«Tudo começou com um telefonema entre Trump e Putin. Continuou com as declarações do secretário da Defesa na reunião da NATO e acabou com as do vice-presidente na Conferência de Munique. Há momentos em que a História acelera e dias que valem por décadas. Se for o que parece, este é um desses momentos históricos que se seguem ao fim das guerras e mudam a ordem mundial. Como o Tratado de Versalhes, em 1919, os de Ialta e Potsdam, em 1945, ou a queda do Muro de Berlim, em 1989.
Trump pôs fim à guerra na Ucrânia e tornou claro ao que vinha. Falou primeiro com a Rússia. E é entre a América e a Rússia que se definem os termos da paz. Só depois falou com a Ucrânia. Para a informar. E à Europa nem isso.
A Rússia conquista todos os seus objectivos de guerra. Primeiro, os objectivos explícitos: a Ucrânia não entra na NATO e não regressa às fronteiras pré-2014. Isto é, a Rússia ganha a Crimeia e o Donbass. Depois, os objectivos implícitos: a divisão do Ocidente, a fractura transatlântica e o enfraquecimento da Europa. Mais: de um só golpe, deixa de ser um Estado-pária e passa a ser um interlocutor credível e um dos grandes do mundo.
A Ucrânia, pelo contrário, é a grande perdedora: perde 20% do seu território e perde, sobretudo, a liberdade para decidir do seu destino: europeu e democrático. E quem sabe, se nas próximas eleições, sob coacção, não se torna uma segunda Bielorrússia?
Perdedora é, igualmente, a Europa. Menorizada, marginalizada e apagada das grandes questões internacionais, a começar pelas da sua própria segurança. Trump nunca escondeu a sua concepção transaccional da Aliança e desde o seu primeiro mandato que avisou que, se a Europa não pagasse, a América não a defenderia. Agora reafirmou tudo o que sempre disse e os europeus não quiseram ouvir. Que não se sente comprometido com o artigo 5.º e que a Europa, se quiser garantir a sua defesa colectiva, terá de o fazer sem a América. Isto é, a NATO como a conhecíamos deixou de existir.
Entre o abandono americano e a ameaça russa, a Europa está, agora, entregue a si própria. E se, como se antevê, o acordo de paz premiar o agressor e consolidar as suas conquistas territoriais, que melhor incentivo pode ter Putin para ir mais longe na Europa? O objectivo final como ele próprio o disse, nas condições que pôs à NATO antes da invasão, são as fronteiras do antigo Pacto de Varsóvia. E mesmo que o não consiga, militarmente, não parará a guerra híbrida para desestabilizar, dividir e enfraquecer a Europa.
Dito isto, sejamos claros: não foi a Rússia que ganhou a guerra, foram EUA que impuseram a derrota aos aliados e deram a vitória ao inimigo. Mas o que está em jogo vai muito para além da Ucrânia e a da segurança europeia. A mudança é a da própria ordem mundial.
Desde a Segunda Guerra que os EUA promoveram um sistema internacional assente no livre comércio, na democracia liberal e numa rede de instituições multilaterais que asseguraram a cooperação internacional, a segurança e a paz. Uma ordem internacional baseada em regras que lideram, no Ocidente, durante a Guerra Fria e, globalmente, no pós-Guerra Fria. Ora, é essa ordem internacional baseada em regras, já em erosão, que Trump rejeita e a que agora pôs termo. Porquê? Porque as regras e as instituições internacionais impõem limites à sua acção nacionalista e unilateral, transaccional e predadora. No plano económico, como no plano político.
Como é obvio, Trump quer precisamente o contrário: uma ordem internacional baseada nos negócios e na diplomacia coerciva que os sustenta: as tarifas; as sanções; e as ameaças. Uma ordem internacional em que a força vale mais que a lei, e o poder vale mais que a razão. Uma ordem internacional desenhada sobre esferas de influência e em que a expansão territorial das grandes potências é considerada legítima e um comportamento normal. A Rússia na Ucrânia, os EUA na Groenlândia, ou a China em Taiwan. É o regresso à velha rivalidade entre as grandes potências e ao choque dos imperialismos. E, nesse jogo, os EUA não me parece que vão sair vencedores. Nós, na Europa, infelizmente, sabemos como isso acaba. Por duas vezes acabou mal. O historiador francês, Jacques Bainville, dizia a propósito do Tratado de Versalhes, que se tratava de “fechar a ferida deixando a infecção no interior”. Ou muito me engano, ou vamos pelo mesmo caminho.
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