25.8.25

Os brinca na areia

 


«Esta crónica não é sobre os falhanços do Estado no combate aos incêndios — seja pela falta de meios aéreos e terrestres, seja pela absoluta descoordenação. Não é, tão-pouco, sobre o crónico insucesso na prevenção — seja pela desordenação florestal, seja pela ausência de limpeza das matas. E também não é sobre as alterações climáticas — sejam as ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas, seja a desertificação associada ao despovoamento. Sobre tudo isto muito se tem escrito, tanto nos últimos dias como ano após ano, desde que o fogo se tornou arma política. A lógica é sempre a mesma: para quem está na oposição, a culpa é de quem governa; para quem governa, a culpa é de todos, mas sobretudo do governo anterior.

Não sendo esta uma reflexão sobre o falhanço coletivo, importa sublinhar, ainda assim, que esta maneira de ser português prejudica profundamente as populações do interior. Mesmo aqueles que escapam sem a mais leve queimadura acabam vítimas do “deixa arder”. “Não tem paralelo”, afirma Marcelo sobre o que já se passou este ano, consciente de que morreram pessoas e arderam milhares e milhares de hectares. Ao ouvir o Presidente da República, fica-se com a impressão de que a brutalidade dos números de 2017 justifica tudo. Mas, muito antes disso, entre incêndios, aos do interior já lhes tinham retirado hospitais, escolas e agências bancárias. Construíram-lhes autoestradas de sentido único, rumo ao litoral, onde se concentram os empregos. E os que não conseguem fugir tornam-se um pouco mais pobres a cada ano que passa.

Génios do marketing político

Esta crónica é sobre os políticos que, de tão geniais, acabam por fintar-se a si próprios e a atirar a bola para o calçadão. Aqueles que estão sempre mais interessados em endrominar o povo do que em resolver os seus problemas. Os que, através dos pactos que propõem, tentam convencer-nos de que a culpa é precisamente dos mesmos com quem dizem querer pactuar. Do mesmo modo que os que agora são oposição se desfizeram em explicações que os ilibavam quando estavam no poder.

Os que, a meio do mês, estavam felizes e satisfeitos consigo próprios — com o pé na areia e o copo na mão — e se queixavam dos fogos que lhes estragavam a imagem festiva na televisão, não fazem um verdadeiro mea culpa: limitam-se a sacudir a água do capote. Pela análise do professor Marcelo, ficamos a saber que o grande plano é, afinal, muito semelhante ao que Costa apresentara — e que pouco ou nada resolveu. Pelo estremecimento de Marta Temido, ficamos a perceber que pode estar tudo colado com cuspe.

Fogo nas presidenciais

Antes da indignação coletiva que o ecrã dividido potenciou, o candidato presidencial Gouveia e Melo mostrou-se envergonhado com a avaria dos meios aéreos e pediu o fim do “Estado do improviso”. Logo surgiu o seu principal adversário, Rebelo de Sousa, estendendo a mão ao governo e garantindo que a coordenação era “espetacular”,enquanto o seu candidato, Marques Mendes, alinhava no politicamente correto que só permite discutir o combate aos incêndios quando já não houver nenhum incêndio para apagar.

Generalizada a indignação pela festa que não foi suspensa, Marcelo percebeu que tinha de mudar de campo. Depois de fintar meio mundo em apoio ao governo, resolveu recuar e fintar o outro meio, apontando o dedo a quem “está em execução e decide em cima da hora [porque] muitas vezes chega tarde ou não percebe bem o alcance [da situação]".

Nestes tratados de hipocrisia e cinismo, há pelo menos uma coisa em que temos de concordar: andamos todos — com honrosas exceções — a fingir que existem soluções fáceis, dependentes apenas da boa-vontade de quem detém o poder em cada momento. Mas, depois de improvisarem no combate aos fogos, acabam sempre por ter de improvisar também na comunicação política, quando percebem que, por muito elaborado que seja, o spin nunca consegue sobrepor-se à realidade.

Os políticos tradicionais estão viciados em falar uns para os outros e perderam a capacidade de perceber o que sente e pensa o povo. Com a desculpa do que aprenderam em 2017, deixaram de ir para o terreno — onde estava Gouveia e Melo, não para atrapalhar o combate, mas para ouvir quem tudo perde. O almirante rapidamente se deu conta de como crescia a indignação das populações do interior, deixadas ao deus-dará no meio do fogo. Lembram-se do autarca de Arganil, desesperado, a gritar que tinha avisado que aquela “merda” ia acontecer? Foi no dia da festa, mas a festa ainda nem tinha começado!»


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