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12.12.15

A Europa estilhaçada



«Átila pilhou Roma, mas não matou a sua população. Mais de sete séculos depois a comunicação já era mais rápida: a fama da crueldade das hordas de Gengis Khan antecedeu a chegada dos temíveis mongóis. O medo continuava a aterrorizar a Europa mesmo depois dele ter morrido, até porque não parecia haver líder à altura para o travar. A questão da liderança, quando o perigo é eminente ou o medo petrifica, é essencial para as nações e para os povos. Cercada por múltiplas crises, a Europa definha.

Não admira que o incontornável Wolfgang Munchau, no "Financial Times", escreva que: "eu não estou a falar da desintegração formal da UE, mas de uma gradual erosão da sua importância política". Porque, diz ele, a "maior característica da UE de hoje é uma acumulação de crises". Ele fala daquilo que David Cameron ou Viktor Orban clamam: o refreamento da liberdade de movimentos no espaço europeu, um pilar vital da união. Fragmentada por ser incapaz de dar uma resposta conjunta à crise dos refugiados, a Europa confronta-se com uma crise de segurança sem fim. Além disso assiste-se à sensação de fim de ciclo político, como evidencia a chegada de António Costa ao poder em Portugal, à previsível pulverização partidária em Espanha (um pólo central da UE), ao braço-de-ferro de Cameron com Bruxelas ou à vitória de Marine LePen em França, mostrando o avanço, com simpatia popular, das forças radicais no coração da Europa comunitária. (...)

A hegemonia ideológica do PPE está a ser torpedeada, porque esta política de sufoco permanente é incapaz de controlar as crises inesperadas. A história não é uma folha de Excel. As eleições espanholas, nesse aspecto, tal como a segunda volta das regionais em França, vão colocar a nu se estaremos a assistir a uma "revolta" dos países mais a sul face à ditadura do "não há alternativa" desenhado a norte da Europa. E se a emergência dos partidos que não costumam fazer parte do "arco da governação" não vão implicar mudanças na política económica europeia, incapaz de continuar neste ambiente irrespirável. Mas a isso junta-se a possível hipótese de um congelamento de Schenghen e o reforço das tendências securitárias na Europa. Para além do problema do terrorismo que ninguém queria ver, depois de tantas idiotices da política externa da EU no Médio Oriente.»

Fernando Sobral

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