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28.9.20

Machistas histéricos

 


«Às vezes Portugal parece um país decente, a anos-luz do que era há 50 anos. Mas a semana que passou foi particularmente notória em exemplares cavernícolas, como o do já conhecido professor de Direito que gritou, no seu julgamento por violência doméstica, “morte a todos os feminismos”. 

É possível alguém dizer o que o professor Aguilar diz nos seus mestrados e continuar a dar aulas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa? Até hoje, sim. O homem compara o feminismo ao nazismo e diz que a violência doméstica é um atentado à família. E escreve no programa de Direito Processual Penal III: “Dizem os psis que as empresas devem contratar mais mulheres, designadamente para cargos dirigentes, porquanto as mulheres são, na linguagem pós-moderna, mais emocionalmente inteligentes do que os homens, a saber, são ‘pessoas emocionalmente muito inteligentes’, i.e., precisamente aquilo que na Antiguidade, na Idade Média e ainda no Antigo Regime mas já na Idade Moderna, se chamava a pessoas desonestas, de ‘espertas’, em suma, de ‘canalhas’.” 

O professor citado é um exemplar raro de machista histérico. Mas infelizmente Portugal ainda está cheio de machistas-não-tão-histéricos-assim, como o inevitável Sousa Tavares que, na crónica deste sábado do Expresso, se insurge contra a possibilidade de um imposto extraordinário, esperando que só tenha acolhimento “naquele clube de histérico-feministas-bloquistas da Universidade Nova”, universidade onde trabalha a nossa colunista Susana Peralta que respondeu à letra, nas redes sociais, ao machismo só-razoavelmente-histérico de Sousa Tavares. Por acaso, nesse dia, o caderno principal do Expresso, onde escreve o cronista, era dirigido pela feminista Leonor Beleza. 

Esporadicamente pensamos que este mundo acabou. Pode passar-nos pela cabeça que as pessoas, nomeadamente as que escrevem para os jornais, dão aulas em faculdades e são juízes nos tribunais, sabem o significado da palavra “feminista”, um movimento que remonta ao princípio do século XX – e o século XXI já vai com 20 anos. Mas não. 

Na reserva protegida do machismo lusitano ainda não se conseguiu perceber o significado da palavra “feminista”. Um exemplo disso foi o julgamento do citado professor de Direito por violência doméstica. A juíza Joana Ferrer, depois do arguido várias vezes irromper contra o feminismo e as feministas, disse: “Excelentíssimo senhor professor doutor, o senhor insiste em chamar-me feminista, mas eu não sou.” 

O machismo histérico tem uma vantagem – é possível agir em conformidade com a Constituição da República. Esperemos que a Faculdade de Direito o faça.» 

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12.9.16

Feminino e liberdade



«Choca-me a acusação de islamofobia àqueles que criticam e combatem as ideias e práticas islâmicas sobre as mulheres e os costumes. O Alcorão não é aqui relevante para o caso. É certo que no seu versículo 34 do Capítulo IV (entre outros) as mulheres são claramente diminuídas relativamente aos homens (embora mesmo aí os intérpretes divirjam). Mas seria fastidioso enumerar as passagens bíblicas em que isso também ocorre e penso ser escusado lembrar que, em Portugal, as mulheres só passaram a ter direito a voto em 1968. (…) O problema das religiões com as mulheres não é, portanto, um exclusivo dos islamismos, nem sequer dos monoteísmos.

Mas sim, quer o sunismo, quer o xiismo dominantes atuais, tal como o catolicismo pré-Vaticano II, são claramente misóginos e homofóbicos. Entretanto, o cristianismo misógino, tendo sido vencido pelo iluminismo oitocentista e pelo liberalismo e constitucionalismo democrático e laico daí decorrentes, está hoje, graças ao combate dos liberais e à derrota Católica, claramente atenuada e em dissolução. Esse ainda não é o caso de uma parte muito importante do islamismo. Mas espera-se que isso venha a ocorrer no futuro. Sim, a misoginia e a homofobia islâmicas, com origem no ethos social e cultural islâmico, é um mal que deve ser derrotado. (…)

A ideia segundo a qual a eliminação do feminino e das mulheres (porque é isso o que representa a eliminação do rosto e do corpo femininos na esfera pública) decorre da inspiração ou devoção religiosa, islâmica ou outra, não resiste à crítica racional. E aqueles que fazem a apologia do respeito ou indiferença pela desrazão e pela indignidade talvez devessem, também, voltar às catacumbas da Inquisição. Na verdade, ninguém sabe onde isto pode ir dar. Por isso mesmo é que o combate a favor da liberdade e da igualdade continuam a ser fundamentais. (…)

O racismo e o fascismo são desprezíveis e perigosos mas a liberdade de expressão do si mesmo nunca será verdadeira liberdade se só permitir a expressão de ideias dignas (descontando o debate sobre o que isso seja). O mesmo vale, bem entendido, para as ideias misóginas e homofóbicas, que não podendo, nem devendo, ser proibidas, devem ser combatidas cultural e politicamente.

Sim, a misoginia islâmica expressa pelos diferentes véus islâmicos deve ser combatida porque corresponde à expressão pública, e ao proselitismo cultural, de práticas e ideias indignas e contrárias aos direitos humanos fundamentais. Mas não pode nem deve ser proibida, descontando, bem entendido, necessidades securitárias e a salvaguarda pedagógica das crianças e jovens perante ideias e práticas contrárias à dignidade humana.»

15.1.16

Mulheres em chefias de «big corporations»? Vou recuar mais de três décadas



Esta notícia da Apple, pela qual se fica a saber (se se confirmar como verdadeira) que aquela big corporation «não quer mais mulheres nem negros nas chefias», fez-me recuar mais de três décadas, ao início dos idos de 80, quando eu também andava por uma outra corporation, geralmente conhecida por «Big Blue?.

Em Portugal, contavam-se então pelos dedos de uma mão (vá lá: mais dedo, menos dedo…) o número de mulheres que ocupávamos posições de chefia (não de topo, é verdade, que para isso foi preciso esperar mais uns tantos anos, mas a partir de então foi um dado adquirido). Quando uma 6ª ou 7ª mulher foi promovida felicitei o responsável pelo facto, que, entre dentes, me sussurrou: «Se ela fosse preta, isso é que era!» Porquê? Porque na IBM era já grande a pressão, a nível mundial, para respeitar integração a nível de género, deficiência e etnia.

Nunca pensei que a tantos anos de distância, em pleno século XXI, ainda fosse possível aconselhar que se vote contra uma proposta que prevê «o aumento da diversidade entre os quadros de topo». Por onde andou o chamado primeiro mundo nestas últimas décadas? 
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Sempre quero ver se alguém boicota a idolatrada maçã




«A informação consta da documentação enviada aos accionistas da Apple, e que pode ser consultada no site da empresa, com uma recomendação muito clara do conselho de administração de "votar contra" a proposta que prevê o aumento da diversidade entre os quadros de topo.» 
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8.3.15

No dia delas

Portugal: assim foram votando as mulheres



Tudo começou com o decreto 19.692, de 5 de Maio de 1931. Mas com excepções, como a de Carolina Beatriz Ângelo (na foto) que foi a primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto (nas constituintes de 28.05.1911), concedido por sentença judicial, após exigência da condição de chefe de família, dada a sua viuvez.


Em 1933 e em 1946 foram levantadas algumas restrições, mas só quase no fim de 1968, já durante o marcelismo, é que acabaram por ser removidas quaisquer discriminações para a eleição de deputados à Assembleia Nacional. (Depois do 25 de Abril, o direito universal de voto passou a aplicar-se também às eleições presidenciais e autárquicas.)


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9.11.11

Economia e feminismos


Rua da Cozinha Económica, Bloco D, Espaços M e N, Alcântara
1700-300 Lisboa

Necessário efectuar inscrição, para o mail umar.sede@gmail.com, até 2 dias antes do curso, para obter materiais e garantir lugar.

Programa

9h30 - Recepção das participantes e entrega dos materiais;
10h - Apresentação do curso e dos seus objectivos - Lídia Fernandes (UMAR)

10h15/13h 1º Painel
Moderação: Anne Marie Delettrez (UMAR)
Ana Costa (ISCTE-IUL; Dinâmia) - “O mercado revisitado: uma leitura institucionalista”
Lina Coelho (FEUC; CES) - “Os homens, nos estados ou nos mercados, só fazem desaguisados! Reflexões feministas para a travessia da crise”
Sara Falcão Casaca (ISEG; SOCIUS) - “As mulheres e a crise do emprego”

13h/14h – Almoço

14h/17h - 2º Painel
Moderação: Magda Alves (UMAR)
Heloísa Perista (CESIS) – “Trabalho não pago e usos do tempo de mulheres e de homens - uma ‘questão da economia?'”
Maria da Paz Campos Lima (ISCTE-IUL)
Joana Lopes (Portugal Uncut) - “Anti-austeritarismo em tempo de crise”
Ana Bela Dinis (CGTP)

17h30 - Conclusões: Helena Neves (UMAR)

Introdução
Ao longo dos últimos anos, vimos a economia dominar os discursos e a agenda política nacional, europeia e, em grande medida, internacional. Sabemos há muito que a economia afecta decisivamente as nossa vidas, mas nem sempre sabemos como (re)pensá-la e entendê-la.
Como traduzir os grandes chavões do economês na nossa vida concreta, distinguir a dimensão financeira da dimensão económica, o rigor da austeridade, ou as escolhas políticas da “inevitavilidade”? Articular o bem comum e a escolha individual são questões que muitas vezes se colocam na nossa intervenção feminista em diferentes campos da nossa vida. Face à gravidade da situação que se vive hoje, e uma onda austeritária que pressiona a precarização da vida e ameaça direitos sociais e civilizacionais, temos sentido a necessidade de articular as questões da economia e procurar construir e afirmar uma agenda feminista para os tempos que vivemos.
Com este curso, pretende-se assim abordar diferentes aspectos relacionados com economia, como ela está presente na vida de todos e todas nós e de que modos ela afecta particularmente as mulheres. Queremos com ele pensar, sob a lente dos feminismos, os sistemas capitalistas nos quais vivemos, as suas relações de produção e de poderes, e dotar-nos de ferramentas teóricas e de intervenção para aprofundar o nosso trabalho na construção de um outro modelo de sociedade. As diferentes dimensões do trabalho, da sua (re)conciliação com a vida familiar e pessoal, da pobreza ou do sindicalismo encontram-se relacionadas e serão por isso também elas objecto de reflexão e discussão neste curso.
De que modo(s) podemos – e devemos - em tempos de crise e de austeridade construir uma agenda feminista que se integre num processo mais amplo de transformação social?
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18.5.11

As Mulheres no Início do Século XX


Conferência por Ana Vicente

26 de Maio às 17h
Fundação Calouste Gulbenkian
Auditório 3

Ainda é necessário referir numa conferência as mulheres portuguesas do principio do século XX? Não eram elas a maioria da população? Quem eram? O que faziam? O que pensavam?

Abrangendo o período entre 1900 e 1926, Ana Vicente procurará responder a estas perguntas e colocar algumas questões.
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7.2.11

Sexismo versão eurolândia


Sempre ouvi citar Nicolas Boileau que, no século XVII, terá escrito: «ce qui se conçoit bien s'énonce clairement, et les mots pour le dire arrivent aisément».

Com a maldade que lhes é característica quando de flamengos se trata, os belgas de expressão francesa usam desde há muito uma versão caseira: «Ce qui se conçoit bien mal s'énonce clairement lourdement, et les mots pour le dire arrivent aisément en flamand».

E eu, hoje, corto «flamand» e ponho «allemand» (com pedidos de desculpa à minha avozinha que deus tem e que não é para aqui chamada).

Tudo isto porque um senhor, que dá pelo nome de Josef Ackermann e que manda no Deutsche Bank (ou seja, também um pouco em todos nós), afirmou que será bom ter mais mulheres na direcção do dito banco para que esta fique «mais colorida e mais bonita». Para defender o chefe da polémica gerada, o chefe do departamento de comunicações veio já explicar que a frase foi tirada do contexto e que Mr. Ackermann é um gentlemen da «velha escola».

Mais velha do que ele sou eu e coro de vergonha por estarmos entregues a gente deste calibre.

(Fonte)
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8.3.10

As Três Marias em «The National Archives»


8 de Março é uma excelente data para recordar Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, autoras das celebérrimas Novas Cartas Portuguesas (1972) que valeram às autoras um processo judicial posto pelo regime salazarista, devido ao conteúdo erótico da obra. O julgamento não chegou ao fim já que, entretanto e imprevistamente, se deu o 25 de Abril…

Os ecos chegaram aos Estados Unidos e estão registados, para (nossa) memória futura, em The National Archives. Ler aqui um interessante documento.

(Foto, em jeito de homenagem: à direita, Isabel Barreno com 13 ou 14 anos, à esquerda a irmã e a do meio… sou eu. Éramos amigas e colegas de liceu.)

4.1.09

A pílula (ainda...) vista do Vaticano










No Osservatore Romano de hoje, é publicado um artigo de Pedro José María Simón Castellví, presidente da Federação Internacional da Associação de Médicos Católicos, significativamente intitulado «A Humanae Vitae, uma profecia científica». Nele são revelados mais efeitos maléficos do uso da pílula: ela é anti-ecológica e, nessa medida, também responsável pela infertilidade masculina!!!

Faltava esta acusação contra as mulheres: serem responsáveis pela diminuição do número de espermatozóides...

Fica a citação do Osservatore Romano (4/1/2009), já que o link pode deixar de funcionar:

«Un altro aspetto interessante riguarda gli effetti ecologici devastanti delle tonnellate di ormoni per anni rilasciati nell'ambiente. Abbiamo dati a sufficienza per affermare che uno dei motivi per nulla disprezzabile dell'infertilità maschile in occidente (con sempre meno spermatozoi nell'uomo) è l'inquinamento ambientale provocato da prodotti della "pillola". Siamo qui di fronte a un effetto anti-ecologico chiaro che esige ulteriori spiegazioni da parte dei fabbricanti. Sono noti a tutti gli altri effetti secondari delle combinazioni fra estrogeni e progestinici. »

14.10.08

Para além do imaginável

















Li, mais ou menos distraidamente, um post que a M. João Pires publicou ontem no 5 Dias, tão óbvio me pareceu o conteúdo. Dizia, naquilo que interessa: «para mim prova de bom senso é levar a minha filha adolescente à ginecologista para que lhe seja receitada a pílula».

Alertada pela própria, fui ver o que se passava na Caixa de Comentários. No momento em que escrevo, estão lá quarenta e oito e o fim não parece à vista. Para todos os gostos? Sim, mas a grande maioria ataca ferozmente a inocente (julgava eu...) frase da João.

«Porque está a empurrar a adolescente para a prática (perigosa) do acto sexual sem preservativo?»
«A pobre criança ver-se-á aflita para não ter relações sexuais impingidas pela mãe.»
«Pode não ser sensível a valores como a fidelidade e o respeito pelo próprio corpo e pelo corpo do outro (isto é no fundo o que significa a abstinência) mas alguns jovens podem sê-lo.»
«Como dizem as adolescentes americanas que começam cedo: ”tanta coisa para ter umas cócegas no fundo da barriga”.»

Juro que tirei isto do 5 Dias e não de um discurso de Sarah Palin.

Muitos recusam-se ainda hoje a aceitar que o uso da pílula foi uma das grandes vitórias das mulheres – adolescentes incluídas, evidentemente – EM MEADOS DO SÉCULO XX! Porque é disso que se trata: tivesse a João dito que tinha comprado preservativos para o filho adolescente e ninguém teria reagido.

O resto é conversa.

26.6.08

Medalha de Ouro


















Maria da Purificação Araújo recebeu hoje, na Câmara Municipal de Lisboa, a Medalha de Mérito Municipal, Grau Ouro «em reconhecimento do seu trabalho no desenvolvimento dos serviços de Planeamento Familiar e na promoção da Saúde Sexual e Reprodutiva em Portugal».

Ginecologista e obstetra, impecável nos seus 80 anos, com uma simplicidade desarmante, sempre presente: em 2007, durante a campanha pelo SIM no referendo sobre a IVG , como antes do 25 de Abril quando era conhecida como «a médica dos clandestinos».

Muitas pessoas na homenagem desta tarde – mais mulheres do que homens, obviamente. Alguém podia aliás ter parafraseado o que disse uma das conferencistas do Congresso Feminista, quando hoje abriu a sua apresentação:

«Bom dia a todas e a alguns!»

25.6.08

Congresso Feminista 2008
















«Porquê um Congresso Feminista em 2008? Porque um alargado número de mulheres e alguns homens, de diversas ideologias e histórias de vida, sabem que o/s feminismos fazem muito sentido num mundo onde persiste a violência contra as mulheres, de todas as idades, sob as mais diversas formas; onde o poder político, religioso, empresarial, económico, científico, continua a ser dominado e nomeado pelo masculino; onde a dificuldade da conciliação entre a vida privada e a vida profissional prejudica gravemente as famílias no seu todo.»

De um artigo de Ana Vicente, que pode ser lido na íntegra em Caminhos da Memória.