«Se mesmo António Costa, depois da absoluta tragédia que foi Pedrógão, teve condições para voltar a ganhar eleições, não há nada que indique que Luís Montenegro, com o tempo como aliado, não possa apagar os efeitos de um Verão desastroso. Há, no entanto, sinais que podem perdurar, independentemente dos esforços de contenção de danos feitos nos últimos dias.
Um desses sinais é o da inexistência da ministra da Administração Interna. É a segunda vez que Luís Montenegro escolhe uma titular para uma pasta estratégica que aos primeiros sinais de uma crise se mostra inexistente. É ele o responsável, mas é ela o rosto da ausência governamental, lapidarmente registada na fuga do “vamos embora”. O peso deste erro de elenco está não só no facto de ser uma pasta com dossiers sempre importantes, como a segurança ou a protecção civil, mas por ser a tutela de polícias e bombeiros. Ambas são forças com uma imensa implantação territorial, uma ligação forte à comunidade e onde o Chega tem conseguido uma boa implantação.
Outra marca perene é a de que o Governo é frágil a gerir crises. Já tinha sido assim com o apagão, foi agora com os incêndios. Muito hábil na refrega política, o executivo atrapalha-se quando a crise a gerir está no país e não nos corredores de São Bento, do Parlamento ou dos ministérios.
Para quem domina a comunicação pelo silêncio, Luís Montenegro tinha obrigação de saber quando é mesmo preciso falar. O contraste entre o primeiro-ministro que entrou nos telejornais para comunicar os resultados de uma banal operação policial e aquele que só ao fim de quase um mês de incêndios é que se dirigiu ao país é uma imagem que permanecerá.
Depois de tanta inacção, o anúncio apressado de tantas medidas — com o episódio caricatural das taxas moderadoras — também não ajuda a contrariar a imagem de que o executivo é mais guiado pela necessidade de resolver um problema político do que a de ir à essência das questões que fazem com que sejamos o país da União Europeia com a maior percentagem de território ardida.
E o pior de tudo é o que já cá estava e que nada do que aconteceu nos últimos dias irá dissipar. Um interior abandonado, um país centralista e com falta de planeamento, um dispositivo operacional desorganizado e políticos que, em vez de evoluírem com os erros cometidos no passado, acham que têm de começar tudo de novo para fazer prova de vida e mostrar iniciativa. Até à próxima crise.»

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