«A utilidade do voto mede-se pelo seu objetivo. E a mesma pessoa pode ter objetivos diferentes em diferentes eleições. Quer pelas circunstâncias, quer pela sua natureza — em legislativas é possível formar maiorias sem ficar em primeiro, em autárquicas tem mesmo de se vencer, nas europeias isso é irrelevante e em presidenciais não sobra nada de uma derrota, porque “the winner takes it all”. Nas segundas presidenciais de meio século de democracia em que haverá segunda volta a dinâmica do voto útil é imparável. Porque só dois dos três grandes blocos políticos lá chegarão. E a extrema-direita é que tem os eleitores mais fiéis. Normalmente, a dinâmica da campanha levaria à concentração de votos nos candidatos de cada campo político. Mas são tão fracos que o processo foi retardado até ao fim. O voto já nem é pelo mal menor. Demasiados portugueses votarão em candidatos que não respeitam. Em candidatos que sempre disseram que nunca teriam o seu voto. Mas estamos a fazer uma espécie de segunda volta na primeira. Saber quem vai a votos com Ventura, por assumirmos o risco de ele lá estar. E estamos a fazer isto às escuras, com base em tracking polls e barómetros que valem pouco e uma única sondagem.
A direita parecia ter um candidato. Um facto consumado por uma década de presença na televisão. Talvez pelo excesso de confiança de tantos anos sem debater, Marques Mendes julgou que caminharia até Belém sem ter de explicar qual foi a sua profissão na última década. Obviamente não aconteceu, e a rea¬ção ao cerco mostrou que a pouca substância política (apesar da muita experiência nos corredores do poder e dos negócios) corresponde a pouca resistência. Foi-se abaixo. E o que era uma estratégia correta — apostar no eleitorado da AD, que o pode levar à segunda volta — passou a dependência desesperada, ao ponto de defender a ministra da Saúde. Nem os eleitores da AD apreciarão um Presidente adjunto num momento de enorme concentração de poder. Foi assim que Cotrim, uma espécie de suplente mais livre e fresco, foi trepando. Só que a bebedeira da glória súbita exibiu o que qualquer pessoa atenta sabe: a IL tem pouco a ver com os seus congéneres europeus. Entre um candidato do extremo-centro que vem do “socialismo” e um candidato de extrema-direita não escolhe. Como sabe quem os acompanha nas redes ou está atento a como votam no Parlamento, os nossos “liberais” vêm, como Ventura e companheiros, da nossa direita profunda. Entre um “socialista” e um inimigo da democracia, recusam o que põe em causa o que realmente valorizam. E foi com estes tropeções que a direita dispersou o voto, permitindo ao centro-esquerda sonhar com a segunda volta.
Ainda assim, permanece o risco de uma segunda volta entre a extrema-direita e o candidato do Governo ou o candidato dos liberais radicais. O primeiro caso daria a Montenegro o poder absoluto. O segundo seria um estouro nos nossos valores constitucionais, que incluem democracia política (que o Chega põe em perigo) e democracia social (que a IL ataca). Qualquer dos cenários reforçaria uma guinada radical à direita que não deixaria de ter impacto na natureza do mandato do novo Presidente e no rumo da governação. De tal forma perigoso que é impensável a esquerda não reagir. Os candidatos mais à esquerda fizeram boas campanhas e podemos instituir que as circunstâncias tornam os seus resultados irrelevantes para qualquer análise. Valores mais altos se levantam e isto não são legislativas.
A esquerda vive o dilema da direita: um voto útil às cegas entre duas escolhas pobres. De um lado, um militar inexperiente, que aprenderá no cargo e está a ganhar convicções na campanha, mas dá maiores
garantias de controlo do Governo, criando o atrito de que a democracia precisa. Do outro, um político tépido, que criará um quase vazio em Belém, sendo improvável que alguma vez trave Montenegro, mas que representa valores decentes, sem estar dependente do primeiro-ministro. Se votasse por convicção, votaria em Catarina Martins, que fez uma excelente campanha. Se votasse para Presidente, votaria em Gouveia e Melo, que dá mais garantias de controlo da arrogância deste Governo. Mas voto para impedir uma segunda volta apenas entre a direita, seja extrema, radical ou do Governo, que criaria um desequilíbrio perigoso para o sistema. Segundo a única sondagem digna desse nome, Seguro é, por mérito próprio ou inércia tática, o único que o pode conseguir. E, se vencer, manterá mínimos de normalidade em Belém. Por isso, apenas por isso, terá o meu voto. Porque sei que o sacrifício que não fizesse agora teria de fazer, em dobrado, em fevereiro.»

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