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25.2.16

O imortal Passos



«Há quem diga que o sábio Empédocles, que era um favorito dos deuses, se atirou para dentro do vulcão Etna para desaparecer e mostrar que era imortal. Um seu admirador, Pausanias, foi prestar-lhe homenagem, mas descobriu uma sandália dele junto ao vulcão.

O que o levou a chegar a uma triste conclusão: Empédocles era mortal. O discurso de Pedro Passos Coelho no final do debate que aprovou o OE foi muito mais do que uma crítica áspera e radical ao Governo e à maioria que aprovou o OE. Foi uma prova de vida. Julgando-se imortal, até porque a sua bancada se levantou para o aplaudir, o líder do PSD julga que o tempo lhe dará razão e o levará de volta ao poder. Julga ter a bênção dos deuses de Bruxelas e das agências de "rating" para esse sonho.

Ao recusar-se a discutir qualquer alteração ao OE, não apresentando propostas para o fazer, Passos Coelho mostra uma das sandálias que deixou junto ao vulcão onde pretende provar a sua imortalidade: no Governo passou a vida a pedir consensos ao PS, apesar de nunca ter feito nada para os conseguir. Ou seja: Passos não é um homem de diálogo: prefere os monólogos. Isso, claro, é bom quando se está no poder e se distribui benesses à volta. Quando se está na oposição, das duas, uma: ou jamais se deseja estar no poder ou então tem de se fazer conciliações para acalmar uma clientela que ambiciona sempre umas migalhas. E o PSD não é um partido que ame ficar irremediavelmente longe do poder.

Por isso, Passos tem de jogar de forma rápida: o PSD não o entronizará para sempre. Se dentro de alguns meses, contra as suas previsões, não conseguir voltar ao poder ou, pelo menos, dinamitar o Governo do PS, Passos terá de começar a olhar para as sombras. Aí lhe pedirão mais discurso social-democrata, de consensos, e menos discurso pseudoliberal, de radicalismo militante. Será aí que Passos terá de provar o que vale. Até lá terá de esperar que os deuses de Bruxelas o ajudem na sua árdua tarefa de provar que é imortal como Empédocles.»

Fernando Sobral

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