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20.11.25

Cristiano Ronaldo não é embaixador de Portugal.

 


«Cristiano Ronaldo não é embaixador de Portugal. Cristiano Ronaldo é embaixador de Mohammed bin Salman, monarca absolutista da Arábia Saudita, um país onde a justiça é a sharia e onde não há liberdade de imprensa nem direitos políticos elementares. Cristiano tem um contrato com o Ministério do Turismo saudita para promover o turismo desse país.

Mohammed bin Salman, a quem Cristiano chama MBS, é acusado de mandante de um dos crimes mais horríveis cometidos contra jornalistas, no século XXI.

A 2 de Outubro de 2018, o jornalista Jamal Khashoggi, do Washington Post, foi atraído ao consulado saudita em Istambul, onde um comando de agentes sauditas o torturou, matou e desmembrou. Um relatório da CIA revelou que a ordem de execução partira diretamente de MBS.

A condenação deste crime foi universal e a viúva de Jamal Kashoggi, Hatice Cengiz, tem-se destacado como uma defensora dos direitos humanos e da justiça e da memória de seu marido. Após a morte de Jamal, ela tem atuado em campanhas internacionais para denunciar o crime, tentar a responsabilização dos culpados e promover a liberdade de imprensa, os direitos civis e proteção dos jornalistas.

Em Washington, MBS foi recebido em apoteose. Trump foi à porta do carro que transportava o saudita e abriu os braços, apalpou convenientemente Sua Majestade e levou-o para a Sala Oval ao som de música e enquanto aeronaves sulcavam os ares. Aí, o saudita foi interrogado por uma jornalista sobre o hediondo crime atrás referido, e o candidato a ditador americano saltou em defesa do seu convidado, que resfolegava de júbilo. Mas não se limitou a defender a inocência do presumível assassino. Vilipendiou a memória da vítima, chamando-lhe”controverso “e intimidou a jornalista, declarando que iria cessar a autorização à sua estação, a ABC News.

Em tempos que já lá vão, os jornalistas teriam abandonado a Sala Oval em sinal de solidariedade com a colega e de defesa da Primeira Emenda da Constituição. Mas agora há demasiado ouro na Casa Branca. E parte desse ouro é saudita. Trump continuou a apalpar MBS até ao jantar em que Cristiano Ronaldo teve um lugar à mesa onde não faltava Musk.

Em Portugal o Presidente da República congratulou-se. O treinador da seleção de futebol, um refém de CR7, congratulou-se. Todos se devem ter congratulado e outros tantos se virão a congratular.

CR7 é um magnífico futebolista em fim de carreira, cuja dificuldade em perceber a idade da reforma não beneficia a seleção nacional de futebol. Todos lhe reconhecem o estatuto de figura grande do futebol. E também tem direito a celebrar contratos secretos com o regime de MBS para promoção do país onde trabalha. Mas quando o faz, quando se diz admirador de Trump, quando diz “partilhar com ele várias características”, não queira ser ao mesmo tempo exemplo para a juventude e embaixador de Portugal. Não em meu nome.

Luís Januário no Facebook.


9.6.25

19.5.25

19.05.2025 -18h

 

Chego a casa e ligo a TV (o que ainda não tinha feito hoje), para ouvir alguns rescaldos das eleições.

O que há em TODOS os canais de notícias? Câmaras atrás de um autocarro verde.

Isto vai, camaradas, o povo é sereno!


13.11.24

Amsterdão: relatar factos não é antissemita, é jornalismo

 


«Não vou desenvolver muito sobre o que aconteceu em Amsterdão, no último fim de semana. Fico por isto: condeno, à dimensão da gravidade de cada ato, os gritos islamofóbicos da claque do Maccabi Tel Aviv (conhecida pelo seu racismo); a violação do minuto de silêncio pelas vítimas de Valência; o vandalismo contra bandeiras palestinianas penduradas em casas de cidadãos de Amsterdão; o ataque a cidadãos da cidade; e os ataques violentos, planeados (parece que vários o foram previamente) ou reativos, contra adeptos e/ou membros da claque israelita. Nenhuma das coisas justifica a outra. E nada justifica a incompetência das forças de segurança holandesa, que não conseguiram impedir estes atos.

Saltar desta infeliz confluência entre a violência no futebol e a violência política (de parte a parte) para a utilização de termos como “pogrom” é um insulto abjeto à memória do povo judeu. Já nem discuto a transformação automática de ataques a Israel ou israelitas, sejam graves e violentos, como estes foram, ou apenas críticas a políticas do governo ou do Estado, em antissemitismo. Confundir pogroms, perseguição de brutal violência contra uma minoria religiosa e étnica com apoio das autoridades, com o que aconteceu com uma claque em Amsterdão é ajudar a relativizar o que foi e é a perseguição aos judeus – aconselho este “fio” de Brendan McGeever, estudioso do antissemitismo.

Não é por acaso que a extrema-direita holandesa, como boa parte da extrema-direita europeia, acompanhou o absurdo. Hoje, os seus judeus são outros. A cultura do ódio é que se mantém. E contam com os que, da trágica história europeia, retiveram a identidade das vítimas, não o processo político que leva ao horror.

Mas o meu tema neste caso é outro. É a forma como a comunicação social é condicionada pela chantagem, a ponto de considerar que os factos são, eles próprios, antissemitas. É um dos poucos casos onde praticamente nenhum órgão de comunicação social mainstream europeu resiste. Não por uma especial sensibilidade, mas por medo de uma acusação que se tornou tão mais banal, quanto mais brutal vai sendo a carnificina em Gaza. Quanto mais crimes comete, mais Netanyahu se socorre da memória dos crimes contra os judeus para se defender. Da estrela amarela de David na lapela, nas Nações Unidas, à utilização recorrente de expressões como “pogrom” e “Holocausto”, passando pela acusação de antissemitismo conta qualquer pessoa ou instituição que não o apoie incondicionalmente, a falta de pudor tem sido absoluta. Porque resulta.

Algumas pessoas nas redes sociais, com especial destaque para o jornalista e colunista do “The Guardian” Owen Jones, deram-se ao trabalho de verificar as imagens que nos foram sendo apresentadas dos confrontos e seguir o fio dos acontecimentos. O resultado é um dos mais evidentes casos de desinformação, criada não pelas redes sociais, mas por alguns dos mais prestigiados títulos e canais da imprensa ocidental.

Veja-se a forma como a Sky News, que tinha uma repórter em Amesterdão, faz uma primeira reportagem falando “nos ataques a adeptos israelitas”, para depois editar e apagar a peça das suas redes, passando a noticiar os mesmos confrontos como um “ataque antissemita”. Como na peça do “The New York Times”, com o mesmo conteúdo, não há qualquer prova dessa alegação e as citações do responsável pela polícia nunca referem essa suspeita. A única prova de ódio étnico, e que aparece no mais prestigiado jornal norte americano, é precisamente a dos membros da claque israelita a gritarem mensagens de ódio contra os árabes e a celebrar a destruição das escolas palestinianas.

Uma prestigiada fotojornalista radicada em Amesterdão viu a cobertura que fez dos confrontos ser usada como prova das agressões à claque israelita. Problema, a própria fotógrafa diz que as suas imagens mostram o contrário e exigiu, publicamente e junto dos órgãos de comunicação social que as difundiram, que escrevessem o que ela viu e fotografou: “Adeptos do Maccabi atacaram cidadãos de Amesterdão em frente à Estação Central após o jogo”. Podem ver a entrevista que Owen Jones lhe fez aqui.

À hora em que escrevo, apenas os canais públicos de TV da Alemanha e Luxemburgo corrigiram a informação que tinham veiculado. BBC, CNN, “The Guardian”, “Bild” e “The New York Times” nunca se retrataram ou corrigiram a peça e continuam a usar imagens de hooligans a espancar cidadãos de Amesterdão como um caso de antissemitismo.

Em Gaza, a que Israel nega o acesso à imprensa internacional, ainda há condicionantes que explicam falhas do trabalho jornalístico. As fontes são escassas e a credibilidade do Hamas não é cartão de visita que se apresente. Mas no centro da Europa, à luz de todos, com imagens vídeo e fotografias a relatar que houve confrontos entre uma claque e habitantes locais, como acontece vezes sem conta todos os anos, a delirante narrativa criada pelo governo israelita foi seguida por todos os principais canais e órgãos de informação do planeta sem qualquer rebuço.

Quem um dia procure, nos arquivos, o ano em que Gaza foi arrasada e se levou a cabo limpeza étnica (assim foi denominada pelo jornal israelita Haaretz), encontrará a notícias de que finalmente os poderes europeus se ergueram, pela voz da presidente da Comissão. Não para falar de Gaza, mas para condenar um lamentável episódio envolvendo hooligans de uma claque, transformado num “pogrom” através da remontagem e reescrita dos factos inicialmente revelados pelos próprios jornalistas. O contrastante com a cumplicidade passiva perante cinquenta mil mortes é uma obscenidade política. A que nos estamos a habituar demasiado facilmente.»


11.11.24

Presidenciais 2026

 


𝐑𝐮𝐛𝐞𝐧 𝐀𝐦𝐨𝐫𝐢𝐦 𝐚𝐢𝐧𝐝𝐚 𝐧ã𝐨 𝐞𝐬𝐭á 𝐧𝐚 𝐥𝐢𝐬𝐭𝐚 𝐝𝐨𝐬 𝐜𝐚𝐧𝐝𝐢𝐝𝐚𝐭𝐨𝐬?

Até os benfiquistas votariam nele.
Futebol sempre, tudo o resto nunca mais?

6.7.24

Euro 2024

 


Os patriotas do futebol querem lá saber

 


«Há temas a que volto sempre porque, como nada muda, mais vale continuar a malhar no ferro frio. Na verdade, ele nunca se molda, mas pelo menos fica o som e o prazer da marretada.

No dia em que escrevo, Portugal prepara-se para parar às 20 horas. Como há sempre meia dúzia de resistentes, eu vou estar a inaugurar uma exposição e a falar sobre liberdade e o 25 de Abril, coisas já gastas e sem novidade, no Teatro de Almada, uma hora antes de o país parar. Não sei se vai aparecer alguma gente, e qual vai ser o desfecho do destino da Pátria, mais uma vez em luta contra os franceses, desta vez sob a sombra de Madame Marine Le Pen. Quando me lerem já sabem tudo, mas na verdade a parte que vão saber é bastante irrelevante, a não ser como espelho dos maus costumes nacionais. Em 15 dias, se perdermos, está tudo esquecido e nesses 15 dias haverá um surto de logomaquia infeliz, acusatória, vingativa, depressiva e deprimida, porque mais uma vez a Pátria na versão Ronaldo não esteve à altura dos seus Maiores. Se ganharmos, rufarão mais tambores do que portugueses e a bandeira, que só serve para estas coisas, estará por todo o lado, nas casas, nas lapelas, pintada na cara de uns e umas, que estarão aos saltos por essa Europa fora. Ridículo visto de cima, não é? Mas é este o nosso único sobressalto patriótico, o dos nossos Menores. Os patriotas do futebol querem lá saber.

O patriotismo de pacotilha à volta do futebol não existe apenas em Portugal, mas coexiste com outros restos de história mais vivos, para o bem e para o mal, na França, no Reino Unido, em Espanha. Quase sempre hoje para o mal, como se vê na empáfia francesa que vota em massa nos herdeiros dos colaboracionistas da II Guerra Mundial, e nos saudosistas da Argélia Francesa. Por cá, é que é só no futebol, e, ocasionalmente, na nostalgia do Império com os brasões das colónias a murchar e a esfera armilar, que o nosso Governo restituiu com orgulho no meio das cores jacobinas. Do resto os patriotas do futebol querem lá saber.

Talvez precisássemos de algum patriotismo para ter dado por ela que, sem qualquer consulta popular, entregámos a soberania financeira, ou seja, quase tudo das opções fundamentais da governação, a Bruxelas, sem qualquer sobressalto. Os patriotas do futebol querem lá saber. E, no ano em que comemoramos um dos raros génios nacionais, Camões, continuamos indiferentes aos estragos que a nossa língua teve com o Acordo Ortográfico, que, para além do enorme desastre diplomático, só continua em vigor por pura inércia. Essa inércia é o retrato do patriotismo das nossas elites políticas, que estão todas a “reler” Os Maias, quando perguntadas sobre o que estão a ler, e que vão agora durante um ano buscar à Wikipédia umas frases de Camões, para parecer que ainda lhes importa a língua, que ajudam a matar na sua ortografia todos os dias. Os patriotas do futebol querem lá saber.

Precisamos de muito mais do bom, genuíno, culto, sentimental, fundador patriotismo. É que somos portugueses e, por muito que não se queira, é o que nós somos, qualidades e defeitos. Uma língua magnífica, uma literatura que, sem se conhecer minimamente, não se é culto, nem nos EUA, nem na China, nem na Polónia, nem obviamente em Portugal. Uma história que faz parte da história universal em certos séculos e noutros é irrelevante, é como a do Tuvalu, e que devíamos conhecer melhor sem excitações de glória – a história não casa bem em nenhum sítio com a palavra “glória” – mas como fazendo-nos, querendo ou não, “portugueses”. E habitamos uma “casa” antiga, dois fragmentos do velho império romano, um a norte que vai à missa e outro a sul que é “terra de missão”, cujas fronteiras conhecemos bem, mar de um lado, Espanha do outro. O mar é impiedoso, “mar cão”, e do lado de lá a tentação do “nem bom vento, nem bom casamento”, bastando olhar para o mapa da Península para se ter cuidado com os políticos, mas não com o grande Quixote, nem o Lorca, nem o Unamuno. E cá por dentro, onde a pátria tem falhado acima de tudo aos portugueses, e onde todas as perversões da desigualdade, da pobreza existem há tempo demais. É verdade, mas com uma democracia que deve tudo até agora, insisto, até agora, à força enorme da liberdade do 25 de Abril. Vamos ver se dura e como dura.

Os patriotas do futebol querem lá saber disto tudo.»


Euro 2024

 


15.6.24

A exigência é uma bola

 


«O Europeu de futebol ainda não tinha começado e metade do país já arrumara na cabeça a convicção de que a seleção tem de ser campeã - incluindo-se, neste lote de irritantes otimistas, o mais alto magistrado da Nação, Marcelo Rebelo de Sousa, e o líder do Governo, Luís Montenegro. “Só esperamos a vitória” é um clássico das narrativas lusitanas quando o tema é o desporto-rei. A catarse coletiva chega a ser infantil, porque fazemos equivaler os méritos da pátria ao número de golos marcados pelos deuses que vestem calções. Na verdade, é assim entre nós como em múltiplas latitudes, mesmo em países mais frios (no clima e nas expectativas) e supostamente mais desenvolvidos.

Todavia, esta propensão para nos entregarmos a atos de fé revestidos a autoconfiança não encontra paralelo noutras áreas de atividade. Se os portugueses fossem tão exigentes em tudo o resto como o são com a seleção nacional de futebol estaríamos, provavelmente, a ombrear nas estatísticas de bem-estar com os finlandeses ou com os suecos. Mas basta percorrer um pouco do Mundo para se ter uma noção de como o futebol é, hoje, porventura, o maior embaixador da portugalidade. Ignorar o seu poder afrodisíaco é um exercício falhado de autismo. Esta anestesia a que nos entregaremos durante semanas é benigna (é o ópio do povo, certo?), mas não podemos deixar de lamentar que o nível de exigência que colocamos no futebol não se estenda a outros campos em que vamos progredindo. A bola, ao contrário do que sucede na vida, é resultadista. Ou se ganha ou se perde. Vive desse pragmatismo forrado a palpitações fortes. Ora, salvo honradíssimas exceções, Portugal continua a conviver pacificamente com o mantra do poucochinho. Demos o nosso melhor, mas infelizmente não conseguimos. O “anda bater que tu bates bem” será apenas uma memória.»


8.10.23

A falta atacante de Marcelo e Costa

 


«Imagine o leitor que, lá por 1998, dois países do Sudeste asiático – a Tailândia e a Malásia, por exemplo – tinham ganho a competição para organizarem o campeonato do mundo de futebol. Imagine que ambos decidiam incluir na sua candidatura conjunta um terceiro país, a Indonésia. Imagine, enfim, que a então potência ocupante de Timor-Leste projetava a construção de um grande estádio de futebol em Dili, anunciando que ali se realizaria um dos jogos desse mundial.

É legítimo perguntar: se António Costa fosse então primeiro-ministro de Portugal e Marcelo Rebelo de Sousa fosse o Presidente da República desse momento, que reação a esse plano lhes exigiria a sociedade portuguesa? A resposta é evidente: que fossem coerentes com o que fizeram o Presidente Jorge Sampaio e o primeiro-ministro António Guterres e repudiassem firmemente, em nome de um país que então se mobilizava totalmente contra a ocupação de Timor, uma tal manobra de branqueamento futebolístico da violação mais grosseira do direito internacional. Que ambos dessem voz a nada menos que a autodeterminação daquele povo irmão. O que se exigiria a Marcelo Rebelo de Sousa e a António Costa seria, portanto, que não fossem em futebóis e não se distraíssem, nem a si mesmos nem a nós, do que verdadeiramente estava em causa.

Tudo isto é ficção, sim. Mas não é só porque essa candidatura nunca existiu. É ficção por algo muito mais sério que isso: porque, menos de um quarto de século depois desse imaginado 1998, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa tecem hinos e louvores à organização – essa sim, verdadeira – de um campeonato do mundo de futebol que envolve um Estado (Marrocos) que ocupa ilegalmente o território do Sara Ocidental, no qual anuncia que vai construir um grande estádio para a realização de um dos jogos da competição. O Presidente da República lavou a história com o discurso tradicional da direita e falou de “uma candidatura europeia, africana e sul-americana, ligando países que têm uma História em comum". E António Costa não a lavou menos, esquecendo tudo o que um socialista devia lembrar e escondendo a gravidade desta iniciativa atrás de uma assética “parceria com Espanha e Marrocos” e insistindo no estafado autocomprazimento de que “temos capacidade e provas dadas na organização de grandes eventos".

Pois sabe o que era um grande, mas mesmo grande, evento, senhor primeiro-ministro? Era o seu Governo não dar primazia nem aos negócios do futebol nem ao cinismo da realpolitik e conferir efetiva prioridade a uma política externa centrada na defesa sem cedências do direito internacional e da autodeterminação de todos (todos!) os povos, e não apenas daqueles que o vento dominante diz para defender. Sabe qual era a história comum que devia lembrar, senhor Presidente da República? Era a história que nos fez grandes quando fomos coerentes com a ligação umbilical entre a nossa revolução democrática e as lutas pela autodeterminação das ex-colónias portuguesas e fizemos do seu sucesso pilar do sucesso da nossa democracia.

Da FIFA que organizou o mais vergonhoso dos mundiais (o do Qatar), hoje provadamente envolvido numa teia de corrupção de que o Parlamento Europeu foi apenas um dos focos, não se esperaria nada em favor de critérios de decência e de legitimidade. Mas nenhum de nós é nacional de um Estado chamado FIFA. É enquanto cidadãos de uma democracia que inteligentemente vê no direito internacional uma salvaguarda contra os grandes poderes fácticos deste mundo que temos obrigação de não seguir Marcelo e Costa na sua desmemória tão conveniente e na sua complacência ativa com o poder do ocupante agora tornado parceiro. O Mundial que vem aí – e que os desavindos Marcelo e Costa se unem para elogiar – é um vexame para o país que se irmanou com a resistência timorense contra uma ocupação que os “realistas” de então (e eram tantos…) ditavam que devíamos deixar seguir. E é uma vergonha para quem apregoa, dia sim, dia sim, que não podemos ceder um milímetro aos ocupantes ilegais de territórios de outros povos.

Escrevo este texto quando estou, em Nova Iorque, a participar nos trabalhos da Comissão Especial de Políticas e Descolonização das Nações Unidas sobre a questão do Sara Ocidental. Junto-me aos tantos, de tantos países, que aqui vieram exigir que se cumpra o direito à autodeterminação do Sara Ocidental. Se a força não nos desviou desse princípio, não vão ser os negócios do futebol que o farão. Isso fica para outros.»

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13.9.23

Capital sem pátria

 


«Marx tinha razão: o capital não tem pátria. Mas a nacionalidade da propriedade conta e conta muito.

O modo como regimes não democráticos, como aqueles que se abrigam em torno dos países árabes, se infiltraram no mundo dos negócios de desporto, que não apenas o futebol, revelam uma tendência em que o poder obscuro do capital tudo envolve e tudo compra.

Um trabalho apurado descobre que por detrás das modalidades desportivas economicamente mais poderosas e dos negócios que lhes estão associados está o poder do capital árabe, seja resultado de uma economia saudável e escrutinada, seja o resultado dos lados mais obscuro do mundo do capitalismo.

A instância olímpica, porventura a última reserva moral de um desporto respeitado, não ficou imune a este vírus e os escândalos em que se envolveram algumas figuras proeminentes aí o estão a provar. Nada assegura que o problema não tenha recaídas e que os casos se não sucedam.

Direitos humanos, respeito pelas minorais étnicas, sociais ou sexuais, respeito pelos direitos laborais tudo é esquecido em função do sacrossanto poder do capital. E como o capital não tem fronteiras descobrimos uma série de organizações desportivas nacionais com a presença de capitais oriundos desses países num movimento de captação de poder que faz as delícias de quem deles beneficia, mas que hipotecam a independência das organizações nacionais.

O movimento migratório, para a alguns desses países, de grandes atletas em final de carreira e de outros técnicos desportivos, não coloca, na generalidade dos casos, qualquer problema de consciência moral, como não coloca a crescente designação de dirigentes desses países para estruturas de topo do movimento desportivo internacional.

A estratégia de controlo obedece a um cuidado movimento junto das principais alavancas do desporto na sua dimensão de negócio e o futebol não é distinto do que se procurou no golfe ou no automobilismo.

Esta tendência, de investimento de regimes não democráticos de várias latitudes do globo em organizações e projectos desportivos, não é de hoje e moldará o desporto nos próximos anos. Resta aspirar que nesta submissão ao mundo dos negócios o desporto possa dar algum contributo para a democratização destes países no sentido de respeitarem os direitos humanos no seu entendimento mais extensivo, e não para agravar a suspeição em torno da transparência e integridade das suas competições e de quem as governa.

Infelizmente, da parca informação explorada e disponível na comunicação social nacional, o caminho tem sido tormentoso e o balanço preocupante.

Este jornal tem sido neste contexto, uma honrosa excepção, na investigação dos circuitos que o capital de vários países árabes tem feito pela Europa e por Portugal num esforço de esclarecimento que só pode ser saudado. Até porque, esse trabalho, contrasta com o silêncio da generalidade de outros meios de comunicação social perante uma ocorrência que está a configurar o desporto das próximas décadas.

Regressemos a Marx, esse defunto, cujas ideias ainda não deixam de inquietar as mentes mais brilhantes, seja para o defender, seja para o contestar. Em tempos de globalização e de neoliberalismo há capital com rosto e, como é da sua própria natureza, existe para se reproduzir. Cabe às dinâmicas democráticas e respeitadoras dos direitos humanos defender os termos dessa reprodução e demonstrar que o neoliberalismo e o poder do capital, como o “espírito” do tempo, não podem ser deixados sozinhos na evolução da humanidade.»

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30.8.23

Ronaldo, os sauditas matam inocentes

 


«1 - Muhammad al-Ghamdi tem 54 anos, foi professor. Tinha duas contas no Twitter (agora X) em que criticava o regime saudita. É irmão de um dissidente, exilado em Londres. Foi preso, passou vários meses numa solitária, sem direito a visitas da família nem acesso a um advogado. Em julho, foi condenado à morte. Aguarda a execução da sentença.

2 - Salma al-Shehab tem 34 anos, estava a fazer um doutoramento em Medicina em Londres. Tem duas filhas, de seis e quatro anos. Tinha conta no Twitter e usava-a para criticar o regime saudita. Em dezembro de 2020, de férias no país, foi detida e acusada de terrorismo. No ano passado, os tribunais ampliaram a pena para 34 anos de cadeia (entretanto reduzidos para 27).

3 - São sete rapazes, todos detidos antes de fazerem 18 anos (um deles tinha 12 anos). Foram condenados à morte. Seis deles foram considerados terroristas por participarem em protestos contra o Governo saudita, ou comparecerem em funerais de vítimas da violência do regime. Foram torturados e assinaram as confissões. Sete crianças aguardam o dia da execução.

4 - São migrantes etíopes e fazem a travessia do mar Vermelho até ao Iémen, em direção à Arábia Saudita. Assim que atravessam a fronteira, são abatidos, ora com morteiros, ora com tiros à queima-roupa pelo sauditas. Tornou-se um padrão. São centenas de mortos. Há testemunhos, vídeos, fotografias e imagens de satélite que o comprovam. Corpos de homens, mulheres e crianças com os corpos desmembrados e espalhados pela terra de ninguém.

5 - Os sauditas gastaram sete mil milhões de euros, desde 2021, com o desporto e, sobretudo, com o futebol. Os futebolistas e treinadores portugueses alinham, como outros, nesta operação pornográfica para desviar a atenção sobre as atrocidades do regime, de sorriso rasgado pela chuva de dólares: Jesus, Rúben Neves, Otávio e, antes de todos, Ronaldo são os promotores de um regime atroz. Bastariam uns minutos de navegação pelos sites da Amnistia Internacional ou da Human Rights Watch para perceberem que Muhammad, Salma, as sete crianças, as centenas de etíopes vivem e morrem num Inferno. Coisas desagradáveis que não interessam quando a bola rola e há milhões para faturar. Mas é verdade que não estão sozinhos na hipocrisia.»

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25.8.23

Espanha mostrou-nos como se deve lidar com o assédio sexual

 


«A forma como as autoridades espanholas responderam ao assédio sexual flagrante, que vitimou a estrela de futebol Jennifer Hermoso, é uma lição importante para as empresas e organizações em geral, em todo o lado: Tomar medidas contra o infractor mesmo quando a vítima não se queixa.

Políticos proeminentes, incluindo o primeiro-ministro em exercício Pedro Sánchez e o ministro do desporto Miquel Iceta, e dirigentes desportivos, criticaram Luis Rubiales, o presidente da federação de futebol do país, por ter dado um beijo indesejado nos lábios de Hermoso depois de a Espanha ter vencido a Inglaterra na final do Campeonato do Mundo, na Austrália.

Depois de ter começado por considerar os críticos como "idiotas e estúpidos", Rubiales emitiu tardiamente um pedido de desculpas numa declaração em vídeo: "Porque as pessoas se sentiram magoadas com isso, tenho de pedir desculpa, não há alternativa."

A resposta da própria Hermoso à controvérsia foi inicialmente hesitante. De acordo com o Athletic, numa transmissão em directo do balneário após o jogo, a atleta disse às colegas de equipa que lhe perguntaram sobre o beijo: "Sim (aconteceu), mas eu não gostei." A federação divulgou então um comunicado, citando Hermoso como tendo dito que não tinha qualquer problema com "um gesto mútuo que foi totalmente espontâneo devido à imensa alegria de ganhar um Campeonato do Mundo". Alguns relatos em Espanha dizem que Hermoso foi pressionada a aparecer no vídeo de desculpas gravado por Rubiales, mas que recusou.

Esta situação será familiar para as vítimas de assédio em todo o lado, porque é difícil falar num local de trabalho tóxico — um inquérito realizado pela Deloitte em 2023 revelou que apenas 59% das mulheres que afirmaram ter sido assediadas comunicaram o facto aos seus empregadores, contra 66% no ano passado.

E quando os incidentes são relatados por terceiros, as vítimas são frequentemente pressionadas a negar que a ofensa ocorreu — e a ajudar o infractor a livrar-se da responsabilidade. Isto permite que os empregadores lavem as mãos de qualquer responsabilidade e não façam nada quanto à toxicidade do ambiente de trabalho.

Se Rubiales e a federação estavam a contar com a relutância de Hermoso em denunciar o assédio para desanuviar a controvérsia, calcularam mal. Em vez de colocar o ónus de apresentar uma queixa formal sobre Hermoso, o chefe do conselho desportivo do Governo disse que tomaria medidas disciplinares contra Rubiales se a federação de futebol não o fizesse. A liga espanhola de futebol feminino profissional apresentou uma petição ao conselho para desqualificar o ex-jogador como presidente da federação. "O facto de um patrão agarrar a cabeça de uma funcionária e beijá-la na boca é, simplesmente, inaceitável", declarou a liga num comunicado.

O apoio de tantas entidades poderosas parece ter finalmente dado a Hermoso a confiança necessária para dar o próximo passo. Na quarta-feira, a jogadora emitiu um comunicado dizendo que o FUTPRO, o sindicato dos jogadores, estaria a agir em seu nome. O sindicato, por sua vez, disse que as acções de Rubiales "jamais devem ficar impunes".

Os pedidos de demissão de Rubiales estão a aumentar, antes de uma reunião de emergência da direcção da federação na sexta-feira. Com a simpatia da opinião pública a favor das mulheres, e não apenas devido à sua vitória, a federação tem agora a oportunidade de fazer uma limpeza completa. Não há dúvidas de que as espanholas jogam num ambiente tóxico. A estrela americana Megan Rapinoe chamou a atenção para o "profundo nível de misoginia e sexismo" daquela federação. E Rubiales não é o único dirigente sob os holofotes: o treinador Jorge Vilda está a ser alvo de escrutínio por causa de um vídeo em que parece tocar no peito de uma assistente enquanto celebra o único golo do jogo final.

No período que antecedeu o Campeonato do Mundo, 15 das melhores jogadoras do país escreveram à federação pedindo para não serem convocados para a equipa devido à gestão pouco profissional dos treinadores. Entre outras coisas, as jogadoras disseram que os treinadores exigiam que eles mantivessem as portas dos seus quartos de hotel abertas até a meia-noite e inspeccionavam as suas malas após as saídas. Jennifer Hermoso não estava entre as que escreveram a carta, mas manifestou apoio às que o fizeram.

A resposta da federação foi criticar as jogadoras e apoiar os treinadores, liderados por Vilda. "A federação está em primeiro lugar", disse Ana Alvarez, responsável pelo futebol feminino na federação, exigindo que as jogadoras que protestavam pedissem desculpa se quisessem voltar à equipa. Este é um testemunho da gravidade da situação que, confrontados com a escolha entre participar no Campeonato do Mundo — a última ambição de qualquer jogador de futebol — ou recuar, 12 das 15 manifestantes escolheram a segunda opção. O facto de Hermoso e as suas companheiras de equipa terem ganho o torneio nestas circunstâncias é quase um milagre.

Por muito que mereçam elogios por terem agido contra Rubiales, as autoridades espanholas têm de assumir a responsabilidade pelo seu próprio papel nos maus-tratos infligidos às jogadoras. Se, na altura, Sanchez, Iceta e o conselho desportivo do Governo se tivessem pronunciado energicamente a favor das jogadoras em protesto, a federação poderia ter sido obrigada a fazer uma limpeza à casa.

Depois de terem feito o que estava certo em relação a Hermoso, as autoridades deveriam agora estender essa consideração a todo o futebol feminino em Espanha — e dar mais um exemplo salutar para as organizações de todo o mundo.»

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post
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17.8.23

Arábia Saudita: o dinheiro tudo lava

 


«Sportswashing é o nome dado à utilização do desporto como meio de melhorar a reputação de um Estado ou instituição, associados a injustiças como a violação sistemática de direitos humanos. O termo entrou no vocabulário corrente das discussões sobre política e futebol durante o Campeonato do Mundo de 2022, realizado no Catar, em estádios construídos por trabalhadores migrantes sujeitos a condições sub-humanas, muitos dos quais falecidos durante essa tarefa. Mas parece ter sido rapidamente esquecido.

Ao invés, o que tem ocorrido é a normalização e banalização da utilização do desporto para mascarar atrocidades. O exemplo mais evidente é o da Arábia Saudita, que financia milionariamente, através do seu fundo soberano, uma liga de futebol energizada com contratações a peso de ouro das maiores estrelas do desporto-rei. A mais recente foi a contratação de Neymar, por pouco menos de cem milhões de dólares.

Pouco se discute, a propósito destas e de outras contratações, como Benzema e o nosso Cristiano Ronaldo, o facto de na Arábia Saudita a pena de morte ser aplicada sistematicamente, na sequência de processos judiciais sem as mínimas garantias de defesa, inclusive por crimes praticados durante a menoridade dos arguidos. Que a liberdade de expressão e de protesto, mesmo se apenas exercida online, como no Twitter, seja punida com penas de prisão entre os quinze e os quarenta e cinco anos. Que as organizações de defesa dos direitos humanos estejam legalmente banidas, e os ativistas sejam perseguidos, impedidos de se deslocar livremente, e condenados a penas de prisão de vários anos. Que migrantes, incluindo mulheres e crianças, sejam submetidos a tortura e condições degradantes apenas por se encontrarem no território em situação irregular. Que a legislação estabeleça que apenas os homens podem ser tutores legais, impondo a obrigatoriedade de as mulheres terem um tutor masculino para se casarem, sendo depois obrigadas a obedecer ao marido. Que homossexuais sejam decapitados, sob alegadas confissões de sexo com outros homens, pois a homossexualidade é banida por lei.

A tudo isto poderia a imprensa e a opinião pública, sobretudo ocidentais, fechar os olhos se o futebol na Arábia Saudita fosse um assunto privado, gerido por entidades privadas apenas condicionadas pelas práticas repressivas de um Estado cujo líder, sabemo-lo com pouca margem para dúvidas, é o responsável direto pelo assassinato do jornalista do Washington Post Jamal Khashoggi, no consulado saudita em Istambul, em outubro de 2018.

Mas a utilização do desporto, nomeadamente do futebol, como estratégia de soft power faz parte do Vision 2030, um grande programa desenhado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para diversificar a economia saudita, impulsionar o turismo, diminuir a dependência do petróleo e modernizar o país.

Soube-se há poucos dias que o Instituto Tony Blair continuou a ser financiado pelo Vision 2030 mesmo após o assassinato de Kashoggi. Segundo o The Guardian, o próprio Blair considerou que, não obstante aquele “crime terrível”, se justificava manter a cooperação, dado o interesse estratégico para a região do programa.

Esta cínica troca de valores por dinheiro pode chocar, mas o certo é que as várias potências ocidentais se têm vindo a reaproximar de Riade, não obstante os públicos e generalizados atropelos aos direitos humanos praticados pelo regime. O Canadá decidiu, em maio, restabelecer relações diplomáticas com a Arábia Saudita, interrompidas em 2018. O Reino Unido e os Estados Unidos são os principais fornecedores de armas da Arábia Saudita, que por sua vez são usadas em ataques devastadores ao Iémen, causando a morte a milhares de civis e originando aquela que é a maior catástrofe humanitária do mundo.

Não é só o desporto, portanto. Também a política se move por caminhos tortuosos, onde os direitos humanos e a vida são sempre colocados num patamar inferior se do outro lado da balança pesam fortes interesses económicos.

E 2018, e a indignação internacional que aquele assassinato gerou, já vão longe. Hoje lemos e ouvimos as notícias destas transferências milionárias do futebol sem que as peças, provavelmente por fadiga ou esquecimento, nomeiem Khashoggi, o seu algoz, Mohammed bin Salman, ou o facto de a violação dos direitos humanos, na Arábia Saudita, ser prática corrente e, até, política de Estado.

Assistimos, indiferentes, à normalização do regime saudita na cena internacional, com Biden a cumprimentar Mohammed bin Salman em enorme familiaridade, e Rishi Sunak a convidá-lo para uma visita oficial ao Reino Unido no próximo outono. No desporto e na política, o dinheiro lava tudo.»

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23.6.23

Não passarão, mas tem dias

 

«O quase insignificante episódio da escala de Costa em Budapeste dissolveu-se no ar. Todas as mais sorrateiras justificações têm eco popular: o homem gosta de futebol, e quem não gosta; em calhando, até foi lá apalavrar em segredo um campeonato em Portugal, depois da Jornada Mundial da Juventude precisamos de um novo desígnio nacional e não há melhor do que a bola; no mínimo, foi cumprimentar um colega com quem tem “relações de trabalho”, diz o comunicado oficial. Tudo é leve e, portanto, passa depressa. O que restou, no entanto, foi a pergunta mais difícil: e o “não passarão”, entoado em tom heroico em comícios ainda há pouco, aliás até repetido no Parlamento como um chamamento às armas, em cenas que deixam o país suspenso, agora é que chega a vias de facto? Que é feito dessa promessa garbosa de um levantamento antifascista, de uma intransigência moralizante, de uma aliança progressista europeia — o termo foi mesmo usado repetidamente — e de um combate valente contra as forças das trevas? Nada, pois era o que se esperava.»

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21.6.23

Futebol: os podres que se escondem à vista de todos

 


«Trancados com cadeados numa academia de futebol, aos grupos de dez a doze jovens amontoados em beliches em cada quarto, com o passaporte confiscado à entrada, sem acesso à escola onde nunca foram inscritos e sem poder sair a não ser para ir treinar. Era este o ambiente concentracionário, onde imperava a pressão psicológica e ameaça física, que se vivia na BSports, uma academia agora desmantelada pelo Ministério Público com a acusação de envolvimento no tráfico de pessoas. O relato é de um jovem guineense com 20 anos, Kelly, que fugiu da academia quando percebeu o esquema de enganos e mentiras em que se tinha visto envolvido. Tinha o sonho de percorrer o caminho do seu primo, Ansu Fati, estrela do Barcelona e internacional por Espanha.

Como diz Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores de Futebol, numa entrevista ao “Público”, “este caso abala os alicerces do futebol”. Tem razão. O dono da academia é Mário Costa, presidente da Mesa da Assembleia Geral da Liga Portuguesa de Futebol Profissional até ter renunciado ao cargo, depois de ter sido constituído arguido.

O principal patrocinador da academia era a empresa que dá o nome à Liga de Honra, o segundo escalão mais importante do futebol em Portugal, e o presidente Sapgem detém uma participação na Sociedade Anónima Desportiva do Lusos DB, um dos clubes associados ao centro liderado por Mário Costa.

O esquema montado revela uma verdadeira economia circular. Um dos principais dirigentes da Liga adquire pequenos clubes na zona norte do país para aí colocar a rodar jovens que vai aliciar a África, Ásia e América Latina, a quem cobravam entre 600 e 2000 euros por mês. Joaquim Evangelista diz que este caso, embora com ligações ao mais alto nível do futebol, é a ponta do icebergue da exploração ilegal de jovens estrangeiros que o sindicato tem vindo a denunciar.

Do conflito de interesses que devia ser evidente, mas nunca preocupou a Liga e os clubes, ao grau zero de moralidade que revela sobre o mundo que gravita à volta do futebol, é exemplar sobre a tolerância e falta de escrutínio que impera na atividade que ocupa maior tempo de antena no país.

O futebol é o único caminho que muitos jovens miseráveis imaginam para sair de um mundo de privações. É um sinal de esperança para milhões para conquistarem um lugar na vida onde só cabem muito poucos. Por cada Ronaldo, Messi ou Fati há um exército de jovens prostrados nos seus sonhos e um sem número de Kellys, explorados por todo o tipo de oportunistas sem escrúpulos.

Num país onde o futebol ocupa um espaço mediático sem paralelo, são raras as vezes que se discute o que por ali realmente acontece. Os negócios, os esquemas e o que gravita em seu redor. Porque a comunicação social aceita ficar-se pelo papel de parceira de um espetáculo que vale muito dinheiro. E porque é impossível discutir o que quer que seja que envolva Benfica, Porto e Sporting.

Mário Costa era um dos dirigentes mais poderosos do futebol português, mas não estava ligado a nenhum dos “grandes”. Se estivesse, logo se alinhariam, nas redes sociai, exércitos em defesa do mérito do trabalho da BSports na integração e formação de jovens. Neste ambiente tóxico, tudo é pretexto para o confronto tribal, alimentado por “diretores de comunicação”, em que se cauciona tudo o que se critica fora do mundo da bola, da corrupção à violência.

É o medo que este clima inspira ao poder político, mediático, económico e até policial e judicial que explica que o lado obscuro do futebol se vá escondendo à vista de todos. O poder do futebol advém deste sentimento de impunidade, da ideia que se move por outras regras e está sujeito a um escrutínio diferente ao aplicado a outras atividades. É assim que figuras do calibre de Mário Costa chegam a cargos de topo sem qualquer rebuço moral e sem que alguém os questione sobre os conflitos de interesses nos seus negócios, evidentes muito antes de se conhecer a exploração da dignidade humana em que assentavam.

No início desta época desportiva, em setembro, foi notícia que Fábio Lopes, um popular apresentador de rádio, tinha deixado dezenas de jogadores dos distritais na miséria, depois de uma série de promessas irrealistas que nunca foram cumpridas. Os contornos do caso são bem diferentes, bem sei, mas vale a pena lembrar como depois da indignação momentânea, tudo voltou ao lugar de partida como se nada tivesse acontecido. Escondido à vista de todos. Como sempre.»

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