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20.4.16

O cartomante do Brasil



«O Brasil não é uma brincadeira: nem para os brasileiros, nem para Portugal, nem para a América do Sul, nem para os EUA.

Há alguns anos Ivan Lins partilhava uma bela canção com todos nós: "Cai o rei de Espadas/Cai o rei de Ouros/Cai o rei de Paus/Cai, não fica nada." Chamava-se o tema, sem ser por acaso, "Cartomante", em louvor do método de adivinhação que utiliza cartas. O futuro do Brasil não está nas cartas, nem talvez nos búzios. Está, muito provavelmente, em muitos daqueles deputados que tropeçavam na gramática, votavam como quem celebrava um golo, procuravam argumentos no Céu para o que tinham decidido na Terra.

Olhando para a Câmara de Deputados do Brasil, onde eleitos investigados pela justiça derrubavam outros suspeitos das mesmas coisas, ficou-se com a ideia de que ninguém ali dançava samba, mas sim mau funk da favela. O golpe de Michel Temer e de Eduardo Cunha deixa Dilma Rousseff de mãos atadas. O Planalto parece, agora, um voo de Ícaro. Só resta a Dilma reduzir os danos e partir para eleições antecipadas. É neste clima tempestuoso que o Brasil recebe os Jogos Olímpicos e sofre a chuva tropical da recessão económica.

Entre a festa e a realidade, o que sobra? Nem todos os jactos lavam mais branco. A água que sai pode ser demasiado suja. Até porque o Brasil se confronta agora com a sua estrutura constitucional (uma mistura de presidencialismo inspirado nos EUA com poderes legislativos do estilo europeu). Ou seja, um poder com pés de barro. Depois o país tem o mais fraco sistema partidário do continente, sem coerência e estilhaçado (tem desde a Bancada de Deus à da Bala e à do Boi, que defende cada uma o seu lóbi).

É preciso não esquecer que o sistema partidário, depois da ditadura militar, era inexistente. Derivavam de duas forças criadas pelos generais, o MDB e o ARENA, cuja diferença era definida por uns dizerem "sim" e os outros, "sim, senhor". Agora, caídas as cartas, sobra o medo, no meio da temível aritmética que fez cair Dilma.»

Fernando Sobral

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