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11.8.24

Extrema-direita: a importância de falar

 


«O primeiro condenado na onda de desacatos no Reino Unido viu ser-lhe aplicada uma pena de três anos de prisão. Derek Drummond já tinha 14 condenações anteriores e confessou ter participado no motim e ter atirado objetos a polícias. Centenas de detidos estão a chegar aos tribunais, depois de uma semana em que as ruas foram tomadas pela raiva, alimentada a notícias falsas e mensagens de ódio contra migrantes e refugiados.

A violência que nos tem chegado através das notícias e de relatos da comunidade portuguesa justifica reflexão. Desde logo, pela velocidade a que as informações falsas sobre o atacante de Southport circularam entre grupos de extrema-direita, mostrando como não há esclarecimentos ou factos capazes de travar uma mentira em que demasiadas pessoas gostam de acreditar.

Importa olhar, por outro lado, para a capacidade de mobilização da extrema-direita. Como um exército do mal, em poucos dias tomou progressivamente ruas e cidades, mostrando que o ódio não se limita a gritos de ordem, mas tem corpo, armas e sangue. Os riscos do nacionalismo, do extremismo e da intolerância não são teóricos ou imaginados: são reais e capazes de impor o caos com operações disseminadas em grupos estruturados e através das redes sociais.

Só por ingenuidade se pode acreditar que a ameaça da extrema-direita é um assunto exagerado pela comunicação social e que meia dúzia de sinais mais violentos não deve causar preocupação. Importa, pelo contrário, continuar a fazer perguntas incómodas. Que capacidade operacional têm os grupos extremistas? Que grau de organização apresentam, por exemplo em Portugal? Que vigilância têm as autoridades exercido sobre eles, quando assistimos a incidentes cada vez mais ostensivos em eventos e locais públicos? Este é um tema que nos deve convocar a todos, porque só unidos na defesa dos valores democráticos travaremos a violência, a xenofobia e a intolerância. Tal como nas ruas de Londres a união e os gritos antirracistas ocuparam as ruas, tomando-as antes que o ódio o fizesse.»


9.8.24

Tresanda a fim de regime

 


«Do bárbaro esfaquea¬mento de três crianças em Southport nasceu uma onda de boatos, a que hoje chamamos fake news por se assemelharem cada vez mais a verdades, tal a sofisticação industrial com que são produzidas. O alvo foram os muçulmanos, novos judeus da Europa, que podem ser insultados e coletivamente culpados sem o risco do degredo intelectual para onde justamente lançamos os antissemitas. Por imposição da lei, a identidade do agressor, menor de idade, foi protegida. Isso chegou para que se espalhasse que se tratava de um imigrante indocumentado requerente de asilo que constaria de uma lista de observação de terroristas islâmicos, mentira que atingiu rapidamente dezenas de milhões de reações nas redes. Para a campanha orquestrada de desinformação contribuíram figuras como Tommy Robinson, fundador da English Defence League, Andrew Tate, um influencer extremista, e Nigel Farage.

Da mentira viral nada espontânea nasceram manifestações violentas manipuladas pela extrema-direita, com ataques a mesquitas e fogo posto num hotel que abrigaria refugiados. Para travar a onda de desinformação, a identidade do criminoso de 17 anos foi divulgada. Filho de ruandeses, nasceu em Cardiff e não é muçulmano. No fim, a resposta do Governo trabalhista à violência foi propor a generalização do reconhecimento facial, fazendo avançar um pouco mais a política securitária tão ao gosto da extrema-direita, que tem uma vitória política, fruto da desordem que ela própria provocou. Brilhante!

Quem pense que há espontaneidade nestas ondas de desinformação deve prestar atenção ao bullying sobre Imane Khelif, uma pugilista que nasceu mulher — com útero e vagina — e sempre se identificou como tal. Tem apenas uma produção anormal de testosterona, no que não se distinguirá da baixa produção de ácido láctico de Michael Phelps ou da altura incomum de Manute Bol. A prova contra Khelif é o facto de ter sido desqualificada pela Associação Internacional de Boxe, que não é reconhecida pelo COI e é acusada de irregularidades desde que é liderada pelo russo Umar Kremlev — o regime de Putin empenhou-se nesta campanha. A provocadora mensagem da abertura dos Jogos Olímpicos não terá sido estranha a esta contraofensiva.

O poder da mentira não resulta apenas da “polarização das nossas sociedades”. Tem nomes e responsáveis que continuam a acumular poder. Enquanto a Europa e os EUA resistem militarmente a Putin, entregam as suas democracias a sinistros sociopatas como Elon Musk. Enquanto este deixa que o antigo Twitter sirva para a propagação do ódio, como aconteceu neste caso, anuncia que a “guerra civil é inevitável” no Reino Unido. Um presságio que é um desejo, porque a expansão do seu poder depende de democracias cada vez mais frágeis. Ainda assim, as culpas não se ficam pelas redes sociais. No Reino Unido, jornais como o “Daily Mail” trabalham há anos para a islamofobia e o racismo. O medo é um bom negócio.

As ondas de fake news não são desordenadas e caóticas. Não resultam da “polarização”, sendo a culpa de todos e de ninguém. Resultam de uma ofensiva organizada pela extrema-direita contra as democracias. Sim, há mentiras de todas as cores. A novidade são os poderosos instrumentos e a enorme quantidade de dinheiro ao serviço das mentiras de uma dessas cores. Não é por acaso que Trump escolheu um homem com fortes ligações a Silicon Valley para seu vice. Não é por acaso que Musk, que considera Kamala “literalmente uma comunista”, garantirá um forte apoio à campanha trumpista. O novo capital tem uma velha ideologia.

Com medo da acusação de censura, os governos não impõem às redes sociais as regras de responsabilização empresarial que se aplicam a todos os outros meios. Paralisada por dentro pelos seus inimigos, a democracia é mansa perante quem a ataca. Tivemos um bom exemplo doméstico há uma semana. Rui Fonseca e Castro, candidato de extrema-direita às eleições europeias, avisou que ia impedir o lançamento de um livro infantil sobre identidade de género, em Idanha-a-Nova. Assim o fez, na companhia de “gorilas” que entraram na sala a gritar “acabou!”, como se fossem a verdadeira autoridade e deixando claro para quem lhes queira seguir o exemplo que milícias políticas podem impor a lei. Ninguém foi apanhado de surpresa. O ex-juiz já o tinha feito no Porto e anunciou nas redes sociais quando e onde o voltaria a fazer. A GNR estava à espera, mas não o deteve. Preferiu tirar a autora da sala. Não só não travou o crime como, na prática, garantiu a sua eficácia. Como no Reino Unido, premiou-se o infrator. Porque a democracia sente-se fraca e teme os seus inimigos. Tresanda a fim de regime.»


9.8.23

O navio desumano do Reino Unido

 


«O Bibby Stockholm é um navio atracado em Dorset, no Sul do Reino Unido, que tem capacidade para albergar até 500 pessoas. Na prática, é um edifício cinzento, de três andares, com dois pátios quadrados interiores que parece uma prisão. Tem a particularidade de ser flutuante e representa a mais cruel e desumana política de imigração que a Europa já viu.

Este navio começou na segunda-feira a receber os seus primeiros “hóspedes”, pessoas refugiadas que chegam ao Reino Unido de forma ilegal, atravessando o Canal da Mancha em pequenos barcos. É a resposta do Governo conservador britânico perante a pressão das migrações, após ter aprovado em Julho uma dura lei anti-imigração, que pretende restringir as condições para que se possa requerer o estatuto de refugiado no Reino Unido.

As novas regras vieram aumentar o nível de provas necessárias para que uma pessoa possa ser considerada refugiada, reduziram a gravidade de crimes que podem levar um requerente de asilo a perder o título de refugiado e, acima de tudo, introduziram um sistema de duas vias: tratam de forma distinta as pessoas que chegam ao país em busca de asilo, penalizando as que atravessam de barco o Canal da Mancha. Estas serão deportadas, ponto final.

Nos últimos anos, o Reino Unido, pela mão dos governos conservadores, tem vindo a endurecer as suas políticas de imigração para além do que era possível supor. Fez, em 2022, um acordo com o Ruanda para enviar para aquele país migrantes e requerentes de asilo, um ano após ter manifestado preocupação com as denúncias de tortura e as falhas no apoio a vítimas de tráfico humano por parte de Kigali.

A ministra do Interior, Sarah Dines, admitiu esta segunda-feira que a proposta de deportar pessoas para o Ruanda até podia ser substituída por outro plano. Qual? Mandar as pessoas para a ilha de Ascensão, uma ilha pequena e isolada junto à linha do Equador que é território britânico ultramarino. “Estamos bastante confiantes de que [recorrer ao] Ruanda é uma política legal. É nisso que estamos focados. Mas, como qualquer governo responsável, temos em conta outras medidas adicionais. Estamos a analisar tudo para garantir que a nossa política funcione”, afirmou à Times Radio.

A ideia de usar a ilha de Ascensão tinha começado a ser estudada em 2020, escreveu o Financial Times, pelo gabinete da ex-ministra do Interior Priti Patel, que se demitiu do cargo no ano passado após uma série de polémicas. Patel, da estrita confiança de Boris Jonhson, defendia abertamente que o Reino Unido não podia ser “um shopping de pedidos de asilo”, lançou as bases da actual lei da imigração e, em 2021, chegou a apelar à guarda costeira que devolvesse à França os barcos com migrantes que atravessavam o Canal da Mancha.

O Governo de Rishi Sunak segue o mesmo caminho: o Bibby Stockholm é o navio da vergonha, o navio que não poderia existir, e a ilha de Ascensão ou as prisões do Ruanda não são alternativa. O Reino Unido e a Europa não podem substituir auxílio humanitário por deportações automáticas.»

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8.5.23

Keep quiet and carry on

 


«Não ajudei a engrossar o momento mediático global que, ao que parece, ficou aquém do funeral da Rainha. Para quem, como eu, tem de se manter diariamente ligado à atualidade os momentos em que o jornalismo mete folga para dar lugar ao entretenimento são uma pausa excelente. Infelizmente, a festa da família disfuncional de herdeiros, que dá aos britânicos a ilusão de que o seu império ainda existe, lida mal com a contestação política.

É natural que assim seja. A única vantagem daquela monarquia é dar ao privilégio a capa do consenso, entretendo os pobres com a exibição do fausto do poder (a coroação terá custado, em plena crise, mais de cem milhões de euros). Como explicou a jornalista Polly Toynbee, outros monarcas europeus são “mais sábios e humildes”: Margrethe II, da Dinamarca, foi proclamada rainha da varanda de seu palácio pelo primeiro-ministro, e o rei Carlos Gustavo, da Suécia, não foi sequer coroado, limitando-se a assumir o cargo durante uma reunião do gabinete.

Perdi, por distração, a detenção de dezenas de republicanos por uma polícia zelosa em dar à democracia as roupagens falsamente unânimes que as ditaduras adoram. Dezenas súbditos incómodos foram removidos e encarcerados. Não sei se as televisões deram grande atenção ao sucedido. Não costuma caber no espetáculo encenado pelo poder em que participam com empenho.

A polícia twittou, no início da semana passada, que teria uma “tolerância extremamente baixa” para aqueles que procurassem “minar” o dia. A tolerância foi “zero”, na verdade. Graham Smith, líder do movimento “Republic”, foi parado, revistado e detido com outros cinco ativistas quando seguiam atrás de uma carrinha com cartazes, ainda antes do protesto. A razão da detenção terá sido a existência de tiras plásticas que seguravam algumas faixas que supostamente poderiam ser usadas para as pessoas se prenderem às estruturas. Isto num protesto em que a localização e a forma foram longamente negociadas entre a organização antimonárquica e a Scotland Yard. E foram cumpridas. A polícia metropolitana confirmou 52 prisões. Já tinha avisado que “a coroação é um evento único numa geração e essa é uma consideração importante na nossa avaliação”. Ou seja, liberdade, “ma non troppo”.

A Human Rights Watch condenou as detenções: “Os relatos de pessoas presas por protestarem pacificamente contra a coroação são alarmantes. É algo que se esperaria em Moscovo, não em Londres. Protestos pacíficos permitem responsabilizar os que estão no poder, algo a que o Governo parece cada vez mais avesso”. A Amnistia Internacional acompanhou: “Ter um megafone ou cartazes nunca deve ser motivo de prisão (...). A coroação não deve ser mais uma desculpa para minar direitos humanos fundamentais neste país.”

O Ministério do Interior tinha enviado previamente cartas de advertência às organizações republicanas. Um gesto que, vido do Governo, só pode ser visto como forma de intimidação. As cartas recordavam os termos da nova Lei da Ordem Pública, que, apesar de estar programada para meados de junho, foi antecipada para a semana anterior à coroação.

A lei levantou críticas violentas desde o momento em que foi apresentada. Os manifestantes que bloqueiem estradas podem ser condenados a 12 meses de prisão. Quem colar o seu corpo a outras pessoas, objetos ou edifícios poderá ser preso durante seis meses. Muito mais relevante: a polícia pode revistar e mesmo deter manifestantes se suspeitar que pretendem realizar qualquer atividade “disruptiva”. A definição do que é a “disrupção da vida dos cidadãos” é tão vaga, mesmo em protestos pacíficos, que várias associações acusam o Governo de afrontar a democracia. A polícia até pode impedir protestos antes que algo realmente aconteça. Uma espécie de “PreCrime” do filme “Minority Report”.

O propósito puramente político da legislação – feita à medida dos protestos que granjearam atenção a movimentos como Black Lives Matter, Extinction Rebellion e Just Stop Oil – ficou ainda mais evidente quando o diretor da polícia de Londres esclareceu que a polícia não tinha pedido ao Governo poderes adicionais para reprimir os protestos. Pelo contrário, deixou claro que tinha poderes suficientes. A nova lei deixa-os numa situação difícil, tendo de adivinhar quem pode vir a cometer um crime e a agir ou tarde demais ou em abuso de poder.

Leis deste tipo (ou para o envio de refugiados para o Ruanda) têm uma função para os conservadores: desviar o debate para a segurança ou a imigração, fugindo da catástrofe que têm sido os seus governos. Para não lhes fazerem o favor, os trabalhistas não se têm empenhado na resistência a sucessivos ataques a direitos fundamentais, banalizando-os.

Sobre os protestos, o deputado Lee Anderson, vice-presidente dos conservadores, que defende o regresso da pena de morte, escreveu: “Não é o meu Rei? Se não quer viver numa monarquia a solução não é vir com cartazes tontos. A solução é emigrar.” Um tweet que vale mil palavras sobre o amor que esta degenerescência conservadora tem à democracia.

O problema do “brexit” não foi dar ao povo o direito soberano a decidir de que união faz ou não parte. Assim devia ser em todo o lado. E se o significado de "take back control" fosse isto estaria alinhado com o que de mais profundamente democrático pode existir. Só que se tratou, como a campanha liderada pelo xenófobo Nigel Farage e pelo pantomimeiro Boris Johnson deixou evidente, de uma deriva autoritária que teve como primeiro mas não último alvo os imigrantes. Não vou repetir o "primeiro levaram os refugiados para o Ruanda e eu não liguei, porque não sou refugiado..." Já conhecem.

Quando se compra o ódio na política é certo que acabará por vir com o pacote completo. Começa a endurecer leis contra jovens ativistas pela justiça climática e acaba a remover preventivamente republicanos da rua, em dia de festa de “unidade nacional”, o sonho de toda a direita autoritária. Começa a meter refugiados em aviões para África e acaba a apontar o mesmo caminho para todos os que destoem da opinião “verdadeiramente nacional”.

O equívoco sobre a ascensão da extrema-direita é achar que o perigo é a sua chegada ao poder. O perigo é o que os seus vizinhos políticos estão dispostos a fazer e a dizer para o evitar. É por isso que, para além de umas bolsas resistentes na traumatizada Alemanha, a direita está a ficar cada vez mais parecida com a sua extrema. Até ser indiferente se esta chega ao poder, porque as suas ideias chegam lá antes disso.

Repito o que já tantas vezes escrevi: não há polarização na política europeia e americana. Há uma perigosa rampa deslizante para a direita. Na realidade, até fazia falta alguma polarização. Algum atrevimento na resistência, pelo menos.»

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10.4.23

A barcaça da desumanidade

 


«É uma espécie de contentor gigante, três andares, 222 quartos, capacidade para albergar mais de 500 pessoas. Pessoas especiais pelo estigma. São migrantes, sem papéis. Conseguiram atingir a fronteira do Reino Unido, em fuga da guerra ou da fome, à procura de vida melhor. Muitos arriscaram a vida em embarcações precárias, a soldo de redes de tráfico de pessoas. O sonho vai sucumbir, contudo, nesta prisão flutuante, estratégia encontrada pelas autoridades britânicas para reter a entrada no país dos sem papéis.

Esse país da velha democracia - com um primeiro-ministro descendente de imigrantes originários da Índia, onde a pobreza grassa - aplica das mais duras políticas contra a imigração. Fora da União Europeia, sem os condicionalismos impostos pelos 27 para o acolhimento de estrangeiros, e à revelia de todos as leis que protegem os direitos humanos, a cada dia, de Londres, surgem verdadeiras desumanidades. Os argumentos usados pelo Governo inglês encaixam na perfeição nas teses extremistas dos que veem nos migrantes uma ameaça, embora reclamem por falta de mão de obra no país. Sunak não recua, sabe que na hora de votar os britânicos não vão esquecer a pressão que as cidades do Sul da ilha estão a sentir perante a chegada de estrangeiros de fora da União Europeia. Diz o primeiro-ministro inglês não ser possível gastar quase sete milhões de euros por dia para albergar em hotéis imigrantes ilegais.

O argumento colhe, como é evidente. A alternativa para os impedir de pôr o pé em terra de sua majestade é encarcerá-los numa barcaça flutuante, por tempo indeterminado. É certo, o Reino Unido vive um problema sério - mesmo assim, bem longe da pressão sentida na Grécia ou em Itália.

Para governar é preciso ganhar votos, nem que para isso seja necessário reter pessoas numa prisão flutuante, para depois as meter num avião com destino a um campo perdido no Ruanda.»

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9.2.23

Não comento, não comento, não comento

 



«Um projeto para combater a “linguagem de género” na Igreja Anglicana vai começar a ser debatido esta primavera, com a possibilidade de recomendar a substituição de pronomes masculinos quando estes são usados para nos referirmos a Deus. A proposta poderá incluir também reescrever a expressão “Pai Nosso”, que inicia a oração com o mesmo nome.»
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20.10.22

13.9.22

Godard foi mais importante do que Elizabeth

 


«O mundo está fascinado com a morte de Elizabeth. Nunca a morte de um político, mais ainda quem tivesse representado o seu povo por eleição, recebeu tal atenção. O universo mediático, que é onde respiramos, inunda-nos de imagens celebratórias deste funeral ao longo de uma dezena de dias, incluindo solenidades em catadupa e insistentes demonstrações de ansiedade e devoção de populares e dignitários.

Há nisso respeito por uma figura que os britânicos se habituaram a ver a representar cuidadosamente o seu papel nesta trama que é a monarquia, porventura compungida pelo comportamento, quantas vezes boçal, de filhos e netos, e entretanto movendo-se vagarosamente entre as intrigas da corte e os desastres do seu império, que foi desabando em vergonha e cinismo durante este reinado. Mas há ainda a ocupação obsessiva do espaço público, esta morte telenovelisada é a chave para tentar preservar prestígio na representação de uma monarquia que sofre sempre que passa o poder: é demasiado óbvio que a transmissão da coroa por hereditariedade, ou a sua consagração com uma religião de Estado, são relíquias medievais que não escapam à comparação democrática. Morreu então Elizabeth e a espetacularização do seu passamento atinge píncaros que nunca alcançou em vida.

E morreu Godard. Não terá tantos dias de exéquias, o caixão não viajará de palácio em palácio, faltarão as missas compungidas, a Comunidade de Madrid não declarará três dias de luto, não haverá bandeira a meia haste por esse mundo fora, não virão chefes de Estado fazer-se fotografar no funeral, nem será transmitido em direto, faltarão as notas oficiosas e oficiais que não serão publicadas pelas diversas chancelarias. No entanto, Godard marcou mais o nosso tempo do que Elizabeth.

Godard trabalhou, Elizabeth não. Ele inventou, ela repetiu.

Godard criou, Elizabeth conservou. Ele viveu a vida difícil, ela viveu a vida fácil.

Godard submeteu-se à opinião do público, ela via o povo como súbditos que se curvavam.

Godard transgrediu, atreveu-se, inventou. Ela protegeu tradições para se opor à modernidade.

Godard iluminou, o herdeiro dela gaba-se de ser um anti-iluminista.

Godard trabalhou com outra gente, fez atrizes e atores, deu-lhes vida, criou saber. Elizabeth preservou uma modorra infinitamente aborrecida.

Godard deixa uma herança, vamos ver os filmes dele enquanto houver cinema. Elizabeth deixou Carlos e uma família que em parte se mostra e em parte se evita.

Para o que interessa, que é a cultura, ou o que nos faz partilhar a vida, as ilusões, os encantamentos, as nostalgias, a esperança e a realidade, é de Godard que nos vamos lembrar. E essa memória e respeito pela obra será a homenagem que nenhum poder dinástico jamais alcançará.»

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10.9.22

A dura realidade dos factos

 

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A rainha imaginária

 


«Em todos os lamentos pela morte da rainha Isabel II que li — e nunca li lamentos tão sentidos por uma pessoa que viveu tantos anos — não vi nem uma vez referido o sentimento da pena.

Mas não faz pena uma mulher que perdeu uma vida inteira a agradar aos outros? Não faz pena uma mulher que nasceu com tantas maneiras de passar agradavelmente a vida — com amor, terras, família, tempo, dinheiro e sentido de humor — ter passado tanto tempo em cerimónias públicas, a aturar pessoas das quais qualquer pessoa fugiria se pudesse?

Não faz pena uma mulher tão independente e directa, tão isenta de vaidade ou pretensões, ter passado tantos anos a fingir que estava contente por se encontrar com uma série interminável de figurões, todos desejosos de conhecer a rainha?

Quantos sorrisos terá sido forçada a sorrir ao longo de sete décadas inteiras de serviço público?

Não faz pena pensar nos anos que perdeu uma pessoa que chegou aos 96 anos? Somando todas as horas em que foi livre para fazer aquilo que queria — nem que fosse nada — quantos anos viveu realmente a rainha? Dez? Quinze? Vinte que fosse?

É a facilidade com que se aceita este sacrifício dela que me choca, sobretudo agora que ela morreu. É a facilidade com que as pessoas se consolam: “ela, se calhar, gostava daquelas chachadas todas...”

Não, não gostava. Mas não mostrava. Mantinha brilhantemente a ilusão. Cultivava o afastamento e a distância. E assim conseguiu convencer cada súbdito que só ele ou ela é que a conheciam. Assim toda a gente, nova e velha, de esquerda ou direita, escocesa ou inglesa, podia projectar nela as fantasias de Estado que quisesse.

Nunca dizendo o que sentia ou pensava, permitiu que toda a gente adivinhasse. Essa magnífica contenção dela era uma forma profunda de generosidade e de entrega.

E é o contrário da atitude moderna, personificada pelo filho que agora é rei. Toda a gente sabe o que ele pensa. E assim ninguém fica com liberdade para imaginar.»

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Uma bela capa


22.6.22

Que mundo!

 


Aeroporto de Heathrow, em Londres, durante o último fim de semana, devido a um problema técnico. Foi necessário cortar 10% no número de voos no dia 20 de Junho para tentar restabelecer a normalidade.
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1.6.22

Judite de Sousa e uma rainha

 

- Elizabeth II nasceu em 1926 e é rainha desde 1952.
- A Primeira Guerra Mundial terminou em 1918.
- A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945.

Agora é só fazer contas e ouvir JUDITE DE SOUSA, essa jovem e precária jornalista que tem percorrido várias estações de TV há décadas.


20.4.22

Refugiados e outras minudências

 


«Não sei o que é mais insuportável: o complexo de superioridade moral euro-ocidental ou o cachiquismo (neologismo angolano para "subserviência", equivalente ao brasileirismo "viralatismo") de certas elites das nações periféricas, nomeadamente africanas e sul-americanas (talvez seja de acrescentar, também, as do sul da Europa).

Pensei nisso ao tomar conhecimento das notícias relativas ao acordo britânico-ruandês para enviar para o Ruanda os imigrantes chegados ilegalmente à velha Albion. O referido acordo confirma, como se isso ainda fosse necessário, o grau de miserabilidade em que a humanidade está presentemente mergulhada. Quando os povos aceitam tranquilamente ser governados por líderes medíocres e mesquinhos como a maioria dos dirigentes atuais, algo está muito mal e não é apenas no reino da Dinamarca.

Como noticiado pela imprensa, o plano consiste em recambiar para o Ruanda, um pequeno país na África Oriental com reconhecidos problemas de "espaço vital", as pessoas que chegaram ao Reino Unido de forma ilegal desde o passado dia 1 de janeiro. Uma vez chegadas àquele país africano, ser-lhes-á permitido iniciar um processo para se instalarem no país. As autoridades britânicas pretendem avançar com este plano já nos próximos dias, priorizando os homens que chegam sozinhos através do Canal da Mancha em pequenos barcos ou camiões.

Os custos do plano estão avaliados em 145 milhões de euros. A cifra, assim como as questões logísticas envolvidas, suscitaram muitas reservas por parte de funcionários do ministério britânico do Interior. Mas estão igualmente a ser levantadas reservas legais, morais e políticas. Apesar disso, a decisão do governo britânico foi aprovada, graças a uma prerrogativa especial que atribui aos titulares da pasta a responsabilidade individual por certas medidas, em determinadas condições.

A atual ministra britânica do Interior - note-se - chama-se Priti Patel. Com esse nome, não será ela própria descendente de imigrantes? Outra pergunta que se impõe é: o que ganha o Ruanda ao fechar este acordo com o Reino Unido? Seria interessante saber.

A verdade é que o Ruanda é um minúsculo país africano aparentemente bem governado por uma figura controversa que, na hipótese mais benigna, pode ser considerado um "déspota esclarecido". Faz parte dos "autocratas" queridinhos do Ocidente. Um dos seus mais importantes "conselheiros" internacionais (melhor chamá-los, talvez, lobistas) é precisamente um antigo primeiro-ministro britânico.

O país é também admirado por muitos governantes e cidadãos africanos, devido aos seus êxitos relativos no plano económico, bem como à "ordem e disciplina" internas. A maioria dos seus admiradores não fala, por exemplo, da discriminação social e "racial" exercida pelas elites nilóticas do país, que estão no poder, sobre os ruandeses de origem bantu.

O acordo entre o Reino Unido e o Ruanda para o envio dos imigrantes ilegais, além da contestação interna, está também a ser fortemente criticado pelas Nações Unidas, através do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados). O organismo já expressou, assim, a sua "forte oposição" ao mencionado acordo. Para o ACNUR, os últimos arranjos entre as autoridades britânicas e ruandesas acerca do assunto "apenas mudam as responsabilidades de asilo, fogem das obrigações internacionais e são contrárias à letra e ao espírito da Convenção sobre Refugiados".

Por seu turno, mais de 160 organizações não-governamentais classificaram o acordo como uma medida "cruel e mesquinha".

"Pessoas que fogem de guerras, conflitos e perseguições merecem compaixão e empatia. Elas não devem ser comercializadas como mercadorias e levadas para o exterior para tratamento", disse Gillian Triggs, alta-comissária adjunta do ACNUR. Os atuais líderes (?) do Reino Unido e do Ruanda devem ter pensado que ela estava a referir-se aos refugiados ucranianos.

Porca miséria.»

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