«Já lá vão quase 20 anos desde que Salazar foi escolhido num programa televisivo como o maior português de sempre. Na altura, os 41% que recolheu foram explicados pelo enviesamento da amostra, pois a escolha dependia de uma votação telefónica que refletia a mobilização da claque salazarista. De tal forma que noutro estudo realizado na época, assente numa amostra representativa, a votação no ditador de Santa Comba Dão caiu para cerca de 10% e os grandes portugueses afinal eram outros: D. Afonso Henriques, Luís Vaz de Camões e o Infante D. Henrique.
Retenham estes 10% e, antes de regressarmos a Salazar e a Portugal, façamos uma curta digressão pela Rússia. No seu livro O Futuro é História – Como o Totalitarismo se Apoderou da Rússia, a páginas tantas, Masha Gessen reflete sobre o papel da versão local do formato da BBC, Great Britons, na criação de um contexto ainda mais hostil aos poucos resquícios de liberalismo por aquelas paragens. A votação “popular" televisiva foi uma oportunidade para testar, de novo, o apelo de Estaline (apresentado como general patriota, mesmo sendo georgiano), e, sobretudo, para promover valores autoritários e líderes fortes. O vencedor acabou por ser o menos controverso Alexander Nevsky, herói militar do século XIII, canonizado por enfrentar os invasores ocidentais. Tudo manipulado de modo profissional e com recursos públicos, ao serviço de Putin.
Recupero este episódio para sublinhar que a pulsão autoritária não começou no último par de anos. Estamos perante uma vaga de fundo global, com protagonistas nacionais, e, sobretudo, com instrumentos eficazes de propagação. Uma pulsão que varia pouco de país para país. O que me devolve à vitória de Salazar no concurso da RTP, certamente assente numa votação sobrevalorizada, mas que revelava algo mais profundo: os 41% estavam sobrestimados, porventura os 10% correspondiam à realidade, e o que contava era a insinuação de que, afinal, um ditador era apreciado, mesmo que em silêncio.
Entretanto, um pouco por todo o Ocidente, agudizaram-se clivagens sociais latentes que tiveram a sua primeira grande expressão eleitoral no referendo do “Brexit”; a covid-19 acelerou um mal-estar larvar e as redes sociais tornaram-se armas de destruição do espaço público. Entre nós, há 20 anos, muitos olharam para a popularidade de Salazar como um mero resquício nostálgico. Depois disso, os “coletes amarelos” foram encarados como uma manifestação sem tração social, e a emergência do Chega vista como um epifenómeno, que desapareceria assim que o seu líder carismático regressasse à casa de partida, o PSD.
Uma sucessão de erros de avaliação que comprova que a popularidade de ditadores em formatos televisivos para o grande público não foi um sintoma de nostalgia política, mas sim um indício da emergência de um fenómeno novo, com agentes ativos, recursos e tempo para criar um terreno fértil.
É por isso que, com previsibilidade, ao jogar a cartada “um Salazar em cada esquina” para lançar a sua campanha presidencial Ventura sabia o que estava a fazer: não apelava ao passado, convocava o futuro. O truque garante-lhe exposição mediática, polariza e mobiliza um campo em ascensão — o dos que olham para as democracias como regimes capturados por elites, com instituições de intermediação nas quais não se pode confiar, e que aguardam por um homem forte que ponha fim à alegada “bandalheira”. Nuns casos é Putin, noutros Trump. A nós, calhou-nos o Andrezito — para usar o acertado epíteto de Isaltino Morais.»

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