«Como ponto de partida para afastar a idiotice — que se apressa a ver o mundo a preto e branco, que pretende dividi-lo entre bons (eles) e maus (os outros), que se apressa igualmente a olhar para quem condena a flagrante violação do direito internacional como pretendendo defender Nicolás Maduro — fica já dito que a queda do ditador é uma boa notícia. Ponto final. Parágrafo.
Feito o aviso, importa dizer que não há nada de democrático nas intenções de Donald Trump. Citando o exemplar mais parecido com o autocrata americano que temos por cá, deixemos de lado a “conversa de chacha”. Trump foi longo na intervenção que fez a partir da sua estância balnear e quase não falou de democracia. Foi, aliás, com o desplante de sempre que falou em “ganhar muito dinheiro com o petróleo que eles roubaram aos Estados Unidos”. O mais benevolente que podemos ser com o senhor Trump é dizer que ele é louco, mas isso quer dizer que é preciso assumir que o mundo livre, a começar no que ainda resta de liberdade nos próprios Estados Unidos da América, tem um problema grave para resolver.
A loucura de Trump é o combustível certo para fazer andar as autocracias mundo fora. Como podemos ficar satisfeitos se a América, no seu quintal, invade um país e rapta o seu ditador, quando isso significa que a Rússia e a China vão poder assumir que também não têm de dar cavaco a ninguém nas suas zonas de influência? Trump acaba de ajudar Putin a justificar a invasão da Ucrânia e de fornecer a Xi Jinping argumentos para finalmente juntar Taiwan à grande China.
Faz espécie ver os líderes europeus reagirem com excessivas cautelas às coboiadas do xerife de Washington, tanto mais que pesa sobre eles a ameaça trumpista de os deixar sozinhos na frente leste e, bem pior, de anexar a Gronelândia ignorando a lei internacional, a vontade dos nativos da ilha e a democracia dinamarquesa. Neste cantinho à beira-mar plantado, lendo Montenegro e Marcelo, concluímos que podemos ser pequeninos como país, mas somos grandes na fé de que Trump há-de levar a Venezuela por bom caminho.
Quando tudo se desmorona à nossa frente e teimamos em fazer de conta que não vemos, há sempre Martin Niemöller* para recordar onde tudo acaba quando julgamos que nunca chegará a nossa vez. Adaptando o que ele disse, depois de libertado, ao que Trump está a fazer com o mundo: primeiro bombardeou o Irão, achámos muito bem, porque podiam ter um projeto nuclear. Depois, bombardeou a Nigéria para proteger os cristãos, não protestámos, porque somos cristãos. Quando invadiu a Venezuela, reagimos com cautelas, porque o regime era uma ditadura. E depois, quando se voltar de novo para a Gronelândia, vamos entregar a ilha, porque não podemos ficar sem aliado. E, se ele um dia quiser os Açores, podemos protestar à vontade, porque já não haverá ninguém para nos ouvir.
* Martin Niemöller (1892–1984)
https://www.britannica.com/biography/Martin-Niemoller
Pastor luterano na Alemanha, após Hitler chegar ao poder em 1933, Niemöller tornou-se um crítico ferrenho da interferência de Hitler nas igrejas protestantes. Passou os últimos oito anos do governo nazi, de 1937 a 1945, em prisões e campos de concentração. Niemöller ficou conhecido pela sua declaração efetuada no período do pós-guerra:
“Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista. Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista. Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu. Foi então que eles vieram buscar-me, e já não havia mais ninguém para me defender.”»
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