morta, mas palavra viva.»

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8.10.21

Dizem que é um jornal de qualidade

 


Ex- ou actuais camaradas de Arnaldo Matos: ele fundou a Orfeu e só agora o sei pelo Observador? Está mal…
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