30.10.25

Danny Ocean é parvo

 


«Quem diz Danny Ocean diz Thomas Crown, e também diz aquele velhinho, interpretado por Sean Connery, que vai à Malásia roubar não sei quê juntamente com Catherine Zeta-Jones. No passado dia 19 de Outubro, às 9h30, três ou quatro ladrões envergando coletes amarelos estacionaram um camião de mudanças junto ao Museu do Louvre, subiram na plataforma elevatória até à varanda do primeiro andar, partiram o vidro da janela, dirigiram-se à galeria de Apolo, serraram algumas vitrines com uma rebarbadora, e roubaram jóias no valor de 90 milhões de euros. Depois, saíram por onde entraram e desapareceram nas suas motas, a caminho da auto-estrada.

Note-se que não elaboraram um plano complicado, não foram requisitar as plantas do museu para ver se era possível introduzirem-se no sistema de ventilação sem serem vistos, não se disfarçaram sequer com um bigode postiço. Ora, não foi a isto que o cinema me habituou. Eu estava há anos convencido de que não era possível assaltar um museu sem antes treinar durante semanas num armazém onde era fielmente reproduzido o interior do museu e o seu intrincado sistema de raios laser, do qual era preciso escapar com cabriolas que só estão ao alcance de atletas olímpicos.

Nos filmes em que se realiza um assalto destes, a equipa de ladrões inclui sempre um especialista em explosivos, um génio da informática, um carteirista experimentado e um acrobata de nacionalidade chinesa. Em todos esses filmes, o assalto requer um investimento que chega a ascender a metade do valor do saque. Os gatunos que assaltaram o Louvre compraram uma rebarbadora e quatro coletes. Com 40 euros apetrecharam-se para roubar 90 milhões. Mais: estes ladrões não dedicaram sequer dois minutos a pensar numa estratégia para se esconderem da equipa responsável pela segurança do museu. Os guardas abordaram-nos e eles limitaram-se a fazer-lhes ver que a rebarbadora, quando em contacto com o corpo humano, aleija. Os guardas foram sensíveis a esse argumento e afastaram-se.

Na comunicação social foram publicados vídeos, feitos pelos próprios seguranças, dos criminosos a cortarem tranquilamente o vidro das vitrines. O assalto foi uma lição importante para os museus, mas sobretudo para Hollywood. Este tipo de filme deve passar a durar apenas cinco minutos. O orçamento não precisa de exceder os 40 euros. E o realizador deve concentrar-se em filmar, não os imponentes casinos de Las Vegas, nem a paisagem de Kuala Lumpur, mas o duro e prosaico perfil de uma rebarbadora.»


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