21.7.25

O cheguismo está em todo o lado. Oxalá o povo acorde!

 


«Vivemos tempos perigosos, em que discursos de ódio e exclusão se normalizam no meio do desespero de quem trabalha, paga impostos e continua sem conseguir pagar uma casa ou pôr comida na mesa. É nesse vazio — onde o Estado falha e a empatia desaparece — que o cheguismo cresce. O perigo, obviamente, não está no imigrante, nem no pobre, nem no que é diferente. O perigo está no cinismo político que perpetua a injustiça para colher votos fáceis.

Tenho a sorte de ser filho de quem sou: pais com uma visão humanista da sociedade, católicos praticantes, mas fiéis ao primado da razão, do conhecimento e da ciência. Defensores acérrimos da liberdade e da dignidade de todos os indivíduos — todos, sem exceção, independentemente do local onde nasceram ou da condição social e económica em que vieram ao mundo. Com nove filhos, jamais lhes passaria pela cabeça que as pessoas fossem avaliadas pela cor da pele, pela forma como se vestem ou pelo que comem, pela religião que professam ou pela absoluta descrença no religioso. Para os que me educaram pelo exemplo, as pessoas sempre foram avaliadas pela capacidade que têm de se dar aos outros. Afinal, como pode alguém querer afirmar-se cristão cometendo a blasfémia de contrariar a máxima do Criador? Existimos todos à Sua imagem e semelhança.

Partilhando a visão do mundo, não fui abençoado pela fé dos meus pais. Sou agnóstico; não procuro no divino as explicações ou as soluções para as coisas terrestres. Sou crente na democracia, na política como espaço de justiça. Influenciado pela social-democracia e democracia-cristã dos meus pais, cresci a saber que o racismo e a xenofobia não pertencem nem à esquerda nem à direita — são apenas o território onde medra a desumanidade. À esquerda e à direita, há gente por engano, por desatenção, até por cansaço, que os impede de mudar de lado. Mas quem decide abraçar a forma mais cobarde de combater o medo — usando-o contra o outro — define-se como pessoa.

Em véspera de eleições, este é o problema das barracas em Loures e do modo como cada um olha para a decisão política de destruir o único teto daquelas famílias. Ser do PS não exige nem mais nem menos daquele autarca do que se exigiria a qualquer outro. Mas, quando as ações se aproximam da lógica do Chega, há algo profundamente errado. E ele não está sozinho: há políticos em vários partidos desejosos de surfar a onda do cheguismo. Fazem tudo o que acham que os pode levar à vitória. E talvez estejam certos — o povo, por vezes, foi cúmplice dos seus próprios carrascos. Não tenho dúvidas: nas atuais circunstâncias, se, em vez de imigrantes dos PALOP, estivéssemos a falar de pobres portugueses brancos, nenhuma barraca iria abaixo sem uma solução digna à vista. E bem. Porque essa era — e é — a decisão correta.

Só na Área Metropolitana de Lisboa há mais de três mil famílias a viver em 27 bairros de barracas. Ninguém escolhe viver assim. A maioria destas pessoas trabalha. Há poucos anos, conseguiam pagar renda. Hoje, vivem encurraladas num dos países da Europa com os salários mais baixos… e com os custos mais altos em habitação e alimentação. Querer culpar toda esta gente pela situação em que se encontra é, repito, o grau zero da política.

Sejamos optimistas, um dia o povo acorda e percebe que não é com o cheguismo — esteja ele no Chega, no PS, no PSD ou noutro partido qualquer — que se criam sociedades mais justas. Bem pelo contrário: com o cheguismo perpetua-se a pobreza e a injustiça, responsabilizando sempre os mais vulneráveis. É para isso que serve o racismo e a xenofobia. No meio do caos, não falta quem queira criar a perceção de que a culpa é das vítimas.

________________________________________ P.S. Sobre a Iniciativa Liberal A convenção da IL só não foi um acontecimento sem história porque Cotrim resolveu dar-nos meia história com a ponderação que está a fazer. Está a contar com o excelente resultado que teve há um ano, nas Europeias, mas uma coisa é votar em quem pretende cumprir o mandato, e outra, bem diferente, é votar (ou não votar) em quem se apresenta apenas para cumprir calendário e tentar evitar o declínio do partido.

A IL queria crescer e estagnou; a tendência será a de minguar até à irrelevância de um partido com saudades do seu ideólogo (Carlos Guimarães Pinto) e excessivamente dependente do seu melhor performer (João Cotrim Figueiredo). Depois de se colocar na sombra do êxito eleitoral de Montenegro, nas Legislatrivas, e de se entregar a coligações sem sentido em muitas autarquias, a Iniciativa Liberal caminha para se tornar no futuro CDS, diluído na AD.»


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