«Como é evidente, o povo português é o desgraçado da anedota. Na sequência de um acidente, um homem está no hospital com as pernas e os braços partidos, falta-lhe um olho e come por um tubo. Exasperado com a sua má sorte, solta um palavrão. Uma freira vai a passar e repreende-o:
— Não devia dizer coisas dessas, meu filho. Deus castiga.
— O que é que ele vai fazer, irmã? Despentear-me?
Para mim, que estou a perder o cabelo, a anedota não é assim tão engraçada. Sei que é possível Deus intervir de forma bastante cruel a nível capilar. Todos os dias surpreendo, ao espelho, um careca na minha casa de banho. Levo algum tempo a perceber que sou eu. Ainda assim, ocorre-me aquela anedota sempre que, na televisão, um comentador diz recear que venha aí uma crise política. Confesso que não estou muito preocupado. Creio que uma crise política seria uma lufada de ar fresco. Tivemos quatro eleições legislativas nos últimos seis anos. Uma crise, segundo o dicionário, é uma perturbação, uma mudança súbita, um percalço na marcha regular das coisas. Gostaria imenso que um percalço viesse subitamente perturbar o modo como as coisas têm marchado regularmente. Quando a marcha regular das coisas é haver eleições num período cada vez mais curto, uma crise seria uma legislatura chegar ao fim.
Parece-me que basta examinar o modo como os acontecimentos têm decorrido para perceber o que o país nos está a querer dizer. Houve eleições em 2019. E, a seguir, em 2022 — três anos depois. E, a seguir, em 2024 — dois anos depois. E, a seguir, em 2025 — um ano depois. Não sei se estão a ver onde quero chegar. É muito óbvio que se trata de uma contagem decrescente. Portugal está a contar: 3, 2, 1… Como se faz na passagem de ano. Ou antes do deflagrar de uma bomba. O país parece sentir que alguma coisa está para acabar. Como a contagem decrescente tem a ver com o espaço entre eleições, é possível que o que está para acabar seja a democracia. O cansaço gerado pela instabilidade costuma levar a um desejo de estabilidade. Fartas de legislaturas cada vez mais pequenas, certas pessoas podem sentir-se tentadas a querer experimentar legislaturas cada vez maiores. Com 48 anos de duração, por exemplo. Sendo assim, uma crise não é exactamente um problema. É capaz de ser uma necessidade.»

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