26.9.25

Que maravilha/chatice, isto da liberdade

 


«Sobre isto da liberdade de expressão parece haver três opiniões possíveis: há quem seja a favor, há quem seja contra, e há quem seja a favor ou contra consoante goste ou não goste do que os outros dizem. Convém manter presente que só o primeiro grupo é constituído por democratas. As pessoas que pertencem ao segundo grupo raramente o confessam em público — o que só lhes fica bem. Uma vez que são contra a liberdade de expressão, faz sentido que permaneçam caladas, a dar o exemplo.

O Presidente dos Estados Unidos da América, a terra dos livres, disse esta semana o seguinte: “Li algures que as televisões estavam 97% contra mim, repito, 97% negativas, e mesmo assim eu venci, e facilmente [as eleições]. Elas só me dão má publicidade, má imprensa. E, quer dizer, têm uma licença. Eu diria que talvez a licença lhes devesse ser retirada.” Donald Trump pertence ao terceiro grupo, juntamente com vários dos seus apoiantes — e, curiosamente, vários dos seus adversários. Que haja cidadãos para os quais a liberdade de expressão deve ser limitada quando ouvem coisas que consideram ofensivas é infeliz, mas talvez não seja muito grave. Já que o Presidente de um Estado democrático esteja convencido do mesmo é capaz de ser um pouco perturbador.

A questão de saber se o Presidente, incumbido de defender a lei que protege a liberdade de expressão, pode em vez disso apelar à limitação da liberdade de expressão, é de ordem legal — mas também há um problema de ordem lógica. Se, como Trump tem afirmado, é verdade que Charlie Kirk morreu pela liberdade de expressão, então as pessoas que usam a sua liberdade de expressão para se pronunciarem sobre a sua morte, incluindo as que dizem sobre o assunto coisas horríveis, estão a homenagear Charlie Kirk. Por outro lado, as que pretendem limitar a liberdade dos outros, mesmo — ou sobretudo — dos que dizem coisas horríveis, estão a ofendê-lo. Donald Trump devia estar indignado com Donald Trump.

As declarações de Trump não são propriamente surpreendentes. Ninguém pode dizer que está surpreendido, tanto quanto ao conteúdo como quanto ao estilo. O Presidente dos EUA cita as fontes em que costuma confiar para obter informação: “algures”. Depois revela que, por muito que os media conspirem esmagadoramente contra si, mesmo assim isso não tem qualquer efeito, visto que apesar da maquinação ele “vence facilmente”. No entanto, apesar de os conspiradores não lhe causarem qualquer dano, mesmo assim ele acha que não deviam poder criticá-lo. Tenho a ideia de que este tipo de pessoa que, por causa de mero desconforto, se desfaz em queixinhas e lamúrias, tinha um nome. “Snowflake”, parece que era.»


0 comments: