31.3.25

“Se falhei muito, dêem-me maioria, para falhar melhor”

 


«Na semana passada, Ângela Silva deu-nos a oportunidade de encontrar uma utilidade política para estas eleições absurdas. Depois de especular sobre vários cenários, concluiu que qualquer um deles só teria uma saída útil se a AD saísse reforçada. Reforçada para ter “uma distância de respiração que funcione como airbag de sobrevivência e lhe permita prosseguir o trabalho que deixou a meio, provando o que vale”. E concluiu: “é esta, vendo bem, a melhor forma das eleições de dia 18 não serem uma inutilidade”. Não tenho dúvidas de que esta é a única razão por que Montenegro nos forçou esta crise: o pior momento reputacional coincidia com o melhor momento económico e orçamental.

Que Montenegro forçou esta crise já não é matéria de opinião. O airbag mediático permitiu que desistisse da vitimização ou da responsabilização da oposição pela crise política. Foi o próprio que, depois de semanas a tentar culpar PS e Chega pela crise, assumiu que queria estas eleições. Disse-o num programa de entretimento, onde deu a grande entrevista política da pré-campanha, escolhendo um apoiante como entrevistador, como escolhera o Observador para o escrutinar e os concorrentes com quem debater. Foi a votos porque esta era a tal oportunidade. Posso apostar que, daqui a uns dias, estará a pedir uma maioria “confortável” (com “distância de respiração”) para governar, apesar de ter governado quase sem resistência.

Desde o dia seguinte às eleições que digo o que era, na realidade, óbvio: o plano do governo era ser empurrado e cair, seguindo o guião de 1985-1987. Nem disfarçaram, para dizer a verdade. O discurso de Montenegro, na tomada de posse, foi um desafio para ser derrubado. O que me parece extraordinário é que revelações éticas comprometedoras, que deveriam obrigá-lo a lutar pela sua própria sobrevivência política, tenham sido tratadas como uma oportunidade para criar a desejada crise política e reforçar a maioria de governo. Rebenta a escala do cinismo.

Numa semana, Montenegro confessou que quis ir a eleições, decidiu que vai faltar a três debates e escolheu Hernâni Dias, o secretário de Estado que foi afastado por ter criado duas imobiliárias quando mudava a lei dos solos, para liderar a lista de Bragança. É um dos poucos cabeças de lista que não é ministro. Depois de ser criticado por não seguir o exemplo daquele que afastou, Montenegro garante uma coerência retroativa, reabilitando o “imprudente” Hernâni. Também reabilitou os acusados do processo Tutti-Frutti, que não podiam escolher candidatos autárquicos, mas participaram na escolha dos candidatos às legislativas.

Este à vontade de Montenegro, caricato em quem vai a votos sob maior escrutínio ético, resulta da convicção de que o bom momento económico e orçamental (distribuição de dinheiro) garante benevolência e a multiplicação de notícias oferece o cansaço. A notícia sobre uma investigação judicial que o envolve, num processo onde uma empresa com relação com a sua casa parece ter sido beneficiada na obra mais cara de Espinho pelos pareceres do seu escritório (que tinha a autarquia como cliente), já não teve o impacto da avença. E, no entanto, estão ali vários indícios sobre as relações “empresariais” e partidárias que ligam Espinho, Braga, câmaras do PSD, construtoras e Montenegro. Todas as pistas indicam o mesmo perfil. Mas há um instinto de negação coletiva que não parece querer voltar a lidar com gente assim.

Se, resultado de umas eleições provocadas por estes casos, Montenegro reforçar a sua votação, concluindo-se que a ética nada conta para os eleitores, o à vontade passará a ser à vontadinha. E preparamos um caldo perigoso para o fim do ciclo que começa em maio. Se assim for, até já tenho a frase para o próximo outdoor da AD, com a cara de Luís Montenegro: “Se falhei muito, dêem-me maioria, para falhar melhor”.»


1 comments:

Rosa dos Ventos disse...

Quando Miguel Albuquerque, arguido rodeado de arguidos, conseguiu chegar quase à maioria, que agora tem com a muleta do CDS, tudo se espera por cá . LM nem sequer é arguido.
Se os tempos fossem outros já o seria!