9.1.26

O melhor não-candidato

 


«Quem está desencantado com a política deve fazer uma reflexão profunda e ajustar as suas expectativas. Uma coisa é o eleitor ser exigente; outra é ser mimado. Nas próximas eleições presidenciais, os cidadãos terão à sua disposição, no boletim de voto, 14 nomes. Desses, só 11 tiveram as suas candidaturas aprovadas pelo Tribunal Constitucional. Ou seja, vai ser possível escolher candidatos que são mesmo candidatos e candidatos que o não são. O velho lamento dos eleitores rabugentos, que sempre se queixaram de não sentirem identificação com nenhum dos candidatos, perde razão de ser porque agora, além dos candidatos, podem escolher não-candidatos. Se não se identificarem com qualquer dos candidatos e também não encontrarem uma única pessoa válida entre os não-candidatos, é perfeitamente legítima a suspeita de que o problema talvez seja deles.

Como sempre, no nosso país as boas iniciativas são vistas com desconfiança. Em vez de inspirar alegria por oferecer maior possibilidade de escolha, a inclusão dos nomes dos não-candidatos no boletim foi alvo de azedos reparos. Para quê, perguntam os críticos, juntar o nome de gente que não tem a mínima hipótese de ser eleita, à lista dos candidatos oficiais? Trata-se de um péssimo argumento. Entre os candidatos oficiais também há muitos que não têm a mínima hipótese de conseguir a eleição. Porque é que o sr. José António de Jesus Cardoso, que está no boletim apesar de não ser candidato, teria menos direito a figurar na lista do que André Ventura — que, de acordo com todas as sondagens, também não tem qualquer hipótese de ser Presidente da República, uma vez que perde com qualquer outro candidato numa hipotética segunda volta?

A razão para o boletim ter 14 nomes em vez dos 11 que foram aprovados é surpreendente: o boletim foi impresso com demasiada antecedência. Talvez seja a primeira vez que, em Portugal, o Estado faz uma coisa com antecedência, em vez de a deixar para o último minuto. Em lugar de haver boletins a menos, porque só começaram a ser impressos na véspera, há boletins com candidatos a mais, porque foram impressos há semanas. O facto de ambos os métodos merecerem críticas pode deixar o Estado confuso, e até magoado. Faça o que fizer, ninguém aprecia. E por isso pode decidir-se por, para a próxima, não imprimir boletim algum. O que poderá, enfim, merecer elogios, dado haver, ao que parece, um número crescente de pessoas para as quais isto de haver eleições é uma fonte de chatices perfeitamente evitáveis.»


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