«Foi a fraqueza dos principais candidatos que determinou esta fragmentação nos votos e uma quase total imprevisibilidade nos resultados. Houvesse, à esquerda e à direita, candidatos agregadores, e estaríamos a caminhar, nesta campanha, para uma concentração de votos em quem, em cada campo político, tivesse capacidade de chegar a uma segunda volta que, com o espaço ocupado por André Ventura e a extrema-direita, seria sempre inevitável.
À direita, aconteceu exatamente o oposto. O espaço político e mediático da direita liberal achou que Marques Mendes repetiria o fenómeno Marcelo. O palco televisivo foi fundamental para o atual Presidente, mas Marcelo era popular porque era Marcelo. As televisões não inventam presidentes. Marques Mendes nunca teve o estatuto intelectual, o magnetismo pessoal, a excentricidade emocional e a densidade política de Rebelo de Sousa, Presidente de que fui e sou crítico e que até considero, em parte, responsável pelo momento que estamos a viver. Mendes é uma personagem plana, que durante uma década se dedicou a um comentário pedagogicamente eficaz, mas com pouquíssimo rasgo. Houve, como acontece frequentemente, uma confusão entre notoriedade e popularidade. Não é o último e não será o primeiro político a esbarrar com os limites do poder da televisão.
Estando, apesar de tudo, consciente dos limites da sua popularidade, Marques Mendes tomou a decisão certa – concentrar-se no eleitorado da AD, suficiente para o levar à segunda volta, para só depois trabalhar no voto útil. Só que Gouveia e Melo estragou-lhe os planos. O ataque que lhe fez, que costuma vir de candidatos sem ambições maiores, teve um efeito mais poderoso do que eu próprio supunha. Porque revelou um Marques Mendes que o mundo mediático e político conhece e, por isso, já enquadrou e relativizou, mas que era absolutamente desconhecido do eleitorado – o lobista.
Para a generalidade dos eleitores, Marques Mendes era um ex-lider do PSD, advogado e comentador. Fora isso, nada sabiam sobre ele. Porque, verdade seja dita, as pessoas não querem saber mais do que as opiniões de quem opina. Quando quem opina quer ser eleito (e estas foram as primeiras eleições a que Marques Mendes concorreu), as coisas mudam. E o problema de ser um lobista não é legal ou ético. É político. É verdade que os portugueses relevaram a Spinumviva (um caso com contornos éticos realmente graves) a Montenegro. Mas Montenegro já era primeiro-ministro e uma maior severidade teria um preço político. Marques Mendes só é candidato. Há outros para escolher.
Atarantado com o ataque, incapaz de reescrever o seu próprio currículo, Marques Mendes agarrou-se ainda mais a Montenegro. E o que era a medida certa de proximidade passou a descarada subserviência. Até a ministra da Saúde, que se mantém no cargo para não queimar mais ninguém numa pasta em que o Governo não tem soluções, teve direito à sua proteção, responsabilizando pelo que acontece no SNS um diretor executivo que ela escolheu depois de afastar gente competente. Como disse a demissionária chefe de enfermagem da ULS Amadora-Sintra, uma ministra que resolve todos os problemas demitindo pessoas fica no lugar porque não é demitindo ministros que os problemas se resolvem.
Tenho dúvidas de que mesmo o eleitorado da AD queira um Presidente adjunto, incapaz de fazer pressão sobre um governo que domina as autarquias e os governos regionais e tem conseguido amansar a imprensa pública e privada, mostrado crescentes sinais de autossuficiência e arrogância. Não sendo absoluta (teve uma excepção com Jorge Sampaio, em 1996, depois de uma década de poder total do cavaquismo), a teoria dos ovos distribuídos por cestos continua a ser válida. Os portugueses tendem a apreciar esta ligeira dispersão de poder, que cria atrito sem bloquear. Muita coisa mudou. Veremos se isto também.
O aparente crescimento de Cotrim e de Seguro parece resultar do esvaziar do espaço de Marques Mendes. Não sei se será suficiente para tirar o candidato da AD da corrida. Não sei, no caso do candidato liberal, se é sequer tão significativo como surge em sondagens cuja metodologia impõe algum desvio social e etário. Sei que Marques Mendes não se preparou para justificar a forma como fez render a sua existência política. E isso diz alguma coisa sobre a sua própria fragilidade. Veremos se saltar para o colo do Governo chega para compensar. No passado, com governos bem mais populares (com maioria absoluta), não chegou. Os eleitores de direita podem preferir um Presidente colaborante, mas autónomo.
A questão é se, numa segunda volta, o radicalismo doutrinário de Cotrim não deixa este espaço num canto político. O centro prefere Seguro a Cotrim e não sei se toda a esquerda escolhe Cotrim contra Ventura. Seja como for, a divisão do eleitorado da AD deu uma inesperada esperança à esquerda.»

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