15.1.26

“Tracking polls”: toda a campanha num gráfico

 


«”Em queda sucessiva, Marques Mendes apela aos indecisos”, “a lenta (re)conversão socialista a Seguro”, “o que Cotrim de Figueiredo está a fazer de diferente”. São apenas três artigos, mas servem para ilustrar o tom dominante da cobertura jornalística desta campanha. Tanto o acompanhamento noticioso como grande parte da opinião publicada (também a minha terá sido afetada por isso) e da que circula nas redes sociais se baseiam num único instrumento de auscultação dos eleitores até estes últimos dias de campanha: a tracking poll da Pitagórica para a TVI.

Durante grande parte da campanha, tudo aconteceu em torno destas supostas sondagens diárias. Desde o início do ano, só nos últimos dias tivemos uma sondagem propriamente dita – a da Universidade Católica. A Intercampus tem um barómetro, que também é outra coisa.

Quando, a poucos dias do apuramento dos votos, um em cada seis eleitores reconhece não saber em quem votar e metade ainda admite mudar o sentido de voto, percebe-se a importância redobrada que o voto tático terá nestas presidenciais. O problema é que a escassez de sondagens abriu espaço a uma leitura abusiva do que é, afinal, uma tracking poll. A cada dia, com base num instrumento enganador, foram-se forjando humores, reações, táticas, estratégias. E o voto dos eleitores também terá sido influenciado, funcionando estas “sondagens” como profecias autorrealizadas.

Uma tracking poll não é uma sondagem. Ao contrário do que tem sido repetido por grande parte da comunicação social, é um instrumento diferente, com objetivos distintos. As tracking polls servem para medir a evolução de tendências ao longo da campanha e são usadas há vários anos pelas direções partidárias para afinar o discurso, testar mensagens e tentar alcançar novos segmentos eleitorais. Não servem para dar um retrato do eleitorado num determinado dia.

Curiosamente, a distinção foi feita pela própria TVI quando lançou, pela primeira vez, esta forma de análise do comportamento do eleitorado em tempo real, nas legislativas de 2022. “A Tracking Poll permite monitorizar o comportamento contínuo do eleitor, cruzando informações para observar as tendências seguidas, a rejeição e a intenção de voto”, afirmava então Alexandre Picoto, administrador da Pitagórica. A prudência metodológica foi rapidamente abandonada em nome do imediatismo noticioso.

A comunicação social vive da novidade e, nesse aspeto, as tracking polls são tentadoras. Garantem números todos os dias, títulos todas as manhãs, dramatização em prime time. A questão, como mostra um estudo recente de Paulo Alexandre Pereira, da Universidade do Minho, é que estamos a ler um instrumento científico com as lentes erradas. Uma tracking poll não é uma sondagem nova a cada noite, mas uma “janela móvel” em que, a cada dia, muda uma parte da amostra. Neste caso específico, a cada dia há 150 novas respostas, gerando uma nova amostra a cada quatro dias.

Quando o espaço público se entusiasma com variações de um ou dois pontos percentuais, está a tratar ruído estatístico como se fosse uma viragem decisiva, efeito de um debate ou de uma mudança estrutural do eleitorado. Como diz o mesmo professor do Departamento de Matemática da Universidade do Minho, “uma diferença pequena num dia isolado não autoriza conclusões fortes; o que importa é saber se o movimento se repete e persiste”.

Estas leituras geram expectativas artificiais, dinâmicas de campanha induzidas, mobilizações e desmobilizações fabricadas. Esgotados que estão os comícios e as grandes mobilizações de rua, ainda para mais numa campanha no pico do inverno, a ideia de que temos uma sondagem todos os dias mobiliza e desmobiliza campanhas e eleitores. É mais um passo na desmaterialização das campanhas, que dependem cada vez menos da rua e do empenho militante.

Como já é a terceira vez que a TVI recorre a este método, sempre com a mesma empresa, podemos aferir melhor as suas potencialidades e limites.

Em 2022, quando António Costa alcançou uma maioria absoluta, o último resultado da tracking poll da Pitagórica indicava que “PS e PSD estão separados por 3,7 pontos, em empate técnico”. A aproximação do PSD ao PS, chegando mesmo a ultrapassá-lo a meio da campanha, foi a tónica deste estudo ao longo de duas semanas.

Nas legislativas do ano passado, o último resultado da Pitagórica dava 33% à AD, 25% ao PS e 19% ao Chega. Se acertou na vitória confortável da AD, a diferença de seis pontos entre o PS e o partido de André Ventura esteve a léguas do que aconteceu — com o Chega a tornar-se a segunda força mais votada, como sabemos.

Mas se olharmos para a evolução dos resultados da tracking poll ao longo da campanha das últimas legislativas, a tendência estava certa: PS sempre a descer e Chega sempre a subir. É aqui que reside a sua utilidade e é assim que deve ser analisada, não como um oráculo capaz de antecipar com precisão o resultado do próximo domingo. Ou seja: sabemos que Mendes caiu e Seguro e Cotrim subiram. Só isso.

Não serei o único a notar, à sua volta, uma dificuldade quase inédita na decisão do sentido de voto. Reflete, por um lado, o friso de candidatos mais fraco de que há memória e, por outro, a crescente desafetação entre o eleitorado e os partidos centrais do sistema. Mesmo com o apoio quase unânime das principais figuras do PS, a sondagem da Universidade Católica indica que Seguro parece garantir apenas metade do eleitorado socialista. Marques Mendes, ainda pior, vê João Cotrim de Figueiredo assegurar quase tanto a intenção de voto entre eleitores do PSD.

Num cenário de grande indecisão e voto tático, seriam desejáveis mais estudos e menos extrapolações abusivas a partir de um único instrumento. Como sempre, no fim serão os eleitores a decidir. A diferença é que decidem condicionados por uma campanha mediada por gráficos diários que dizem menos do que parece e mais do que deviam.»


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