7.6.11

MoU: bem-me-quer, mal-me-quer…

O Jornal de Negócios divulgou hoje um texto de Eduardo Paz Ferreira, ao qual cheguei através de Jorge Pires da Conceição: Nem ideias boas, nem ideias originais.

Deixemos aos tablóides as intrigas sobre as negociações palacianas para a constituição do novo governo (assunto que, ó felicidade minha…, me deixa relativamente indiferente) e regressemos ao que interessa.

Como vem sendo habitual, recomendo a leitura do artigo na íntegra, mas destaco:

«Naturalmente que a desistência da democracia encontra um respaldo particularmente significativo na premissa falsa de que o Memorando de Entendimento celebrado entre o Governo (apoiado pelo PSD e CDS-PP) a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional era inevitável. O Memorando está, no entanto, assinado e com ele teremos que viver. Porém, não podemos nem devemos aceitar passivamente a ideia de que o conteúdo daquele documento é um programa económico e financeiro excelente, capaz de fazer pelo progresso do nosso País aquilo que os políticos portugueses não foram capazes de fazer. (…)

A intervenção externa representa o nosso fracasso, mas representa, também, o fracasso da União Europeia. (…)

Temos que viver com a ajuda externa, mas importa que saibamos aquilo que fazemos e porque o fazemos e, para isso, há que acabar com uma discussão anémica em torno do Memorando e questionar a ideia de que ele corresponda a um programa com elevado potencial de redenção para o País.

Infelizmente assim não acontece. Alguém disse uma vez, apreciando um texto escrito por outra pessoa, que neste se encontravam ideias boas e originais, mas que as boas não eram originais e as originais não eram boas. Neste caso será ainda pior. Não só algumas ideias boas não são originais e algumas originais não são boas, como algumas ideias não são nem boas nem originais. (…)

Há, finalmente, a questão das condições em que a ajuda é prestada. Mas sobre essa matéria seria difícil encontrar comentário melhor do que o produzido, há alguns meses, com fina ironia, pelo "The Independent", sob a forma de uma carta da República da Irlanda para Portugal, em que aquela alertava: "reparo agora que estás sob pressão para aceitar um resgate... Primeiro, deixa-me que te dê um conselho sobre as nuances da língua inglesa.

Tendo em conta que o inglês é a tua segunda língua podes pensar que as palavras "bailout" e "aid" implicam que vocês receberão ajuda dos nossos irmãos europeus para vos retirar das vossas actuais dificuldades.

O inglês é a nossa língua-mãe e foi o que nós pensávamos que significava. Permite-me que te avise que, quando o inevitável resgate chegar, ele não vos ajudará a sair dos vossos actuais problemas, mas sim ajudarão a prolongá-los por várias gerações ainda por vir. E por tal, esperar-se-á que fiques grato. Caso queiras descobrir as palavras apropriadas, em Português, para resgate, sugiro que arranjes um dicionário Inglês-Português e procures palavras como as seguintes: "moneylending", "usury", "subprime", "mortgage", "rip-off". Estas palavras dar-te-ão uma tradução mais apropriada do que está prestes a acontecer"».
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