16.10.25

Um Nobel para Trump. E um Óscar, também

 


«Vai ser difícil explicar esta aos vindouros. O mundo está num estado de insanidade tal que foi Donald Trump — Donald Trump! — a dizer: bom, vamos lá parar com esta loucura. Bem sei, bem sei. Ainda há pouco tempo ele estava empenhado na construção de um grande empreendimento imobiliário de luxo no local onde decorria uma catástrofe e numa operação de limpeza que implicava a remoção de milhares de pessoas para longe da sua terra. Enfim, pormenores.

Mas de repente resolveu envolver vários países da região em negociações que resultaram num acordo de paz. Há quem diga que só tomou essa decisão por vaidade. O seu único objectivo, dizem os críticos, era vencer o Prémio Nobel da Paz. Por mim, não o censuro. Se ele obtiver uma paz minimamente estável e duradoura naquela região, acabando com o horror a que todos assistimos nos últimos anos, proponho dar-lhe não apenas o Nobel da Paz mas também o Óscar de Melhor Actor. O Nobel da Paz para premiar os esforços levados a cabo para a obtenção da paz; o Óscar de Melhor Actor para premiar o modo como fingiu que a sua principal preocupação era a obtenção da paz.

Além disso, fico feliz que Donald Trump tenha interesse neste tipo de galardão. É importante não esquecer que ele foi eleito manifestando desprezo pelas instituições “do sistema”. Parte do fascínio que o seu discurso exerce sobre o eleitorado tem a ver com essa crítica às elites que atribuem estes prémios. Que ele esteja interessado em ser distinguido por essa elite malvada pode contribuir para pacificar a sociedade. Por mim, recebia também o Nobel da Medicina pela sua brava luta contra o paracetamol.

Na verdade, o que interessa a motivação de uma pessoa se o importante é o resultado obtido? Quando temos um filho pré-adolescente que não quer estudar e lhe prometemos uma viagem à Disneylândia se ele passar no exame de Matemática, queremos mesmo saber se ele se esforçou por amor à aquisição de conhecimento ou por afeição ao Mickey? Sei que a comparação com um pré-adolescente é injusta, dado que, em termos de maturidade, as crianças pré-púberes estarão num patamar superior ao do Presidente dos EUA, mas talvez a solução para todos os problemas do mundo seja prometer a Donald Trump uma viagem ao destino que, para ele, equivale à Disney. Que é, provavelmente, a ilha de Jeffrey Epstein. Há que perceber se é possível reabrir aquilo, com nova gerência.»


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