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12.11.13

Este arco que nos governa



No Público de hoje (sem link), José Vítor Malheiros analisa bem o significado de expressões a que nos vamos habituando sem termos a consciência plena do seu peso e do alcance da sua utilização sistemática e perseverante: «arco da governação» e «arco da governabilidade». Vale a pena ler este excerto e parar para pensar.

«O que quer dizer "arco da governação"? A expressão foi inventada por Paulo Portas e representa os três partidos políticos mais à direita no espectro parlamentar: o CDS, o PSD e o PS. Os três partidos que assinaram o memorando da troika.

Para o CDS a expressão vale ouro. Num sistema que funciona garantindo a alternância entre PS e PSD, o "arco da governação" foi a sua maneira de meter o pé na porta e garantir a entrada na primeira divisão. "Eu também! Eu também sou da governação!" E é verdade. O CDS tem estado em coligação em vários Governos, ajudando o PSD ou o PS a garantir a maioria que lhes forneceu apoio parlamentar.

Depois do "arco da governação" Portas lançou o "arco da governabilidade", esticando um pouco mais a corda. Se o "arco da governação" podia ser definido como o conjunto de partidos que "têm governado" nos últimos anos, o "arco da governabilidade" é o conjunto dos partidos que "podem governar", os partidos que podem garantir que o país é governável.

O problema com essas expressões é que são ambas expressões de propaganda, que têm o objectivo de excluir do panorama político e mediático as forças mais à esquerda.

Usar a expressão "arco da governabilidade" para representar a tríade PS-PSD-CDS é equivalente a proclamar um direito natural destes partidos a governar e a proclamar a não-naturalidade da participação de outros partidos no Governo. Um Governo com o PCP? Com o BE? Hmmm... não sei... não fazem parte do "arco da governação", pois não?

A colagem de epítetos aos partidos sempre fez parte do debate político, com o intuito de criar divisões ou forçar alianças, de promover ou atacar esta ou aquela força. O que é novo e surpreendente é o facto de expressões deste tipo, politicamente marcadas, criadas para ser usadas no combate político, carregadas de uma intenção de segregação de uma parte do espectro político, serem usadas por pivots de telejornais, por jornalistas e comentadores de jornais, por académicos e responsáveis políticos mesmo quando possuem um dever de neutralidade e mesmo quando pensam estar a ser equidistantes.» 
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1.9.13

Cenários para mais tarde conferir



Sucedem-se os discursos de rentrée mais ou menos enfadonhos, sem alma nem novidade, a campanha para as autárquicas está quase à porta, mas são as próximas legislativas que verdadeiramente importam e multiplicam-se as apostas em possíveis alianças pré ou pós eleitorais.

No DN de hoje, Bagão Félix puxa a brasa à sua dama e defende um cenário PS + CDS, com argumentos um pouco retorcidos mas tão válidos como outros quaisquer: sendo mais nítida a diferença ideológica entre os dois partidos «a dialética da coligação pode ser mais positiva». Porque não? Seria um bloco central como um outro qualquer. Sempre, sempre, dentro do arco da governação.


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23.7.13

Submersos na «situação»



«Ouve-se e lê-se e parece que está tudo bem outra vez. Na verdade, está tudo mal outra vez. Talvez o cartoonista italiano Altan tenha feito a síntese perfeita quando desenhou dois porcos engravatados comentando a situação. Diz um: "Esta crise durará anos". Responde o outro: "Finalmente um pouco de estabilidade".

Quando estamos submersos há tantos anos, não estamos mais em crise, estamos "na situação". E está tudo mal outra vez porque a crise política deste estranho mês de Julho se sobrepôs à emergência que vivemos. É um pouco desesperante ver as análises internas e externas dos partidos fixarem-se no quem-ganha-quem-perde das últimas semanas, como se estivéssemos a falar de outra coisa que não a ameaça de um segundo resgate.

A comédia tem mais audiência que a tragédia. Não há moralismo nestas palavras, apenas espanto. Afinal, o mundo parece mais interessado em saber o nome do bebé Middleton do que em compreender a falência de uma cidade, onde metade da iluminação eléctrica não funciona, dois terços das ambulâncias não circulam, há 80 mil edifício vazios, 40 mil em perigo de derrocada, onde os pensionistas estão em risco de perder pensões. Essa cidade não fica no fim do mundo, é Detroit, já viveu a glória e fica nos EUA, que até tem orçamento e política federal.

O "compromisso de salvação nacional" estava fadado ao fracasso por inconveniência dos partidos, mais até que dos seus líderes. É esta inércia militante que impressiona. Há uma espécie de anacronismo intelectual nos partidos, que falam de um país que não soa ao nosso mas ao deles, que falam de dívida como se não existisse e de dinheiro como se houvesse.»

Pedro Santos Guerreiro
O link pode só funcionar mais tarde.
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22.7.13

O país não ideológico de Cavaco Silva



De tudo o que o presidente da República disse ontem, há uma frase-chave que já vi referida mas não suficientemente sublinhada:
«Mais cedo ou mais tarde, um compromisso interpartidário alargado será imposto pela evolução da realidade política, económica e social do País.» E Cavaco explicita logo a seguir para que não fiquem dúvidas: «Estou igualmente convicto de que os cidadãos se encontram agora mais conscientes da necessidade de um consenso entre os partidos que subscreveram o Memorando de Entendimento.»

Ou seja: para o presidente da República, está à vista o fim da democracia parlamentar tal como a conhecemos, esta deve reduzir-se à acção concertada de um bloco central que a domine sem sobressaltos. Tudo o resto é lixo irrelevante que só serve para empatar. Para já, interessa a defesa consensual de um Memorando, amanhã de um outro texto ou tratado qualquer.
Deve ficar garantida a neutralização de divergências significativas quanto à «evolução da realidade política, económica e social do País», o que implica, pura e simplesmente, o fim de devaneios ideológicos, a convergência para uma ideologia única. Quando se fala do futuro de um país nestes termos, é de ideologia que se trata e não apenas de folhas Excel.

O cidadão Cavaco Silva teria mais jeito e sentir-se-ia mais à vontade como presidente do Conselho de Ministros em tempos antigos. Não hesitaria em assinar uma versão mais modernaça de uma outra frase que ficou célebre e de que me lembrei ontem imediatamente: «A União Nacional nunca será um partido, porque tem uma aspiração mais alta : organizar a Nação!» Descubra as diferenças. 


(Também aqui.) 
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Não há milagres grátis



Depois do serão de ontem, estamos todos em clima de uma espécie de ressaca e, para já, é impossível largar o tema:

«Os partidos do Governo julgavam que, dando eleições ao PS, este absolveria dois anos de austeridade cruel que destruiu a economia real do país. O PS acreditava que PSD e CDS sairiam como cordeiros do redil montado pela troika.

Os portugueses, como os peixes que escutaram o sermão de Santo António, viveram embalados na ilusão de que o país era mais importante do que as facções partidárias. Há milagres que não existem. Agora assistimos, perante um acordo impossível de alcançar, à transmissão da culpa. (...)

Só alguém que acredita em tudo poderia supor que este acordo de "salvação nacional" lavasse a roupa suja e tornasse tudo mais branco. Ninguém sai bem deste falso milagre, até mesmo António José Seguro que pareceu disposto a fornecer oxigénio a um Governo exangue. Desfeito o equívoco, num cozinhado onde os portugueses nunca foram informados dos ingredientes, já não há mais milagres grátis e disponíveis. Até porque se destruiu o resto da esperança.» (O realce é meu.)

Fernando Sobral
O link pode só funcionar mais tarde.
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21.7.13

A festa é no Caldas ou na Lapa?



Duas semanas depois, Cavaco reforçou a coligação, essa é que é essa! Neste momento, Passos e Portas estão a decidir se são obrigados a convidar Seguro para o Moët & Chandon.

Nação valente!
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Brincadeiras perigosas



«Sob o alto patrocínio do Presidente da República os partidos estiveram toda a semana a brincar com os portugueses.

Basta uma breve leitura dos documentos que o PS e o PSD publicaram nos seus sites para perceber que, das duas uma: ou aqueles documentos não são os que levaram às negociações e estão a mentir aos portugueses ao dizer que foram ou, de facto, aquelas propostas são mesmo as que levaram e não se justificava nem um minuto de conversações... quanto mais uma semana. (...)

O Presidente da República meteu-se, e meteu-nos, num jogo muito perigoso ao mandar-nos julgar os políticos em função do resultado dum acordo que sabia ser impossível. Será que queria provar que é ele o único político digno de credibilidade? (...)

Cavaco Silva podia até colaborar com a fantochada em curso, a que tenta fazer esquecer que a crise politica é da exclusiva responsabilidade de Passos e Portas. (...) Não pode é deixar em funções alguém que acha que somos um bando de preguiçosos e que temos vivido à custa dos "sacrificados" do Norte. Quem não percebe a origem dos problemas nunca será capaz de os resolver.

Seguro, em vez de anunciar simplesmente as razões da falta de entendimento, fez uma série de promessas que, na actual conjuntura e num futuro próximo, não vai poder cumprir se for para o Governo. Foi assim que Passos Coelho começou a perder toda a credibilidade. Foi assim que os políticos perderam a confiança dos portugueses.»

Pedro Marques Lopes

20.7.13

Here we go



Do tal texto de The Economist, hoje largamente referido:

«The president’s aim was to give investors and Portugal’s lender – the “troika” of the EU, IMF and European Central Bank – some guarantee that the mainstream parties, supported by about 80% of voters, remained committed to the country’s bail-out programme and that future governments will stick to fiscal discipline. Yet the danger is that, after prolonging Lisbon’s political crisis for a few more weeks, it could produce nothing at all, leaving the country as it was: ruled by an unstable coalition and facing the threat of a snap election with unpredictable results.

Portugal’s borrowing costs have surged, and the latest central-bank forecasts suggest that the economy will barely recover in 2014 after three years of deep recession. (...) This forecast is hardly likely to strengthen confidence in Portugal, Greece or across the wider euro zone that austerity is working. Nor will it support the fond hopes in Brussels that Portugal was safely pulling away from Greece and would follow Ireland by getting out of its bail-out programme. Just now, neither country looks anywhere near ready for graduation.»

Na íntegra aqui.
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À espera sabe-se lá de que Godot



Nove dias separaram a semicriptada comunicação de Cavaco Silva ao país e a noite em que se soube que o arco da governação tinha rasgado, não o Memorando, mas o rascunho da Salvação Nacional.

Feitos parvos, passámos mais de uma semana a seguir os passos de jornalistas que filmavam entradas e saídas de membros de delegações partidárias, fixavam horas e minutos, faziam perguntas a que já sabiam não ir ter respostas e recebiam finalmente, como um maná, comunicados de duas linhas em que não era dito absolutamente nada. Mais valia que as três delegações partidárias tivessem ido para as Selvagens e lessem comunicados às cagarras. 

Até que ontem, à hora nobre dos telejornais, António José Seguro quebrou o tabu e pôs fim à primeira série da telenovela. A segunda teve início imediatamente, com tudo o que é comentador a consultar os búzios para adivinhar os planos de Cavaco (espera-se que os tenha, mas nunca se sabe...). Tudo bem, primeira vitória: não há acordo.

Mas agora, PS? Não sendo de esperar que António José Seguro toque à campainha da sede do Bloco de Esquerda na Rua da Palama, nem que mande um mensageiro à Soeiro Pereira Gomes, resta ao PS, como é óbvio e já reafirmou ontem, lutar por uma maioria absoluta, orgulhosamente só (embora esperando recorrer a acordos de incidências várias, se necessário). É praticamente garantido, e eu assim espero, que isso aconteça no dia do nunca: maiorias absolutas, não muito obrigada! Nunca mais - jamés, como diria o tal outro.

Assim sendo: aconteceu algo de novo nestes últimos dez dias? O quê exactamente?
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19.7.13

A vingança de Cavaco?



Agora que o PS acaba de anunciar que não haverá acordo tripartido, estão abertas as apostas para saber qual será a vingança de Cavaco Silva – António José Seguro e o PS que se cuidem. Qualquer que seja a decisão, ou decisões, do presidente da República, serão eles os principais visados a curto ou a médio prazo. 
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Sonho de uma noite de Verão



Esta noite sonhei que havia um milhão de portugueses, que manifestava nas ruas. Comecei por não perceber se protestavam contra ou a favor do acordo de Salvação Nacional. Acordei e vi que as ruas estavam desertas. Portugal não é a Grécia. 
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Adoro o cheiro a salvação nacional pela manhã



Adoro o cheiro a salvação nacional pela manhã. (...) De surpresa em surpresa, o PS aceitou ir conversar com o "governo" (ao mesmo tempo votava pela queda do "governo") para o tentar salvar. Seguro fez o papel do indivíduo, que vive num monte isolado, a quem levam tudo o que juntou até agora, porque apareceram uns senhores de gravata que lhe disseram que aquilo não valia nada porque ia acabar o Euro.

O PS juntou-se ao PSD, e ao CDS, para, numa semana, resolver todos os problemas do país. Eu convencia-os a ficar a trabalhar no fim-de-semana para resolver a fome em África, o conflito na Síria e apanhar de vez o touro fugitivo de Viana do Castelo. Uma coisa é certa, se isto correr bem podemos exportar salvação nacional. (...)

No meio do caos, o PR resolve ir fazer um cruzeiro à Macaronésia. Não dava para mudar. Já estava marcado. É uma quadragésima segunda lua-de-mel e o nosso PR não tinha coragem de chegar a casa e dizer: "Querida, afinal ainda não é este ano que te levo para uma ilha isolada, só eu e tu; e a minha comitiva". Podem chamar-me Velho do Restelo (só uma vez), mas tenho dificuldade em aceitar esta viagem do PR às Selvagens. Segundo ouvi dizer, uma das razões da pernoita do Presidente da República nas Selvagens está relacionada com a velha disputa territorial com Espanha. Mais uma razão. Se é uma questão territorial bastava fazer chichi em tudo o que é poste nas Selvagens, escusava de lá ficar a dormir.

A minha noção de Salvação Nacional leva-me a deixar aqui uma ideia: podíamos poupar 80 mil euros se a viagem de Cavaco fosse só de ida (vai custar 160 mil euros). Dizemos que fazia parte do corte de 4,7 mil milhões no estado. Uma grande caminhada começa sempre com um pequeno passo.» (O sublinhado é meu.)

João Quadros
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18.7.13

A longa espera


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Cowboys sem índios



«Os filmes de cowboys ensinam-nos muito sobre os políticos portugueses. Muitos julgam-se pistoleiros capazes de, sozinhos, imporem a sua noção lei e a ordem, outros encostam-se à parede para não ser abatidos pelas costas, alguns querem monopolizar a criação de gado.

Não há um xerife à vista que traga paz e perspectivas de futuro a este sucedâneo de OK Corral. A grande discussão sobre a "salvação nacional" é por isso um jogo de "saloon" com cartas marcadas. Ninguém quer ser acusado de trapaceiro e ninguém quer perder os ganhos adquiridos. Para quase todos, um acordo significa um suicídio político. E os partidos e os líderes não foram criados para isso. (...)

Não havendo já índios para culpar do desastre das contas públicas nos últimos dois anos e do empobrecimento e destruição da economia interna, que resta a PS, PSD e CDS? Fingirem um acordo? Renegarem o seu suicídio político? Todos estão entre a lâmina afiada e a parede.»

Fernando Sobral
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16.7.13

A «esquerda» anda nervosa



Desde há algumas horas que Drummond de Andrade não me sai da cabeça:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

  O J. Pinto Fernandes somos nós? 
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O ataque de Cavaco aos partidos



Absolutamente correcto, este comentário de Luís Menezes Leitão, hoje no «i». É por estas e por outras que a nossa democracia está em tão mau estado.

«Cavaco Silva decidiu atacar os três principais partidos portugueses forçando-os a um acordo. (...)
Este ataque deveria ter tido uma resposta à altura. O primeiro-ministro deveria ter imediatamente comunicado que é a ele que cabe decidir a composição do seu governo, por isso ou o Presidente o demitia ou dava posse imediatamente aos novos membros do governo. Ao mesmo tempo, avisaria que, se fosse demitido, a maioria rejeitaria no parlamento qualquer governo de iniciativa presidencial, fosse ele dirigido por um Monti ou por um Tonti. E quanto ao acordo com o PS é no parlamento e não em Belém que esses acordos são discutidos, não cabendo ao Presidente a iniciativa de os propor. (...)

Ao aceitarem submeter-se a este ultimato, os líderes partidários prestaram um mau serviço à democracia, que fica em risco com essa sua menorização.»
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