9.10.25

Discursos previsíveis e campanhas preguiçosas não mobilizam ninguém

 


«A sociedade evoluiu e com ela precisamos de evoluir todos. Adaptarmo-nos às novas realidades deixou de ser opcional, para passar a ser uma necessidade. Não se pode fazer o que ‘sempre se fez’, porque vivemos tempos que nunca se viveram.

Da mesma forma que integrámos novas tecnologias no nosso dia-a-dia, também a forma de comunicar precisa de ser repensada. A comunicação que se cria, pensa e produz hoje, não é a mesma que há 50 anos, e ainda bem. Isto não significa necessariamente que o que se faz hoje em dia seja melhor ou pior do que o que se fazia antigamente; quer dizer que é diferente, ou que pelo menos deveria ser.

Já existiram campanhas absolutamente brilhantes. Em Portugal, tivemos a histórica “Por Ti, Lisboa” de Jorge Sampaio e a inesquecível “Soares é Fixe”. Lá fora e mais recentemente, a campanha “Harris for President” que, na minha opinião, foi uma das melhores e mais criativas de sempre, ou a do partido Die Linke nas eleições federais alemãs deste ano. Dito isto, pergunto-me: se já se criaram campanhas excelentes, nacionais e internacionais, por que motivo continuamos a ver tanto desmazelo na comunicação política em Portugal?

Temos hoje mais recursos do que antes. Desde o acesso a novas tecnologias, a plataformas e redes sociais digitais, bem como outras ferramentas de comunicação online que outrora não existiam. Não obstante, continuamos a ver campanhas sem graça, sem estratégia e sem propósito.

Estamos a pouquíssimo tempo das autárquicas. De repente, as ruas voltaram a ser inundadas por cartazes, billboards e flyers. Os anos passam, os candidatos mudam, as eleições repetem-se, e os partidos continuam a acreditar que comunicar é apenas falar, quando já deviam ter começado a ouvir. Parece não se compreender o que é de facto preciso mudar: a forma como se comunica.

Vi campanhas espalhadas por todo o país e conto pelos dedos de uma mão, aquelas que realmente contam uma história e são capazes de se conectar com as pessoas. Os discursos são previsíveis. As campanhas são preguiçosas e seguem fórmulas repetidas. As ‘estratégias’ de comunicação são fracas. Continuamos na ‘mesma mesmice’: o básico, o mediano, o medíocre.

As autárquicas representam talvez as eleições mais importantes depois do fiasco das legislativas. Ainda assim, o padrão mantém-se. Os candidatos falam de forma igual, dizem as mesmas coisas e têm medo - muito medo - de arriscar e de sair da monotonia que não mobiliza, nem entusiasma. A existência de um candidato requer que ele viva tanto na rua com as pessoas, como no digital com os algoritmos.

A comunicação política deve acompanhar o progresso. É preciso compreender que uma campanha eleitoral é uma campanha de comunicação. Enquanto académico e profissional de comunicação, inquieta-me saber que os directores de campanha não são profissionais da área, mas sim juristas, engenheiros ou gestores.

É preciso fazer mais e é preciso fazer melhor. A incompetência dos partidos e candidatos na sua comunicação é também responsável pela falta de interesse das pessoas, sobretudo dos jovens, pela política. Precisamos de ver robustez e deixar de lado os hashtags sem sentido e a sobreutilização de emojis para ‘comunicar com a Geração Z’. Temos assistido a uma comunicação política fraca, que não se impõe, que tem medo, que não arroja, que não tem coragem e que não alcança os públicos que tem e alcançar. Uma comunicação que envergonha e que não é capaz de mobilizar ninguém.»


0 comments: