24.11.25

Se calhar ainda vamos ter muitas saudades de Marcelo

 


«Todos os candidatos presidenciais se esforçam nesta campanha para mostrar que não são Marcelo.

Obviamente, nem todos chegam aos píncaros de André Ventura, que chamou “cobarde” ao Presidente por ter ouvido sem sair da sala o discurso de João Lourenço que falava da escravatura e colonização (coisas que nunca existiram na cabeça dos velhinhos imperialistas, que Ventura quer cooptar para o Chega).

Mas já sabemos que, para lá de Angola, Ventura também cortava relações com o Brasil (lembrem-se da figura que fez com a visita oficial de Lula a Portugal e o que diz do Presidente do Brasil sempre que pode).

Mas com Ventura ninguém precisa de se preocupar muito. O líder do Chega pode ter a esplendorosa vitória de passar à segunda volta, mas nunca será eleito Presidente da República. Na verdade, pode dizer o que quiser e espalhar todo o ódio que quiser porque nunca terá de responder pelo que diz. Ainda não é Donald Trump — gostava de ser, mas ainda não é.

Quanto aos outros candidatos, esfalfam-se a argumentar que não falariam a toda a hora — como fez Marcelo — nem dissolveriam a Assembleia em caso de chumbo do Orçamento e alguns até aceitariam, como Jorge Sampaio fez com Santana Lopes, que depois da demissão de António Costa outro socialista pudesse formar Governo.

Na verdade, Marcelo "deu" uma maioria absoluta a António Costa — imerecida, como se viu depois — ao dissolver o Parlamento depois do chumbo do Orçamento de 2022, deixando Costa e o PS a vitimizarem-se. Ajudou também à maioria absoluta a indefinição de Rui Rio sobre uma aliança com o Chega, o que fez muito voto útil de quem não queria uma aliança PSD/Chega fosse parar ao PS.

O facto de Marcelo não ter deixado outro socialista formar Governo depois da demissão de Costa é discutível. No momento em que Costa se demite, como se veio depois a provar nas eleições seguintes, os socialistas já tinham desperdiçado a maioria absoluta e já havia uma grande contestação ao Governo. É legítimo dizer-se que naquela altura o Governo já não tinha as graças do povo, como as eleições provaram.

De resto, havia o precedente Jorge Sampaio: embora em 2004 Sampaio tivesse agido de uma forma totalmente correcta e de acordo com a Constituição, foi mal compreendido dentro e fora da sua família política (e até muito incompreendido dentro do Palácio de Belém). O argumento — inconstitucional — de que “Santana Lopes não tinha ido a votos” fez carreira no espaço público, nomeadamente entre socialistas. Ferro Rodrigues, que era o líder do PS na altura, demite-se na sequência desta decisão.

Mais a mais, tinha sido o próprio Marcelo — quando deu posse ao Costa bafejado pela maioria absoluta — a afirmar que “a maioria era pessoal” e a ameaçar que se Costa abandonasse o Governo convocava eleições. Nesta altura, Marcelo quis assombrar a futura candidatura de Costa ao Conselho Europeu. Por linhas tortas que não desejou, Costa acabaria mesmo no Conselho Europeu e o país a virar inequivocamente à direita.

A questão é que Marcelo também esteve certo em muitos momentos. Boa parte do ódio que a direita lhe guarda é provocado pelo facto de ter “ajudado” a “geringonça” a manter estabilidade política no país durante quatro anos. Sendo de uma família política distinta do PS, é obra. O PS tem ainda a agradecer-lhe a maioria absoluta que tanto quis e desperdiçou.

Marcelo soube ter sentido de Estado múltiplas vezes, num momento em que entrou num sistema um partido de extrema-direita propagandista do ódio entre cidadãos. Soube, talvez primeiro que todos, que isso ia acontecer. Teve sentido de Estado a seguir aos fogos de Pedrógão quando o Governo PS teve um momento de descolamento da realidade. Teve sentido de Estado na relação com as antigas colónias.

Foi capaz, entre muitas selfies e outros exageros, de dessacralizar a instituição Presidente da República, o que era fundamental a seguir ao último mandato de Cavaco. Esteve mais perto do povo do que talvez nenhum dos seus antecessores.

O excesso de demarcação de Marcelo Rebelo de Sousa pode, se calhar, não ser uma ideia assim tão boa. Ah, basta ver o plano de "paz" para a Ucrânia para ver que o Presidente tinha razão quando considerou Donald Trump "um activo russo". Confirma-se.»


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